Más notícias do país de Dilma (63)

O Estadão de sábado, 4 de agosto, publicou uma bela reportagem, assinada por Paula Moura e Venilson Ferreira. A reportagem mostrava que a próxima safra brasileira de grãos deverá ser especialmente boa. E ela vem depois de um ano em que uma seca pavorosa resultou em graves prejuízos para os produtores dos Estados Unidos.

A revista Veja que começou a circular naquele mesmo dia, 4 de agosto, também publicou matéria dizendo que a seca dos Estados Unidos beneficia fortemente o agronegócio brasileiro.

Infelizmente, não há muito a comemorar. Não por motivos dignos – não se deveria comemorar que a desgraça de uns acabe favorecendo outros. Não, não é por isso. A reportagem de Paula Moura e Venilson Ferreira mostra que há sérios riscos de a próxima safra, especialmente boa, enfrentar graves problemas: falta lugar para estocar os grãos, e falta infra-estrutura para fazer os grãos chegarem dos locais de produção até os portos.

Transportes, estradas, portos. Tudo o que é de responsabilidade do governo – porque o governo lulo-petista insiste em cuidar disso, em vez de repassar a economia para a iniciativa privada, que, ao contrário do governo, tem dinheiro para investir, sabe fazer, sabe competir – não funciona.

O que o Brasil real produz de riquezas, o governo deixa escapar pelo ralo.

Aí vai a 63ª compilação de notícias e análises que comprovam a incompetência do governo Dilma Rousseff. Foram publicadas nos jornais entre os dias 3 e 9 de agosto.

Ah, sim: elas incluem, é claro, o bilionário prejuízo da Petrobrás no segundo trimestre. Os nove anos de assalto do lulo-petismo à empresa, a privatização para os interesses petistas da companhia que deveria ser pública, revelam seus frutos.

Os buracos da infra-estrutura

* A safra vai ser boa. Não tem é como armazenar e transportar os grãos

“Os gargalos logísticos incorporados ao chamado custo Brasil, que comprometem a competitividade das exportações, serão o grande desafio para o escoamento da próxima safra brasileira de grãos. As primeiras estimativas são de plantio recorde de soja, que deve ser acompanhado pela expansão da área de milho de segunda safra, que é cultivado na sequência da colheita da oleaginosa.

“Neste ano, mesmo com a quebra de 11% na produção de soja, o escoamento da safra retardou pela falta de berços para atracação nos portos, que provocam as tradicionais filas de navios. Como se não bastasse, as chuvas de junho contribuíram para atrasar os embarques de grãos.

“A situação foi agravada pelas greves de caminhoneiros e servidores da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Receita Federal. Na segunda-feira são os fiscais federais agropecuários que vão parar e dificultar o desembaraço de mercadorias e o trânsito de animais.

“O gargalo logístico limita o crescimento das exportações de milho, que poderiam ganhar parte dos mercados atendidos pelos Estados Unidos, que nesta safra terão menor disponibilidade do cereal, por causa da quebra provocada pela forte estiagem.

“A frustração da safra americana favorece os agricultores brasileiros, pois a alta dos preços internacionais impulsionou as cotações internas, mesmo com a colheita de uma safrinha recorde de milho, estimada em 34,56 milhões de toneladas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Pela falta de condições nos portos, as perspectivas de exportação do cereal estão limitadas a 15 milhões de toneladas nesta safra.

“Para o próximo ano existe o risco de ocorrer o ‘apagão logístico’ há muito previsto por empresários, especialistas e produtores rurais, que cobram mais investimento governamental em infra-estrutura. O presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Carlo Lovatelli, prevê congestionamento nas rodovias, pois os caminhões não serão suficientes para transportar a safra.

“Outra preocupação é com a armazenagem, pois a segunda safra recorde de milho precisa ser escoada para dar espaço para a estocagem da maior produção brasileira de soja da história, estimada em mais de 80 milhões de toneladas, que deve superar pela primeira vez a americana.

“O assessor técnico da Federação de Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), Lucas Galvan, já antevê problemas com a armazenagem da próxima safra no Estado, cuja capacidade de estocagem é de 7,2 milhões de toneladas. ‘A safrinha de milho passou de 3,3 milhões de toneladas para 5,5 milhões de toneladas. Se o milho não for escoado até a colheita da soja haverá problemas de armazenagem, pois a área plantada com a oleaginosa deve avançar 10%.’

“Ele lembra que Paraná e Mato Grosso também colherão excedentes de milho e o consumo doméstico não conseguirá absorver o excesso de produção. Ele alerta que a logística precisa funcionar para não haver atrasos e consequente alta nos custos. (Paula Moura e Venilson Ferreira, Estadão, 4/8/2012.)

* Governo tem apagão de planejamento, de administração e de execução de projetos

“Congestionamento nas estradas, enormes filas de caminhões nos portos, navios parados ao largo à espera de espaço para atracar, falta de espaço nos armazéns e prejuízos assustadores – este cenário é bem conhecido, mas o quadro poderá ser pior no próximo ano, avisam produtores rurais e líderes do agronegócio. O apagão logístico há vários anos previsto por especialistas e empresários do setor poderá finalmente ocorrer, se a próxima colheita de grãos e oleaginosas for tão boa quanto se espera. Boa parte da segunda safra de milho deste ano ainda estará nos armazéns, no começo de 2013, quando os plantadores de soja precisarem de espaço para acomodar uma produção provavelmente recorde, por enquanto estimada em 80 milhões de toneladas. A ‘safrinha’, nome tradicional da segunda safra de milho, deve totalizar 34,6 milhões de toneladas, estima a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Empresários, técnicos e dirigentes de associações de vários Estados produtores, entrevistados pela Agência Estado, traçaram mais uma vez o velho quadro paradoxal: notícias de boas colheitas são prenúncios de muita dor de cabeça para produtores, processadores e exportadores. (…)

“Para cuidar do risco do apagão logístico, no entanto, o governo precisará enfrentar uma deficiência interna – o apagão de sua capacidade de planejamento, de administração e de execução de projetos. A quase paralisia do Ministério dos Transportes, depois da faxina parcial do ano passado, é apenas um dos sintomas do problema. As disfunções da máquina federal ameaçam travar o setor mais competitivo da economia nacional, o agronegócio.” (Editorial, Estadão, 5/8/2012.)

* A menos de dois anos da Copa, Infraero só executa 18% do orçamento

“Apesar de todos os esforços feitos pelo governo federal para destravar os investimentos aeroportuários, a Infraero, empresa pública que administra a maior parte dos terminais do País, encerrou o primeiro semestre de 2012 com apenas 18,7% do orçamento de R$ 1,8 bilhão previsto para infra-estrutura no ano concluídos. O ritmo de execução do orçamento da estatal vem em trajetória semelhante ao do mesmo período de 2011 e preocupa especialistas do setor.

“A menos de dois anos para a Copa do Mundo de 2014, em alguns projetos de ampliação ou adequação em cidades-sede, os porcentuais são ainda mais baixos. No caso do Galeão, no Rio, um dos mais movimentados do País, apenas 9,7% do investimento de R$ 200 milhões previsto foi executado. Em Confins, na Grande Belo Horizonte, foi de 10,5%, e em Porto Alegre, de 15,2%. ‘Esse ritmo não é suficiente para adequar a infra-estrutura aeroportuária do País. As coisas precisavam estar mais aceleradas (…) O Brasil ainda não encontrou uma forma de tocar seus projetos de forma acelerada e, no caso dos aeroportos, isso é muito visível’, avalia o professor da Fundação Dom Cabral (FDC) Paulo Resende, especialista em infra-estrutura e logística.

“A Infraero diz que o andamento dos investimentos está de acordo com o esperado e que, normalmente, a maior parte dos desembolsos acaba ficando para o segundo semestre. Resende, porém, alerta para um complicador este ano. Para ele, a movimentação política no País deve dificultar a aceleração das obras.

“Problemas de gestão na estatal são apontados por especialistas como o principal obstáculo à execução eficiente dos investimentos. De acordo com cálculos do coordenador de Infra-estrutura do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Carlos Campos Neto, a Infraero executou 51,2% do orçamento no ano passado. Ele afirma que, na média de 2003 a 2011, não chegou a 40%. A estatal, porém, diz que no ano passado executou 75,6%. ‘A Infraero historicamente tem problemas de gestão. É preciso ter uma administração mais eficiente.’ O pesquisador acrescenta que a morosidade dos processos de licenciamento ambiental e ações judiciais envolvendo desapropriação são fatores que também atrapalham a realização de investimentos, ao lado da burocracia do setor público.” (Glauber Gonçalves, Estadão, 3/8/2012.)

As más notícias na área de energia

* Refinaria lançada por Lula ainda é terreno com mato, disputado por índios

“Dezoito meses após o lançamento da pedra fundamental pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que três dias depois passaria o cargo a Dilma Rousseff, a refinaria cearense Premium 2, apontada como prioritária pela Petrobrás, não passa de um enorme terreno abandonado.

“Os quase 2 mil hectares destinados ao empreendimento da petroleira não foram nem sequer cercados. Não há sinais de obra. O terreno está tomado por vegetação cerrada, cortada por trilhas e estradas esburacadas de movimento quase inexistente.

“O local onde houve a solenidade com a presença de Lula e do governador do Ceará, Cid Gomes (PSB), não foi sequer limpo. Placas de orientação aos convidados estão jogadas no matagal. Em uma delas, de fundo branco e letras negras, era legível os trechos ‘Creden’ e ‘Convid’, provável referência ao credenciamento de convidados. O restante da placa desapareceu.

“Na clareira em que ocorreu a cerimônia permanecem os tocos de madeira em que foram presas as tendas montadas para as autoridades. No solo empoeirado e coberto de mato rasteiro, se avistam as pedras de brita espalhadas para evitar que, se chovesse, tudo virasse um lamaçal. A placa alusiva ao evento, descerrada por Lula, desapareceu.

“O principal entrave ao início da obra é fundiário, embora seja uma obra cara, orçada em US$ 11,4 bilhões e a Petrobrás, em seu Plano de Negócios 2011-2016, tenha cortado R$ 5 bilhões dos gastos destinados ao refino.” (Sergio Torres, Estadão, 5/8/2012.)

* Refinaria em construção em Pernambuco custa três vezes mais que similar internacional

“Apontado pela presidente da Petrobrás, Graça Foster, como um exemplo a ser estudado para que jamais volte a acontecer na companhia, a construção da Refinaria Abreu e Lima (Rnest), em Pernambuco, resultou em um empreendimento pelo menos três vezes mais caro do que o de similares internacionais, numa estimativa conservadora. Lançada em 2005 por US$ 2,3 bilhões, a refinaria teve o orçamento revisado há pouco mais de um mês para US$ 20,1 bilhões.

“A previsão divulgada pela gestão Graça eleva o custo por barril para US$ 87 mil, ante uma média de US$ 10 mil a US$ 25 mil de refinarias de alta complexidade recém-concluídas ou em construção no mundo. A Petrobrás admite falha na aprovação dos projetos, mas é categórica em dizer, por meio de nota: “Não houve erros nos cálculos” e “as estimativas são elaboradas observando preços praticados no mercado”, garante, em resposta à Agência Estado.

“Não é o que o governador Cid Gomes afirma ter ouvido no mês passado pessoalmente de Graça. A Índia faz refinarias a US$ 13 mil por barril, a China a US$ 14 mil e a Coreia do Sul a US$ 18 mil, relatou Graça, segundo o governador informou ao Estado. Por esses parâmetros, a refinaria pernambucana, com capacidade para processar 230 mil barris, deveria custar no máximo US$ 4,1 bilhões.

“A refinaria Saudi Aramco, em construção na Arábia Saudita e com previsão para ser inaugurada na mesma época da Abreu e Lima, o último trimestre de 2014, custará proporcionalmente pouco menos de um terço: US$ 25 mil por barril. Aplicado o mesmo índice de custo à Rnest, a pernambucana custaria menos de US$ 6 bilhões. A comparação é mais evidente com a refinaria indiana Reliance Jamnagar, tida como referência de eficiência no mercado e lançada em 2009 por US$ 10 mil por barril numa obra que durou apenas 36 meses. Se o mesmo índice fosse aplicado ao empreendimento da Petrobrás, a Rnest custaria quase um décimo, US$ 2,3 bilhões. A pernambucana deve ser inaugurada em 2014 com três anos de atraso.” (Sabrina Vale e Sergio Torres, Estadão, 5/8/2012.)

* Pela primeira vez desde 1999, Petrobrás tem prejuízo

“A defasagem dos preços dos combustíveis e a alta de 10,9% do dólar entre abril e junho deste ano fizeram a Petrobrás, a maior empresa da América Latina, registrar seu primeiro prejuízo em 13 anos. No segundo trimestre, a estatal contabilizou prejuízo de R$ 1,346 bilhão, bem diferente do lucro líquido de R$ 10,943 bilhões no mesmo período do ano passado e do ganho de R$ 9,214 bilhões do primeiro trimestre de 2012. O resultado surpreendeu o mercado, que previa um lucro entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões. Especialistas do setor criticam o uso político da estatal, que não reajusta os preços da gasolina e do diesel, acompanhando o mercado internacional, para manter a inflação sob controle no país. A expectativa é que os resultados continuem ruins até o fim do ano, pois analistas consideram pouco provável que o governo autorize um aumento de preços antes das eleições municipais.” (Bruno Rosa e Ramona Ordoñez, O Globo, 4/8/2012.)

* Uma política desastrada

“Talvez nenhum dado seja mais ilustrativo dos desacertos da administração petista do que a disparada das importações de combustíveis. Segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), as importações de gasolina tiveram um acréscimo de 315% de janeiro a maio deste ano em comparação com o mesmo período de 2011, acarretando um dispêndio de cerca de US$ 1,4 bilhão. A situação é ainda mais grave. Pelas informações divulgadas pela Secretaria de Comércio Exterior, as importações de óleos combustíveis, que inclui gasolina, óleo diesel e ‘fuel oil’ – o terceiro maior item da pauta -, consumiram US$ 3,061 bilhões até maio deste ano, um crescimento de 51,43% em relação aos cinco primeiros meses do ano passado. Tudo isso é fruto da negligência do governo quanto à produção de etanol, desestimulando investimentos para a renovação da lavoura canavieira, e do descontrole no cumprimento do cronograma para entrada em operação de novas refinarias de petróleo. Embora alertado pelos seus próprios técnicos sobre a necessidade de reajustar os preços dos combustíveis, o governo persiste em manter inalterados os da gasolina, prejudicando a produção de etanol e incentivando o consumo de gasolina, mesmo em face de um aumento de 1,6 milhão de automóveis em circulação no País.

“As previsões feitas há alguns anos de que o País estava destinado a ser um grande exportador de bicombustíveis, sendo elogiado internacionalmente pelo seu desempenho nessa área, não se concretizaram. Com um recuo de 17% na produção de álcool combustível na safra 2011/2012 – uma perda de 5 bilhões de litros – o País já teve de importar 1,45 bilhão de litros de etanol produzido a partir de milho para atender ao mercado. ‘Os estudos da ANP e da Petrobrás previam um aumento na produção de etanol que não se realizou’, disse o professor da UFRJ, Edmar de Almeida. ‘Isso desmontou o planejamento para a oferta de combustíveis.’

“Falhas flagrantes de planejamento ocorreram, paralelamente, na área de refino. A Refinaria Abreu e Lima, em Ipojuca (PE), que deveria ser construída em parceria com a PDVSA, da Venezuela, como previa um mirabolante acordo assinado pelo ex-presidente Lula e o caudilho venezuelano Hugo Chávez, deveria entrar em funcionamento no fim deste ano. Mas, apesar de ter consumido recursos muito mais vultosos do que o previsto – sem que a Venezuela tenha entrado com um níquel sequer -, a conclusão ficou para novembro de 2014, e a presidente Dilma Rousseff terá sorte se conseguir inaugurá-la ainda em seu governo. A Petrobrás manteve os planos de construção da refinaria no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, mas a unidade não tem data para entrar em operação. Quanto às refinarias ‘premium’, que seriam construídas no Ceará e no Maranhão, ficaram para as calendas.

“A estratégia que a Petrobrás tem adotado nessa área é difícil de entender. As duas novas refinarias mais viáveis foram planejadas para produzir mais óleo diesel e outros derivados e menos gasolina. A estatal pretenderia que, quando essas novas unidades entrassem em funcionamento, as refinarias existentes passassem a produzir mais gasolina, de modo a poder atender à demanda. Mas há algo errado nesse remanejamento, tanto assim que é possível, diante do aumento de consumo de gasolina, que a refinaria da Comperj, em uma segunda fase, passe a produzir esse combustível, como preveem os técnicos. Mas como nem a primeira fase da refinaria tem prazo para ser concluída, isso não passa de especulação. Nessa altura, chega a ser otimista a previsão de que o País terá de conviver ainda por três ou quatro anos com a escassez de gasolina e etanol, tendo em vista a contínua elevação do consumo em razão de um número cada vez maior de veículos nas ruas e estradas nacionais.” (Editorial, Estadão, 5/8/2012.)

* Na Petrobrás, um caso típico de gestão temerária

“Impacto negativo da desvalorização do real sobre suas operações financeiras, insucesso na perfuração de poços em águas ultraprofundas, gastos excepcionais com importação de derivados -,vendidos subsidiados, por imposição do governo. As explicações para o elevado prejuízo (R$ 1,3 bilhão) registrado pela Petrobrás no segundo trimestre, o primeiro desde 1999, podem ser pontuais, mas, na verdade, este resultado vinha sendo desenhado pelo tipo de gestão temerária que o acionista controlador, o Tesouro Nacional, por determinação do Planalto, impôs à companhia, por propósitos meramente políticos e partidários. No período de José Sérgio Gabrielli na presidência (2005-2012), a partidarização avançou bastante na estatal. (…)

“Sem uma política industrial capaz de inserir o setor no novo contexto mundial em que os países asiáticos se tornaram protagonistas da manufatura tradicional, o governo passou os últimos anos concentrando na Petrobrás o esforço para o país manter um parque fabril ativo. Na prática, isso tem significado enormes estouros de orçamento, prazos não cumpridos e elevação de custos operacionais. Como uma grande companhia estatal que se beneficiou de um monopólio longevo (e ainda não desfeito pelas forças de mercado), entende-se que a Petrobrás seja obrigada a ter mais responsabilidades dentro de políticas públicas, e seja um importante agente na execução de alguns programas de Estado.

“No entanto, a Petrobrás não é puramente estatal. Tem milhões de acionistas, muitos dos quais participantes de fundos de investimento nos quais aportam suas economias na expectativa de constituir uma poupança que lhes garanta boa qualidade de vida no futuro. Nessa lista, devem ser considerados também aqueles que aplicaram parte do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).” (Editorial, O Globo, 7/8/2012.)

* O governo levou a Petrobrás à estagnação na exploração, produção, refino e abastecimento

“O surpreendente prejuízo de R$ 1,3 bilhão no terceiro trimestre é a síntese do custo que está sendo imposto à Petrobrás e, sobretudo, a seus acionistas e ao País por um modelo de gestão que a levou à estagnação em duas áreas essenciais – a de exploração e produção e a de refino e abastecimento. Esse modelo provocou a drástica redução de sua lucratividade, a ponto de a levar a registrar, de abril a junho, seu primeiro resultado negativo em 13 anos, mesmo com a receita líquida tendo alcançado R$ 68,05 bilhões, 11,5% mais do que a do segundo trimestre de 2011. Fatores conjunturais, como a valorização do dólar em relação ao real e a defasagem dos preços dos combustíveis no mercado interno, agravaram problemas que se acumularam ao longo da administração petista da empresa.

“A área de exploração e produção registrou, no segundo trimestre, lucro líquido de R$ 10,67 bilhões, um resultado expressivo em valor, mas que, comparado com o de 2011, se revela frustrante. O aumento foi de apenas 0,7%. Nos últimos três anos, quando o PIB brasileiro cresceu mais de 10%, a produção da Petrobrás manteve-se praticamente estagnada, o que levou a diretoria da empresa a anunciar um plano de emergência para recuperar sua eficiência nessa área.

“Evidência da baixa eficiência da empresa é a constatação de que muitos poços perfurados pela estatal na área do pré-sal – a grande promessa anunciada pelo governo do PT – estavam secos. Quando se anunciam os investimentos em novos poços, os valores não são contabilizados como despesas. No momento em que se constata que esses poços estão secos, porém, os valores precisam ser lançados nessa rubrica. Foi o que aconteceu no segundo trimestre, quando essas despesas somaram R$ 2,73 bilhões, R$ 2,1 bilhões mais do que os gastos com esse item no primeiro trimestre.” (Editorial, Estadão, 7/8/2012.)

* Levaram às últimas consequências o slogan “o petróleo é nosso”, e a Petrobrás virou propriedade da turma

“As razões puramente técnicas e as explicações contábeis para o primeiro prejuízo trimestral da Petrobrás nos últimos 13 anos estão sendo desfiladas uma a uma pela atual diretoria, que atribui, com certa razão, todas as mazelas da empresa à administração anterior.

“Esse prejuízo tem algo a ver com questões cambiais, que elevaram em reais dívidas em moeda estrangeira. E está ligado também à redução da produção, que encolheu as receitas com exportações. Mas isso não é tudo. É o resultado de oito anos de uma administração que decidiu levar às últimas consequências o slogan dos anos 50: ‘O petróleo é nosso’.

O “nosso”, no caso, é o possessivo que se refere à turma que se apropriou da gestão pública para fazer jogo político. O setor administrativo da Petrobrás foi loteado para atender a interesses da base do governo Lula. E isso ajuda a explicar o que a atual presidente, Graça Foster, admite como existência de focos de hemorragia da empresa – desvios que agora pretende corrigir com um Programa de Eficiência Operacional para o qual já estão destinadas despesas de US$ 5,6 bilhões.

“Um dos sinais desses focos de hemorragia, também denunciado por ela, foi a até agora inexplicada disparada dos custos de construção da Refinaria Abreu e Lima (em Pernambuco), cujo orçamento saltou inexplicavelmente de US$ 2,3 bilhões, em 2005, para US$ 20,1 bilhões, neste ano. Graça se limita a afirmar que é um exemplo do que não se pode fazer.

“Outro desvio marcante é o uso do caixa da Petrobrás para executar a política populista de preços que acabou por subsidiar combustíveis. Mesmo com os tímidos reajustes, os atrasos dos preços da gasolina e do óleo diesel alcançaram a magnitude de entre 15% e 17%.

“É o que explica o avanço do consumo de gasolina, de 17%, em 2011, e, nos primeiros seis meses de 2012, já de 7%. Como as refinarias não têm mais capacidade para novos aumentos de produção, neste ano a Petrobrás se vê obrigada a importar 315% a mais de gasolina do que em 2011, além de ter de revendê-la internamente por preços mais baixos.

“Mais uma distorção administrativa imposta pelo presidente Lula foi fazer com que a Petrobrás passasse a funcionar como instrumento de política industrial, obrigando-a a contratar, por preços substancialmente mais altos e prazos de entrega elásticos, materiais e equipamentos de produtores nacionais, por vezes ainda em fase de implantação.

“A dilapidação de patrimônio público não é a única consequência do que vem ocorrendo. Outro efeito perverso é a deterioração das condições de produção dos combustíveis renováveis, sobretudo do etanol, que já não consegue competir com os preços subsidiados da gasolina. Desdobramento dessa administração também é agora o alto risco de que o retorno operacional insuficiente inviabilize o programa de investimentos da Petrobrás, que prevê o dispêndio de US$ 236,5 bilhões até 2016.” (Celso Ming, Estadão, 7/8/2012.)

* “Poucas vezes se viu uma política que provoca tantos equívocos ao mesmo tempo”

“Num ano o governo não reajusta a gasolina porque tem eleição; no seguinte, porque a inflação subiu; no terceiro ano, porque tem eleição. Como a democracia veio para ficar, e nela vota-se com frequência, o governo deve deixar a economia fora disso. A importação de gasolina, em dólares, aumentou 374% no primeiro semestre, a Petrobrás teve prejuízo, e o setor de etanol está desorganizado.

“Os efeitos colaterais da decisão do governo de manter o preço artificial da gasolina estão se acumulando. Os dados da ANP mostram que de janeiro a junho foram gastos US$ 1,56 bi com a importação do produto, quase o mesmo valor importado em todo o ano de 2011. A exportação caiu 60% e foi de apenas US$ 48 milhões. (…) Aconteceu o mesmo com o óleo diesel: as exportações caíram 50% no primeiro semestre, enquanto as importações subiram 30%. A balança comercial do produto ficou negativa em US$ 3,5 bi. Em 2011, fechou no vermelho em US$ 7 bi.

“Os números mostram a completa falta de sentido da política de combustíveis. A Petrobrás compra lá fora por um preço mais alto do que vende aqui dentro, tem prejuízo e incentiva o consumo de combustível fóssil. (…)

“O desequilíbrio no mercado de óleo diesel é antigo. As importações do produto já haviam disparado em 2006 e 2007 e só interromperam a trajetória de alta por causa da crise financeira de 2008, que levou a economia brasileira à recessão. Tanto o governo quanto a Petrobrás tiveram tempo para mudar esse cenário.

“Não mudaram e ainda entraram em outras decisões controversas, como a construção da refinaria Abreu e Lima, projetada para ser feita pela Petrobrás e PDVSA e para processar petróleo venezuelano. A Petrobrás banca tudo sozinha e o custo da obra deu um salto mortal: de US$ 4 bilhões para US$ 26 bi. Além disso, está atrasada.

“O governo incentivou a compra de carro, segurou o preço do combustível e atrasou investimento em infra-estrutura. Isso elevou a importação de gasolina e diesel, o que traz o prejuízo para a Petrobrás. A indústria do etanol, sem horizontes, encolheu os investimentos. No ano passado, o país importou um bilhão de litros de álcool, e a ideia era que o Brasil virasse exportador.

“Na mudança para o diesel com menos enxofre o governo errou também. Nos outros países o S50 substituiu o diesel velho. No Brasil, depois de adiar por vários anos a adoção do combustível menos poluente, a política foi manter os dois produtos. Como o novo custa 5% a 6% mais caro, toda a frota antiga usa o velho. Os postos de gasolina investiram na estrutura para o novo combustível – 2.800 postos estão com o produto – mas as vendas do S50 são de apenas 6% do total. As montadoras não estão conseguindo vender os novos modelos de caminhões e ônibus porque ninguém quer pagar mais pelo combustível tendo a opção do produto sujo e mais barato.

“Poucas vezes se viu uma política que provoca tantos equívocos ao mesmo tempo.” (Míriam Leitão, O Globo, 8/8/2012.)

 * A Petrobrás contra o etanol

“Mais um dado negativo foi acrescentado ao desastroso balanço da Petrobrás, com a divulgação, nessa terça-feira (7/8), dos números da agroindústria no primeiro semestre. A produção foi 3,9% menor que a de um ano antes, segundo o IBGE. Esse resultado geral é explicável principalmente pelo mau desempenho do setor de açúcar e álcool. Condições de tempo desfavoráveis prejudicaram a lavoura, mas a redução da safra de cana foi também consequência da contenção artificial de preços da gasolina, um grave desestímulo à indústria do etanol. (…)

“Os números da agroindústria poderiam constituir um apêndice ao relatório financeiro da estatal. O quadro fica mais claro quando se decompõem os resultados. Os setores vinculados à agricultura têm mais peso no conjunto da agroindústria e apresentaram o pior desempenho, com produção 5,9% inferior à do primeiro semestre de 2011. O resultado foi menos ruim nos segmentos vinculados à pecuária. Estes produziram 5% menos que na primeira metade de 2011. Números muito piores aparecem quando se examinam a fabricação de derivados da agricultura. A queda geral foi de 7,3% em relação aos dados de um ano antes, mas esse dado ainda não mostra onde se concentraram os problemas.

“A produção de açúcar cristal foi 38% menor que a de janeiro a julho de 2011. A de álcool diminuiu 28,5%. Redução da área plantada, seca no período de crescimento e excesso de chuvas na fase de colheita resultaram numa safra menor e atrasaram a moagem da cana. Mas o menor investimento no plantio deve-se também, como informa o comunicado do IBGE, ‘à menor demanda por álcool hidratado’. Na maior parte dos Estados, segundo o texto, foi mais vantajoso abastecer os veículos com gasolina. Há também uma referência à crise econômica mundial como fator de desestímulo aos investimentos para renovação dos canaviais.

“O prejuízo da Petrobrás foi em parte atribuído pelos dirigentes da empresa à valorização do dólar. Esse foi, sem dúvida, um dos fatores do mau resultado financeiro. Mas a explicação ficaria mais completa com uma referência ao aumento de importação de gasolina. Foi preciso importar mais combustível por causa da escassez de etanol – problema presente já há anos – e também da insuficiência da capacidade nacional de refino. O programa de construção de refinarias está atrasado e, além disso, os custos das obras têm superado amplamente aqueles previstos originalmente. (…)

“Com o câmbio em torno de R$ 1,5 por dólar o desajuste do preço da gasolina no mercado interno ainda era disfarçável, comentou em São Paulo, num debate sobre energia, o presidente da Datagro Consultoria, Plínio Nastari. Com a depreciação do real a defasagem do preço tornou-se muito mais evidente e insustentável, acrescentou. Mas um grande estrago foi feito: preços artificialmente baixos da gasolina afetaram o mercado e prejudicaram a produção de cana e de etanol.

“O setor sucroalcooleiro precisará de investimentos de R$ 130 bilhões para voltar a crescer e produzir etanol suficiente para uma participação de 50% na matriz de combustíveis, segundo o presidente interino da União da Indústria de Cana-de-Açúcar, Antônio de Pádua Rodrigues. Esse dinheiro seria necessário para a construção de cem novas usinas de produção exclusiva de álcool. Em 2010 o etanol representou 44,6% dos combustíveis utilizados no Brasil. No fim do ano passado a participação havia caído para 31,7%. Mas novos investimentos, ressalvou, vão depender de uma clara definição de políticas. Por enquanto, pode-se acrescentar, o próprio governo se mostra carente de ideias claras sobre seus objetivos.” (Editorial, Estadão, 9/8/2012.)

Uma governo voltado para atender aos amigos do rei

* O governo tem uma visão de mundo peculiar, que o leva a medidas particularistas

“Na condução da política econômica, o governo continua aferrado a uma visão de mundo peculiar, que o leva a ter forte resistência a políticas horizontais e preferência inequívoca por medidas particularistas, focadas em setores específicos ou até mesmo em empresas e formuladas ao sabor de interesses especiais de todo tipo. O que requer problemática gestão de uma complexa rede de guichês de favores. Sobram razões para ver com apreensão essa forma de conduzir a política econômica. Algumas das dificuldades envolvidas afloraram com nitidez nas últimas semanas.

“Há cerca de um ano, o governo vem fazendo grande alarde com a ideia de desoneração da folha de pagamentos da indústria. Mas, em vez de anunciar simples redução da alíquota de contribuição patronal, partiu para injustificável mudança de base fiscal. Contribuição paga sobre faturamento e não mais sobre a folha, com alguma desoneração embutida na troca. Tudo isso em quatro setores escolhidos a dedo. Muito barulho e poucas nozes. O valor total da desoneração aos setores agraciados foi inicialmente estimado em não mais que R$ 1,4 bilhão até o fim de 2012. Cerca de 0,03% do PIB. Há poucos meses ainda havia esperança de que tal programa pudesse ficar restrito aos setores escolhidos. E de que, aos poucos, o governo afinal percebesse que a desoneração da folha poderia ser feita de maneira mais simples, sem o lamentável e desnecessário retrocesso da tributação sobre faturamento. Ledo engano. Em abril, assustado com a desaceleração da economia, o governo, por meio da Medida Provisória (MP) 563, estendeu o esquema de desoneração a 11 outros setores, ao mesmo tempo que reduziu a alíquota de contribuição sobre faturamento que vinha sendo paga pelos setores que já haviam sido incluídos no programa. Mas a coisa não ficou por aí, pois faltava submeter a MP ao Congresso.

“O Executivo tem condições de atender com mais desenvoltura os amigos do rei quando consegue atuar sozinho, sem a ingerência do Congresso. Basta ter em conta, por exemplo, o caso do vasto orçamento paralelo montado no BNDES, nutrido com transferências diretas do Tesouro, que tem permitido ao governo manejar montantes gigantescos de recursos públicos como bem entende, a salvo do crivo do Congresso. O problema é que nem sempre o Executivo consegue atuar sozinho. E, quando o Congresso tem de entrar na jogada, a coisa se complica. Se o nome do jogo é atender os amigos do rei, o Congresso logo se encanta, pronto a participar da iniciativa. A seu modo. E, de todos os lados, surgem régulos empenhados em atender os amigos dos régulos. Foi o que se viu na votação da MP 563 em meados de julho.

“De nada adiantou a gigantesca bancada da base aliada na Câmara. O amadorismo da Fazenda logo sucumbiu diante da atuação concertada dos profissionais do Congresso. A banda tocou como os régulos queriam. E, para grande contrariedade do governo, a Câmara aprovou a inclusão no esquema de desoneração de vários outros setores, como transporte de carga e de passageiros (rodoviário, marítimo e aéreo), brinquedos, granitos e mármores e parte do agronegócio (carnes, soja e trigo).

“Tudo indica que o que começou como um programa bastante restrito de desoneração está dando lugar agora a uma mudança bem mais abrangente de base fiscal, com generalização da impensada cobrança de contribuição patronal sobre faturamento, que deve desfigurar ainda mais o já problemático sistema tributário com que conta o País. Tendo em vista os custos políticos, em ano eleitoral, de um veto do Executivo à inclusão desses novos setores, o governo agora considera a possibilidade de partir para a rápida ampliação da abrangência do seu programa de desoneração da folha. E de reduzir, se necessário, a meta de superávit primário, para acomodar o custo fiscal envolvido, que excederia em larga margem o acanhado limite de 0,17% do PIB, contemplado inicialmente na MP 563. Em meio às contradições do favoritismo, um erro leva a outro. (Rogério Furquim Werneck, economista, Estadão e O Globo, 3/8/2012.)

A indústria que não se recupera

* “Há muito que pode ser feito pela indústria. Pacotes tópicos se tornaram inócuos”

“O real hoje já não está mais tão valorizado, o custo do capital vem diminuindo com a queda das taxas de juros básicas, e o consumo continua sendo estimulado por uma razoável oferta de crédito. No entanto, grande parte da indústria brasileira não consegue se recuperar. O governo tenta estimulá-la com desonerações tributárias tópicas, políticas de compras e preferências de mercado (seja no caso do suprimento a empresas de petróleo, seja com vantagens nos preços oferecidos em licitações oficiais).

“A esses estímulos a indústria tem reagido timidamente. O setor se depara com as mesmas dificuldades enfrentadas pelas demais empresas na economia brasileira, mas é o que parece pior conviver com este ambiente negativo. A importância da indústria para o país é inegável, por seus efeitos multiplicadores, pelos salários que paga, pela arrecadação de impostos. Para ganhar competitividade, a indústria necessita de melhoras alheias ao setor, como, por exemplo, uma infra-estrutura mais eficiente e um sistema tributário mais adequado. Porém, a indústria brasileira também precisa se renovar. Processos produtivos desatualizados, deficiências de qualidade e questões gerenciais são desafios específicos do setor, que não dependem inteiramente de políticas públicas.

“Mas das autoridades governamentais também se esperam programas de apoio à inovação, ao desenvolvimento tecnológico, à qualificação de pessoal. Há muito o que pode ser feito pela indústria. Pacotes tópicos se tornaram inócuos.” (Editorial, O Globo, 3/8/2012.)

Os erros da estratégia comercial acumulados a partir de 2003

* A opção ideológica explica o pífio desempenho no comércio internacional

“A crise internacional é só uma das causas do pífio desempenho do Brasil no comércio internacional, neste ano, e provavelmente nem é a mais importante. Para explicar o fiasco é preciso levar em conta pelo menos dois outros fatores: as falhas da política econômica e os erros da estratégia comercial acumulados a partir de 2003. Nesse ano, o governo decidiu impedir o País de jogar na primeira divisão dos mercados globais, dando prioridade a alianças com parceiros do ‘Sul’. Com isso, perderam-se oportunidades importantes nos mercados mais desenvolvidos, enquanto outros emergentes se esforçavam precisamente para conquistar espaços no mundo rico. Outro resultado foi a dependência cada vez maior da venda de produtos básicos para um daqueles parceiros ‘estratégicos’, a China, enquanto o governo chinês trabalhava para converter seu país na maior potência exportadora do mundo.

“Os efeitos desses erros são observados há vários anos e se acentuaram em 2012. Neste ano, o superávit comercial acumulado até julho, de US$ 9,9 bilhões, foi 39% menor que o de um ano antes, na comparação baseada no resultado médio dos dias úteis. Pelo mesmo critério, as exportações, de R$ 138,2 bilhões, foram 3% menores que as de janeiro a julho de 2011, enquanto as importações foram 1,7% maiores.

“As cifras de julho foram provavelmente afetadas pela greve de funcionários da Receita Federal e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, mas o descompasso entre receita e despesa já havia sido observado até junho. Além disso, quase certamente a greve distorceu mais o valor importado que o exportado.

“Os dados são suficientes, no entanto, para permitir uma análise das tendências mesmo antes da revisão dos números, porque os padrões mais importantes foram mantidos. A estagnação das exportações e o crescimento das importações apenas confirmam o enfraquecimento do produtor brasileiro diante dos competidores de fora. Os produtores estrangeiros têm sido amplamente beneficiados pela política federal de estímulo ao consumo. As ações de estímulo à produção têm sido muito menos eficientes. Isso é confirmado pelos números do comércio exterior e pela crescente penetração de importados no mercado interno. A desvalorização do real pode ter barateado os produtos brasileiros no confronto com os de fora, mas foi insuficiente para diminuir de forma importante a desvantagem competitiva do fabricante nacional. Essa desvantagem poderá ser atenuada um pouco mais no próximo ano, se o governo ampliar a bateria de estímulos, mas a mudança ainda será muito limitada. Segundo 68% dos executivos consultados em pesquisa da Confederação Nacional da Indústria, nenhum impacto sobre seus planos de investimento resultou do Plano Brasil Maior. Como o governo continua incapaz de investir os valores programados, ganhos de produtividade resultantes da expansão e da modernização da infra-estrutura geral e dos equipamentos serão ainda modestos nos próximos tempos.

“Como consequência da crise, o valor exportado para a União Europeia, até julho, foi 7% menor que o de um ano antes. A exportação para a China rendeu 1,4% mais, uma variação modestíssima atribuível, principalmente, à perda de ritmo da economia chinesa e à desvalorização de algumas matérias-primas, especialmente do minério de ferro. A valorização da soja impediu um resultado pior. Mas as vendas para os Estados Unidos foram 7% maiores que as de um ano antes. Isso se deve, em boa parte, à importância do mercado americano para as vendas brasileiras de manufaturados. A China, ao contrário, mantém com o Brasil uma relação semicolonial. O saldo seria bem melhor, se o governo brasileiro tivesse dado mais atenção aos mercados americano e europeu, sem negligenciar, é claro, as demais regiões.

“A preferência aos países do ‘Sul’ também se reflete no comércio com os vizinhos. As vendas para o Mercosul foram 17% inferiores às de um ano antes, principalmente por causa da perda de 18,4% no valor vendido para a Argentina. Isso se explica pelo protecionismo argentino, aceito alegremente – e quase aplaudido – pelo governo brasileiro. Parceria estratégica é isso.” (Editorial, Estadão, 3/8/2012.)

* Um bloco comercial desmoralizado

“A Venezuela ganhou seu jogo no Mercosul com escandaloso gol de mão. No futebol, até mesmo erro crasso de juiz pode validar um resultado. No Mercosul, vai ser preciso saber como esse erro poderá ser corrigido. (…)

“Se a letra explícita e o espírito do Tratado de Assunção são tão flagrantemente atropelados, o mesmo pode muito bem vir a acontecer com qualquer outra disposição essencial que faça parte da constituição do bloco. Qual será, daqui para a frente, por exemplo, a força de qualquer outro tratado assinado entre o Mercosul e outra potência econômica se qualquer conveniência política da hora puder desrespeitar os fundamentos jurídicos dos tratados?

“No entanto, deixando de lado tanto o meramente jurídico como o meramente político, está fora de dúvida de que a admissão da Venezuela, nas condições em que se deu, contribui para a desmoralização do bloco. Mas não é só isso. Servirá, também, de precedente para que, no futuro, qualquer agrupamento de sócios se sinta autorizado, com ou sem as bênçãos do Itamaraty, a dar o mesmo tratamento a decisões soberanas do Brasil.” (Celso Ming, Estadão, 4/8/2012.)

* Um clube com objetivos políticos que não valorizo mercado, a competitividade

“Aberta a porteira do Mercosul aos bolivarianos, com o ingresso da Venezuela, agora é a vez de Equador e Bolívia negociarem sua entrada plena no bloco que é cada vez mais ideológico e menos econômico. O timing do processo é perfeito: primeiro, como se sabe, Brasil e Argentina urdiram o isolamento do Paraguai, último obstáculo à adesão da Venezuela, e atropelaram as normas do Mercosul para receber Hugo Chávez de braços abertos, com direito a uma lépida subida do autocrata venezuelano na rampa do Planalto; ato contínuo, os outros dois mais importantes governos chavistas da América Latina iniciam tratativas para engrossar o Mercosul.

“Como diz o diplomata José Botafogo Gonçalves em artigo no Estado (2/8), trata-se de um ‘novo Mercosul’, isto é, não se pode mais falar de uma zona de livre comércio e de união aduaneira, que está no espírito da fundação do bloco, mas, sim, de ‘um novo clube com objetivos políticos e econômicos que não valoriza o mercado, a livre circulação de mercadorias e serviços, a internacionalização das economias e a competitividade’. (Editorial, Estadão, 6/8/2012.)

Outras más notícias da Economia

* Nenhum motivo de otimismo neste segundo semestre

“A economia brasileira não exibirá, neste segundo semestre, o que o ministro Guido Mantega sonhou e dificilmente terminaremos o ano de 2012 com resultado melhor do que o do ano anterior.

“A economia real, representada pelo comércio e a indústria, não se permite ilusões depois dos resultados do mês de julho. O comércio varejista está prevendo uma queda importante das vendas com a retração da demanda, já que a elevação do salário mínimo, em janeiro, não foi suficiente para impulsioná-la, como se acreditava, diante do endividamento elevado das famílias. A indústria está, a cada mês, adiando a sonhada retomada da produção; apenas conseguiu normalizar seus estoques sob as asas protetoras dos incentivos, porém teme que com o fim destes a elevação dos estoques retorne, já que, por falta de investimentos, a melhora da produtividade continua distante.

“O governo, por razões políticas, está esperando o fim das eleições municipais para lançar seu programa de concessões, que daria impulso aos investimentos na infra-estrutura, quando se sabe que somente um plano bem mais ambicioso injetaria um pouco de oxigênio à economia.

“A única realidade é que as Finanças Públicas estão se deteriorando. A arrecadação fiscal, que subsídios e isenções de efeito duvidoso contribuíram para agravar, está refletindo o baixo nível de atividade. E, com os dispêndios crescendo mais do que as receitas, parece que a meta do superávit primário não poderá ser atingida, o que significa aumento da dívida pública e do seu custo.

“As perspectivas para a inflação, que pareciam relativamente boas, mudaram de perfil. A alta de alguns produtos agrícolas no mercado internacional atingiu o Brasil, embora sejamos um dos maiores produtores mundiais de grãos, como soja e milho. Continua existindo a ameaça de uma elevação do preço da gasolina, enquanto o transporte por caminhões já está sofrendo uma elevação com o reajuste do preço do Diesel e dos salários dos caminhoneiros.

“A desvalorização do real ante o dólar não surtiu grande efeito sobre as exportações, embora pudesse conter as importações, cujos preços em moeda nacional estão aumentando. As preocupações em torno das contas externas, já com uma redução do resultado da balança comercial, é saber se os investimentos estrangeiros continuarão a cobrir o déficit das transações correntes.

“O que mais preocupa nesta fase é a lentidão do governo para tomar as decisões indispensáveis à recuperação da economia.” (Editorial, Estadão, 4/8/2012.)

* Repete-se a insuficiência de investimentos da era Lula

“Entre 2010 e 2011, os investimentos em infra-estrutura aumentaram apenas 2%, de R$ 170 bilhões para R$ 173 bilhões, segundo levantamento da Associação Brasileira de Infra-estrutura e Indústrias de Base (Abdib). É a mais recente comprovação de que numa questão-chave para a eficiência econômica e a competitividade, pouco se fez desde a troca de presidente, repetindo-se, com Dilma, a insuficiência de investimentos da era Lula.

“O estudo da Abdib, citado quinta-feira no Estado, trata dos investimentos em transportes, eletricidade, petróleo e gás, telecomunicações e saneamento básico. São setores responsáveis pela oferta de insumos ou serviços essenciais para o desenvolvimento econômico, inclusive para o bem-estar dos que estudam ou trabalham em casa.

“Não há dificuldade em atrair investimentos para a infra-estrutura, como já mostrou o governo Fernando Henrique. A política de concessões propiciou o ingresso de investidores locais e estrangeiros em energia, telecomunicações, rodovias e ferrovias, além de petróleo e gás. Em vez de suportar os déficits das estatais, o governo passou a arrecadar vultosos tributos.

“O presidente da Abdib, Paulo Godoy, acredita que o governo Dilma ‘já percebeu que o desempenho do setor (de bens de capital) está fraco’ e pretende lançar um pacote de concessões rodoviárias e ferroviárias. Mas é pouco provável que seja o bastante.

“As rodadas da Agência Nacional de Petróleo foram interrompidas na década passada e não há prazo para serem retomadas. Mesmo nesse segmento, dominado pela Petrobrás, os investimentos caíram de R$ 78,1 bilhões, em 2010, para R$ 73,3 bilhões, em 2011. Também é crítica a falta de investimentos em saneamento, afetado pelo sucessivo adiamento das pendências entre municípios e companhias estaduais.

“As principais exceções são os segmentos com maior participação privada, como telecomunicações e energia elétrica, cujos investimentos aumentaram 13,5% e 18,9%, respectivamente, no ano passado.

“Embora a Abdib preveja aumento de investimentos de 6%, em termos reais, neste ano, há sinais negativos, como a queda da produção industrial de bens de capital de 12,5% entre os primeiros semestres de 2011 e 2012 (e as importações de bens de capital aumentaram apenas 3% ou US$ 1,2 bilhão, na comparação entre janeiro e julho dos dois anos). O governo tarda em assegurar mais investimentos na infra-estrutura para desonerar a produção e conferir mais competitividade às empresas locais. (Editorial, Estadão, 5/8/2012.)

* “A política de remendos tributários, de apoio financeiro a empresas e setores favoritos da corte chegou claramente ao limite”

“As dificuldades do governo para fechar o novo pacote de estímulos à indústria e o prejuízo da Petrobrás no segundo trimestre são páginas da mesma história. Sem novidades para apresentar aos industriais, a presidente Dilma Rousseff adiou um encontro com dirigentes de grandes empresas. O embaraço é facilmente explicável. É cada vez mais complicado encontrar espaço no Orçamento Geral da União para desonerações tributárias. Mantém-se a gastança e a indispensável reforma dos impostos e contribuições continua empurrada para o dia do Juízo Final. Quanto aos problemas da Petrobrás, são obviamente resultantes de um estilo de governo implantado há nove anos e caracterizado pela visão de curto prazo, pela baixa disposição de enfrentar problemas complexos, como os fiscais, e pela tentação permanente de politizar as decisões econômicas. A contenção dos preços da gasolina, os problemas na construção de refinarias e o lançamento oficial de um petroleiro sem condições de navegar – só ficaria pronto dois anos depois – são demonstrações desse estilo.

“A presidente da Petrobrás, Graça Foster, tem-se mostrado disposta a mudar a gestão da empresa, a enfrentar os problemas e até a exibir esqueletos guardados por vários anos, como os erros da política de preços, o irrealismo das metas e o mau planejamento das novas refinarias. Se persistir nessa atitude e for mantida no posto, forçará mudança pelo menos numa área da gestão federal. Talvez essa mudança contamine outras áreas da política econômica, mas, por enquanto, a maior parte desse quadro parece altamente improvável. (…)

“A política de remendos tributários, de apoio financeiro a empresas e setores favoritos da corte e de estímulo ao consumo, sem atenção às condições estruturais de eficiência, chegou claramente ao limite. Se apenas ampliar a lista de indústrias beneficiadas com estímulos, o governo oferecerá mais do mesmo. Há uma diferença oceânica entre a mera multiplicação de ações pontuais e a adoção de medidas gerais para aumentar a produtividade geral da economia. Mantida a orientação seguida até agora, será cada vez mais difícil conciliar a concessão de estímulos com as restrições orçamentárias. É difícil apostar em mudança. Por enquanto, a maior parte do governo parece imune ao surto de racionalidade detectado na Petrobrás.” (Rolf Kuntz, Estadão, 8/8/2012.)

10 de agosto de 2012

Outros apanhados de provas de incompetência de Dilma e do governo:

Volume 41 – Notícias de 24/2 a 1º/3.

Volume 42 – Notícias de 2 a 8/3.

Volume 43 – Notícias de 9 a 15/3.

Volume 44 – Notícias de 16 a 22/3.

Volume 45 – Notícias de 23 a 29/3.

Volume 46 – Notícias de 30/3 a 5/4.

Volume 47 – Noticias de 6 a 12/4.

Volume 48 – Notícias de 13 a 19/4.

Volume 49 – Notícias de 20 a 26/4.

Volume 50 – Notícias de 27/4 a 3/5.

Volume 51 – Notícias de 4 a 10/5.

Volume 52 – Notícias de 11 a 17/5.

Volume 53 – Notícias de 18 a 24/5.

Volume 54 – Notícias de 25 a 31/5.

Volume 55 – Notícias de 1º a 6/6.

Volume 56 – Notícias de 15 a 21/6

Volume 57 – Notícias de 22 a 28/6.

Volume 58 – Notícias de 29/6 a 5/7.

Volume 59 – Notícias de 6 a 12/7.

Volume 60 – Notícias de 13 a 19/7.

Volume 61 – Notícias de 20 a 26/7.

Volume 62 – Notícias de 27/7 a 2/8.

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