Era uma vez… E que vez!

Silvinha acorda, abre os olhos, fala – tudo ao mesmo tempo:

“Nossa… o laptop!” Pula da cama, escova dentes, troca a roupa, engole um Toddy, abre a porta da rua. A mãe: “Onde você pensa que vai?” “Encontrar com a Soninha, está com o meu laptop.” A mãe, cruzando os braços. “Você quer dizer, o laptop do seu pai.” “Sim, o nosso laptop.” Continue lendo “Era uma vez… E que vez!”

Um trem corta a noite

Érico tinha nas mãos uma pasta; na outra, um terno pendurado em um cabide. Entrou na Estação da Luz e olhou para a plataforma de embarque. Era cedo. O Santa Cruz não havia encostado. Só às onze e vinte da noite, pontualmente, o noturno partiria para o Rio de Janeiro, por trilhos que cortariam cidades adormecidas.

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Zeladoria Gramatical em ação

O grito da sirene morre em uma freada brusca. A equipe desce do carro e invade o restaurante, com a autoridade da fiscalização. “Aqui está tudo correto, casa limpa, alimentos frescos, higiene absoluta” – defende-se o proprietário. “Sim”, diz o fiscal. “Mas o senhor está preso e vai direto para uma cela”.

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Tempestade

Alarmada com um som de tempestade, Gláucia abre a janela da sala de casa, que dá para uma praça, e se choca com o que vê. Uma mulher, com uma criança, busca abrigo sob uma árvore, que não as protege de nada. Gláucia abre a porta da sala e começa a chamar por elas, mas à toa. Não conseguem ouvi-la. Corre para a cozinha, pega duas tampas de panela, volta à porta e bate uma na outra com toda força. O som atraí a mamãe. Ela vê a porta aberta, com a mulher que a chama. Pega a menina pela mão, e corre. Na porta da sala, vacila. “Vamos molhar tudo”. E é puxada para dentro.

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Pirou!

Como sabemos, contramão é ir na direção contrária ao que vem à nossa frente. Mas… quem conhece a força de uma saudade? Retirem os mais jovens da sala. O idoso tem a declarar uma revolução. Está farto do laptop, de tantos recursos, corpos de letra, layouts… Continue lendo “Pirou!”

A rebelião dos jovens

Um ônibus atravessou sem pressa o fim de tarde que acometia um pequeno bairro de periferia, chamado Felicidade. Em frente à doceria, freou. Porta aberta, cuspiu um jovem agitado. Rosto afogueado. Da banqueta da doceria Beth viu o jeito do namorado e assustou-se. “Nossa…”

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Cuidado! Estão te vigiando

Era um detetive frio, mas tinha um defeito. Não era calculista. Na verdade, tinha dois defeitos. Não era um detetive. Ou melhor, era um detetive de classificado de jornal, descredenciado e não regulamentado. Tinha uma vantagem: um corpo esguio – alto, ombros largos -, que compunha bem a figura de um detetive de cinema. Bastava enfiar a gabardina e baixar a aba do chapéu sobre os olhos. Continue lendo “Cuidado! Estão te vigiando”

A arte de mandar texto de fins de mundo

Nos dias de hoje, o noticiário vai rolando como o globo, flanando como folha, em muito bom estado. Tudo fácil, digitado no laptop. Na época em que havia notícias populares, batidas em folhas de papel, na máquina de escrever, é que era difícil. Continue lendo “A arte de mandar texto de fins de mundo”

Ao toque de um dedo

Parece que foi ontem… Estávamos na rua, e precisávamos telefonar. Onde? Ah, aí está uma padaria… “Dá licença de usar o telefone?” Em 1972 surge a novidade salvadora, o orelhão. Tinha fila até chegar a vez da gente? Tinha. Mas tudo muto bem!

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Ah, aquela estimada bolsa…

Não sei por que cargas d’água (expressão da época do bonde puxado a burro) fui envolvido por insidiosa trama familiar. Mirava um acessório de uso profissional que me era caro. A peça, é verdade, tinha um tempinho de uso, … duas décadas. Tratava-se de uma bolsa de lona verde, com duas divisões, e, costurados fora, dois bolsos. Como as que se vendiam em lojas de artigos para pesca e caça, quando esta não era proibida. Continue lendo “Ah, aquela estimada bolsa…”

Inteligência Artificial ou…

Carlinhos olhava desolado para o que tinha nas mãos. A caixa onde guardava sua coleção de moedas havia ido ao chão e quebrado. Era peça antiga. E agora? Quanto custaria uma nova, caso encontrasse? Pensou na Inteligência Artificial para um conserto. Mas não sabia o que era isso. Procurou no Google. Lá estava, em uma das definições: “Que não é natural, dissimulado, fingido. Postiço.”  Continue lendo “Inteligência Artificial ou…”

Gol de letra

A cada gol, muita comemoração, muita barulheira. Pergunto: por que só é assim no futebol, nos esportes? Por que não para nós, os simples mortais do texto? Vamos imaginar Sérgio Vaz na redação do Jornal da Tarde daqueles bons tempos, tentando um título de alto de página. Em uma parede, um telão mostra o que ele escreve. Servaz dribla um lugar-comum, saí de um gerúndio, escanteia uma ideia de jerico e… goleia com um título genial! 

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Com que tênis eu vou…

Se eu fosse casar nos dias de hoje, seria um vexame. Lá está o noivo no altar, ao lado da noiva tão elegante, ele usando terno… Não ia dar certo. Porque seria terno, gravata e tênis. Como assim?, poderá indignar-se um modista conservador. Respondo. Sou da turma que não abre mão do tênis.

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Com que roupa eu vou…?

Tempos atrás, certa deputada parecia ter confundido posse no cargo com festa de arromba. Surgiu no plenário da Câmara, ambiente em que as pessoas se tratam por Vossa Excelência (quando não estão se xingando), ostentando seus atributos físicos em um grande decote.  Continue lendo “Com que roupa eu vou…?”