O que não pode ser concedido

O Brasil vive uma nova fase de concessões de espaços públicos. Depois de rodovias, aeroportos, portos e saneamento, estados e municípios passaram a recorrer cada vez mais à iniciativa privada para administrar parques, praças e equipamentos urbanos. A participação privada pode ampliar investimentos, melhorar a manutenção, elevar a qualidade dos serviços e aliviar o orçamento público. O desafio começa quando administrar infraestrutura passa a ser confundido com administrar lugares que carregam memória, identidade e formas próprias de convivência. Continue lendo “O que não pode ser concedido”

O candidato que ninguém está vendo

O caso Master deixou de ser apenas um escândalo financeiro. Ao atingir Jaques Wagner, um dos políticos mais influentes e mais próximos do presidente Lula, a investigação alcançou o coração do poder. Mais importante, porém, do que a eventual responsabilidade deste ou daquele personagem, é o efeito político produzido pelo episódio. Continue lendo “O candidato que ninguém está vendo”

O Caso Master e o velho roteiro brasileiro

Quanto mais as investigações avançam e figuras de proa da República são arrastadas para o epicentro do Caso Master, maiores são os temores da sociedade de que um dos maiores escândalos financeiros da história brasileira reproduza a tradição da impunidade de nosso país. Continue lendo “O Caso Master e o velho roteiro brasileiro”

O eleitor encurralado

Há um fenômeno novo nas eleições de 2026. Uma fatia expressiva do eleitorado — os independentes, que representam cerca de 32% do total — manifesta forte desejo de renovação, de superação da polarização e de surgimento de uma liderança capaz de oferecer uma alternativa aos dois polos que dominam a disputa nacional. Mas não encontra no mercado eleitoral uma candidatura que expresse essa expectativa. Sem alternativa, esses eleitores sentem-se encurralados pelos dois campos e desconfortáveis diante da perspectiva de escolher novamente o “menos pior”. Continue lendo “O eleitor encurralado”

Soberania ou segurança, um falso dilema

A crise da segurança pública transformou-se numa das principais questões políticas da América Latina. México, Colômbia, Equador, Venezuela, Honduras e El Salvador convivem há anos com organizações criminosas que desafiam a autoridade do Estado, controlam territórios, corrompem instituições e impõem regras próprias a milhões de cidadãos. Não por acaso, diversos desses grupos foram enquadrados como organizações terroristas pelo governo de Donald Trump. Continue lendo “Soberania ou segurança, um falso dilema”

A censura mudou de lugar

Nesta semana que passou, a escritora Ana Maria Machado participou da Feira do Livro que aconteceu no Pacaembu, em São Paulo, sob a direção de Paulo Werneck. Ao revisitar episódios de sua trajetória como jornalista e autora, trouxe uma reflexão que merece atenção para além do universo literário. Continue lendo “A censura mudou de lugar”

O terceiro mandato e os velhos atalhos

Duas notícias publicadas nos últimos dias ajudam a compreender um dos principais desafios da economia brasileira. A primeira revelou que decisões recentes do presidente Lula, envolvendo subsídios e contratações compulsórias no setor elétrico, poderão gerar custos bilionários para consumidores e empresas ao longo das próximas décadas. A segunda mostrou a ampliação de linhas de crédito favorecido pelo governo federal, movimento que vem despertando preocupações no Banco Central e entre economistas. Continue lendo “O terceiro mandato e os velhos atalhos”

A batalha pelo voto dos independentes

A eleição presidencial de 2026 pode ser decidida por uma parcela relativamente pequena do eleitorado brasileiro: os chamados eleitores independentes. Mais do que mobilizar suas bases ideológicas já consolidadas, Lula e Flávio Bolsonaro disputam hoje um segmento menor numericamente, mas decisivo em cenários de forte polarização. Continue lendo “A batalha pelo voto dos independentes”

O dia em que Lygia Bojunga virou ameaça

Uma escola militar do Distrito Federal decidiu retirar de circulação A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, após reclamações de pais que enxergaram na obra referências inadequadas a questões de gênero. A notícia chama atenção por transformar um dos maiores clássicos da literatura infantil brasileira em objeto de suspeita ideológica. Continue lendo “O dia em que Lygia Bojunga virou ameaça”

Falta ao Brasil um Plano Real da Segurança

No início dos anos 1990, a hiperinflação já não era apenas um problema econômico. Transformara-se numa experiência coletiva, moldando hábitos, expectativas e a própria percepção de futuro dos brasileiros. A corrosão diária do poder de compra produzia insegurança permanente. O país parecia condenado à instabilidade. Continue lendo “Falta ao Brasil um Plano Real da Segurança”

A universidade diante de um novo tempo

A recente ocupação da Reitoria da USP por estudantes trouxe novamente à superfície um debate que ultrapassa em muito os limites da universidade paulista. Mais do que um episódio localizado, ela expõe dilemas presentes no ensino superior no Brasil e em boa parte do mundo. Continue lendo “A universidade diante de um novo tempo”

Tudo pelo eleitoral

A cem dias da eleição de 2022, o Datafolha apontava Lula à frente das intenções de voto com vantagem de 18 pontos e possibilidades reais de vitória ainda no primeiro turno. Diante desse cenário, Jair Bolsonaro recorreu ao peso da caneta presidencial para tentar reverter o quadro por meio da chamada PEC Kamikaze. A jóia da coroa de seu pacote de bondades foi a elevação do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600. Ampliou ainda o número de beneficiários, praticamente dobrou o valor do auxílio-gás, zerou impostos federais sobre combustíveis, criou benefícios para caminhoneiros e taxistas e estendeu o crédito consignado aos beneficiários do programa. Continue lendo “Tudo pelo eleitoral”

Jacobismo de toga

O Supremo Tribunal Federal ocupa, em qualquer democracia constitucional, uma posição de equilíbrio delicado: é, ao mesmo tempo, guardião da Constituição e árbitro final de conflitos institucionais. Dessa condição deriva não apenas o seu poder, mas também a sua responsabilidade de autocontenção. Quando a Corte ultrapassa esse limite e passa a agir como protagonista político, o risco não é apenas jurídico; é também institucional, podendo comprometer valores fundantes do Estado de Direito Democrático. É nesse contexto que ganha força a crítica ao que se convencionou chamar de “jacobinismo de toga”. Continue lendo “Jacobismo de toga”

O tripé que ameaça a reeleição de Lula

A rodada de pesquisas de abril trouxe um conjunto consistente de sinais de alerta para a reeleição de Lula. O dado mais visível é a vantagem, ainda que estreita, de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno. No levantamento Genial/Quaest, o senador aparece numericamente à frente, com dois pontos de diferença. Mais importante do que a fotografia do momento é a tendência: desde dezembro, a curva de Flávio é ascendente, enquanto a de Lula mostra estagnação. Continue lendo “O tripé que ameaça a reeleição de Lula”

Obrigado, Hungria

Assim que as urnas confirmaram a vitória do partido oposicionista Tisza, seu líder e próximo primeiro-ministro húngaro, Péter Magyar, correu ao Facebook e postou: “Obrigado, Hungria”. O agradecimento não é apenas dele. O resultado eleitoral foi também um sinal político relevante para a Europa e para a Otan. A derrota do “iliberal” Viktor Orbán, eurocético de raiz e ícone da extrema-direita global, representa igualmente um revés para Vladimir Putin, que perde um aliado importante no interior da União Européia. Continue lendo “Obrigado, Hungria”