Liuxa, quatro anos, trepado nos ombros do pai, observa o cortejo. Homens e mulheres vestidos com roupas coloridas, desfilam dançando e rindo. Liuxa não sabe o porquê da festa. Não entendeu o que disse o tio, ao falar de vinte anos de independência. Continue lendo “Varsóvia, dia 14 de abril, 17 horas”
Em algum lugar em todos os lugares
Não se pode dizer que naquele preciso momento houvesse consciência. Não se pode. Não se deve admitir que houvesse memória. Não. Se houver necessidade de um termo que informe sobre o estado daquele exato instante, o único que se aproximaria vagamente é o de noção. Talvez houvesse noção. Noção de existência? Continue lendo “Em algum lugar em todos os lugares”
Presidiária
Tudo pode ser dito, tudo pode ser contado, até porque desde que eu saí de casa é como se eu tivesse saído de uma cela, já que passei as duas últimas semanas de cama, aquela febre fervida, aquela raiva contida, aqueles olhos ardendo, sugestões de chás de camomila e erva cidreira, doses maciças de analgésicos. Continue lendo “Presidiária”
A revelação da minha vida
Dobrei a esquina para a Rua Araújo, com o coração aos pulos. Logo aprenderia que essa expressão – coração aos pulos – morreu com os antigos folhetins literários. Mas, naquela época, eu não sabia disso. Continue lendo “A revelação da minha vida”
O Sermão do Planalto
Confusão e sono. Sono e dor. Dor e ruídos. Ruídos e dormência.
João tentou levantar a perna insensível mas não conseguiu, sentiu que não conseguia. Pensou, no meio do nevoeiro, pensou com dificuldade que, se respirasse muito fundo, conseguiria levantar a perna morta. Respirou mas ouviu zumbidos, estalos que rebentavam e luziam ante seus olhos inchados e meio cegos. Continue lendo “O Sermão do Planalto”
A chave do lado de dentro
O homem fez sinal, o motorista parou o táxi, abriu a porta e pegou a mala que a mulher lhe estendeu.
O homem olhou a mulher, olhar demorado, beijo rápido, o motorista fechou a porta do táxi, ele foi, ela ficou. Continue lendo “A chave do lado de dentro”
Titia peladona
– Não – disse o diretor de redação. – Não aceito e está acabado. Na minha revista, o nu tem classe. E quem decide quem tem corpo, cara e estilo para merecer nossas páginas sou eu. Continue lendo “Titia peladona”
Carnes flagradas
O delegado Guilhermino desceu da viatura e constatou: a placa ainda estava lá. Apontou para o tira ao seu lado:
– Olha lá. Rodízio. Promoção por tempo limitado. Cem reais. É um crime, eu não disse? Continue lendo “Carnes flagradas”
As torres gêmeas e Hiroxima
vovô, qual é a diferença entre as torres gêmeas e Hiroxima? Continue lendo “As torres gêmeas e Hiroxima”
A coisa melhor do mundo
Eu tenho 18 anos e faço planos. Como sou mulher, faço planos de mulher: estudar (hoje as mulheres estudam), trabalhar (hoje as mulheres são independentes), casar (hoje, como sempre, as mulheres se casam). Como tenho 18 anos, o mundo está na minha frente e é nele que eu mergulho todos os dias: faculdade pela manhã, trabalho à tarde, namoro à noite. Continue lendo “A coisa melhor do mundo”
O nome do alvo
Homem público exemplar
Na entrevista, cercado à saída do gabinete.
– Deputado, o senhor foi gravado em vídeo pela Polícia Federal recebendo R$ 100 mil de um lobista, o que tem a dizer?
– O vídeo é falso, trata-se de uma montagem. Continue lendo “Homem público exemplar”
Boca de crime
– Boa tarde, sou Carlos, o assistente social. Vim ajudá-la. Qual foi seu crime?
– Leitão assado.
– É grave. Continue lendo “Boca de crime”
With all the clarity of dream (*)
O que foi pedido: A short love, horror or funny story, usando expressões como As flat as a pancake, As good as gold, As pretty as a picture, As quiet as a mouse, etc
O que foi entregue:
Instead of A short love, horror or funny story,
A short love, horror and (slightly) funny story Continue lendo “With all the clarity of dream (*)”
Telefone
Paulo discou o número – logo atenderam. Pediu para chamá-la – pediram-lhe para esperar.
Está bem. Continue lendo “Telefone”
