A coisa melhor do mundo

Eu tenho 18 anos e faço planos. Como sou mulher, faço planos de mulher: estudar (hoje as mulheres estudam), trabalhar (hoje as mulheres são independentes), casar (hoje, como sempre, as mulheres se casam). Como tenho 18 anos, o mundo está na minha frente e é nele que eu mergulho todos os dias: faculdade pela manhã, trabalho à tarde, namoro à noite.

Tudo muito certinho, como deve ser. Tudo como convém aos anos 50. Tenho 18 anos e estou mergulhando no mundo; todas as manhãs, estudando, todas as tardes, trabalhando, todas as noites, namorando. Sou muito feliz, como convém ser. Inteligente na faculdade, pontual no trabalho, ajustada no namoro.

Tudo muito certinho, tão certinho que chega a me assustar. Há pessoas, como eu, com 18 anos, que tentam mergulhar na vida e não conseguem. Se o trabalho vai bem, o namoro vai mal. Eu não. Eu sou muito feliz. Os professores gostam de mim, as pessoas com quem eu trabalho me admiram, meu namorado me adora. Ele chega a dizer que eu sou perfeita, do jeito que ele queria e precisava, e procurava. Eu também acho que ele é perfeito, do jeito que eu quero, preciso e não procuro mais. Se marcamos um encontro, chega antes da hora e me espera sorrindo. Aos domingos, almoçamos juntos, na cidade. Ficamos muito tempo de mãos dadas, cantando músicas do João Gilberto, ou calados, sorrindo. Admiramos a inteligência um do outro. Colocamo-nos apelidos carinhosos. Escrevemos e desenhamos um pro outro, escritos e desenhos cujo significado ninguém entende, além de nós. Prometemos casamento um pro outro. À noite, quando vou dormir, não ouço os barulhos que vêm da rua: o som que me acompanha é o da sua voz. E eu fico pensando que a coisa melhor do mundo é ter 18 anos e mergulhar na vida e sonhar com o futuro a dois: uma sala na penumbra, um disco do João Gilberto rodando, as mesmas de sempre, gestos carinhosos, os mesmos de sempre, silêncio, sorrisos, felicidade.

 

003 Tenho 30 anos e faço planos de mulher. A faculdade acabou (as mulheres hoje continuam estudando), o trabalho continua (as mulheres hoje tentam ser independentes), o casamento aconteceu (as mulheres ainda se casam). Os anos passaram e tudo aconteceu como estava previsto. O mundo não está, mais, à minha frente: eu estou na frente dele. Não mergulho mais nele, não é preciso. Estou constantemente lá dentro, bem no fundo, como convém a quem tem 30 anos. Quem disse que não sou feliz? Claro que sou. Terminei meu curso, trabalho cada vez melhor, meu marido é aquele namorado que eu queria, e precisava, e procurava. Se marcamos um encontro, ele não chega, mais, antes da hora, mas não tem culpa. O trânsito hoje é muito difícil, o nível do brasileiro melhorou, todo mundo tem carro. Também não almoçamos mais na cidade aos domingos, mas não temos culpa. O dinheiro anda curto, os filhos precisam de nós, aparecem visitas. As músicas do João Gilberto andam raras. Não temos culpa: há tantos discos novos, as coisas agora duram tão pouco, é preciso mudar sempre, todas as semanas, todos os dias. Ninguém tem mais tempo pra lembrar. Continuo admirando a inteligência dele. Sei que outras pessoas admiram junto comigo. Ele deve continuar me admirando. Não temos mais apelidos, mas não temos culpa: agora somos pai e mãe. Afinal, é assim que todos os filhos chamam os pais. Escrevemos um pro outro, mas não desenhamos mais: desenhar é difícil, gasta tempo. Às vezes eu me pergunto se entendemos tudo o que escrevemos, se os escritos têm significado, mesmo para nós. Não há mais casamento pra prometer. Estamos casados desde os anos 50, quando tínhamos 18 anos e resolvemos mergulhar no mundo. À noite, quando vou dormir, os barulhos da rua se misturam com os da casa: Caetano Veloso rodando na vitrola, tosse no quarto do filho mais velho. E eu fico pensando a coisa melhor do mundo é deitar um corpo cansado e ouvir uma respiração também cansada, ao lado. A melhor coisa do mundo é descansar por ter mergulhado nele, um dia. A coisa melhor do mundo é descansar do mundo.  

 

Tenho 35 anos e não faço planos de espécie alguma. As mulheres ainda estudam, mas desistiram de ser independentes, e já não se casam mais. Não precisam mais sonhar com o casamento: têm os homens na hora que querem, mesmo os de outras mulheres. Não sei se estou dentro, fora ou na frente do mundo. É que nem sei onde está o mundo, como convém a uma mulher de 35 anos. Eu disse que não sou feliz? Claro que sou. Sou formada, não preciso mais trabalhar, a pessoa que eu queria e procurava e precisava está comigo desde que tínhamos 18 anos e resolvemos mergulhar no mundo. Não marcamos mais encontros. Ele tem outros, mais importantes, com gente mais jovem, com quem fala de sua vida, seus gostos, suas manias, seus hábitos, nossos filhos. Principalmente nossos filhos. É assim que deve ser. Os almoços aos domingos são raros até em casa: esperam por ele no clube, ou na cidade, agora que dinheiro já não é mais problema. João Gilberto foi definitivamente substituído, sem que nem notássemos. Há muitos outros no lugar dele. Não sei os nomes. Não é mais preciso admirar inteligências. A vida, mais inteligente que nós, colocou cada um no seu lugar. Apelidos? Se nem nomes temos mais. O nome dele agora é o sobrenome, público, famoso, citado. E procurado pelos mais jovens, principalmente mulheres, que já não se casam mais, todas dos anos 70. Escrever o quê? Tudo já foi escrito. Não vejo mais canetas pela casa. E ele mal dá conta de ler tudo que lhe escrevem, suas gavetas se enchem de recados, fotografias, recados, fotografias, recados. Todos de pessoas dos anos 70. À noite quando vou dormir, não ouço os barulhos da casa. A vida grita lá fora, nas buzinas, chamando, chamando. E eu fico pensando que não há coisas melhores no mundo. Nem coisas boas há.

 Uma explicação

004Vivina me autorizou a colocar neste site alguns textos dela – o que é um motivo de grande orgulho para mim. Não combinei, no entanto, que iria colocar este conto, publicado na revista Mais, em meados dos anos 70. Nem sei se Vivina se lembra dele. Acho este texto absolutamente brilhante, e quis que ele fosse o primeiro dela a entrar no site.

Guardei um exemplar da revista por causa do conto – o número 6, do  mês de janeiro… de que ano? Incrível, absolutamente inacreditável: não se fala o ano, em lugar algum da revista! Deve ser 1976, ou 1977, pelo que me lembro – mas, pela revista, não dá para saber.

Bem, Vivina matou a charada: foi 1974. Está explicado no comentário dela, logo abaixo.

9 Comentários para “A coisa melhor do mundo”

  1. Olá, Sérgio,

    claro que me lembro do conto, tive muito trabalho pra escrevê-lo!

    Quanto à data, eu estava apostando em 74. Nesse ano, ele foi publicado na coleção “Contos Jovens”, da Brasiliense, e a publicação na “Mais” tinha sido em seguida, ou um pouco antes.

    Repetindo seu gesto, busquei a revista na estante (também guardei uma!)e, maluquice total, nem sombra de registro de data!
    Comecei a ler uma matéria aqui, outra ali, e fui salva pelo Maurício Kubrusly, página 96: “Há dez anos, em janeiro de 64, os beatles se preparavam para conquistar o resto do mundo, pois a Ingleterra já estava submissa”.

    Foi, 74, Sérgio. Graças ao Maurício – e aos Beatles – podemos dormir sossegados.

    Beijo antigo

    Vivina.

  2. Não existiu segunda-feira. É terça e ainda nada se sabe. Chego por links a moral de uma época. E relembro meus 8/9 anos em 1974, dois anos antes da separação do casamento perfeito de meus pais, um ano depois dos 7/8 de 1973 quando, atravessado pela consciência da morte, voltei ao centro divino da vida.

  3. Vininha!
    Eu trabalhei anos e anos na MAIS. Caramba, nem lembrava “mais” que ela existira…
    Seu conto é real, lindo, doce, que “mais”?Precisa algo “mais”?
    LAIS DE CASTRO

  4. Vivina, lembro de ler este texto várias vezes na minha adolescencia… e depois eu perdi o livro, mas sempre me lembrava deste trecho: a coisa melhor do mundo é ter 18 anos e mergulhar na vida e sonhar com o futuro a dois: uma sala na penumbra, um disco do João Gilberto rodando, as mesmas de sempre, gestos carinhosos, os mesmos de sempre, silêncio, sorrisos, felicidade…
    Hoje, eu resolvi procura-lo na internet, e tive a grata surpresa de acha-la. Gostaria que vc soubesse o quanto marcou a minha vida. Seu texto é muito especial para mim…

  5. Olá, Liliane,

    fiquei muito emocionada com seu comentário, e não poderia ser diferente. Um comentário tão bonito, trazendo o tempo de volta, ah, é lindo!
    A palavra escrita tem o poder – maravilhoso – de unir, em um passe de mágica, épocas diversas, parecendo que nada houve entre elas. Nenhum fato, nenhum segredo, nada. Foi o que aconteceu agora, com suas palavras.
    Esse conto, em 73, foi publicado em dois livros”: “O Conto da Mulher Brasileira”(ED. Vertente), e “Contos Jovens” (Ed. Brasiliense).Certamente, você teve um desses dois livros, não é?
    Da mesma forma que você, gosto muito desse texto. Gosto de tê-lo escrito e, mais ainda, de perceber, tanto tempo depois, que ele continua tendo força pra dizer o que eu queria, na época. Resumindo: eu o escreveria de novo.
    Eu gostaria de ter seu e-mail, se possível.

    Por enquanto, um abraço, e boas leituras!

    Vivina

  6. Que feliz ler esse texto! Que feliz ler Vivina, que tanto marcou minha adolescência com “Ana e Pedro”, na linda parceria com Ronald Claver. A vida é, ainda, linda!

  7. Gosto tanto de ler que não sei como não encontrei este site antes.
    Gostei muito, muito mesmo desse conto da Vivina. Não conhecia.
    Observação: Procurei e não encontrei data de postagem. É costume, Sérgio, não datar os posts?

  8. Caro Roberto,
    Obrigado pela mensagem.
    De fato, se você está com o post aberto, você não vê a data de postagem. Mas
    se você der uma busca com o nome da Vivina, ou com o nome do conto, a data
    aparece, logo abaixo do início do texto, ao lado do nome da Vivina.
    Postei o conto no dia 13 de dezembro de 2009.
    Espero que você volte ao site. E que visite também o outro, irmão dele, o 50
    Anos de Filmes.
    Um grande abraço.
    Sérgio

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