O elefante na sala

Eles são um terço dos brasileiros e representam o maior fenômeno de massas dos últimos quarenta anos. Resultado do êxodo rural e do processo de transformação do Brasil de uma sociedade agrária para essencialmente urbana, os evangélicos são, na sua grande maioria, pretos ou pardos e pobres. Vivem nas periferias dos grandes centros, onde o Estado é ausente, em situação de vulnerabilidade e incertezas. Continue lendo “O elefante na sala”

A direita jacobina

Historicamente o conceito de revolução, entendido como a ruptura da ordem vigente e a construção de algo novo, está associado à esquerda. Já a direita sempre foi vista como conservadora no sentido da manutenção do status quo. O documentário Four Hours at the Capitol de Jamie Roberts sobre a invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, por uma horda de trumpistas enfurecidos, evidencia a existência atual de uma “direita revolucionária” que pretende derrubar o sistema e suas instituições democráticas. Continue lendo “A direita jacobina”

Ano novo, desafios antigos

O Brasil ingressa no ano do seu bicentenário carregando o fardo de mais uma década perdida e atormentado por dois binômios perversos: estagnação-inflação e fome-desemprego. Nossa economia anda de lado, crescendo em média 0,3% ao ano entre 2011 e 2021. O ufanismo do ministro da Economia, Paulo Guedes, quanto a um PIB turbinado em 2022 não é compartilhado pelo mercado ou especialistas, cujas projeções apontam para mais um ano de economia estagnada, beirando a recessão. Continue lendo “Ano novo, desafios antigos”

O fim da União Soviética, pátria-mãe do socialismo

Há exatos 30 anos a bandeira vermelha, com a foice e o martelo cruzados e uma estrela amarela na sua parte superior, tremulou no Kremlin pela última vez. No dia seguinte foi substituída pelas listas azul, branca e vermelha, a mesma da velha Rússia czarista. Continue lendo “O fim da União Soviética, pátria-mãe do socialismo”

O segundo não a Pinochet

Chama a atenção uma coincidência entre o resultado da eleição chilena, na qual saiu vitorioso Gabriel Boric, candidato da Frente Ampla em aliança com o Partido Comunista, e o plebiscito de 1988 que pôs um fim na ditadura de Augusto Pinochet. Naquele ano o não ao ditador venceu por 55,9 a 44,1%. No domingo Boric se elegeu com os mesmos números, até após as vírgulas. Continue lendo “O segundo não a Pinochet”

A social-democracia ressurgiu das cinzas

Portugal com a sua “geringonça”, a improvável coligação de governo entre os socialistas e mais três partidos de centro-esquerda que desde 2015 governou o país, era uma espécie de aldeia de Asterix no continente europeu, na qual a social-democracia resistia bravamente à onda nacional-populista que varreu a Europa. Ali os trabalhadores, que eram historicamente base de sustentação da centro-esquerda, passaram para a direita populista, votando em Mateo Salvini na Itália, Marine Le Pen na França, Boris Johnson na Inglaterra, Victor Orban na Hungria. Continue lendo “A social-democracia ressurgiu das cinzas”

O Bolsonaro que vai às urnas

É visível a mudança de estratégia de Jair Bolsonaro. O candidato antissistema de 2018 repaginou-se. Não por boniteza, mas por precisão, como o sapo de Guimarães Rosa. Quando elegeu-se presidente, vestiu a fantasia de outsider, apesar de ser um político com 30 anos de mandato. À época, o eleitorado estava em busca de um candidato “diferente de tudo o que está aí”, capaz de empunhar a bandeira da anticorrupção e de ser alternativa ao desastre dos anos petistas de Dilma Rousseff. Continue lendo “O Bolsonaro que vai às urnas”

Lula, o camaleão

Uma leitura otimista sobre o recente périplo de Lula pela Europa, quando foi tratado como estadista pela mídia e governantes europeus, veria na sua viagem uma importante inflexão do presidenciável petista em direção ao centro. Com ela, o candidato estaria acenando com uma relação mais estreita para as democracias ocidentais, em especial com a social-democracia europeia, que está no poder em países importantes como a Alemanha e a Espanha. Continue lendo “Lula, o camaleão”

Às favas os escrúpulos liberais

Quando assumiu o papel de czar da economia do governo Bolsonaro, Paulo Guedes tripudiou sobre todos seus antecessores desde a redemocratização. Segundo ele, o país teria experimentado mais de 30 anos de governos social-democratas, responsáveis, no seu entendimento, pelo baixo crescimento econômico. Sem deixar pedra sobre pedra, e desconhecendo qualquer contribuição dos governos anteriores, prometeu a recriação do Brasil por meio de um choque ultraliberal. Continue lendo “Às favas os escrúpulos liberais”

Esqueletos da esquerda

Eram 18 horas de 23 de março de 1971 quando Márcio Leite de Toledo se aproximou da Rua Itaipava, no bairro da Bela Vista em São Paulo. Estava acompanhado dos membros do comando nacional da Aliança Libertadora Nacional. Levava em uma das mãos uma capa de chuva e no bolso sua carta de desligamento da ALN, com a qual tinha entrado em divergência política ao propor o recuo das ações armadas que a organização vinha realizando desde 1968. Continue lendo “Esqueletos da esquerda”

Forças e fraquezas da terceira via

A terceira via atravessa uma situação paradoxal. De um lado, setores que foram pilares da candidatura de Jair Bolsonaro em 2018 – como os empresários e até mesmo os militares – começam a apostar em uma alternativa na próxima disputa presidencial que evite a polarização de 2018.

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Anunciaram e garantiram que os tucanos iam se dividir

Como na música de Assis Valente, o mundo não se acabou após a realização do primeiro debate dos presidenciáveis inscritos nas prévias do PSDB, promovido pelo jornais O Globo e Valor Econômico. Quem esperava caneladas entre os tucanos Arthur Virgílio, João Doria e Eduardo Leite se surpreendeu com o clima civilizado. Continue lendo “Anunciaram e garantiram que os tucanos iam se dividir”