me escondo na toca mais escura,
cavo meus túneis protetores,
abro janelas camufladas Ler Mais
eis-me aqui, no apartamento. o menino ficou em São Paulo e eu voltei. após uma limpeza, coloquei o mínimo necessário: um colchão no chão, um chuveiro e uma tábua sobre três tijolos. sobre a tábua coloquei vasos com plantas. no chão da sala ainda uma peneira grande cheia de frutas. na cozinha foi deixado um fogãozinho de duas bocas, que funciona. Ler Mais
mexemo-nos na cama. o menino já deve ter dormido. num momento, meu pai rompe com o silêncio. Ler Mais
à noite, deitados, pergunto a meu pai:
que música pra hoje?, pai. mas o menino é mais rápido:
pai, ponha uma música… que não seja clássica.
posso escolher? Ler Mais
no café, o menino:
pedi uma história de vida e você contou uma história de morte.
nada disso, mocinho. minha história é de vida. Ler Mais
pai, leia uma história antes de nós dormirmos. uma história de vida.
uma história? vou então ler uma que eu traduzi do Esperanto.
como se chama?
O pássaro todo maravilha. Ler Mais
na manhã seguinte, durante o café:
vovô, o diabo existe?
existe. diabo é o nome da burrice humana. Ler Mais
percebi aos poucos que nenhum de nós conseguira dormir. de vez em quando alguém se mexia. meu pai era o mais discreto. finalmente, o menino:
pai! Ler Mais
estamos deitados, cada um no seu colchão. temo que o menino não durma logo porque hoje, ao contrário da tarde de ontem, quando ele ficou perambulando com os cães, hoje ele dormiu praticamente o dia inteiro. comeu em horas erradas e não falou absolutamente nada. Ler Mais
pai, qual é a música mais triste que você conhece?, perguntou-me meu filho. já estamos deitados nos nossos colchões. o dia foi pesado. meu pai não conseguiu esconder aqueles olhares em que eu comecei a perceber um tipo de censura muda. Ler Mais
meu filhinho como que está só em presença da morte. Isaías falou e Pedro repetiu, séculos depois:
toda a carne é erva
e todo o seu encanto é uma florzinha campestre; Ler Mais
não gostaria de viver novamente aquela manhã. não podemos escolher: atendemos ao telefone e alguém nos dá a notícia; abrimos a porta e nos deparamos com a notícia; recebemos o telegrama ou a carta e ei-la, a notícia. a coroa do silêncio. Ler Mais
Capitalismo e Socialismo.
Primeiro movimento: nem alegre nem triste. Ler Mais
Kamala estragou alguns canteiros. meu pai nunca se impacientou.
os grandes fazem o mesmo. irracionais são o que são. vamos ensinando, talvez eu cerque este trecho do jardim pra você. Ler Mais
há um apavorante silêncio em torno de mim. sei bem que há sons me envolvendo mas não sou capaz de decifrá-los. Ler Mais