Um personagem liberto do autor

O autor não responde por gestos e palavras do personagem desta história. Esse tipo tem hábitos de trato social e costumes muito diferentes daqueles de seu criador – minha modesta pessoa. Tenho-me por cidadão equilibrado, razoável, sobretudo educado. Aquele… tire suas conclusões, pelo episódio que segue.

Debruçado sobre o laptop, este narrador malhava o teclado na construção de uma história descansada sobre o cotidiano da cidade. O personagem que a encarnava vinha até então sob controle da narrativa. Placidamente, caminhava por uma alameda florida iluminada pelo sol vivo do verão.  Às vezes cruzava com outras pessoas igualmente em bom espírito de paz. Cumprimentava-as, e recebia prazeroso retorno.

Foi assim até encontrar a loja de departamentos. Vacilou um momento. Interromper o passeio, em busca de uma bomba de chocolate na doceria, ou seguir adiante, cuidando apenas da alma? O doce, sim; e um copo de leite quente.

Pouco tempo passado, com a boca ainda adocicada, estava de volta ao corredor da loja. Não caminhou dois passos, viu a cena impressionante. Uma senhora volumosa, fortemente maquiada, embalada por vestido de padrão chamativo, uma grande bolsa a tiracolo, tentava impedir que fossem ao chão uma meia dúzia de caixas, pequenas e grandes, contidas por um saco plástico que se rasgara.

A parti daí perdi o controle dos dedos na digitação do texto. O personagem impôs-se. O homem amável da boca adocicada ficou horrorizado. Irritou-se. Mostrou sua verdadeira natureza. Aproximou-se da mulher, cuspiu no chão, e lançou: “Isso só acontece com uma perua balofa, gastadora e horrorosa como você.” As caixas por fim esparramaram-se pelo chão. “Se pensa que vou ajudar em alguma coisa esquece, bruaca.” A mulher sacou a bolsa do tiracolo e partiu para o ataque.  Ele, na defensiva. “Para senão eu te cubro de porrada, sua…”.  Nesse momento, com muito esforço, consegui o domínio de um dedo, alcancei o mouse e fechei o texto.

Esperei uma hora para religar o laptop e reabrir a narrativa – por garantia, sem retirar a mão do mouse. O texto terminava mesmo em “vou te cobrir de porrada sua…”. Qualquer pessoa no meu lugar teria deletado a intromissão toda, mas me recuso a fazê-lo. Dou-me por capaz de superar a situação. Assim, continuei com o que vai abaixo.

Subitamente, a expressão no rosto do homem se suaviza, ele esboça um sorriso cativante, ergue as mãos e pede paz. “Minha senhora, sinto imensamente pelo desconforto que lhe estou causando. Sou um ator, apenas estava testando situações.”

E antes que ela tenha tempo para recolher o queixo caído, dá instruções. “Não mexa em nada, deixe que vou resolver esta situação.” Entra em uma loja, pega dois sacos plásticos, recolhe as caixas do chão, guarda-as cuidadosamente nos sacos e entrega-os à mulher. Ela os recebe prazerosamente. “Oh, muito obrigada.” Dá dois passos, e volta-se para o cavalheiro, com um sorriso: “E desculpe pelas bolsadas…”.

Nesse momento uma escrita autônoma surge na tela. “Vá pra”. E fica nisso, pois por prevenção eu estava com a mão no mouse e fechei o texto. Daqui a uma hora reabro e completo a frase. “Vá pra casa em paz.”

Junho de 2020

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