O Filhote. Capítulos IV a VI

CAPÍTULO IV – A SURRA DE CHICOTE

Qualquer que fosse a gravidade das estripulias que o “bando” praticava, quase sempre tudo já estava esquecido no dia seguinte. Só que, então, voltavam a fazer de novo tudo o que estava proibido. Entretanto, um dia algo mudou suas vidas para sempre e elas nunca mais foram como antes. Mesmo porque, se alguém descobrisse os autores, eles certamente teriam ido parar no Juizado de Menores em Ribeirão Preto ou até mesmo sofrendo o pior: internados numa instituição de correção infanto-juvenil.

Coincidentemente, naquela manhã “Quinzinho” voltava da escola sozinho e ao pegar a trilha acompanhando a linha da Mogiana, caminho mais usado para chegar em casa, viu o manobrador, que morava numa construção ao lado da pequena e antiga estação, indo em direção à outra, a da Paulista. Na hora lhe veio a ideia de satisfazer um desejo quase incontrolável: roubar umas manguinhas que pendiam maduras do pé em frente à residência. O desejo tinha razão de ser: eram frutas tão pequeninas e tão doces que pareciam ameixas. Dava para enfiar uma delas inteira na boca, chupar o néctar de sua polpa e depois cuspir a casca e o caroço.

O fez sem sequer imaginar que aquele homem abrutalhado, conhecido por sua valentia, braveza e violência, pois vivia se metendo em brigas na Boca da Onça, poderia voltar de repente e apanha-lo no flagra. Mas criança é criança o tempo todo e em qualquer lugar do mundo: não tem ideia da dimensão do perigo e nem das consequências dos seus atos. Então, foi exatamente isso que aconteceu. “Quinzinho” estava lá em cima, sentado numa forquilha, maravilhado com as frutas amarelinhas apanhadas e guardadas dentro da camisa branca do uniforme, que virara um embornal depois de lhe dar um nó nas fraldas em volta da cintura.

Apanhador entretido em roubar o máximo de manguinhas, o que lhe esperava foi o pior. O manobrador voltou, entrou por um portão dos fundos dando para a estrada que começava na vila, ia até o “Xirota” e de lá, depois de atravessar a ponte de ferro, levava até Rincão, município separado de Guatapará pelo Mogi Guaçu. Ele ouviu o barulho na mangueira e não teve dúvidas: com um chicote de couro trançado, ponta de três talas, daqueles usados pelos vaqueiros e amansadores de cavalos xucros, o fez descer com uma lambada atrás da outra. Depois, sem dó nem piedade, com o menino caído no chão, ameaçou:

— Não quero você perto daqui nunca mais!!! Nem passe em frente. Se eu lhe pegar volto a lhe surrar até sangrar ainda mais…

E se foi para dentro da casa, batendo a porta. Enquanto isso, em lágrimas, com a camisa branca da escola misturando sangue e restos das manguinhas grudadas junto ao corpo, “Quinzinho” procurava seu cajado a fim de poder voltar para casa.

 

CAPÍTULO V – A SURRA DE VARA DE GUANDU

Foi penoso e dramático demais percorrer o trajeto até o pontilhão junto à guarita e mais doloroso ainda atravessar a passagem de arame farpado para chegar em casa. Não havia viva alma na frente da colônia e por isso não foi visto naquele estado, vítima de uma surra que se arraigaria na sua memória e passaria a fazê-lo reviver o tempo todo os horrores daquele momento. Lambadas que lhe deixaram para sempre uma cicatriz de mais ou menos uns vinte centímetros na parte interna do braço esquerdo, pouco abaixo da axila.

Quando entrou em casa, sua irmã Maria Regina, de pouco menos de quatro anos, brincava na sala. Tratou de esquivar-se dela para que não o visse naquele estado. Mas quando foi para a cozinha tentar beber um pouco de água, a mãe, que acabara de estender roupas num varal do quintal, entrou, se assustou e assim como ele fez cara de espanto. Entretanto, antes mesmo de lhe perguntar como estava me sentindo, quis saber do filho de 12 anos o que ele fizera desta vez. As crianças, diante da braveza das mães, quase sempre mentem sobre o tamanho da arte e quando possível escondem os detalhes mais graves.

De repente o menino viu uma calma aparente tomar o rosto de dona Alice, pois esperava pelo pior. Porém, ele veio pouco depois. Ela saiu, foi até perto do poço, apanhou uma vara de feijão guandu, desfolhou até quase a ponta, voltou e lhe deu uma tremenda surra em meio a ameaças que ela jamais cumpriria. Depois, substituindo a braveza pelo amor de mãe, o fez despir a roupa toda suja, cortada pelo chicote do manobrador, encheu uma bacia com água, que mornou com aquela que estava numa chaleira na trempe do fogão a lenha, adicionou um pouco de cânfora e lhe deu um banho. Foram momentos ainda mais doloridos os que ele enfrentou depois das duas surras. A mãe o enxugou, passou iodo nas feridas, perguntou-lhe se queria comer e diante da negativa, com um gesto surpreendente de amor e carinho que só as mães conseguem demonstrar, o abraçou, levando-o até cama, e o pôs para dormir. “Quinzinho” passou o resto do dia e depois a noite inteira com febre e pesadelos, vendo um chicote de couro trançado, ponta de três talas, voando sobre ele.

Quando o pai e os irmãos quiseram saber o que acontecera, a mãe o protegeu, inventando uma história plausível: ele caíra no meio de uma moita de joá bravo e se machucara todo nos espinhos. E não mais se falou sobre o assunto, pois devido às dificuldades para andar o menino vivia caindo e se ferindo, algumas vezes até com alguma gravidade que o impedia de ir à escola durante um bom período. Daquela vez, no entanto, foi menos tempo. Todavia, por uma semana “Quinzinho” não pôs a cara fora de casa.

 

CAPÍTULO VI – A DESFORRA

Depois que os ferimentos cicatrizaram, “Quinzinho” voltou à escola. Entretanto, uma ferida maior e mais profunda ainda estava latente em sua alma e toda vez que passava pelos fundos da casa do manobrador – seguiu obedientemente suas ordens e não mais usou o caminho ao lado dos trilhos para ir à e voltar da escola – aumentava seu sentimento de raiva. Aos poucos ele a dominou e passou a raciocinar com maior clareza sobre que tipo de vingança poderia arquitetar para fazer o cruel brutamontes pagar pelo que lhe fizera.

Nessa época, era comum os amigos se encontrarem na estação para um convívio social que durava geralmente do pôr-do-sol até a chegada e partida do trem da Paulista, o das 7h40 da noite, que vinha de São Paulo e ia até Barretos. Naquele interregno curtiam também um passeio no vagão de passageiros do trem da Mogiana. Assim que a composição chegava, poucos depois das 7, e tão logo feito o desembarque da bagagem – mercadorias para baldeação com destino a outras estações -, era levada de ré para fazer uma manobra no trecho chamado de “triangulo”. Ou seja, com a chave virada ela entrava em um desvio, ia até perto da ponte de ferro e depois seguia de frente até às proximidades da guarita que testemunhou o sofrimento de “Quinzinho” para chegar em casa depois da surra que levara do manobrador. Assim, ao retornar para a estação, também de ré, ficava de frente, pronta para receber passageiros do trem da Paulista e as encomendas que teriam como destinos finais Ribeirão Preto e as localidades intermediárias localizadas ao longo do trajeto até a chamada “capital do café”.

Esses “passeios”, feitos às escondidas do verdugo, duravam somente alguns minutos e geralmente terminavam com a bronca do seu Alcides Camargo, chefe da estação da Paulista, que temia ver um dos aventureiros acidentado durante essa peripécia. Porém, as reprimendas eram em vão: na noite seguinte lá estavam eles de novo, repetindo a mesma traquinagem.

Pois foi num desses “passeios” que “Quinzinho” teve o estalo. Dali em diante começou a arquitetar com detalhes o plano diabólico que lhe veio à cabeça e que seria, provavelmente, o primeiro atentado terrorista praticado contra a Mogiana e a um de seus empregados em Guatapará.

Reuniu três dos seus colegas de infância em quem mais confiava – identidade que preservou na época e preserva até hoje – e lhes expôs seu plano. Como eles sabiam com detalhes o que o manobrador lhe fizera, aceitaram participar. Lhes fez uma única exigência: guardar segredo absoluto. E assim o fizeram: jamais abriram o bico, confirmando a fidelidade e a lealdade àquela amizade.

Naquela noite, nem eles nem “Quinzinho” participaram do “passeio”. Ficaram escondidos no meio de algumas moitas de feijão silvestre, chamado de fedegoso, entre o galpão que servia de depósito de mercadorias da Paulista e a chave de mudança de trilhos, onde eles se encontravam numa bifurcação chamada de “jacaré”. Com o coração quase saindo pela boca, tamanha a carga de adrenalina, ouviram quando a locomotiva se aproximou, passou por eles e foi até o fim do triângulo. Depois, ela voltou e como sempre era feito, foi de ré estacionar na estação à espera do momento de partir para Ribeirão Preto. Foi então que o “chefe” da pequena “quadrilha” fez o último preparativo para o ato terrorista: com a ajuda dos amigos, “Quinzinho” virou a chave mudando a conexão para o desvio e os quatro voltaram a se esconder.

Foram intermináveis momentos de espera, tensão que nem mesmo a chegada do trem das 7h40 conseguiu aplacar. Até que, uns 15 minutos depois, ouviram o apito da locomotiva da Mogiana anunciando a partida. O trem – máquina, vagão bagageiro e outro de passageiros -, veio vindo, vindo e a “maria-fumaça”, bufando, bufando, ganhou velocidade e passou por eles. Não na direção de Ribeirão Preto e, sim, saindo pela direita, para se chocar com o parapeito, descarrilhar e quase ir parar no fundo do Mogi Guaçu. Assustados com a dimensão do atentado que haviam acabado de praticar, o bando de pequenos terroristas fugiu depressa, todos protegidos pela sombra da noite sem lua.

“O Filhote”, romance de Plínio Vicente da Silva, está sendo publicado em capitulos.  

Para ler os três capítulos anteriores.

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