Gozado, o Odair. Cabo eleitoral, e não gostava da urna

Odair era um bom militante do partido. Só tinha um defeito: detestava votar. Fazer boca de urna, fazia, mas ficar na fila, mesmo pequena, encarar o mesário e a urna, não combinava com seu temperamento. Pelo menos é o que dizia. Preferia depois, com calma, justificar a ausência.

A militância achava graça. Mas quando os ares viraram, e a reeleição da presidente, até então favas contadas, balançou, o partido tomou severas providências. Era preciso conquistar novos eleitores, multiplicá-los. Fizessem um trabalho de formiga, voto por voto se preciso, pois a vitória no primeiro turno era fundamental.

Odair esteve entre os mais produtivos. Conquistava as pessoas com uma naturalidade amável. Estendia a rede, e os eleitores pulavam nela.

Veio a eleição. No começo da noite, a candidata estava quase reeleita. Certeza, ninguém tinha. Angústia, torcida, mas fechada a derradeira urna a militância explode. Vai para as ruas, em festa. Até que alguém dá o alarme.

– Pera aí, gente. A Globo tá falando que morreu na praia.

Sacam-se celulares. Confirma, não confirma. Por fim, vem a verdade. A lei estabelece que vitória em primeiro turno exige 50% dos votos, mais um.

– Só pegou os 50%. Faltou um!

Começou a caçada a Odair, que nunca mais foi visto.

Setembro de 2013

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