Quando os Repórteres Usavam Revólveres (6, e último)

Fúlvio, o escrivão, compreendeu a situação dos rapazes da sala de imprensa. Pediu dez minutos para tentar saber o que estava havendo. “Com cuidado, vocês sabem. Oficialmente não poderia fazer isso.”

(Para ler o capítulo anterior, clique aqui.)

– Meu marido acabou sabendo dos sumiços de Laura nas terças e quintas. Não gostou nada. Farejou a coisa no ar. Um funcionário da empresa, de sua confiança, entrou em ação. Em poucas horas Washington sabia de tudo.

– Ficou furioso…

– Eis a questão. Furioso, ficou. Mas o grande problema, para ele, era outro. Vou ser sincera… É difícil para mim… Mas já que comecei… O problema era eu. Meu marido é uma pessoa muito formal, de hábitos rígidos, do tipo que costumamos chamar de ‘todo certinho’. Sempre se sentiu uma pessoa sem charme, o avesso do que seria um galã. Tem um terrível e despropositado sentimento de culpa com relação às nossas intimidades. Não se trata de qualquer deficiência… os senhores compreendem… apenas acha que não é um parceiro excitante, capaz de estimular uma mulher além do meramente convencional. Com a descoberta da outra vida de minha irmã, pôs-se na cabeça que eu acabaria por sucumbir à mesma fantasia.

– Mas isso não faz sentido – Castilho ajeitou-se na cadeira. – São personalidades inteiramente diferentes.

zzvaldirsanches– Não faz para o senhor, nem para mim. Para ele, passou a ser não só uma probabilidade, como uma certeza. Passou a odiar Laura. Ele podia expulsá-la de casa, mas não impedir que vendesse seu corpo num lugar sórdido. Em suas alucinações, convenceu-se de que eu teria o mesmo destino e ele também não teria como impedir-me.

– Então eu recebo o jornal e vejo a foto de minha irmã, assassinada. Vi a foto e compreendi. Aquela era Laura, mas poderia ser eu, morta três vezes. A mensagem era clara. Eu, apunhalada no coração – afinal, era o meu punhal. No caso, uma réplica perfeita, que eu nunca vira. Ou eu, estrangulada com um dos cordões de uma de minhas peças de artesanato. Ou ainda eu, morta com veneno colocado na minha bebida predileta. Lembrem-se de que quem gosta de menta sou eu, não Laura. E, finalmente, o meu sangue escorrendo do corpo de Laura.

– Seu sangue? – Castilho, sem perceber, ergueu-se da cadeira.

– Sim, apenas dois dias antes ele veio aqui em casa com um enfermeiro, e colheu um pouco do meu sangue. Falou alguma coisa sobre exame de rotina na firma, queria me incluir… Mas quando saiam, me olhou de um modo estranho e sussurrou: ‘Quando chegar a hora você entenderá’. E eu entendi. Li nos jornais, o sangue que escorria no aposento onde… não era de Laura. Era o meu, naturalmente.

– Por isso havia pouco sangue no… apenas um pequeno filete – acrescentou Rago.

– Meu marido vingou-se de Laura, e usou sua morte para me mandar um mórbido recado: esse é o destino de quem se perverte. Se aconteceu com Laura vai acontecer com Deise. Foi engenhoso: os símbolos que eu compreendi claramente serviram também para confundir os senhores…

Os homens acenaram que sim, com a cabeça.

– Eu e Laura sempre fomos muito parecidas… fisicamente. Washington achou – não me disse, mas tenho certeza – que duas irmãs tão assemelhadas seriam iguais em tudo. Ele imaginava, com ódio, Laura se entregando no prostíbulo. Mas não via Laura, via a mim.

Calou-se.

Andrade Júnior, da Rádio da Cidade, ouviu a voz ao telefone e anotou um endereço. Bateu o telefone. Tudo o que conseguiu dizer foi “Fúlvio”. O endereço era do Jardim Europa. O delegado estava lá, e ninguém duvidava que Rago também.

Os rapazes se equipam rapidamente. Câmeras, flashes, blocos de anotação, revólveres. Passam pela sala do delegado, sem notar que a cadeira estava vazia. Saem às pressas para a Rua do Carmo. Não há carros de reportagem à espera. Precisam de táxis. Não há táxis. Sobem para a Praça da Sé. Na praça há um ponto de táxis. Havia dois deles, suficientes para todos. Mas um começa a ser ocupado por um passageiro. Os rapazes se desculpam como podem, o passageiro sobra.

Sentado na cadeira, Castilho esperou por um momento. Percebeu que Deise dera seu relato por encerrado. Rago não estava satisfeito. Por que Deise escondera o punhal e a outra peça? Por que tentara, em sua conversa da véspera, desviar a atenção quando falava em Washington? Castilho reacomodou-se.

Deise entendeu que os homens não sairiam tão cedo. Chamou a criada, e disse para os visitantes:

– Aceitam um café?

Os motoristas dos dois táxis baixam a bandeira do taxímetro. Dão à partida. O motor dos Chevrolet estremece e começa a funcionar. Nesse momento, ouvem-se gritos. O quê…? Um homem encorpado vem correndo pela praça. Quem…? Reconhecem Miguelão, investigador da Central, um bom sujeito. Chega agitado.

– Onde vão? Voltem para a Central. Tem uma bomba para vocês.

O Vampiro estava preso.

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André Noronha tirava um plantão modorrento, na Central, quando veio o aviso. Numa casa do Pari, perto do Pátio Ferroviário, um rapazola acenara por um vitrô para as pessoas que passavam. A uma mulher que se aproximou, deu a entender, por gestos, que estava preso e com a vida em risco. Tomada de grande angústia, a mulher, dona de casa, mãe de seis filhos, invadiu um escritório de despachantes e pediu que ligassem para a polícia.

O delegado da Central foi chamado. Deixou a Rua do Carmo com sirena aberta. Quando chegou à casa do garoto no vitrô – um sobrado – seu colega da delegacia do bairro, Vitor Souza, estava na sala, interrogando um sujeito estranho. Vestia longa capa preta, de gola alta, e roupas da mesma cor. Mas não conseguia se impor como figura sinistra. Era pequeno, um pouco roliço, com bochechas de bebê e olhinhos claros redondos.

– Esse é o Vampiro? – perguntou Noronha, desconfiado.

Souza chegara minutos antes. Deixou Noronha com o suspeito e subiu ao andar de cima. O garoto do vitrô estava trancado em um quarto, atrás de uma porta com grades. Foi preciso subir com o vampiro para abri-la.

– Quem é esse? – perguntou o preso, um rapaz de uns catorze anos, ao ver o vampiro.

Souza não entendeu nada. Mandou o outro abrir a porta.

– Não posso… não sei onde deixei a chave…

Parecia aterrorizado. Começou a tremer.

Noronha espera, embaixo, na sala. Subitamente, um rangido ressoa sob a escada. Ali, um alçapão começa a ser aberto. O delegado puxa sua arma. A figura de um homem de cabelo e sobrancelhas pretos, espessos, rosto ossudo, coberto por uma barba negra rala, começa a incorporar-se para fora do fosso do alçapão. Usa calça e blusa escuros. Quando põe meio corpo para fora, sente o cano de um revólver em sua têmpora.

– Saia devagar – diz Noronha.

O outro obedece, calado. Mas se mantém ereto, com o semblante fechado. Olhos duros, sinistros. Souza vem descendo com o falso Vampiro, de olhinhos redondos. Os dois delegados se entreolham.

– Você pegou o falso, e eu o verdadeiro – diz Noronha para o colega. Mas sem sorrir. A situação é tensa.

O barba negra causa receio. O revólver continua em punho.

– Quem é você, o que faz? – pergunta Noronha.

O outro não responde.

A pergunta é repetida.

– Sou ator.

O delegado chama por um investigador, que está fora, na calçada. Entra pela porta meio aberta e recebe a ordem.

– Algeme esse sujeito.

O Vampiro é algemado com as mãos nas costas.

Ouve-se o garoto chorando, na cela.

– Esse não sabe onde está a chave… – diz Souza. – Lá em cima há uma cela, trancada.

– Onde está a chave? – Noronha pergunta.

Nenhum dos dois vampiros responde.

Noronha grita:

– Falem, porra.

O mais novo aponta para o fosso do alçapão.

– Lá embaixo.

O delegado desce com ele. Uma escada de madeira, como as de pintor, leva a um aposento não muito pequeno. Sem janelas, ou qualquer tipo de ventilação. Muitos cartazes com fotos de Drácula. No centro está algo parecido com uma maca. Atrás, numa prateleira rústica, o arsenal do vampiro. Duas próteses de aço, com o aspecto de longos dentes caninos. Objetos perfurantes. Pontaletes, tesouras, um punhal. Em outra prateleira, menor, veem-se alguns livros. No de cima, destaca-se o nome da obra: Nosferatu. Perto deles, pendurada na parede, uma chave. O vampiro novato estica o indicador para ela. O dedo, tremendo. Noronha apanha-a, chama Souza e passa-lhe a chave.

Não passam três minutos, ouvem-se vozes na sala, um certo alarido. Os rapazes da imprensa e o pessoal da perícia chegaram. Com mais um minuto, testemunham um fato desconcertante. Um delegado desce as escadas com um vampiro, outro sai pelo alçapão com um segundo vampiro.

Nesse momento, Venâncio, alertado pela redação, desce de um táxi. Abre a porta e se assusta.

– O que é isto? Estamos na Transilvânia?

Os delegados preferiam interrogar os suspeitos, mas não havia como conter os repórteres. O rapazola retirado da cela, resolve a questão. Assustado, mal controlando os nervos, põe-se, aos tropeções, a falar.

O empregadinho de uma loja de generalidades recebe ordens de entregar um pacote em certo endereço. Trabalho de rotina. É recebido pela pessoa que agora está a seu lado, cognominado Vampiro, e convidado a entrar. Serve-lhe um lanche com sorvete, e propõe que venha outras vezes.

Na segunda vez, sugeriu que ficassem nus, o que o convidado rejeitou. Mas voltou uma terceira vez. Agora o barba negra serviu-lhe um refresco, e saiu. Minutos depois entra o Vampiro. O barba vestia portentosa capa com gola erguida, colete e calças pretos, uma medalha enigmática pendendo do pescoço. Convida para ver seu esconderijo. O outro acha engraçada a fantasia; desce a escada de pintor, curioso. Está um pouco tonto…

O Vampiro manda – manda – que tire a roupa. Não tem como desobedecer. Seguindo ordens, deita na maca, de bruços.

Muito tonto, agora. Visão turva.

Desperta deitado de costas, com os braços sobre o peito. Como estava assim, se há apenas um minuto achava-se de bruços? Um minuto? Percebe que bom tempo se passara. Só então dá-se conta de que está em grave perigo. O refresco tomado na sala tinha alguma coisa… Lembra-se do vampiro que ataca rapazes. Os jornais contam. Salta da cama alarmado, para correr, safar-se dali. Dá de frente com o Vampiro.

O ser sorri, e o gesto mostra seus caninos descomunais. Avança sobre o rapazola, mas este está bem desperto. Resiste. Por pouco não derruba o outro. Então, o Vampiro puxa um punhal e manda que se aquiete. A resistência da cobaia o irritara. Fala, com a língua enroscando um pouco nos caninos postiços. O tom, no entanto, é de queixa, mágoa.

– Você pôs tudo a perder, não posso mais executar meu ritual. Vou sofrer por muitas horas, por esta decepção. Mas amanhã estarei recuperado. Então…

Voltam o sorriso e a ameaça dos caninos.

– Vou contar como será. A primeira parte já fiz, tentei possuir você… entenda, sexualmente. Faço isso com meus meninos, para ficar livre de desejos carnais. Mas com você não aconteceu… acho que tive dó. Agora vou mordê-lo com estes dentes de aço. Não o pescoço, porque poderia atingir a jugular e sangrar muito. Não é assim que eu quero. Atacarei seus braços. Sairá pouco sangue, mas é parte do ritual. Será suficiente para eu lamber esse sangue, sentir seu cheiro, seu gosto… Quando me satisfizer, vou pegar aquele pequeno pontalete – mostrou na prateleira – e perfurar suas veias. Isso estimulará minha libido, e, enquanto você sangra, alcançarei um prazer indescritível.

A presa está em pânico. Tenta novamente reagir. O vampiro espeta seu peito com o punhal. Pouco dano, mas o suficiente para mantê-la submissa. Assim é levada até o quarto-cela.

O relato é ouvido em silêncio, na sala do sobrado. Não mudou a minimamente a expressão do Vampiro. Então os rapazes o crivam de perguntas. Uma voz soturna sai, como se fosse à força, da boca orlada pela barba negra.

– Direi apenas o seguinte. Sou um estudioso do vampirismo, e como tal coleciono símbolos e imagens de vampiros. Nunca fiz mal a ninguém. Esse menino sofreu uma alucinação, ou inventou, propositalmente, uma história delirante.

Um dos rapazes intervém:

– Ele estava trancado em uma cela.

O outro faz um gesto de impaciência, pela intromissão.

– Ele concordou em passar uma noite na cela, que mantenho como cenário, para sentir o clima. Isso é tudo. Não cometi nenhum crime. Nada tenho a ver com ações criminosas ocorridas na cidade. Se querem me acusar, desistam. Não vão encontrar prova alguma contra mim.

Os olhares se voltam, então, para o vampiro de olhos claros. Agora parecia calmo. Falou sem olhar para o outro.

– Sou só um curioso. Gosto de histórias de vampiro, não sei nada do que acontece nesta casa. Venho de vez em quando, fazer companhia ao…

– Nada mais do que simplesmente isso? – pergunta o delegado Souza, sugerindo cumplicidade.

– Bem, venho também namorar um pouco.

Os rostos adiam expressões de surpresa. Voltam-se para o alçapão. Assim como Noronha vira assomar o Vampiro, os rapazes notam José Antonio, o perito, depois seu assistente, sair para a sala. Pareciam felizes.

– Fizemos um pente fino no aposento do subsolo – anunciou o primeiro.

Apreenderam os caninos de aço e tudo o que poderia se transformar em prova dos crimes do vampiro. Os dentes de aço… O adolescente se descontrola, começa a chorar. Noronha o acalma. José Antonio continua.

– Estamos levando o colchão daquela coisa, parece maca, para exames, e todos os objetos que encontramos. Imaginem, em um canto há um buraco no chão, talvez de uma obra que seria feita e não foi. Lá estão coisas perdidas, que foram caindo ao longo do tempo, e esquecidas. Muito papel, uma caneta sem tampa, uma xícara com a asa quebrada, uma lâmpada queimada, um pé de sapato, uma saboneteira, um…

O rosto de Noronha ilumina-se. Interrompe o relato.

– Você disse sapato?

Sim, José Antonio retira de uma sacola e o mostra.

– Tratar-se-ia de um pé direito?

– Perfeitamente! Pé direito.

– Pois é – diz o delegado. – O corpo achado no caixote, na Ladeira da Memória, estava sem o sapato direito.

Venâncio não perdeu detalhe. Com disfarçada alegria, notava que Rago não estava por ali.

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Naquele momento, o concorrente entrava em uma farmácia, e pedia para usar o telefone. Discou o número da redação. Demoravam para atender. Percebeu que estava ansioso, e tratou de conter-se. Não queria jogar seu furo no ouvido de quem atendesse, como um foca. Pensava na alegria de Paulo Fortes, quando soubesse. Provavelmente ia…

– Alô? Sim, aqui é o Rago. Vinicius, tenho uma bomb… Estou com matéria forte sobre a morta do punhal. Furo.

Vinicius era o chefe de reportagem de turno.

– Onde você estava? Tentamos encontrá-lo, telefonamos para sua casa…

– Estava na casa do Jardim Europa, ouvindo uma história espetac… impressionante.

– Sim, mas você perdeu outra nada má. O Vampiro foi preso.

Se Rago tinha o maior furo de sua vida, sofreu a maior decepção de sua existência.

– E quem…?

– Mandamos o Nestor.

– O setorista… cobre Prefeitura?

– Era o que estava à mão.

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Caminha pela Avenida Ipiranga. Decidira não escrever o texto na redação. Também não podia fazê-lo à frente de todos, na sala de imprensa. Tomou um quarto de hotel. Pensou em descontrair, uma ducha quente… mas desistiu. Nenhum repórter com uma matéria queimando nas mãos faz outra coisa senão redigi-la.

A gerência providenciou, com muito prazer, uma máquina de escrever para o repórter do Post. É verdade que não a teria no quarto, desprovido de mesa. Foi levado ao escritório. Seis pessoas, trabalhando em suas mesas. O gerente se dirigiu ao mais novo.

– Este senhor precisa usar uma máquina.

– Pois não, pois não, pode usar a minha – disse o escolhido. Pegou uma cadeira e sentou-se em outra mesa, com um colega. Rago inspirava curiosidade e uma vaga desconfiança. Talvez o semblante fechado, devido à ansiedade, ou as maneiras determinadas provocavam o segundo sentimento. De qualquer forma, aquele homem não era uma pessoa comum.

Agradeceu ao que saíra, e sentou-se. Sobre a mesa havia folhas de papel em branco. Pegou uma e a ajustou ao rolo da máquina. E, tec tec tec tec, seus dedos eram ágeis.

“A mulher de Ronaldo Washington, um rico empresário, morreu três vezes sem morrer, no mesmo crime em que sua irmã foi assassinada e virou a “morta do punhal.” Não. Literatice, terreno movediço. Tirou a folha de papel da máquina, amassou-a e, sem perceber, jogou-a no chão, como fazia na sala de imprensa, quando estava muito agitado. O gesto causou um leve assombro nos funcionários. Percebeu a reação, pegou o papel do chão e colocou no cesto. Virou o rolo da máquina, e uma nova folha em branco ficou em posição.

“O cunhado de Laura Salles, a ‘morta do punhal’, mandou matá-la para dar exemplo à própria mulher. Temia que Deise, irmã da vítima, também fosse parar em um prostíbulo.” Não. Fez mais duas tentativas, sem sucesso. Qualquer jornalista sabe que, quando a abertura da matéria emperra, não sai mesmo. Desceu para o bar e pediu um guaraná gelado. Bebeu um copo. Apanhou o telefone sobre o balcão e começou a discar para Marion. Deteve-se a tempo. Ligou para Rúbia, a loira que impressionara tanto Armandinho, na redação. Rúbia, o peitão. Dez minutos de conversa sobre frivolidades.

Os funcionários do escritório viram o sujeito estranho voltar e tirar o paletó. Sentou-se à mesa e novamente virou o rolo da máquina com o papel. Uma hora depois, pegou o telefone sobre a mesa e discou um número. Logo começou-se a ouvir algo absolutamente fora de padrão naquele recatado local de trabalho.

“O mandante do assassinato de Laura Salles, a ‘morta do punhal’, é seu cunhado, o empresário Ronaldo Washington, do ramo de importação e exportação. Encomendou o crime a Miúro Ymazaki, integrante da Yakuza, a Máfia Japonesa, por recear que sua mulher, Deise, se entregasse…”

Chegou ao ponto final aliviado. Agora era com a redação. Com um dedo pescou o paletó da cadeira e pendurou-o às costas. Com a outra mão, acenou aos funcionários e balbuciou um “obrigado”. Estes ainda não estavam refeitos do espanto. Mas o que cedera a máquina de escrever respondeu:

– Nós é que agradecemos pela notícia em primeira mão.

O jornalista sorriu, e voltou a agradecer. Quem o visse acharia que era pessoa tratável.

Ao deixar a sala percebeu que não estava inteiramente tranquilo. Pensava no fechador da primeira página. Como decidiria sobre o que levar à manchete?

Paulo Fortes havia enlouquecido. Dava voltas em sua mesa, sentava-se e escrevia a manchete. Rasgava a lauda às gargalhadas. Subia à cadeira: “Senhores, o Vampiro merece minha manchete.” Para logo voltar a subir. “Não, não, meus caros. Estão enganados, se querem o Vampiro. A pobre morta. Sim, uma história diabólica. Vejam bem: exclusiva.” Foi preciso segurá-lo, porque ia despachando para a oficina uma lauda com o manchetão VAMPIRO CHUPOU A MORTA DO PUNHAL. A vinte minutos do fechamento acalmou-se. Sentou-se à maquina de escrever, com a cabeça entre as mãos. Em dez minutos, um contínuo desceu a primeira página para a oficina.

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No começo da madrugada Rago desceu para a recepção, pagou a conta e saiu. Achava-se bem-disposto. Havia, afinal, tomado uma ducha. E dormido um pouco. Lera os jornais, agora velhos, comprados pelo office-boy do hotel. Da Avenida Ipiranga pegou a São João, e assim chegou ao Largo do Paissandu. O Ponto Chic estava fervendo.

Subiu a São João e gostou do que viu no Bar Brahma. Animado, mas não cheio. Entrou. Nesse momento passou um jornaleiro com os jornais da madrugada. Era um rapaz apressado, gritava as manchetes de quando em quanto. Deu vinte passos e ouviu um assobio cortante. Virou-se, caminhou de volta e entregou um SP Post a Rago.

O Post exibia duas manchetes, amarradas por uma linha logo abaixo do cabeçalho.

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A Cidade Ferve

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Morta do Punhal – exclusivo

ENVENENOU

CUNHADA POR

MEDO DE CHIFRE

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PRESO VAMPIRO

QUE COMIA

MOCINHOS

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Conseguiu uma mesa de canto e pediu um uísque duplo. Leu o Post sem nenhuma pressa. A bebida descia-lhe bem.

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Rúbia trabalhava na chapelaria de uma boate, na Boca do Luxo. Loira, bonita, educada… e sensual. Outra que descobrira a sala de imprensa. Quatro dias atrás, Armandinho ligara:

– O peitão está chegando aí.

Rago saiu às pressas. Namorada estava bem, mas dispensava a intimidade de visitas ao local de trabalho. A entrada de Rúbia na sala não fora tão espetacular quanto a de Marion. A loira era mignon, graciosa. Os rapazes a trataram com cerimônia, porque Rago não gostara nada da agitação em torno da morena. Mas quando se debruçou sobre uma mesa, para escrever um recado, um frêmito coletivo deu a impressão de que as laudas estavam esvoaçando.

Agora pensava nela. Era hora do almoço. Fazia uma semana que os jornais haviam despertado a cidade com o furo de Rago e o fragor do Vampiro preso. O Diário, com uma manchete sóbria.

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Polícia prende

“Vampiro” matador

de adolescentes

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Rago ocupava uma das mesas cobertas por toalhas brancas do Restaurante Papai, na Praça da Sé. Recordava como Rúbia o havia salvado quando não conseguia começar a matéria. A conversa pelo telefone do hotel o destravara. Estava a ponto de decidir-se a presenteá-la com algum mimo, algo inteiramente contrário à sua natureza, quando Venâncio entrou.

A matéria do veterano repórter dos Diários sobre o Vampiro estava muito boa. Bem melhor do que a do Post. O colega de Rago que a redigira, Nestor dos Santos, era especializado em notícias da cidade, mas isso não estava em questão; um repórter cobre o que lhe vem pela frente. O problema é que, avisado em cima da hora, Nestor chegara tarde.

Venâncio sentou-se. Puseram-se frente a frente os dois repórteres mais experientes do noticiário policial. Respeitavam-se. Fora das agruras e disputas da cobertura dos fatos davam-se bem. Haviam combinado almoçar juntos, para uma conversa de profissionais.

O Vampiro… O garçom chega com o cardápio. Ainda tinham muito que conversar. Pedem chope. Venâncio fala.

– Os garotos pobres despertavam nele um certo sentimento paternal. Tinha-lhes pena. No princípio, procurava ajudá-los. Em questão de dias, era tomado por uma forte atração pessoal.

– Que acabava por estimular sua libido… – completa Rago.

– Sim, passava a desejar ardentemente o menino. Já então estava embaralhando toda a questão com sua obsessão pelo vampirismo. Sexo e sangue…

– E drogas?

– Não, não. James nunca usou drogas.

– Estranho esse nome, James…

– James Dean da Costa. Os pais deviam ser fãs. Pois bem, tem horror a qualquer forma de vício. Mesmo álcool, cigarro… Na essência, é um puro. Usava drogas – entendia bem delas – só para entorpecer suas vítimas, deixá-las à mercê de sua vontade.

Silêncio. Chope descendo goela abaixo, antes que esquentasse. Venâncio estala os dedos para chamar a atenção do garçom. Levanta dois dedos. Pedia nova rodada.

– Mas o sujeito não é veado? Como um parceiro inerte poderia…

– Eis a questão. Seu propósito era submeter-se ao outro, mas sabia que não conseguiria. Iria ferir sua forte moralidade – era um conservador severo – e seu orgulho pessoal. Nesse transe, decidia assumir o papel ativo. Mas na hora agá, com o menino ali, desmaiado na maca, sua consciência também vetava. Acabava por apenas tocar a vítima, resultando uma terrível frustração.

O garçom traz os chopes. O repórter do Diário aproveita a interrupção para contar que havia comentado, na sala de imprensa, sobre o encontro que teriam.

– Houve alguém que se interessou muito por vir também.

Garoto, claro. Seria bom para ele.

Rago deu um gole na bebida e retomou a conversa.

– Por que, afinal, ele os matava?

– Para encontrar, enfim, o prazer. Se não fora sexo, seria o vampirismo. O psiquiatra forense acha que havia também uma transferência de culpa. Os meninos tinham entrado em sua casa, em sua vida, despertado sua sensualidade, para nada. De certa forma, eram culpados. Mereciam a punição. James atacava os braços com os caninos de aço, depois furava-os com o estilete. E os deixava esvair-se em sangue. Só então satisfazia-se sexualmente, por seus próprios meios.

– Quantos Noronha acha que ele…

– Os homens de Noronha, ajudados pelas delegacias de bairro, estão fazendo um levantamento sobre adolescentes que desapareceram. Até agora…

– Espere. E aquele outro vampiro, bochechudo, de olhinhos claros?

Venâncio assumiu um ar divertido, que surpreendeu seu companheiro.

– Bem, bem. Quando o entrevistamos, logo depois da prisão, disse que ia ao sobrado para namorar. Era verdade. Só que, nesse campo, o vampiro que atacava era ele. Como alguém que ia espontaneamente, e mantinha uma relação… digamos, estável, James o aceitava sem problemas.

– E quanto ao número de vítimas?

– Por ora, só os três casos conhecidos. Mas a suspeita é de que há muitos mais…

Era a vez de Rago. Se algum vizinho de mesa estivesse atento, ia ouvir agora os bastidores do caso da morta do punhal. O repórter do Post começa a falar, mas pára.

– Onde estará Garoto? Vamos acabar a conversa e ele vai perder tudo…

– Deve estar chegando.

– Bem, o Washington queria livrar-se da cunhada excêntrica mas não tinha a menor idéia de como fazê-lo. Seu único envolvimento com o crime era o contrabando que sua empresa praticava, sob a fachada de importação e exportação.

– E pretendia o crime perfeito…

– Nada menos. Aí entra o Miúro. O japonês era da Yakuza, mas, no Brasil, tinha desenvoltura própria. Tornara-se um dos operadores mais ativos no contrabando da empresa de Washington. Pessoa ideal para você encomendar um crime: frio, eficiente, discreto. E com uma fachada legal perfeita. Cozinheiro de um pequeno restaurante.

Rago cala-se. Seu parceiro estranha.

– É que me ocorreu uma idéia trágica.

Ao falar do restaurante, lembrou-se que estivera lá fazendo perguntas. Se o japa suspeitasse dele, poderia ter temperado a refeição com aquele pozinho que mata sem deixar traços. Dito agora, era divertido. Venâncio riu um bocado.

– Bem, estou aqui, vivo – retoma Rago. – Washington fez uma abordagem discreta e Miúro entendeu tudo. Abriu o jogo sobre sua especialidade de despachar pessoas para o outro mundo sem que se percebesse. Fecharam negócio.

A cena do relato agora é o apartamento no treme-treme. Rago vai direto ao ponto.

– Ao vê-lo como um homem a procura de sexo, ela deve ter se deslumbrado. Um oriental. Uma nova experiência.

– Um corpo todo tatuado…

– Uma pitada, ou melhor, um balde de exotismo.

Um garçom que conhecia os dois repórteres, e percebeu a animação deles, fica por perto da mesa, ouvido atento. Rago nota-o e aproveita para pedir mais dois chopes. O homem se afasta frustrado, para buscar a encomenda. A conversa segue.

– O Castilho não tem dúvidas – eu também não – de que foi o japonês quem armou o cenário, criou os simbolismos endereçados a Deise, deixados no corpo de Laura. O punhal, o cordão no pescoço…

Há um ponto que Venâncio não entende.

– Por que ela mostrou o punhal e os cordões para você, e os escondeu do Castilho?

– Estava morrendo de medo do marido, mas com ódio dele, pelo assassinato… Queria denunciá-lo, mas não se sentia segura. Fui levado à saleta das artes para que descobrisse o fio da meada por conta própria. Quando Castilho apareceu – a polícia – perdeu a coragem. Recolheu o punhal e os cordões.

– Mas a garrafa de menta ficou.

– Pois é… Acho que devemos à garrafa o rompimento da barreira emocional de sua apreciadora. Na primeira conversa que tivemos, ela tentou safar o marido. Viaja muito, nunca sabe de nada… Estava insegura, com muito medo. Mas quando resolveu abrir o bico entregou o serviço completo…

– E o tal Dr. Washington?

– Está nos Estados Unidos, creio que na Califórnia. Castilho prometeu a ela que o marido entra em cana assim que pisar no Brasil. Já saiu o mandado de prisão. E o nome e o boneco do sujeito estão indo para o índex da Interpol. Não é para qualquer um ser procurado pela polícia internacional.

Tomaram os chopes. Daí a pouco pediriam um prato, e nada de Garoto. Azar dele.

– Agora é minha vez de perguntar – Venâncio disse. – Que provas há contra o Washington?

– Bem, você lembra que havia uma xícara de porcelana chinesa no apartamento da Laura? É uma peça preciosa, rara, da Dinastia Ming. O Castilho e eu concordamos no seguinte: o japa chegou como um freguês qualquer, já levando o veneno. Mas encontrou um problema: em todo o apartamento havia um único frasco, uma xícara para tomar café. Se houvesse bebidas e copos, pediria que ela o acompanhasse em um drinque, e isso lhe daria chance de adicionar o veneno. Mas um café… se pedisse um café, teria que tomá-lo sozinho.

– Só havia uma xícara…

– Imaginamos que, no segundo encontro, ele diz a Laura que gostou tanto dela que trouxe um presente. Dá-lhe a xícara rara. Ela se encanta. Gosta de arte, a peça é muito bonita. Dentro há um pozinho branco, quase invisível… Miúro diz que a xícara está limpa e, por tradição, não deve ser lavada antes do primeiro uso. Laura está empolgada, quer estreá-la. Faz café, sua bebida predileta; e, por educação, oferece a xícara com a bebida ao seu carrasco. Ele recusa, diz que só bebe chá. E além disso, a honra é dela…

Venâncio bate palmas.

– Belo teatro, quanta criatividade! Parabéns. Agora me explique: como vocês sabem que isso tudo aconteceu?

– Você tem razão. Não sabemos. São meras suposições. Mas, no fundo, como tudo se deu não tem muita importância. O que conta é que Laura foi morta pelo mesmo veneno achado na casa de Miúro. Que no apartamento foi encontrado um único frasco, a xícara da Dinastia Ming. Então, Castilho recebe um telefonema anônimo. Voz de homem. Dá um endereço, na cidade. Desliga. Assim o nosso bom delegado descobre o depósito de preciosidades raras do Dr. Washington. Um apartamento forrado de peças que fariam babar qualquer colecionador. A primeira linha de contrabando do doutor.

– E o que isso…

– Tem a ver que, no apartamento, estava o par da xícara usada no crime. Uma segunda peça, idêntica à primeira. Você pode ter certeza de que não existe nenhuma outra como essas duas no País. Só uma pessoa poderia ter passado a primeira xícara à Miúra: Washington. Por que foi usada uma peça tão valiosa? Para enfeitiçar a pobre mulher, deixá-la inteiramente desarmada diante do homem que ia matá-la.

Rago pára o relato. Olha diretamente para o colega:

– Vamos ver se você é um bom repórter de polícia. Faça a pergunta.

Venâncio, sem hesitar:

– Por que o japonês não levou a xícara embora depois que Laura chegou à morte?

– Boa, Venâncio. Porque queria que a polícia a achasse. Pela mesma razão que ligou para Castilho e entregou o endereço do apartamento das antiguidades. Com Washington fora da jogada, assumiria inteiramente o negócio do contrabando. Não se esqueça que o homem é um mafioso. Não teria nenhum problema em se manter na ilegalidade, como as mercadorias que negociaria. Como vê, a história fecha.

zzzzzzpippermintOs dois companheiros estão de tal forma envolvidos pela conversa que não notam um casal entrar no restaurante, de mãos dadas, apaixonado.

– Espera aí, Rago. E a primeira xícara, a que Laura usava normalmente?

– Sumiu. Se isso aconteceu, é porque Miúro a levou embora. Certamente queria as atenções só para a xícara de Washington.

O casal chega à mesa.

– Boa tarde, rapazes – cumprimenta Garoto, muito seguro de si.

– Olá – diz Rúbia, sem graça, tocando os cabelos loiros para disfarçar.

.

Passados dois meses, Rago atravessou o Largo do Arouche, envolvido em um caso. Viu o prédio de mau aspecto do treme-treme e lembrou-se de Penélope. Pobre moça, deve estar esperando por Garoto até hoje. Uma agulhada de curiosidade o fez aproximar-se do prédio. Quando deu por si, havia entrado. Tomou o elevador e desceu no terceiro andar. O que teria acontecido ao apartamento em que Laura vivera sua fantasia erótica e encontrara seu fim? Haveria outra mulher, lá?

Caminha pelo corredor. Vê a porta do apartamento apenas encostada. Abre-a e olha para dentro.

– Você!

Ela ergue o cálice esverdeado pelo Pippermint.

– À sua saúde.

FIM

Quando os Repórteres Usavam Revólveres, novela policial de Valdir Sanches, foi publicada em capítulos.

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O jornalista Mario Marinho editou esta novela em sua revista eletrônica JT Sempre. É da edição feita por ele a ilustração deste post.

2 Comentários para “Quando os Repórteres Usavam Revólveres (6, e último)”

  1. Li e reli o último capítulo da novela. Senti falta de algo. Relutei em fazer um comentário. Mas a terceira leitura clareou meu espírito critico. Faltara suspense, a trama é bem feita mas faltou suspense. Ainda, o Dr.Washington, Miuro e Laura mereciam um tratamento mais esmiuçado de suas personalidades. RAGO poderia trazer mais informaçòes através de um jornalismo investigativo.
    O autor fico a me dever o suspense, quem sabe na próxima aventura de RAGO.

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