Distopia orwelliana

Quando esteve no Brasil para a posse de Lula, Gabriel Boric, presidente do Chile, deu uma declaração premonitória em entrevista à jornalista Mônica Bergamo da Folha de S.Paulo: “Combater a desinformação não pode significar uma espécie de distopia orwelliana de criar um Ministério da Verdade para quem está no poder definir o que é certo e o que não é”. Continue lendo “Distopia orwelliana”

Só pode ser piada

Valdemar da Costa Neto, dono do PL, não tem nem terá importância na história política do país. No máximo, talvez possa ser lembrado pela fidelidade a diferentes senhores, de Itamar Franco a Luiz Inácio Lula da Silva, desembocando em Jair Bolsonaro. Agora, se lançou em nova frente: manter os bolsonaristas, mesmo rifando o ex-presidente. Sua mais recente aposta – nem que seja só para tumultuar – tem nome e, principalmente, sobrenome: Michelle Bolsonaro 2026, lançada por ele na sexta-feira. Continue lendo “Só pode ser piada”

A foto e o fato

A foto da repórter-fotográfica Gabriela Biló, publicada na primeira página na Folha de S.Paulo, suscita um debate sobre limites que devem ser respeitados. Nela, aparece a imagem de um vidro estilhaçado no Palácio do Planalto, na frente do presidente Lula sorrindo e ajeitando a gravata. A foto mostra uma situação de violência e pode sugerir um presidente que debocha do perigo. Continue lendo “A foto e o fato”

Espólio radical

Derrotados depois de quatro anos de fama, políticos e apoiadores do ex que se aglutinaram sob o rótulo de direita vivem o seu inferno. Parte deles, incluindo os que se sentem traídos ou abandonados, continua querendo incendiar o mundo mesmo após as prisões pela tentativa fracassada de golpe de Estado do dia 8. Outra põe panos quentes, perdoa, inverte e tortura os fatos até chegar a confissões absurdas. Sem qualquer intenção de dar voz a um pensamento de direita civilizada, salutar nas democracias, o que está em disputa é o espólio de Jair Bolsonaro, símbolo do extremismo, com as hordas de radicais que fizeram o sucesso do “mito”.    Continue lendo “Espólio radical”

Ervas daninhas

É fundamental investigar a autoria intelectual, a organização, o financiamento, os apoios e omissões da frustrada tentativa de golpe de Estado dos bolsonaristas radicais no último domingo. Mas não basta. Para além dos inquéritos, julgamentos e punições, será preciso extirpar ervas daninhas sem prejudicar as plantas sadias; tocar para frente e, ao mesmo tempo, impedir novas urdiduras. Sem anistia. Continue lendo “Ervas daninhas”

Resistência

Com apoio descarado de parte significativa das forças de segurança do Estado, os terroristas da ultradireita bolsonarista submeteram a jovem democracia brasileira que se instalou com a Constituição Cidadã de 1988 a sua mais dura prova. Mesmo assim, atacada por uma turba enfurecida e delirante, nossa democracia resistiu. O golpe de estado tramado há anos, desde antes de 2018, fracassou. Continue lendo “Resistência”

Perdeu, mané

O grande dia dos bolsonaristas fiéis se revelou um verdadeiro fiasco. Como loucos alucinados – embora regiamente financiados e bem mandados -, os convocados vandalizaram os prédios-sede do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e da Presidência da República, conseguindo exatamente o oposto do pretendido: as instituições republicanas e a democracia se fortaleceram. Continue lendo “Perdeu, mané”

O desafio da pacificação

Há sempre boa vontade com presidentes, quando tomam posse. Não poderia ser diferente com os discursos de Lula no Congresso e no parlatório do Palácio do Planalto. Ainda mais quando o novo presidente assume o posto após quatro anos de conflitos frequentes de Jair Bolsonaro com instituições. Saudável que suas palavras e os gestos tenham despertado sentimentos de esperança quanto à nova fase a ser vivida pelo país. Continue lendo “O desafio da pacificação”

Começou

Ano novo, vida nova! Mais um início, chances de dias melhores. Para além da embriaguez de otimismo e esperança – vícios danados e deliciosos que não nos largam -, me pego a comemorar não o futuro, mas o passado recente: o fim do governo Bolsonaro. Uma sensação de alívio, mesmo momentânea, visto que não será nada fácil dar tratos à bola quando tantos ainda insistem na planura da Terra.

É nessa arena que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá de mostrar o seu melhor jogo, colocando a frente ampla em campo, mesmo a contragosto de muitos dos seus.

Continue lendo “Começou”

Riocentro às avessas

Quiseram repetir o Riocentro e se deram mal. Em 30 de abril de 1981 a bomba explodiu no colo de um dos dois militares à paisana que estavam dentro de um Puma estacionado em frente ao centro de convenções no Rio de Janeiro. O que estava manuseando a bomba morreu despedaçado na hora e o outro, que estava na direção, foi levado em estado gravíssimo para o hospital. Continue lendo “Riocentro às avessas”

Vocacionados para a política

Em janeiro de 1919 Max Weber, um dos três autores fundamentais da sociologia, ao lado de Émile Durkheim e Karl Marx, proferiu para estudantes da Universidade de Munique a conferência intitulada “A política como vocação”. Um ano depois seu texto foi publicado, tornando-se um marco do pensamento sociológico moderno. Weber classificou os políticos em dois tipos: os que viviam da política e os que viviam para a política. Continue lendo “Vocacionados para a política”

Com o pé esquerdo

Boa parte das pessoas se sente envergonhada ou no mínimo constrangida quando não faz o que diz, descumprindo promessas ou compromissos firmados. Na política, a regra é o inverso. Contam-se nos dedos aqueles que honram a palavra empenhada – mão que não inclui nem o presidente da República que sai nem o que entra na próxima semana. Jair Bolsonaro encerra seu período no sentido avesso ao prometido, estimulando ações golpistas e sem impor a propagandeada agenda liberal, e Luiz Inácio Lula da Silva provoca desconfianças antes mesmo de assumir. Continue lendo “Com o pé esquerdo”