Resistência

Com apoio descarado de parte significativa das forças de segurança do Estado, os terroristas da ultradireita bolsonarista submeteram a jovem democracia brasileira que se instalou com a Constituição Cidadã de 1988 a sua mais dura prova. Mesmo assim, atacada por uma turba enfurecida e delirante, nossa democracia resistiu. O golpe de estado tramado há anos, desde antes de 2018, fracassou.

Os golpistas entranhados no Estado brasileiro se renderam, mas a história do golpe não acabou. Os próximos dias serão cruciais para a sociedade brasileira que elegeu o primado da lei acima da selvageria dos golpistas. Medidas duríssimas e sem contemplação devem ser tomadas para que o terrorismo e o golpismo tenham sua espinha dorsal partida sob o peso e o fio da espada da lei.

Nenhum resquício remanescente da violência deve ficar impune. Nada deve desaparecer na obscuridade das trevas para ressurgir depois, como no mito da hidra de sete cabeças. Mitos devem ser decompostos e seus despojos podres jogados no esgoto da história. Essa é a dura tarefa dos próximos dias.

Os braços políticos do terrorismo no Congresso Nacional, nas assembleias legislativas, nas câmaras de vereadores, nos executivos estaduais e municipais, em entidades de classe e empresas dominadas pelos radicais da ultradireita, devem ser denunciados, processados e punidos por seus crimes de conspiração, financiamento e organização de atentados diretos e indiretos contra nossa democracia. Tudo foi urdido de baixo, com o grande capital por cima. Devemos pegá-los.

Democracia deve ser o nosso lema, a nossa bandeira. A democracia não deve abrigar o verme da sua destruição. Mas ele está lá e deve ser extirpado. Nossa sociedade não é limpa, nenhuma é, mas todas devem estar vigilantes para impedir que sejam tomadas pelos vermes da ignorância, da arrogância, da selvageria. Os que ousam penetrar nos seus tecidos devem ser imediatamente isolados e combatidos. A democracia pressupõe a divergência, o contraditório, o diverso e diferente. Mas não pressupõe o golpismo, a estupidez, o totalitarismo.

Não pressupõe armas na mão de quem não é incumbido de usá-las em defesa da paz. Não pressupõe o xingamento na boca de quem não tem argumento. Não pressupõe a mentira como política de ação. Não pressupõe o uso das instituições da sociedade para destruí-la. Não pressupõe a sabotagem, os sapadores da democracia para afundá-la em crises e desgastes que levam ao descrédito e à desesperança.

Nos próximos dias vamos andar. Serão passos decisivos para o nosso futuro. Serão desafios como jamais enfrentamos. Ironicamente, os terroristas cavaram sua própria sepultura com a repulsa unânime da sociedade organizada aos seus atos de destruição e miséria moral. Que nossas pás os enterrem de vez.

Nelson Merlin é jornalista aposentado. 

9/1/2023

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