Más notícias do país de Dilma (159)

Pela legislação trabalhista brasileira, não aparecer no local de trabalho por 30 dias consecutivos caracteriza abandono de emprego. Nesses casos, a empresa tem todo o direito de demitir o funcionário.

Na segunda-feira, dia 20, completaram-se 31 dias sem que a presidente Dilma Rousseff pusesse os pés no seu local de trabalho, o Palácio do Planalto, conforme mostrou reportagem de Tânia Monteiro no Estadão.

Passou os 31 dias inteiramente dedicada à campanha pela reeleição.

Provou que não faz falta alguma: o país continuou sua rotina de seguidos números ruins da economia, más notícias se acumulando.

Com Dilma ou sem Dilma no Palácio do Planalto, e a economia nas mãos de Guido Mantega, o país vai mal.

Nos últimos sete dias, tivemos, entre outras más notícias, o seguinte:

* O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15), prévia da inflação oficial, acelerou e subiu 0,48% em outubro, segundo informou o IBGE. É a maior taxa desde maio, quando o indicador havia ficado em 0,58%. Com o resultado de outubro, o acumulado no ano subiu a 5,23%, acima da taxa de 4,46% do mesmo período de 2013. Nos últimos 12 meses, o IPCA-15 ficou em 6,62%. Considerando o IPCA-15, portanto, em 12 meses a inflação está acima do teto da meta admitido pelo governo.

* A economia brasileira desacelerou em agosto. Nas contas do Banco Central (BC), a expansão foi de 0,27% no mês, muito abaixo do IBC-Br (índice da autoridade monetária que mede a atividade no Brasil) de julho, que mostrou alta de 1,52%. Em 12 meses, o IBC-Br avançou 0,93%. Até agosto, o índice acumulado em 12 meses era de 1,14%. É mais um dado que mostra que a economia brasileira está em desaceleração.

* Pioraram, no governo Dilma Rousseff, os indicadores de qualidade da malha rodoviária brasileira, segundo a Pesquisa CNT de Rodovias 2014 divulgada agora. Houve pouco investimento, deterioração das condições de segurança e aumento do número – de 219, em 2011, para 289, em 2014 – de pontos críticos, tais como cruzamentos entre rodovias e ferrovias no mesmo nível, pontes caídas, queda de barreiras, presença de máquinas em operação nas pistas e buracos grandes.

* Depois de um breve intervalo no pessimismo, os economistas do mercado financeiro voltaram a reduzir a previsão para o crescimento da economia brasileira neste ano. De acordo com a pesquisa semanal Focus, divulgada pelo Banco Central (BC), a projeção para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) este ano é de 0,27%. Na semana passada, o mercado havia elevado a estimativa de 0,24% para 0,28%.

* O desmatamento na Amazônia Legal chegou a 402 km² em setembro de 2014 – um aumento de 290% em relação ao mesmo mês do ano anterior, quando foram desmatados 103 km².

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Como Dilma já abandonou o local de trabalho por mais de um mês e mostrou-se absolutamente desnecessária, bem que os brasileiros poderiam promovê-la a uma proveitosa aposentadoria, agora no domingo, dia 26. E botar em seu lugar alguém que está bem habilitado para cuidar da herança maldita de 12 anos de lulo-petismo.

Até porque, como a campanha de Dilma Rousseff não apresentou nenhum tipo de programa, de projeto, o que se pode depreender é que ela irá, se reeleita, continuar nessa mesma direção em que veio ao longo dos últimos quatro anos: rumo ao fundo do poço, a inflação alta, a economia estagnada, as contas públicas desarranjadas, as obras que não saem do papel ou atrasam e são sempre superfaturadas.

Tudo o que a campanha petista fez foi um esforço desesperado e desavergonhado para descontruir os oponentes – primeiro Marina Silva e, a partir do dia 6 de outubro, Aécio Neves.

Foi uma campanha marcada pelas baixarias e pelas mentiras de Dilma, Lula e dos anúncios criados pelo marqueteiro João Santana. “Ontem chegamos ao ponto máximo até agora, com a presidente da República insinuando que seu oponente é bêbado ou drogado, num golpe baixo que até mesmo no MMA é proibido”, escreveu Merval Pereira no Globo, depois do debate SBT-Uol-Jovem Pan.

O Estadão escreveu em editorial: “O combustível dessa pretensa luta dos oprimidos contra os opressores comandada pelo PT é o ódio, ardilosamente insuflado com argumentos essencialmente emocionais. Lula ensina as pessoas a odiar porque… são odiadas. É, portanto, um ódio do bem, legítima defesa. Lula sempre se esmerou em disseminar o ódio. E sempre teve esmerados aprendizes.”

Merval Pereira fez muito bem em destacar, em meio à profusão de idiotices, estultices que saíram da boca do ex-presidente Lula nos últimos dias um ataque virulento a dois competentes jornalistas: “‘Daqui para frente é a Miriam Leitão falando mal da Dilma na televisão, e a gente falando bem dela (Dilma) na periferia. É o (William) Bonner falando mal dela no ‘Jornal Nacional’, e a gente falando bem dela em casa. Agora somos nós contra eles. […]’. Essa fala irresponsável é do ex-presidente Lula no seu papel de língua de trapo da campanha petista. O PT deu agora para nomear seus ‘inimigos’, incentivando assim ações radicais contra jornalistas que consideram adversários do ‘projeto popular’. Recentemente, um dirigente do partido havia nomeado sete jornalistas numa espécie de ‘lista negra’. É uma típica ação fascista, que está sendo usada já há algum tempo na Argentina de Cristina Kirchner. É neste caminho que vamos caso Dilma se reeleja.”

É isso: caso Dilma se reeleja, vamos nos aproximar da Argentina destruída pelos Kirchner, da Venezuela destruída por Chávez.

O Brasil não merece mais 4 anos de Dilma Rousseff. O Brasil não vai aguentar mais 4 anos de Dilma Rousseff.

Selecionei, em um post separado, três artigos publicados nos jornais na última semana que enumeram uma série de motivos para se votar em Aécio Neves e não se votar em Dilma Rousseff.

E aqui vai a 159ª compilação semanal de notícias e análises que comprovam os malefícios e a incompetência do lulo-petismo como um todo e do governo Dilma Rousseff em especial. Elas foram publicadas entre os dias 17 e 23 de outubro

Abandono de emprego

* Menos da metade dos 39 ministros trabalhou na sexta, dia 17

“A nove dias das eleições, menos da metade dos 39 ministros despachou ontem na capital federal. Além da campanha presidencial acirrada, com empate técnico entre Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), 13 estados e o DF terão segundo turno, o que torna as agendas políticas ainda mais fortes. Dos 39 chefes de pasta, oito estão de férias e 16 cumpriram agenda fora do Distrito Federal. Um deles, Ricardo Berzoini (Relações Institucionais), informou por sua assessoria que foi ao Maranhão para participar do ato de campanha ‘Caminhada com Dilma’.

“Entre os ministros com agenda oficial, oito passaram o dia em São Paulo, maior colégio eleitoral do Brasil, e estado onde a presidente conseguiu apenas 25,8% dos votos válidos no primeiro turno. Dois ministros estiveram no Rio de Janeiro: Vinícius Lages, do Turismo, e Marcelo Neri, da Secretaria de Assuntos Estratégicos, ambos para atividades oficiais. Bahia, Minas, Amazonas, Pará e Paraná também receberam visitas de ministros.

“Ontem, mais dois anúncios de férias de ministros foram publicados no Diário Oficial: Moreira Franco, da Secretaria de Aviação Civil, e Neri Geller, do Ministério da Agricultura. Ao todo, oito chefes de pastas estão de férias e se dedicam à campanha da presidente Dilma. Manoel Dias, ministro do Trabalho, por exemplo, cumpriu agenda em Santa Catarina com a candidata. Além dele, a ministra de Direitos Humanos, Ideli Salvatti, que também está de férias, participou do evento. No debate de quinta-feira, no SBT, estavam na plateia Aloizio Mercadante (Casa Civil), Thomas Traumann (Comunicação Social), e Miriam Belchior (Planejamento).” (Adriana Mendes, Washington Luiz e Eduardo Barretto, O Globo, 18/10/2014.)

* Dilma completa 31 dias sem comparecer uma vez sequer a seu local de trabalho

“A presidente e candidata à reeleição, Dilma Rousseff (PT), completou ontem (20/10) mais de um mês (31 dias) sem por os pés no Palácio do Planalto. Durante o mês de setembro, em alguns momentos, o governo ainda tinha preocupação de planejar algumas ‘agendas casadas’ para que Dilma aparecesse cumprindo algum compromisso como presidente que, em seguida, se transformaria em ato de campanha. Mas, neste mês de outubro, quando o Planalto sentiu uma ameaça à reeleição, pelo crescimento nas pesquisas do tucano, Aécio Neves, a agenda presidencial foi praticamente abandonada e Dilma passou a dedicar-se quase que exclusivamente à sua reeleição.

“Entre o primeiro e segundo turno, a única agenda oficial de Dilma, até agora, foi o comparecimento às urnas para votação, em Porto Alegre, dia cinco de outubro. Nesta terça-feira, dia 21 de outubro, no entanto, Dilma visitará, como presidente, a fábrica da Fiat, em Goiana (PE). Apesar de tratar isso como evento oficial, a visita tem objetivo eleitoral: usar declarações de tucanos condenando a articulação do ex-presidente Lula por ter conseguido levar a nova fábrica da Fiat para Pernambuco, ao invés de instalá-la em Minas. Como Dilma perdeu as eleições no primeiro turno para Marina Silva, do PSB, em Pernambuco, e quer capitanear esses 2,3 milhões votos que a ex-senadora recebeu, neutralizando o apoio da viúva do governador Eduardo Campos ao tucano, o governo pretende usar o discurso que o PSDB de Aécio Neves era contra a fábrica ter ido para Pernambuco gerar emprego naquele estado.

“Lula e Dilma lado a lado pretendem mostrar que o governo petista apoiou o investimento no estado e quer uma fábrica no interior pernambucano para melhorar a vida dos moradores do estado, com melhores empregos e oportunidades.” (Tânia Monteiro, Estadão, 21/10/2014.)

Uma campanha de mentiras e baixarias

* No debate do SBT, Dilma levou a campanha a seu ponto mais baixo até agora, ao insinuar que o oponente é bêbado ou drogado

“Quando a presidente Dilma disse que para vencer uma eleição ‘faz-se o diabo’, estava antecipando a falta de limites éticos que sua campanha vem demonstrando. Ontem chegamos ao ponto máximo até agora, com a presidente da República insinuando que seu oponente é bêbado ou drogado, num golpe baixo que até mesmo no MMA é proibido.

“O candidato Aécio Neves teve a única reação possível, disse que se arrependia de ter se recusado a soprar o bafômetro, e elogiou a Lei Seca. Mas encarou com altivez a adversidade, criticando sua oponente por fazer insinuações sem ter coragem de inquiri-lo diretamente. Uma tentativa de contenção dos danos por um deslize que um homem público sabe que pode ter conseqüências. Essa era uma carta previsível, diante do festival de baixarias que vem dominando esta campanha, e já fora jogada na véspera quando o ex-presidente Lula, num palanque onde estava cercado dos Barbalho – ele tem uma dívida qualquer com o chefe do clã, Jader, cuja mão beijou em outras campanhas- disse que uma pessoa que se recusa a soprar o bafômetro não pode ser presidente da República.

“Logo Lula, que já foi acusado por uma reportagem do New York Times de ser um presidente bêbado, ocasião em que foi defendido por diversos políticos, e recebeu a solidariedade generalizada. Escrevi na ocasião que não havia nenhuma indicação de que o hábito de beber impedisse o presidente de governar, o que tornava leviana a reportagem cheia de insinuações.

“Mesmo sem entrar no mérito de quem tem mais razão ou culpa no cartório, é espantoso que um político que já foi vítima das piores atrocidades, como a que o hoje seu aliado Fernando Collor de Mello fez na campanha de 1989, possa se utilizar de métodos semelhantes na ânsia de derrotar seu adversário.

“Collor colocou no ar a mãe de Lurian, filha de Lula, para acusá-lo de tê-la obrigado a fazer aborto, uma baixaria que entrou para a história política negativa brasileira. O estrago foi grande na ocasião e desestabilizou Lula para o resto da campanha. O candidato Aécio Neves aparentemente reagiu ao ataque baixo com tranqüilidade, lembrando que Dilma usava os mesmos métodos que Collor utilizara contra a família de Lula.

“O contra ataque sobre o nepotismo, apontando que Igor Rousseff, irmão da presidente, era funcionário fantasma na gestão de Fernando Pimentel na prefeitura de Belo Horizonte, num caso típico de nepotismo cruzado, foi feito pedindo desculpas por baixar o nível, querendo ressaltar que Dilma procurara atingir sua família.

Uma manobra diversionista para marcar no eleitor a idéia de que ele queria discutir programas de governo, mas Dilma levava a discussão para o embate pessoal. Aécio ressaltou isso várias vezes no debate. Explicando que sua irmã Andrea trabalhou no governo de Minas como voluntária não assalariada, no papel que poderia ser exercido pela primeira-dama, que não havia, pois era solteiro na ocasião, neutralizou um dos principais ataques de Dilma.

“É claro a esta altura que a campanha, que tem tido um nível muito baixo, com acusações mútuas, não mudará de tom até as urnas a 26 de outubro. Os dois candidatos se encontram em empate técnico, e o PT demonstra, por gestos e atitudes, que não pretende abrir mão de seu projeto maior de poder assim facilmente. O desespero revelado pelo uso desmedido de ataques pessoais demonstra que a campana de Dilma tenta reverter uma derrota. Ontem, perdeu claramente a disputa. A seu desfavor, uma crise econômica que só faz se agravar, uma crise política que apenas começou, e que terá desdobramentos institucionais seriíssimos nos primeiros anos do futuro governo, e um governo precário, com resultados econômicos pífios.

“Dilma agarra-se à única tábua de salvação, que é o nível baixo de desemprego, que desaparecerá brevemente com a continuidade da crise econômica. Se conseguir se reeleger em outubro, estará deixando para si uma herança maldita que fará com que os seus eleitores se decepcionem rapidamente do voto que deram.

“Qualquer dos dois que se eleja, porém, terá que enfrentar uma crise econômica e política com um país literalmente dividido, especialmente depois de uma campanha devastadora como essa. Tarefa para quem tem capacidade de negociação e espírito público.” (Merval Pereira, O Globo, 17/10/2014.)

* Transformar Dilma em uma senhora delicada que foi tratada com grosseria no debate não é um relato fiel do que aconteceu. Beira o ridículo.

“O truque já foi usado uma vez, recentemente, e não funcionou, ao tentarem fazer da presidente Dilma uma coitadinha quando foi vaiada na abertura da Copa do Mundo no Itaquerão. Nada indica que funcionará desta vez. Transformar a presidente Dilma em uma senhora delicada que foi tratada com grosseria por seu adversário Aécio Neves no debate do SBT na quinta-feira, não é um relato fiel do que aconteceu, nem faz jus à história da presidente e do PT. Beira o ridículo.

“O mal-estar da presidente a final do debate pode ter sido provocado pelo calor da discussão e do estúdio de televisão, e prenuncia uma fragilidade emocional dela, conhecida por seu vigor verbal, digamos assim. Ontem, Dilma, antes de adiar uma vinda ao Rio ‘ a conselho médico’ que depois foi desmentido, disse algo como ‘o PT não é de briga, mas sabe enfrentar desafios’. Nada menos verdadeiro.

“Ao contrário, o PT só sabe fazer política na base do confronto, precisa de um inimigo para mobilizar seus militantes, que andam meio desanimados ultimamente. Esse clima de guerra permanente foi instalado pelo PT no país, que não sabe fazer política sem radicalizar. A prática do ‘nós contra eles’, aprofundada nesta campanha com uma tentativa de jogar o PSDB contra os nordestinos, acaba levando a exacerbações.

“Na ocasião da abertura da Copa escrevi que a grosseria é um problema nosso, de uma sociedade que precisa encontrar novamente o caminho da civilidade e da convivência pacífica entre os contrários. A vaia é um problema da presidente Dilma e do PT. Naquela ocasião, a presidente Dilma passou a ser tratada como uma senhora frágil e desacostumada a essa linguagem, quando ela própria já demonstrou, em reuniões com ministros e empresários, que sabe lidar com esse tipo de problema. Que o digam os ministros que já saíram chorando de seu gabinete depois de uma boa espinafração, muitas vezes com uso de palavras nada convencionais.

“O ex-presidente Lula voltou a tentar o truque depois do debate do SBT, dizendo que ‘quando eu vejo um homem na televisão ser ignorante com uma mulher, como ele tem sido nos debates, eu fico pensando: se esse cidadão é capaz de gritar com a presidenta, fico imaginando o dia que ele encontrar um pobre na frente: é capaz dele pisar ou não enxergar’.

“Lula evidentemente está fazendo baixa política, sem muita chance de dar certo. A própria presidente Dilma não dá razão para esse tratamento condescendente com ela, pois quando soube que a ex-candidata Marina Silva havia chorado ao ser atacada pela propaganda petista, saiu-se com esse comentário: ‘um presidente da República tem de resistir à pressão’.

“Em discurso dirigido a movimentos negros em Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte, Dilma afirmou que quem não quer ser criticado ‘não pode ser presidente’.

“— Um presidente da República sofre pressão 24 horas por dia. Se a pessoa não quer ser pressionada, não quer ser criticada, não quer que falem dela, não dá para ser presidente da República. Acho que, (para) ser presidente, a gente tem que aguentar a barra — disse Dilma.

Se a vitimização de Marina não teve sucesso, e ela só reagiu à altura dos ataques muito tempo depois, quando sua votação já se esvaía, agora o candidato do PSDB Aécio Neves está enfrentando  os mesmos ataques, o que coloca um dado novo na disputa presidencial. Na verdade, Aécio é o primeiro candidato tucano que enfrenta o PT sem receios, resgatando o legado de Fernando Henrique Cardoso e exorcizando de vez a demonização que o PT vem fazendo dos governos tucanos pelos últimos 12 anos.

“Tanto Serra quanto Alckmin entraram na disputa contra o PT com receio de se indispor com Lula e seus seguidores, e tiveram dificuldades para defender as políticas do PSDB, quando não evitaram simplesmente temas polêmicos como as privatizações. A postura de Aécio Neves já mostrou que há um projeto político para enfrentar o lulismo, e defendê-lo não tira votos.” (Merval Pereira, O Globo, 18/10/2014.)

* “O PT sabe, portanto, que a semente do ódio tem campo fértil para vicejar – e, assim, fez um projeto de poder sustentado na cizânia social”

“Na reta final de uma eleição equilibrada, que vai definir os destinos do País, o mínimo de racionalidade indispensável a uma escolha criteriosa do próximo presidente da República está escoando pelo ralo. Para conquistar votos, candidatos devem ser capazes de falar, sempre honestamente, tanto à razão quanto à emoção dos eleitores. Mas pelo motivo óbvio de que programas de governo lidam com questões objetivas – problemas concretos – a emoção não se pode dissociar da razão na hora de se decidir o voto. Boas causas com dose maior de apelo emocional, como direitos humanos e justiça social, impõem-se porque são, por definição, racionalmente justas, não por serem emocionalmente defensáveis – e exigem soluções racionais.

“O marketing, porém, tende a subverter os valores numa campanha eleitoral quando parte do princípio de que os fins justificam os meios. E essa subversão cresce na medida em que aumenta a falta de escrúpulos de candidatos e marqueteiros. Todos sabem o que Collor fez contra Lula na eleição de 1989. Os petistas aprenderam com aquele exemplo e o resultado é que nunca antes na história deste país, como agora, houve tanta apelação e baixaria numa eleição presidencial.

“O que se viu no ‘debate’ da quinta-feira (16/10) no SBT foi deplorável. Por iniciativa de Dilma, o recurso marqueteiro da ‘desconstrução’ do adversário foi reduzido ao mais baixo nível da odiosa demolição de caráter com ataques à honra pessoal do adversário e seus familiares. Não lhe restando opção senão responder à altura, Aécio teve a habilidosa precaução de pedir desculpas aos telespectadores por trazer à luz a nomeação do irmão de Dilma, Igor Rousseff, para um cargo, na Prefeitura de Belo Horizonte, onde recebia sem trabalhar. Faltam ainda dois ‘debates’!

“Nenhum dos candidatos merece medalha de bom comportamento pelo que têm feito e dito nas entrevistas, nos palanques, na propaganda e nos debates. A candidata do PT, no entanto, fiel à convicção que Lula incutiu na mente da companheirada, de que valores éticos e morais são preconceitos ‘pequeno-burgueses’, coisa de ‘udenistas’ e de ‘babacas’, deu carta branca para que seu marqueteiro fizesse ‘o diabo’. E bota diabo nisso, porque a necessidade é premente.

“Os petistas proclamam que têm uma proposta política ‘diferenciada’, porque voltada para o interesse e as necessidades da população mais pobre. E por essa razão confrontam as ‘elites’, que só pensam em dinheiro e em explorar os despossuídos. São, portanto, os petistas, gente ‘do bem’, enquanto as elites congregam todos os que são ‘do mal’. E aos paladinos do bem tudo é permitido.

“Dividindo os brasileiros entre ‘nós’ e ‘eles’, ‘bons e maus’, ‘ricos e pobres’, inspirada na lógica da luta de classes que ruiu com o Muro de Berlim, o lulo-petismo se proclamou detentor do monopólio da virtude e da representação dos fracos e oprimidos. Desde que Lula subiu pela primeira vez no palanque dos metalúrgicos em Vila Euclides, ninguém mais no Brasil tem legitimidade para falar em nome dos trabalhadores.

“O combustível dessa pretensa luta dos oprimidos contra os opressores comandada pelo PT é o ódio, ardilosamente insuflado com argumentos essencialmente emocionais. Lula ensina as pessoas a odiar porque… são odiadas. É, portanto, um ódio do bem, legítima defesa.

“Lula sempre se esmerou em disseminar o ódio. E sempre teve esmerados aprendizes. Provou-o no momento de sua trajetória política em que vislumbrou pela primeira vez a possibilidade real de chegar ao poder, em 2002, e por conveniência eleitoreira travestiu-se, temporariamente, em ‘Lulinha paz e amor’. Durou pouco, até o mensalão.

“As agruras do mundo moderno oferecem motivos para que as pessoas se tornem cada vez mais agressivas no relacionamento social cotidiano. É o que se vê nas manifestações de rua, no trânsito, nos campos de futebol. O PT sabe, portanto, que a semente do ódio tem campo fértil para vicejar – e, assim, fez um projeto de poder sustentado na cizânia social.

“Lula declarou em junho, quando a campanha eleitoral começava a esquentar: ‘Em 2002 lutamos para que a esperança vencesse o medo. Agora, é preciso que a esperança vença o ódio’. Que assim seja.” (Editorial, Estadão, 19/10/2014.)

* 26% do tempo de Dilma na TV são dedicados a agredir o oponente

“Na primeira semana de horário eleitoral no 2.º turno, a presidente Dilma Rousseff (PT) foi a que mais partiu para o ataque na TV. Consequentemente, o seu adversário, Aécio Neves (PSDB), usou quase o triplo do tempo que ela para se defender. Levantamento feito pelo Estado durante os sete primeiros dias em que os programas foram ao ar constatou que a petista usou 26% do seu tempo para fazer críticas ao tucano. Aécio, por sua vez, destinou 19% para esse fim.

“Os programas começaram a ser exibidos na noite do dia 9 de outubro. Como no 2.º turno os candidatos têm direito a tempos iguais na TV – dois blocos de dez minutos -, até a noite do dia 16 haviam sido veiculados 15 programas, num total de cinco horas de programação.

“Apesar de historicamente esta fase da eleição se caracterizar por ser mais propositiva, o horário eleitoral deste ano reflete o clima de troca de acusações estabelecido pelos dois candidatos no dia a dia da campanha.

“O tema principal escolhido por Dilma para atacar o tucano foi o fato de Aécio ter dito que vai indicar o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga para o Ministério da Fazenda caso seja eleito. As críticas ao economista foram exibidas em trechos de quatro dos 15 programas do PT que foram ao ar na primeira semana. Segundo a propaganda de Dilma, a indicação de Fraga para a Fazenda representa uma das ‘medidas impopulares’ anunciadas por Aécio para combater a crise econômica. A campanha da petista diz que a dívida pública dobrou, a inflação cresceu e a taxa de juros chegou a 45% ao ano na gestão de Fraga no BC.

“Em outra linha de frente, a campanha de Dilma dedicou cinco programas para criticar os dois governos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Nas duas primeiras propagandas – veiculadas na noite de 9 de outubro e na tarde do dia 10 -, o PT exibiu as declarações do ex-presidente em entrevista na qual ele afirmou que os mais pobres votam no PT por serem ‘menos informados’.

“Para se defender dos ataques, Aécio mostrou na TV uma carta enviada por Dilma a FHC, em 2011, quando o tucano completou 8o anos. No texto, a petista faz elogios ao ex-presidente e a algumas medidas tomadas por ele durante seu mandato.

“Aécio também partiu para o ataque e centrou fogo em dois temas principais contra a adversária: o suposto esquema de corrupção da Petrobrás e a desaceleração da economia.

“Na última quinta-feira (16/10), o tucano usou quase metade dos seus dez minutos na TV para atacar Dilma. ‘Gota a gota, o atual governo vem destruindo a Petrobrás. De escândalo a escândalo, o governo Dilma permitiu que a nossa maior empresa virasse um caso de polícia’, dizia o texto. O programa foi produzido antes de o ex-presidente do PSDB Sérgio Guerra, morto em março, ter sido acusado de receber propina do esquema.

“Em outros dias, Aécio explorou na TV a alta da inflação. O mote usado pela campanha tucana foi a sugestão do secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland, para que os brasileiros trocassem a carne, que estaria muito cara, por frango ou ovo.

“Apesar de já apontar para o predomínio de uma campanha negativa, o levantamento não inclui as inserções veiculadas durante a programação normal dos canais, também usadas com frequência para desferir ataques de parte a parte.” (Isadora Peron e Ricardo Chapola, Estadão, 19/10/2014.)

* Dilma diz que o valor da Petrobrás é crescente. Mentira. No governo Dilma, a empresa perdeu 57,77% de seu valor de mercado

“Dilma afirmou (no debate na TV Record, na noite de domingo, 19/10) que o valor de mercado da Petrobrás é crescente. Desde o início do governo dela até 29 de setembro, a Petrobrás perdeu 57,77% de seu valor de mercado. No dia 31 de dezembro de 2010, a estatal de petróleo do Brasil valia US$ 228,2 bilhões. O valor caiu para US$ 96,3 bilhões no pregão da Bovespa do dia 29. A perda foi de US$ 131,8 bilhões.” (Estadão, 20/10/2014.)

* Lula fala nos comícios como um moleque de rua

“Qual Lula é o verdadeiro? O bem-educado que aparece no programa de propaganda eleitoral de Dilma na televisão, defende os 12 anos de governos do PT e, ao cabo, sorridente, pede votos para reeleger sua sucessora? Ou o moleque de rua que pontifica em comícios país afora, sugerindo, sem ter coragem de afirmar diretamente, que Aécio é capaz, sim, de dirigir embriagado, agredir mulheres e se drogar?

“O segundo é o mais próximo do verdadeiro Lula. Digo porque o conheço desde quando era líder sindical. Lula é uma metamorfose ambulante. Não foi ninguém quem o disse, foi ele quem se rotulou assim. A esquerda tudo perdoaria a Lula desde que chegasse ao poder. Chegou, cavalgando-o. Urna vez lá, corrompeu-se. Quanto a ele… Não sabia de nada. Nunca soube.

“Justiça seja feita a Lula: por desconhecimento de causa e preguiça, ele jamais compartilhou as idéias da esquerda. Assim como ela se aproveitou dele, Lula se aproveitou dela. Um casamento não por amor, mas por interesse. Na primeira reunião ministerial do seu governo em 2003, Lula se irritou com um ministro e desabafou: ‘Toda vez que me guiei pela esquerda me dei mal’

“Retifico: ele não disse que se deu mal. Usou um palavrão. Nada de mais para o sujeito desbocado que nunca pesou o que diz. Grossura nada tem a ver com infância pobre. Lula é um sucesso do jeito que é. Mudar, por quê? Todos admiram sua astúcia. Muitos se curvam à sua sabedoria. E outros tantos temem ser apontados como desafetos do retirante nordestino que se deu bem.

“Uma das chaves do sucesso de Lula é a coragem de dizer o que lhe apetece – às favas a verdade. No último sábado, em comício em Belo Horizonte, Lula disse que nunca foi grosseiro com adversários. Textualmente: ‘Não tive coragem de ser grosseiro contra Collor, Serra, Alckmin, Fernando Henrique. Pega uma palavra minha chamando candidato de mentiroso e leviano’ É fácil.

“Lula chamou Sarney de ladrão. E Itamar Franco de filho da puta. Resposta de Itamar em maio de 2003: ‘Gostaria de saber o que aconteceria se a situação fosse inversa, ou seja, se esse indivíduo arrogante e elitista fosse o presidente da República, e alguém lhe chamasse disso. (…) Minha mãe se chamava Itália Franco. Mas, fosse um filho da p., certamente teria por ela o mesmo amor filial’!

“Você pensa que Lula ficou constrangido com a resposta de Itamar? Foi ao velório dele. Assim como foi ao velório de Ruth Cardoso, mulher de Fernando Henrique. Chorando, lançou-se aos braços do ex-presidente. Pouco antes da morte de Ruth, a Casa Civil da então ministra Dilma montara um dossiê sobre despesas com cartão de crédito do casal FH. Depois, a ministra se desculpou.

“Lula não é homem de se desculpar. Nem mesmo quando trata um assessor a pontapés. Como governador de Minas Gerais, no auge do escândalo do mensalão, Aécio lutou para que o PSDB não pedisse o impeachment de Lula. Conseguiu. Mais tarde, Lula tentou convencê-lo a aderir ao PMDB para disputar a Presidência com o seu apoio. Aécio não quis.

“De volta ao comício de Belo Horizonte. Antes de Lula falar, foi lida a carta de uma psicóloga acusando Aécio de espancar mulheres e de ser megalomaníaco. Ele ainda foi chamado de ‘coisa ruim’,’ ‘cafajeste’ e ‘playboy mimado’ Por fim, a plateia foi ao delírio ao ouvir Lula dizer sobre o comportamento de Aécio em debates: ‘A tática dele é a seguinte: vou partir para a agressão. Meu negócio com mulher é partir para cima agredindo’.” (Ricardo Noblat, O Globo, 20/10/2014.)

* Irresponsável, Lula dá nome de jornalistas “inimigos” e incentiva ações radicais

‘Daqui para frente é a Miriam Leitão falando mal da Dilma na televisão, e a gente falando bem dela (Dilma) na periferia. É o (William) Bonner falando mal dela no ‘Jornal Nacional’, e a gente falando bem dela em casa. Agora somos nós contra eles. […]’.

“Essa fala irresponsável é do ex-presidente Lula no seu papel de língua de trapo da campanha petista. O PT deu agora para nomear seus ‘inimigos’, incentivando assim ações radicais contra jornalistas que consideram adversários do ‘projeto popular’.

“Recentemente, um dirigente do partido havia nomeado sete jornalistas numa espécie de ‘lista negra’. É uma típica ação fascista, que está sendo usada já há algum tempo na Argentina de Cristina Kirchner. É neste caminho que vamos caso Dilma se reeleja.” (Merval Pereira, O Globo, 22/10/2014.)

* A profusão de baixarias que sai da boca de Lula

“A frequência com que as palavras ‘nazismo’ e ‘nazista’ são usadas para insultar tende a ser tanto maior quanto menor o conhecimento dos que as empregam do que foi efetivamente o mais hediondo regime que o Ocidente experimentou ao longo de sua história e do que fizeram os seus seguidores. Se mesmo na Europa as novas gerações parecem saber cada vez menos da barbárie que a devastou há 70 anos, não surpreende que em outras paragens os termos que a revestem tenham se tornado ao mesmo tempo corriqueiros e caricaturais – e, nessa medida, uma ofensa permanente à memória de suas vítimas. Um exemplo de livro de texto dessa banalização do mal acaba de ser dado pelo ex-presidente Lula, no lugar onde mais ele fica à vontade para usufruir da sua inesgotável propensão à baixeza: um palanque eleitoral.

“Ao lado da afilhada Dilma Rousseff, em um comício que reuniu cerca de 40 mil pessoas no Recife, anteontem, ele equiparou as supostas agressões ao Nordeste da campanha do tucano Aécio Neves e de seus aliados às práticas nazistas na 2.ª Guerra Mundial. Lula falava para um público que, em geral, tem disso informação precária ou nenhuma. Mas aprendeu, como quase toda a gente, que o tal do nazismo é a coisa mais medonha que se pode conceber. Portanto, se ouve de Lula que a esse extremo chegam os presumíveis preconceitos e injustiças da oposição ‘contra nós’, os nordestinos, deve ser a pura verdade. Lula não imaginaria que o sentimento de revolta que se esmerava em inculcar à sua plateia a dotaria do poder mágico de votar duas vezes em Dilma na decisão de domingo para se vingar dos ‘preconceituosos’. Nem seria preciso: no primeiro turno, vencido em Pernambuco por Marina Silva, Dilma obteve 44% dos sufrágios ante menos de 6% de Aécio.

“Logo se vê que a fúria de Lula não tem nada que ver com um hipotético imperativo de conseguir que a sua apadrinhada prevaleça numa capital, em um Estado e numa região onde ela e o seu adversário – a exemplo do que se passa em âmbito nacional, segundo as pesquisas – estariam engajados numa guerra sem quartel pelo voto de cada eleitor. O comício do Recife foi apenas (e tudo isso) uma oportunidade para ele dar vazão ao ódio que sente pelas ‘elites’ – e que soube guardar no congelador quando, presidente, se amancebou com o que elas têm de pior. Muito mais do que o combate político, é esse sentimento que o leva a perder o que ainda possa ter em matéria de senso de proporção, ao comparar os adversários não só aos nazistas, mas a Herodes, ‘que matou Jesus Cristo por medo de ele se tornar o homem que virou’.

“Já investir contra Aécio, como também fez em Pernambuco, acusando-o de ‘grosseiro’ com Dilma, é frio cálculo eleitoral. O neofeminista da temporada havia feito a sua aparição na antevéspera, em outro comício, então em Itaquera, na zona leste paulistana. ‘Esse rapaz não teve educação de berço para respeitar as mulheres’, atacou. ‘E, sobretudo, uma presidente, mãe e avó.’

“Logo ele, que fez com brio a sua parte na profusão de baixarias para desqualificar a candidata Marina Silva na disputa do primeiro turno. A campanha de Dilma decerto tentará até o último instante mostrar um Aécio desdenhoso com as mulheres. Acredita que a ligeira ultrapassagem do senador pela presidente, no empate técnico registrado na pesquisa de segunda-feira do Datafolha, se deve em parte à irritação de uma parcela do eleitorado feminino com o fato de Aécio ter chamado Dilma de ‘leviana’ em um debate.

“Mas vêm de muito antes os primeiros registros da extensa folha corrida de Lula, no quesito relações de gênero. Todos quantos o conhecem de longa data – e também os seus interlocutores mais recentes, porque nisso ele não mudou – sabem o que ele diz das mulheres em conversas privadas, a sua queda por chulas piadas machistas, a sua prontidão para atribuir à condição feminina defeitos percebidos, por exemplo, em companheiras de partido e servidoras federais. Sem falar no palavreado que usou publicamente – numa feira de produtos comestíveis em Pelotas, em junho de 2003 – ao falar de seu primeiro filho com a esposa Marisa Letícia: ‘A galega engravidou logo no primeiro dia, porque pernambucano não deixa por menos’.” (Editorial, Estadão, 23/10/2014.)

* Por se valerem de todo tipo de golpe baixo, Lula e o PT sairão das eleições menores do que entraram

“O ex-presidente Lula tem tido uma atuação ambígua nessa eleição. De vez em quando desaparece, dando margem a boatos de que estaria doente ou teria brigado com a presidente Dilma. De repente, eis que Lula surge cheio de gás num palanque no interior do Pará ou no Rio, fazendo discursos, mais que exaltados, delirantes, em defesa do PT e da reeleição de Dilma. Do jeito que ataca seus adversários, atirando para tudo quanto é lado, não parece estar muito certo da vitória.

“O ato falho de pedir ‘só mais essa vitória’ para o PT, como fez ontem, indica que o apelo é quase desespero pela possibilidade de derrota, que nunca foi tão grande. Além da baixaria de induzir a platéia a chamar o adversário de bêbado e drogado, ou de investir contra jornalistas que considerada adversários, Lula apela para mistificações diversas. “Chegou a perguntar onde estava Aécio Neves quando Dilma lutava contra a ditadura com armas na mão. Ora, Aécio tinha sete anos de idade quando Dilma tinha 20.

“Fazendo-se de ofendido, Lula disse que Aécio não sabia como tratar uma mulher, por tê-la enfrentado com palavras duras. E citou ‘leviana’ como sendo uma ofensa à presidente. Aproveita-se Lula do fato de que em algumas regiões do país, sobretudo no nordeste, ‘leviana’ tem a conotação de prostituta. E ajuda a disseminar a idéia de que o adversário agride mulheres, inclusive fisicamente, como a rede suja da internet espalha incessante e anonimamente.

“Mas os vídeos mostram que o próprio Lula chamou Alckmin de leviano várias vezes nos debates da eleição de 2006. E atacou adversários hoje aliados, como Sarney e Collor, chamando-os diretamente de ‘ladrão’ e palavras do gênero, o que diz nunca ter feito. Mesmo que vença, como as pesquisas do Datafolha indicam hoje, o PT sai da eleição menor do que entrou. E Lula também. Sobretudo por se valerem dos métodos mais baixos para vencer.

“O partido continua com a maior bancada da Câmara, mas perdeu nada menos que 18 deputados federais. Elegeu apenas três governadores no primeiro turno – sendo que a jóia da coroa é sem dúvida Minas Gerais, arrebatada do grupo político do senador Aécio Neves – e nos três estados em que ainda disputa o segundo turno, pode vencer no Ceará e no Mato Grosso do Sul, mas deve ser derrotado no Rio Grande do Sul, um estado emblemático para o partido e para a presidente Dilma.

No Senado, continuará sendo a segunda maior bancada, mas com menos um senador. Para culminar a má atuação, o PT perdeu nas eleições deste ano o privilégio de ser o partido com maior número de votos na legenda para a Câmara dos Deputados, que ostentava desde 1990. Para mal de seus pecados, ainda ficou atrás do PSDB nesse tipo de voto, o que mostra a vitalidade do partido de oposição.

Os tucanos receberam 1,92 milhão de votos, correspondentes a quase 24% dos votos válidos, enquanto o PT recebeu 1,75 milhão de votos de legenda, ou 21,6% do total de votos válidos. Em 1990, quando iniciou a hegemonia agora derrubada, o PT teve 1,790 milhão de votos, que representavam 24,1% do total dos válidos, e o PSDB apenas 340 mil votos, ou 4,6%.

“Por fim, com o eleitorado literalmente dividido, o vencedor receberá um país traumatizado pela violência da campanha eleitoral desde o primeiro turno, quando o PT usou de técnicas de propaganda negativa para desmoralizar Marina Silva e a própria presidente, sem nenhum pudor, insinuou que ela era sustentada por banqueiros, em referência à sua principal assessora Neca Setubal. É muito mais exagerado do que dizer que Lula é sustentado por empreiteiras, o que ninguém disse.

O PT vem desde 2010 recebendo menos votos para Presidente do que nas eleições anteriores, e a oposição cresce. Depois de perder duas vezes seguidas no primeiro turno para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente Lula só conseguiu vencer no segundo turno, quando tinha uma votação em torno de 60%. A presidente Dilma foi eleita em 2010 com 56% e hoje aparece nas pesquisas do Datafolha com 52%, empatada tecnicamente e com o risco de perder a eleição.

“A oposição já agrega a metade dos votos válidos, e dependendo da famosa margem de erro, pode vencê-la. Além do mais, o país ganhou uma oposição aguerrida, que se não vencer terá uma atuação muito mais eficaz no eventual segundo mandato de Dilma, com todos os problemas que são esperados nos próximos anos, crises econômicas combinadas com institucionais decorrentes do processo de delação premiada sobre a corrupção na Petrobrás.

“Vencedora, a oposição terá pela frente um PT jogado novamente na oposição, com uma multidão de burocratas partidários desempregados, cheios de rancor para dar.” (Merval Pereira, O Globo, 23/10/2014.)

Botando os pingos nos is

* A campanha deturpou fatos, reescreveu parte da História. Acusar o governo FHC de inflacionário é ofender a memória de quem viu a vitória sobre a hiperinflação

“Deveria ser a safra dos debates profundos sobre o país, sobre suas dificuldades reais e a procura de solução para os inúmeros problemas que já existem e os que podem ser previstos. Mas os marqueteiros vestem a realidade com frases de fantasia, confortáveis para os candidatos, e afiam armas. Alguns fatos são deturpados e a história recente é reescrita até ficar irreconhecível.

“É óbvio que foi o ex-presidente Fernando Henrique quem venceu a hiperinflação. Foi ele quem levou para o governo Itamar Franco os economistas com a tecnologia e a destreza para montar um plano que atendia a dois pedidos dos cidadãos: ser feito às claras, sem sustos e perdas, e matar o dragão que sobrevivera a cinco planos e devorava as finanças das famílias. Foi FH quem superou os desafios para consolidar o real e começou a reorganizar o estado. Acusar aquele governo de inflação alta é desonestidade.

“Na distopia de George Orwell, 1984, os poderosos reescrevem a história. Quem viu a longa luta do Brasil para ter uma moeda estável sabe quem liderou a vitória sobre a inflação e lembra dos benefícios dessa conquista para as pessoas.

“As idéias do PT sobre o combate à inflação eram toscas e perigosas. Seus economistas defenderam teses que nunca deram nem dariam certo; ou, o que é pior, um plebiscito sobre pagar ou não a dívida interna. Não pagá-la seria tomar o dinheiro de quem investiu em títulos públicos, como fez o ex-presidente Collor. O plebiscito e uma auditoria nas aplicações dos brasileiros foram defendidos pelo PT dois anos antes de assumir o poder. Se aplicasse o programa em 2003 teria destruído o real. Cotejar números descarnados dos fatos é um desrespeito à memória do país.

“O PT não faria a estabilização e hoje a ameaça. Não são ‘choques de preços’ que explicam a inflação estar acima do teto da meta. Inesperados sempre ocorrem e é por isso que existe a margem de flutuação. O governo atual aceitou uma inflação mais alta. A taxa passou o mandato inteiro arranhando ou furando o teto, porque perdeu o espaço para acomodar os choques. O PT deve a Antonio Palocci e à ajuda de Arminio Fraga ter vencido as naturais desconfianças sobre a capacidade do partido de conduzir a economia. Arminio socorreu o país em dois momentos-chave: ao assumir o Banco Central no meio da crise cambial, em 1999, e na transição política, em 2002. Ninguém é obrigado a gostar dele, mas esses são os fatos.

“Da mesma forma que o PSDB tem o mérito de ter atendido a demanda do país por uma moeda estável; o PT tem o mérito de ter atendido a demanda do país por redução da pobreza e da miséria, e por ter ampliado os programas de renda mínima. Quem começou a defendê-los como política pública foi o senador Eduardo Suplicy. Repórteres iam ouvi-lo sobre qualquer assunto, e tinham uma aula sobre as políticas de transferência de renda.

“Estudos foram feitos por especialistas em combate à pobreza. A política foi testada em municípios dirigidos por partidos diferentes: Campinas, PSDB; Brasília, PT; Belo Horizonte, PSB. Quando chegou ao governo federal, o valor da bolsa era pequeno. Mas aquela experiência trouxe dois avanços: iniciou a montagem de um cadastro dos beneficiários e vinculou o benefício à presença na escola. Outra preocupação do governo FH é que a bolsa não fosse vista como uma concessão partidária, mas um direito do cidadão.

“A idéia inicial do PT, o Fome Zero, seria um retrocesso: era entregar selos para serem trocados por comidas, como os ‘food stamps’, política testada nos Estados Unidos na Depressão e que virou programa social a partir dos anos 1960. O Fome Zero não saiu do papel, o governo corrigiu a rota e criou o Bolsa Família. A presidente Dilma colocou os focos nos mais pobres e o governo dedicou-se à busca ativa, que é procurar os que mais precisam. Prisioneiros das armadilhas do Brasil profundo, eles não tinham sequer noção dos seus direitos. A estabilização e a redução da pobreza são conquistas do país que nenhum governo deve ameaçar.

“O combate à corrupção é uma demanda do Brasil e a presidente Dilma a enfraquece quando bate no peito e diz ‘a minha Polícia Federal’. Lembra muito a frase: ‘o Estado sou eu’.” (Míriam Leitão, O Globo, 19/10/2014.)

* A verdade sobre a proposta para Armínio Fraga no primeiro governo Lula

“O ex-presidente Lula negou ter convidado o economista Armínio Fraga para permanecer na presidência do Banco Central (BC) por mais algum tempo, quando se elegeu em 2002. A reconstituição dos fatos da época ajuda a entender por que Lula cogitou mas não oficializou o convite – erroneamente revelado pelo candidato Aécio Neves no debate da TV Band. Na verdade, a idéia de prolongar o mandato de Armínio no BC partiu de Antonio Palocci – principal coordenador da campanha de Lula e, depois, seu ministro da Fazenda – e ganhou força e adesões na cúpula do PT. Nas duas funções, Palocci teria de enfrentar a dificílima tarefa de acalmar empresários, investidores e o turbulento mercado financeiro, que ameaçavam jogar o Plano Real despenhadeiro abaixo e transformar a economia do País, sob Lula, num verdadeiro inferno.

“A continuidade de Armínio no BC funcionaria como uma espécie de seguro, uma garantia para o mercado de que Lula não levaria adiante as maluquices que o PT pregou antes e durante os oito anos de governo FHC. Conversas com Armínio na civilizada transição de FHC para Lula (se Aécio vencer, Dilma Rousseff fará o mesmo?) convenceram Palocci da idéia, mas ela ganhou um opositor tão poderoso quanto ele: o ex-ministro José Dirceu, hoje prisioneiro em Brasília. Os dois alimentavam antiga rivalidade, acirrada na campanha, intensificada no governo e volta e meia intermediada por Lula. Este quase sempre dava razão a Palocci, mas desta vez acatou os argumentos de Dirceu: seria capitular diante do adversário e rival PSDB reconhecer a incompetência do PT de conduzir a economia e aderir sem disfarces ao que chamavam de neoliberalismo, tão criticado na campanha.

“Aos fatos. Final de 2002. Ao longo do ano, o Plano Real viveu sua pior e mais grave crise: a Bovespa não parava de despencar, o dólar chegou a R$ 3,95 e o risco Brasil, a 2.500 pontos (comparando, no auge da crise de 2008 a taxa não passou de 250 pontos). As crises importadas do México, da Ásia, da Rússia, do ataque às Torres Gêmeas e da moratória argentina foram um leve sopro diante do vendaval destruidor do que ficou conhecido como ‘efeito Lula’. De fora e dentro do País o ataque ao Real ficava mais forte a cada pesquisa eleitoral, a cada certeza da vitória do petista. As previsões para o ano eram terroristas: a inflação não ficaria abaixo de 50% (terminou o ano em 12,5%), tão cedo o Brasil não voltaria a tomar empréstimos no exterior e recessão e desemprego eram inevitáveis.

“O candidato Lula percebeu o inferno que viveria seu governo e divulgou, em junho, a Carta ao Povo Brasileiro, em que assumia compromissos de respeitar contratos, combater a inflação e gerar superávits primários. Mas não convenceu o mercado, que só intensificava o ataque e tirava proveito do caos para especular e realizar lucros com a gangorra dos indicadores econômicos. Era uma situação que não interessava a FHC, que cumpria seu último ano de mandato e era obrigado a administrar uma crise que não criou, muito menos a Lula, que precisava do mínimo de estabilidade econômica para começar a governar.

“Foi diante desse quadro que Palocci marcou um encontro entre Lula e Armínio Fraga, numa sala reservada do Aeroporto de Brasília. ‘Estou te entregando um país na UTI’, avisou Armínio a Lula, descrevendo o quadro econômico e o que deveria ser feito para o doente melhorar e ganhar condições de, pelo menos, trocar a UTI pelo quarto. Lula e Palocci ouviram assustados e atentos. E Lula se convenceu a buscar um nome do mercado para o BC. Encontrou o tucano Henrique Meirelles.

“Meses depois, já presidente, Lula relatou a sua versão da conversa com Armínio a um grupo de deputados. E gabou-se no costumeiro estilo fanfarrão: ‘Eles colocaram e eu tirei o País da UTI’. Irritado com o relato parcial de Lula, o ex-presidente do BC respondeu em entrevista ao Estadão: ‘O País estava na UTI porque havia medo em relação ao futuro, e o futuro não estava em nossas mãos’.

“Já ministro, por vezes Palocci consultou Armínio para problemas que encontrava e ele nunca se negou a ajudar.” (Suely Caldas, Estadão, 19/10/2014.)

Os escândalos na Petrobrás

* Tribunal constata imprudência na gestão das obras de complexo petroquímico no Rio

“A Petrobrás mais uma vez se vê envolvida em malfeitos. Agora, o Tribunal de Contas da União (TCU) classifica como temerária a gestão pela estatal das obras de construção do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). Segundo o Dicionário Aurélio, temeridade é a ‘ousadia imprudente ante um perigo quase certo’. Imprudência na gestão daquela que é nada mais nada menos que a terceira maior obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e está estimada em US$ 47,7 bilhões – uma cifra que, por si só, desaconselha qualquer flerte com a imprudência.

“O Comperj, cujas obras começaram em março de 2008, está localizado no município de Itaboraí (RJ) e ocupa uma área de 45 km². Segundo a estatal, o empreendimento tem como objetivo estratégico a expansão da capacidade de refino da Petrobrás para atender ao crescimento da demanda de derivados no Brasil, como óleo diesel, nafta petroquímica, querosene de aviação, coque e gás de cozinha. O importante objetivo do empreendimento não foi suficiente, no entanto, para uma gestão prudente das suas obras.

“Segundo o relatório do TCU, a Petrobrás não realizou uma análise técnica capaz de identificar os riscos habituais em obras desse porte, como, por exemplo, as dificuldades com licenciamentos ambientais e desapropriações. Esse descuido gerou atrasos na execução do cronograma, que geraram depois vultosos acréscimos nos valores iniciais dos contratos, além de afetar as receitas da estatal. Segundo informa o próprio site da Petrobrás, estima-se que a primeira refinaria do complexo – cuja previsão inicial de entrada em operação era agosto de 2016 – terá capacidade para refino de 165 mil barris de petróleo por dia. Já se vê quanto a empresa vai perdendo.

“O TCU informa ainda que a falta de análise técnica na realização dos contratos do Comperj gerou decisões pouco fundamentadas, o que – alerta o tribunal – é sempre um ambiente fértil para procedimentos indevidos. Ainda que não tenha apontado irregularidades propriamente ditas, o relatório chama a atenção, por exemplo, para a contratação no valor de R$ 3,8 bilhões para a construção da ‘Central de Desenvolvimento de Plantas de Utilidades’ sem que antes fosse feito qualquer processo licitatório.

“O relator da auditoria do TCU, ministro José Jorge, lembrou ainda que a Petrobrás – de forma similar ao que fez por ocasião da auditoria do TCU relativa à compra da Refinaria de Pasadena – classificou, integralmente e de forma genérica, como sigilosos todos os documentos entregues ao tribunal referentes ao Comperj, sob a alegação de que as informações nele contidas poderiam ‘representar vantagem competitiva a outros agentes econômicos’. No entanto, a Lei de Acesso à Informação considera que a publicidade é o preceito geral e o sigilo, a exceção. Portanto, é necessário fundamentar as razões para a classificação de cada documento, o que não foi feito pela Petrobrás.

“Como próximo passo, o TCU determinou que a Petrobrás encaminhe em 15 dias ao tribunal informações detalhadas sobre todos os investimentos no Comperj, incluindo os contratos de obras, fornecimentos e serviços. ‘Entendo que a atuação do tribunal, nesse caso, deve ser imediata, ante as circunstâncias em que se deu a contratação, pelos montantes envolvidos e, principalmente, pelas notícias que têm sido veiculadas na mídia acerca de superfaturamento nas obras desse empreendimento’, afirmou o ministro José Jorge.

“Como se vê, toda prudência e diligência do TCU agora são poucas. Os indícios de irregularidades que motivaram, no primeiro semestre, o tribunal a iniciar a auditoria das obras do Comperj – cujo primeiro relatório é agora publicado – ganharam outra dimensão. É que as obras do Comperj – bem como as da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco – eram tocadas por Paulo Roberto Costa, quando ele era diretor de abastecimento da estatal. Segundo confessou Paulo Roberto, as empresas contratadas para as obras pagaram comissão de 3% a políticos da base aliada do governo, como PT, PMDB e PP, e a governadores dos Estados beneficiados pelas obras da estatal.

“Fica a pergunta: quando se poderá ver a estatal mais bem gerida e menos envolvida em corrupção?” (Editorial, Estadão, 18/10/2014.)

* EUA investigam se caso Petrobrás prejudicou acionistas

“O órgão regulador do mercado acionário americano, a Security Exchange Commission (SEC), abriu uma investigação preliminar para saber das irregularidades em torno da Petrobrás e dos envolvidos na operação Lava-Jato, segundo informações da consultoria Arko Advice, com sede em Brasília. A SEC não informa que empresas estão ou não sob investigação. A estatal tem recibos de ações (American Depositary Receipts — ADRs) negociadas na Bolsa de Nova York e, por isso, está submetida também às leis do mercado acionário dos Estados Unidos.

“O relatório da consultoria afirma que a investigação preliminar conduzida pela SEC demonstra que a petrolífera teria operado de forma desgovernada, conforme as declarações prestadas por Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás, no procedimento de delação premiada. ‘Caso tais suposições e denúncias se confirmem, a situação pode ficar complicada. Teoricamente, todos os membros do conselho de administração e da diretoria da empresa são legalmente responsáveis por desvios de conduta’, afirma o documento distribuído a clientes e assinado por Murillo de Aragão, Cristiano Noronha, Carlos Eduardo Bellini e Marcos A. Queiroz.

“Essa investigação preliminar contaria com 28 advogados e analistas da SEC e do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Dependendo do resultado da investigação, a Petrobrás responderia não apenas por possíveis irregularidades no mercado acionário, mas ainda criminalmente, além de estar passível de cobrança de multas — as leis americanas preveem punições à prática de corrupção, mesmo que tenha ocorrido fora dos Estados Unidos.

“‘Um time de 28 advogados e analistas da SEC e do Departamento de Justiça americano já estão trabalhando no caso, que pode se estender às empresas fornecedoras de ser viços da estatal, que podem ser chamadas a prestar esclarecimentos’, diz o relatório, acrescentando que há um cuidado do órgão americano de não vazar as conclusões preliminares em meio ao ambiente eleitoral — as ações da Petrobrás estão entre as mais afetadas pelas notícias sobre a sucessão presidencial.

“No final da tarde de ontem (17/10), a Petrobrás divulgou um comunicado ao mercado, a pedido da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em que presta esclarecimento sobre as reportagens publicadas na imprensa sobre a operação Lava-Jato. No documento, a estatal afirma que constituiu comissões internas para apurar ‘indícios ou fatos contra a empresa, bem como subsidiar medidas administrativas e procedimentos decorrentes’. Afirmou ainda que pediu acesso aos autos da Lava-Jato e que solicitou acesso ao conteúdo do depoimento de Costa feito com base no processo de delação premiada. A companhia esclareceu ainda que está colaborando com as autoridades.

“Segundo a consultoria Arko, a investigação americana está baseada nas informações de Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás, que, mediante acordo de delação premiada, revelou à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal um suposto esquema para desviar dinheiro de contratos e repassar os valores a partidos políticos, doleiros e a diretores da estatal.

“No acordo de delação premiada, Costa se comprometeu a colaborar com as investigações em troca da transferência da prisão onde estava, em Curitiba (PR), para a casa dele, no Rio, onde está detido em regime de prisão domiciliar.

“No dia 8 deste mês, em depoimento à Justiça Federal do Paraná, Costa afirmou que parte da propina cobrada de fornecedores da estatal era direcionada para atender a PT, PMDB e PP e foi usada na campanha eleitoral de 2010. (Ana Paula Ribeiro, com o site G1, O Globo, 18/10/2014.)

* Gleisi Hoffman, ministra da Casa Civil de Dilma, recebeu R$ 1 milhão de esquema na Petrobrás, diz, na delação premiada, o ex-diretor Costa

“O ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa afirmou na delação premiada ao Ministério Público Federal que, em 2010, o esquema de corrupção na estatal repassou R$ 1 milhão para a campanha ao Senado da petista Gleisi Hoffmann (PR). Em 2011, no início do governo da presidente Dilma Rousseff, ela se licenciou do mandato para assumir o cargo de ministra-chefe da Casa Civil – posto que ocupou até fevereiro deste ano.

“O ex-diretor da Petrobrás disse que recebeu pedido para ‘ajudar na candidatura’ de Gleisi. A solicitação, afirmou o ex-diretor da Petrobrás, foi feita pelo doleiro Alberto Youssef.

“Costa e Youssef são alvo da Operação Lava Jato, deflagrada em março pela Polícia Federal para combater o que considera uma organização criminosa que se instalou na Petrobrás para promover corrupção e lavagem de dinheiro.

“O ex-diretor da estatal lembrou ainda que, em 2010, o marido de Gleisi, Paulo Bernardo, ocupava o cargo de ministro de Planejamento, Orçamento e Gestão do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Neste ano, a petista concorreu ao governo do Paraná e terminou a disputa na terceira colocação, com 14,9% dos votos.

“Costa disse que o repasse de R$ 1 milhão para a campanha da senadora ‘se comprova’ na inscrição que ele próprio lançou em sua agenda pessoal, apreendida pela PF no dia 20 de março, três dias depois da deflagração da Lava Jato.

“Numa página do caderno do ex-diretor consta, entre outras, a seguinte anotação: ‘PB 0,1’. Segundo o delator da Lava Jato, o registro significa ‘Paulo Bernardo, R$ 1 milhão’. Importante quadro do PT, Bernardo ocupa desde 2011 o cargo de ministro das Comunicações na gestão de Dilma, candidata à reeleição.

“Os investigadores da Lava Jato tiveram a confirmação de que a quantia de R$ 1 milhão destinada à campanha de Gleisi foi entregue em espécie, em Curitiba, para ‘um emissário’ da campanha da senadora.

“Costa já concluiu o processo de delação, após sucessivos depoimentos a um grupo de procuradores da República. Youssef decidiu seguir o mesmo caminho e ainda está fazendo declarações.

“Em seu relato, o ex-diretor da Petrobrás disse que o dinheiro para a campanha de Gleisi saiu de uma cota equivalente a 1% sobre o valor de contratos superfaturados da Petrobrás.

“Esse valor, afirmou Costa, era da ‘propina do PP’, partido da base aliada ao governo Dilma que foi presidido pelo deputado José Janene (PR), morto em 2010. Janene foi líder do PP na Câmara dos Deputados e réu do mensalão federal no Supremo Tribunal Federal.

“O ex-executivo da Petrobrás revelou que o PT e o PMDB eram contemplados com parcelas de valores dos contratos de diretorias da estatal. O partido do governo, segundo ele, ficava com até 3% em alguns casos.

“Youssef contou em seu depoimento à Justiça Federal que Costa, apesar de cuidar do 1% destinado ao PP na diretoria de Abastecimento, ‘muitas vezes tinha que atender a pedidos do PMDB e do PT’.

“Em uma das denúncias da Lava Jato, os procuradores da República responsáveis pela investigação do esquema registram que, numa planilha encontrada com os réus, constam anotações manuscritas de seis grandes construtoras do País, todas com contratos ativos na Petrobrás. ‘Doaram, juntas, R$ 35,3 milhões a partidos da base parlamentar de apoio ao governo federal na campanha de 2010.’

“No mesmo documento, que tanto Youssef como Costa confirmaram conter anotações sobre as propinas, estão os registros ‘executivo’, ‘nome de empresas’ e ‘solução’.

“O ex-diretor da estatal afirmou também nesta semana que o ex-presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE) – morto em março deste ano -, cobrou R$ 10 milhões em 2009 para neutralizar a CPI da Petrobrás, instalada naquele ano para apurar irregularidades na companhia, incluindo as obras da refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco , empreendimento orçado, inicialmente, em R$ 2,5 bilhões, e que já consumiu R$ 20 bilhões, segundo o Ministério Público Federal.

“Costa disse que a construtora Queiroz Galvão, que detém parte do contrato da Abreu e Lima, pagou R$ 10 milhões para a campanha tucana em 2010.

“Segundo ele, a Queiroz Galvão integrava ‘cartel’ das empreiteiras que assumiram o controle de contratos bilionários da estatal.” (Fausto Macedo e Ricardo Brandt, Estadão, 19/10/2014.)

* Empresas doaram R$ 456 milhões ao PT e seu aliados, segundo a Polícia Federal

“As empresas acusadas de formar um cartel para lotear grandes licitações públicas no País, segundo investigação da Operação Lava Jato, doaram R$ 456 milhões a PT, PMDB, PSDB, PSB, DEM e PP nos últimos sete anos, sem fazer distinção entre situação e oposição. Parte do dinheiro foi repassada às legendas em valores fixos e mensais.

“Segundo o ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef, parte desse dinheiro teve como origem esquemas de fraudes em contratos, lavagem de dinheiro e corrupção, e foi parar nas campanhas presidenciais de 2010 do PT e do PSDB.

“Levantamento feito pelo Estado mostra que o PT e o PSDB, juntos, receberam 55% do total repassado aos seis partidos via diretório nacional. Os R$ 456 milhões que irrigaram as contas dessas legendas de 2007 a 2013 – período que o Tribunal Superior Eleitoral publica para consulta na internet – representam 36% do total doado às seis legendas por pessoas jurídicas em geral, no período.

“Esse tipo de doação é legal, mas tem uma fiscalização mais frouxa em relação à eleitoral, e sempre foi usada para tentar dissimular a origem do dinheiro que abastece campanhas.

“O mapa do dinheiro feito pelo Estado mostra que as construtoras fizeram repasses mensais em valores fixos muitas vezes e pulverizados por partidos, tanto da situação como oposição. É o caso da Andrade Gutierrez, líder no total repassado: R$ 128 milhões aos seis partidos. Para o PT, em 2010, ela deu R$ 15 milhões, sendo que alguns mensais fixos, como três depósitos de R$ 700 mil cada entre fevereiro e abril. Para o PSDB, a Andrade Gutierrez fez 24 repasses, totalizando R$ 19 milhões.

“Naquele ano, R$ 60 milhões foram doados para o PT pelas 14 empresas citadas pelos delatores como parte do cartel. Há no entanto outras que aparecem nos documentos, com contratos com o grupo, que abasteceram os cofres do diretório petista e não foram incluídas no levantamento. Segundo os delatores, parte desse dinheiro irrigou a campanha da presidente Dilma Rousseff em 2010.

“Prestação de contas da campanha mostra que o Diretório Nacional do PT repassou às contas do comitê e da candidata R$ 21 milhões e R$ 171 mil, respectivamente. Outros R$ 562 mil vieram de diretórios locais.

“O levantamento indica também que os grandes grupos empresariais alvos da Lava Jato fazem com frequência doações divididas em valores iguais no mesmo dia usando duas empresas que controlam. É o caso da Construtora Queiroz Galvão, apontada por Paulo Roberto Costa como a empresa que pagou a propina de R$ 10 milhões ao PSDB para que a CPI da Petrobrás do Senado fosse arquivada.

“Nos dois últimos meses de 2009, quando a comissão foi encerrada sem punições, a Queiroz Galvão repassou dois depósitos de R$ 833 mil cada. Em 2010, ano em que José Serra (PSDB) disputou a Presidência, a empresa repassou valores mensalmente, entre eles cinco depósitos de R$ 1 milhão cada a partir de junho – quando começa a campanha oficialmente.

“Em 2013, a Odebrecht fez três repasses ao PMDB que totalizaram R$ 11 milhões. Um dado que sugere movimentação triangulada via diretório é a doação da OAS em 2010 para o PMDB, no valor de R$ 500 mil, no dia 15 de setembro. No mesmo dia, valor igual foi repassado pelo Diretório Nacional à campanha ao Senado do tesoureiro do PMDB Eunício Oliveira – atual candidato ao governo do Ceará.

“Alvos da Polícia Federal e do Ministério Público Federal para dimensionar o tamanho da rede de corrupção controlada pelo ex-diretor da Petrobrás e pelo doleiro, as empresas negam até agora envolvimento. A Queiróz Galvão nega propina no caso do PSDB. Ela e a Odebrecht criticaram as acusações dos delatores. A Camargo Corrêa, a Andrade Gutierrez, UTC/Constran, OAS e demais empresas negaram anteriormente relação com ilícitos e afirmam que só fazem doações legais.

“O levantamento feito pelo Estado considerou as 14 construtoras citadas pelo doleiro e pelo ex-diretor da Petrobrás como formadoras de uma espécie de ‘cartel’ que dividia contratos públicos, principalmente no governo federal, pagando propina para partidos e agentes públicos e fraudando os contratos e movimentando recursos de caixa 2 dentro e fora do País.

“Levou em conta também os três principais partidos da base de governo citados, PT, PMDB e PP, que teriam loteado diretorias na estatal petrolífera para cobrar até 3% de propina das grandes construtoras, além dos dois principais partidos de oposição, PSDB e DEM, e o PSB, aliado do PT até 2014.” (Ricardo Brandt e Valmar Hupsel Filho, Estadão, 19/10/2014.)

* Vaccari, o tesoureiro do PT apontado como operador do esquema de propinas da Petrobrás, recebeu de Dilma o prêmio de virar conselheiro de Itaipu

“Citado na delação premiada do ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa como um dos operadores do esquema de distribuição de propinas na estatal, o secretário financeiro do PT, João Vaccari Neto, virou tema da campanha presidencial, quando Aécio Neves, no último debate, na TV Record, cobrou de Dilma Rousseff, candidata à reeleição, a demissão do correligionário do Conselho de Administração da usina Itaipu Binacional. Dilma silenciou ao ser perguntada por que não demite o petista. Pesquisa no Diário Oficial mostra que Vaccari chegou ao posto por nomeação da própria presidente, em 2003, quando era ministra das Minas e Energia. Com mandato de quatro anos, desde então vem sendo reconduzido ao cargo. A remuneração por participação nas reuniões do conselho de Itaipu é de R$ 20.804,13. O atual mandato de Vaccari vai até 16 de maio de 2016.

“A nomeação foi uma espécie de prêmio de consolação dada a Vaccari, que foi preterido na disputa da presidência da Caixa Econômica Federal. No mesmo dia, foi nomeada para o cargo de diretora financeira executiva de Itaipu a atual senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR).

“No último debate, Aécio disse que se sem cargo na Petrobrás o petista era acusado de participar de um esquema de 3% de propinas nos contratos da empresa, a situação poderia ser mais grave em Itaipu onde tem crachá.

“- A senhora confia nele? – questionou Aécio.

“O jeton pago aos conselheiros de Itaipu é o mais elevado do executivo federal, e o governo vem rotineiramente indicando pessoas com ligação política para seus assentos. Em 22 de janeiro de 2003, quando assumiu o governo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também assinou, com a então ministra de Mina e Energia, Dilma Rousseff, a nomeações de Luiz Pinguelli Rosa e Mauricio Tolmasquim, ainda hoje assessores do Executivo, para a área elétrica.

“Apesar de suas sucessivas reconduções, Vaccari vem respondendo, desde 2010, à denúncia do Ministério Público por suposto desvio de recursos, da Bancoop, uma cooperativa habitacional. Vaccari é réu por estelionato, formação de quadrilha, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro. No início da gestão petista, Vaccari, que era presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo e secretário de finanças da CUT, chegou a ser cotado para ocupar a presidência da Caixa Econômica Federal. Preterido, acabou nomeado para o conselho da hidrelétrica. A nomeação tinha o objetivo de complementar o mandato até 17 de maio de 2004. Depois, Vaccari foi reconduzido ao posto naquele ano e em 2008. Em 2012, quando ele já havia assumido a tesouraria do PT e Dilma já estava na presidência, houve uma nova recondução, com validade até 2016.

“A assessoria de Itaipu informou que Vaccari, assim como os outros conselheiros, possui crachá para ter acesso ao Edifício de Produção, onde são realizadas as reuniões do Conselho de Administração. O conselho se reúne apenas seis vezes por ano, mas podem acontecer encontros extraordinários. De acordo com a assessoria de Itaipu, em quase 12 anos o tesoureiro do PT teve uma falta, que foi justificada.

“Hoje, entre os sete conselheiros indicados pelo lado brasileiro para o conselho de Itaipu (são outros sete pelo lado paraguaio), estão o ministro Aloizio Mercadante, da Casa Civil; Vaccari; Pinguelli; José Muniz Lopes, diretor da Eletrobras; o ex-governador do Rio Grande do Sul, Alceu Collares (PDT); e o filho de Orlando Pessuti (PMDB), ex-governador do Paraná, Orlando Moisés Pessuti. O sétimo nome é de Eduardo Santos, indicado pelo Itamaraty.

“A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) disse ontem (20/10), por meio de nota, que a ‘valentia’ do líder do Solidariedade na Câmara, deputado Fernando Francischini (PR), em querer convocá-la à CPI da Petrobrás é ‘seletiva’. De acordo com denúncia do ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa, Gleisi teria recebido R$ 1 milhão para sua campanha ao Senado, em 2010.

“Na nota, a senadora lembra que o deputado Luiz Argôlo (BA), envolvido na Operação Lava-Jato, é do mesmo partido de Francischini. ‘A valentia do ex-delegado é seletiva. Quando divulgaram o nome de dezenas de deputados que estariam envolvidos, inclusive um do partido dele e o próprio presidente da Câmara, ele não falou em convocar ninguém. Além disso, se apresenta como amigo do juiz do processo e detentor de informações privilegiadas, que ameaça divulgar. É bom divulgar logo tudo, para não parecer que quer achacar alguém’, diz a nota.” (Maria Lima, Danilo Fariello e Sérgio Roxo, O Globo, 21/10/2014.)

* Os escândalos na Petrobrás têm amplos desdobramentos. E ano que vem surgirão os nomes dos que receberam o dinheiro sujo

“A visão conspiratória de que o escândalo na Petrobrás obedeceria a um enredo sob encomenda para desestabilizar a candidatura de Dilma Rousseff não sobrevive a um mínimo de bom senso. O andamento das investigações da Operação Lava-Jato, da PF — a que devassou os laços entre o doleiro Alberto Yousseff e o diretor da estatal Luís Roberto Costa —, precisaria se articular com o calendário de interrogatórios na Justiça e MP, alguns sob supervisão do ministro Teori Zavascki, do Supremo, para produzir um noticiário negativo ao governo do PT em setembro e outubro.

“O noticiário existe, mas por outro simples motivo: porque o escândalo do superfaturamento de contratos de empreiteiras com a Petrobrás, para financiar propinas e caixa dois de políticos e campanhas, se configura mesmo como de grandes proporções. Tanto que se prevê a divulgação de informações ainda mais danosas ao PT — e não apenas para ele — tão logo o segredo de justiça sobre depoimentos que envolvam acusados com foro privilegiado, políticos em cargos eletivos, seja suspenso. O pior ainda estaria por acontecer.

“A amplitude do escândalo é tal que, segundo o jornal Folha de S.Paulo, Roberto testemunhou que até mesmo o então presidente do PSDB, Sérgio Guerra, teria recebido suborno do esquema, em 2009, para ajudar a inviabilizar uma CPI sobre a Petrobrás. Morto há sete meses, Guerra não pode se explicar.

“A história ficou ainda mais séria porque Dilma, no sábado, admitiu que houve ‘desvio de dinheiro público’ na Petrobrás, ao afirmar em entrevista que se desdobrará para ‘ressarcir o país’. É algo inédito, porque nunca foi admitido formalmente por alguém do PT qualquer malfeito de militantes. Até hoje, com mensaleiros em cumprimento de penas, não se reconhece sequer que houve o mensalão. Pode ser uma manobra eleitoreira para tentar reduzir danos à campanha de Dilma, causados pela pecha de corrupto que parece pespegar no PT, não bastasse ter sido ela presidente do conselho de administração da empresa. O resultado prático da afirmação da candidata, porém, é a confirmação definitiva do escândalo.

“Desdobramentos começam a ocorrer. Nos Estados Unidos, a SEC (Securities and Exchange Commission), agência responsável pela fiscalização do mercado de ações e títulos, instaurou investigação sobre o caso. Afinal, recibos de ações da Petrobrás são negociados em Nova York, e seus detentores terão sido lesados pela retirada fraudulenta de recursos do caixa da estatal. Entre as vítimas também estão os acionistas brasileiros, em que se destacam trabalhadores que investiram o FGTS nas ações da empresa. Missão para a CVM.

“Para o ano que vem, primeiro do próximo governo, já está contratada a turbulência a ser causada pela divulgação da lista de políticos financiados por esse dinheiro sujo, a ser avaliada pelo Supremo e Ministério Público. O escândalo, então, ainda evoluirá bastante.” (Editorial, O Globo, 21/10/2014.)

* Agência de classificação de risco Moody’s corta nota de crédito da Petrobrás

“A agência de classificação de risco Moody’s rebaixou nesta terça-feira a nota de crédito em moeda estrangeira da Petrobrás, de Baa1 para Baa2. Em comunicado, a agência disse que a decisão se justifica pelo alto grau de endividamento da estatal, situação que só deve se reverter ‘bem depois de 2016’, ao contrário das previsões originais.

“Apesar do rebaixamento, a empresa ainda se enquadra na categoria ‘grau de investimento’, porém a dois degraus de perder a chancela, usada como referência por investidores internacionais.

“Na nota, a Moody’s disse que a companhia está pressionada pelos preços do petróleo e o câmbio. A perspectiva continua negativa.

“‘Enquanto a Petrobrás tem sido relativamente bem-sucedida em executar seu programa ambicioso e entregar metas agressivas de produção, a alavancagem (relação entre dívida e patrimônio) continua a crescer em 2014, causando a impossibilidade de suportar custos relacionados à importação de petróleo, desvalorização da moeda local e um programa agressivo de capex (investimentos de bens de capital’, disse Nymia Almeida, vice-presidente de crédito da Moody’s, em comunicado.

“Pelas contas da agência de risco, a dívida da petroleira chegou a US$ 170 bilhões em junho deste ano, um aumento de US$ 25 bilhões em relação a dezembro do ano passado. A Moody’s atribui o grau de endividamento principalmente à defasagem entre os preços internacionais e os praticados no país. Na semana passada, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que a empresa deve reajustar preços mesmo com o fim dessa defasagem, causado pela queda do valor do petróleo.

“A queda dos preços internacionais, no entanto, também pode prejudicar a produção da Petrobrás, se prolongada no médio prazo, destaca a Moody’s.” (Simone Iglesias e Roberta Scrivano, O Globo, 22/10/2014.)

* Tesoureiro do PT é acusado de cobrar propina em negócios com fundos de pensão para rechear caixa 2 de campanhas

“O doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa não foram os primeiros a utilizar a delação premiada para acusar o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, de arrecadar propina para o partido. Identificado como um dos operadores do mensalão e apontado como doleiro pela Procuradoria Geral da República, o operador financeiro Lúcio Bolonha Funaro acusou Vaccari de cobrar propina em operações com fundos de pensão em pelo menos duas ocasiões, na CPI dos Correios (2006) e das ONGs (2010). Em depoimento ao MPF, afirmou que o tesoureiro do PT chegava a cobrar propina de 12% em negócios que serviam para rechear o caixa-dois de campanhas políticas.

“Em depoimento à CPI das ONGs, em 2010, o operador financeiro Lúcio Funaro sugeriu que fossem investigados negócios da Itaipu Binacional e do fundo de pensão da empresa, o Fibra, que poderiam estar relacionados ao tesoureiro do PT. Ele assumiu o conselho da empresa em 2003. Na época, Funaro afirmou que Vaccari tinha relacionamento ‘umbilical’ com o grupo Schahin, que mantém mais de US$ 10 bilhões em contratos com a Petrobrás.

“O Grupo Schahin também tem negócios em Foz do Iguaçu. A Itaipu Binacional cedeu terreno e projetos (arquitetônico e estrutural) para que fosse erguida a Universidade Latino Americana. A obra atrasou, e o consórcio Mendes Junior/Schahin paralisou as atividades e informou que o contrato tem desequilíbrio financeiro. O contrato foi fechado por R$ 241 milhões e recebeu aditivos de R$ 13,9 milhões. O TCU chegou à conclusão que a falha estava no projeto feito por Itaipu.

“Segundo Paulo Roberto Costa, Vaccari é o operador do esquema de propinas na diretoria de Serviços da Petrobrás, com comissão de 3%. Para o MPF, apenas as informações de Youssef, que distribuía o dinheiro, podem esclarecer quem recebia e como ia para o caixa dois do PT. Funaro afirmou que Vaccari operava com dinheiro vivo, o que torna mais difícil a investigação.

“A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investiga os negócios da Petrobrás tenta retomar uma das denúncias de Lúcio Bolonha Funaro, a partir das investigações da Operação Lava-Jato, e descobrir a ligação de Vaccari com o Grupo Schahin, que tem contratos superiores a US$ 10 bilhões com a Petrobrás.

“Em um dos pedidos de investigação, do deputado Rubens Bueno (PPS-PR), são citados pagamentos do Grupo Schahin a empresas de fachada de Youssef. Em outra ação judicial na Justiça do Paraná, do caso Copel, há registros de pagamentos feitos pelo doleiro a Kenji Otsuki, executivo do grupo. Além de pedir quebra dos sigilos fiscal, bancário e telefônico de Otsuki, o deputado João Magalhães (PMDB-MG) lembrou que Otsuki preside a offshore Turasoria, que arrenda o navio-sonda LC Lancer para a Petrobrás, e da offshore Quibdo, ao lado de Milton Taufic Schahin e Salim Taufic Schahin. Lembrou que a Quibdo, ‘coincidentemente’, foi registrada no Panamá pelo mesmo escritório usado para abrir offshores para Costa.

“A maioria dos contratos da Schahin com a Petrobrás são firmados por offshores — de acordo com denúncia de Funaro, seriam 107 offshores. Procurado, o Grupo Schahin não quis se pronunciar. Magalhães afirmou que os requerimentos estão parados porque não houve acordo entre oposição e a base aliada do governo para convocar e investigar as empresas citadas na Lava-Jato.

“Perguntado se era Vaccari o contato com o Grupo Schahin, Funaro sugeriu que procurassem Kenji Otsuki, a quem chamou de ‘o homem da propina do Banco Schahin’. Carlos Eduardo Schahin, que era presidente do banco, foi condenado em julho último pela Justiça Federal a quatro anos de prisão por manter depósitos não declarados em nome de uma offshore. A pena foi convertida em prestação de serviços à comunidade e multa. Na época das primeiras denúncias, Vaccari havia declarado ter se encontrado apenas uma vez com Funaro.

“Procurados, João Vaccari, o Grupo Schahin e a Petrobrás não se manifestaram.” (Cleide Carvalho, O Globo, 22/10/2014.)

* Comissão de Valores Mobiliários abre processo para apurar denúncias da Operação Lava Jato

“A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), xerife do mercado de capitais brasileiro, abriu um processo administrativo para investigar a Petrobrás. Embora a CVM não informe o motivo da investigação – alegando que ‘não comenta casos específicos, inclusive para não afetar negativamente trabalhos de análise’ -, uma fonte ligada à estatal informou que o objetivo do processo é tomar ciência de todas as denúncias surgidas com a Operação Lava-Jato, da Polícia Federal.

“- A CVM abriu esse processo para tomar pé de tudo o que está acontecendo com a Operação Lava-Jato, já que há uma investigação em curso, envolvendo vários órgãos. Esse é o objetivo – disse uma fonte ligada à estatal.

“Já fontes próximas à CVM disseram que, mesmo sem ter instaurado processos sancionadores até então, o órgão já vinha apurando as denúncias surgidas na Operação Lava-Jato.

“Na última sexta-feira (17/10), a Petrobrás esclarecera, em resposta a um ofício da CVM que pedia informações sobre os crimes denunciados na Lava-Jato, que constituiu comissões internas para averiguar indícios de irregularidades na empresa. Além disso, a companhia afirmou que requereu acesso aos autos da operação – o que foi deferido pela Justiça -, e que solicitou acesso ao conteúdo da delação premiada do seu ex-diretor Paulo Roberto Costa – o que ainda não foi deferido pelo Judiciário.

“A abertura do processo, de número RJ-2014-12.184, foi requerida na segunda-feira pela Superintendência de Relações com Empresas (SEP) da CVM. A apuração tem caráter preliminar e, caso se identifiquem irregularidades, ela dará origem a um processo administrativo sancionador, que busca a solução do problema e pode resultar em punições para a companhia.

“ – A impressão que dá é que a CVM se sentiu pressionada a abrir uma investigação depois que a SEC (Security Exchange Commission, o órgão regulador do mercado financeiro dos Estados Unidos), começou a apurar a conduta da empresa – afirmou um gestor, que preferiu não ser identificado.

“Na semana passada, a consultoria política Arko Advice havia divulgado que a Petrobrás é alvo de investigação semelhante nos Estados Unidos. A SEC, porém, não informa quais empresas estão sob investigação. A estatal possui recibos de ações (ADRs, American Depositary Receipts) negociados na Bolsa de Nova York, e por isso está submetida também às leis do mercado acionário americano.

“A investigação seria preliminar e contaria com 28 advogados e analistas da SEC e do Departamento de Justiça dos EUA. A depender do resultado da apuração, a Petrobrás responderia não apenas por possíveis irregularidades no mercado acionário, mas também criminalmente, além de estar passível de cobrança de multas – as leis americanas preveem punições à prática de corrupção, mesmo que tenha ocorrido fora daquele país.

“- A CVM não é a Polícia Federal, ela não tem como objetivo apurar se houve crimes na empresa, mas se as informações prestadas pela companhia em balanços financeiros e comunicados estão corretas. Então, a investigação é positiva, porque trará mais transparência à companhia – disse Rogério Freitas, da gestora de recursos Teórica Investimentos.

“Procurada, a Petrobrás não se manifestou sobre o processo aberto pela CVM.

“Em fevereiro, a CVM já havia arquivado sua investigação sobre as supostas irregularidades na compra da refinaria de Pasadena, no Texas (EUA), feita em 2008. A apuração foi iniciada após queixas de acionistas da estatal. A autarquia não deu continuidade ao caso porque as possíveis irregularidades no negócio já haviam prescrito – o prazo de ação do órgão é de cinco anos após a ocorrência dos fatos.

“Mas, segundo fontes próximas à CVM, o órgão está acompanhando de perto todas as denúncias surgidas com a Operação Lava-Jato porque, caso a investigação descubra que houve, de fato, crime na aquisição da refinaria americana pela Petrobrás, o órgão poderá reabrir o caso. Isso porque, em casos de crime, o prazo de prescrição é maior.

“Ontem (22/10), em carta aberta divulgada por e-mail, Silvio Sinedino, membro do Conselho de Administração da Petrobrás eleito pelos funcionários, afirmou que a estatal deveria identificar funcionários envolvidos nas fraudes ocorridas. Ele ressaltou ainda que os indícios indicam que houve corrupção na gestão da petroleira.

‘Como entender que a Auditoria Interna não tenha sido capaz de identificar nenhum desses desvios? Eram mesmo indetectáveis?’, destacou Sinedino, que também é presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (Aepet). ‘Se o esquema de corrupção existiu, e tudo indica que sim, com certeza há outros petroleiros envolvidos, ou alguém acha que é possível que seja armado um esquema de desvio gigantesco de valores por uma única pessoa e que não desperte a atenção de ninguém?’” (Rennan Setti e Bruno Rosa, O Globo, 23/10/2014.)

As estatais tomadas de assalto

* Conselho de administração de Itaipu é o típico cabide de emprego para a companheirada

“Seria injusto acusar apenas o PT de utilizar-se de conselhos de administração de estatais para abrigar correligionários, aliados políticos e similares. Outros governos foram pelo mesmo caminho, incluindo os da ditadura militar.

“O artifício costuma ser usado para melhorar o rendimento de ministros, obrigados, assim como o presidente da República, a obedecer a limites salariais hipócritas. O mesmo vale para parlamentares, induzidos a se valer de copiosas verbas de gabinete para complementar os subsídios.

“Mas se o PT não foge à regra, ele exagera. O que acontece no Conselho de Administração da usina Itaipu Binacional é exemplar — do que não deve ser feito, por suposto.

“Este conselho entrou no noticiário porque lá se encontra, desde 2003, nomeado pela então ministra das Minas e Energia Dilma Rousseff, João Vaccari Neto, estrela em ascensão no escândalo da Petrobrás, personagem também de outras histórias estranhas.

“Oriundo do braço sindical petista, com atuação na categoria dos bancários — origem também, entre outros, do mensaleiro foragido Pizzolato, de Berzoini, e do falecido Gushiken — o discreto Vaccari, desde 2010, responde pela acusação de ter desviado dinheiro da Bancoop, cooperativa habitacional de sindicalizados. É acusado de estelionato, formação de quadrilha, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.

“À folha corrida de Vaccari serão acrescentadas outras denúncias ao ser encerrado o inquérito da Operação Lava-Jato, em que ele aparece, segundo testemunhos do doleiro Alberto Youssef e do ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa, como recolhedor da parte do leão que cabia ao PT no pagamento de propinas por empreiteiras contratadas pela estatal.

“João Vaccari, portanto, parecia dono de um currículo à altura do cargo de tesoureiro da legenda, já ocupado por Delúbio Soares, mensaleiro condenado em fase de cumprimento de pena. O “secretário financeiro” do PT foi tirado de um semianonimato ao ser citado por Aécio Neves no debate com Dilma promovido pela Record. “Semi” porque Vaccari já fora citado também como intermediário em negócios pouco claros com fundos de pensão de estatais, bilionário braço financeiro do sindicalismo petista.

“O ex-bancário não está sozinho no conselho de Itaipu. Lá também se encontram o ministro-chefe da casa Civil, Aloizio Mercadante, petista; o pedetista histório Alceu Collares, ex-governador do Rio Grande do Sul e, entre outros, o filho do ex-governador do Paraná Orlando Pesutti, do PMDB. Todos recebendo R$ 20.804,31 por participação nas reuniões do conselho.

“Mais um caso para sedimentar a idéia de que esses conselhos são sinecuras indevidamente financiadas pelo contribuinte. O escândalo na Petrobrás levou à redescoberta de Vaccari e, por tabela, jogou luz sobre o conselho de Itaipu. Esta história não pára de produzir surpresas.” (Editorial, O Globo, 22/10/2014.)

Os números ruins da semana

* Indicador do Banco Central mostra crescimento de apenas 0, 27% no mês

“A economia brasileira desacelerou em agosto. Nas contas do Banco Central (BC), a expansão foi de 0,27% no mês, muito abaixo do IBC-Br (índice da autoridade monetária que mede a atividade no Brasil) de julho, que mostrou alta de 1,52%. Segundo analistas, o resultado de julho só surpreendeu porque foi calculado sobre uma base muito fraca do desempenho da economia no segundo trimestre. Os economistas também avaliaram que os dados de agosto, divulgados ontem pelo BC, reforçam as previsões de que o país não crescerá neste ano. A expansão da economia acumulada em 2014, medida pelo IBC- BR, é de apenas 0,04%.

“Em 12 meses, o IBC-Br avançou 0,93%. Até agosto, o índice acumulado em 12 meses era de 1,14%. É mais um dado que mostra que a economia brasileira está em desaceleração.

“— É simplesmente o registro de perda de fôlego de toda a atividade econômica do país — disse o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, que projeta crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos pelo país) de 0,3% neste ano, mas já avisa que pode reduzir ainda mais essa estimativa.

“O resultado do índice em agosto também ficou abaixo do esperado pelos analistas do mercado financeiro, que previam uma alta de 0,30%.

— A economia não reagiu como o esperado no terceiro trimestre e, por isso, devemos ter um crescimento próximo a zero neste ano ou algo como 0,3% —prevê o economista-chefe da corretora Gradual, André Perfeito.

“Os dados preliminares até indicavam focos de reação da economia. Em agosto, as vendas do comércio, por exemplo, voltaram a crescer. O varejo restrito (que não leva em consideração as atividades de veículos e motos, partes e peças e de material de construção) cresceu 1,1% no mês, já descontados os efeitos sazonais, segundo Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) divulgada anteontem (15/10) pelo IBGE.

“No entanto, esse movimento foi considerado pontual: uma alta puxada pelas vendas de equipamentos e material para escritório, informática e comunicação e de tecidos, vestuário e calçados. E o resultado do comércio, entretanto, não foi suficiente para repor a retração dos dois meses anteriores.

“Por isso, as apostas dos economistas continuam de moderação do consumo das famílias ao longo de 2014. A produção industrial avançou 0,7% em agosto, mas ainda mostrando contração no acumulado do ano.

“Outro dado de debilidade econômica é a perda de fôlego do mercado de trabalho, apesar do nível de desemprego baixo. A criação de vagas formais em setembro, por exemplo, foi a pior para o mês nos

últimos 13 anos. Por isso, a pesquisa do BC com analistas do mercado financeiro aponta que a expectativa para este ano é de crescimento do PIB de apenas 0,28%. No ano passado, a expansão foi de 2,5%.

“‘Vemos as impressões positivas de julho e agosto como, em certa medida, uma recuperação técnica de um segundo trimestre profundamente negativo e, portanto, não indicam uma clara tendência de recuperação da economia, dada a desaceleração do crédito, suavizando os indicadores do mercado de trabalho (desaceleração do crescimento dos salários reais e a criação de emprego), fraqueza de negócios e sentimento do consumidor, e incerteza global no que diz respeito às perspectivas de política interna em 2015’, escreveu Alberto Ramos, economista do Goldman Sachs, em comunicado aos clientes.

“O crescimento da indústria e do comércio são os dois fatores que mais influenciam o IBCBr. O índice foi criado pelo Banco Central para ser referência do comportamento da atividade econômica e orientar a política de controle da inflação pelo Comitê de Política Monetária (Copom), uma vez que o dado oficial do PIB é divulgado pelo IBGE com defasagem, por ser um indicador muito mais completo.

“Pelo cálculo oficial, a economia brasileira registrou recuo de 0,6% no segundo trimestre, na comparação com os três primeiros meses do ano. No primeiro trimestre, o desempenho foi revisado de avanço de 0,2% para recuo de 0,2%, o que caracterizou um quadro classificado pelos economistas como recessão técnica — ou seja, dois trimestres seguidos de queda. O IBGE, porém, diz que considera uma variação inferior a 0,5% como estabilidade.

A última vez que o Brasil registrou uma recessão técnica foi no quarto trimestre de 2008 e no primeiro de 2009, na esteira da crise internacional. A economia registrou recuo de 4,2% e de 1,7%

respectivamente, na comparação com os trimestres anteriores. Apesar de forte, a recessão foi rápida e, no segundo trimestre de 2009, o PIB já crescia 1,9%.” (Gabriela Valente, O Globo, 17/10/2014.)

* Indústria automotiva gastou até setembro R$ 46,3 milhões do Fundo de Amparo ao Trabalhador com suspensão temporária de contrato

“O setor automotivo, um dos segmentos da economia mais beneficiados pelo governo com IPI reduzido e outros incentivos, está se valendo do lay off (suspensão temporária do contrato de trabalho), financiado com recursos públicos, para manter empregos. Segundo levantamento do Ministério do Trabalho, entre janeiro e setembro, foram registrados 14.624 pedidos de lay off, sendo que 5.515 (34,4%) são do setor automotivo. O setor sucroalcooleiro também está aderindo ao lay off e já suspendeu 8.123 contratos este ano.

“Até setembro, o mecanismo custou R$ 46,3 milhões ao Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), que é deficitário e precisa de aportes do Tesouro Nacional. O total de pedidos de lay off já supera os 8.618 de 2013 e a expectativa é que quebre o recorde de 2009, auge da crise internacional, quando foram registrados 20.732 pedidos de suspensão de contratos. Em gastos, 2014 já bateu esse recorde, pois as despesas de 2009 foram de R$ 39,9 milhões.

“Pelo regime de lay off, os trabalhadores com contratos suspensos recebem até cinco parcelas do seguro-desemprego durante o afastamento. Depois desse prazo, eles podem ser demitidos, sem direito de receber o seguro novamente. Neste caso, a empresa paga multa equivalente a um salário mínimo. Além disso, a dispensa precisa ser negociada entre a empresa e o sindicato da categoria.

“Em crise, com fechamento de mais de 70 usinas, desde que o governo priorizou os derivados de petróleo na política energética e deixou em segundo plano o etanol, o setor sucroalcooleiro é responsável por mais da metade os pedidos de lay off: 8.123 dos 14.624. Para atenuar a crise, o governo elevou recentemente a mistura do álcool anidro na gasolina e, em meados deste ano, já havia liberado linhas de financiamento do BNDES para renovação de canavial e estocagem de etanol.

“Já o setor automotivo é beneficiado desde a crise de 2008 com renovações da alíquota reduzida de IPI. O segmento também tem sido contemplado com medidas de estímulo, como redução de compulsório para ampliar o financiamento para veículos, e programas específicos, como o Inovar-Auto. Apesar disso e do lay off, tem havido demissões. Dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) mostram que, em dezembro de 2013, o total de empregados era de 131,6 mil. Em julho, caiu para 128,7 mil e, no mês passado, ficou em 128,2 mil. A entidade alega que as demissões são pontuais e resultado de Planos de Demissão Voluntária (PDV), principalmente de quem está perto da aposentadoria. Sindicalistas sustentam, por sua vez, que os cortes atingem também quem tem menos de um ano de casa, cuja rescisão não depende de homologação sindical.

“A situação desses trabalhadores com contratos suspensos preocupa os representantes sindicais, que receberam do governo a promessa de dar continuidade ao projeto de flexibilização de jornada, com corte de salários para todas as empresas em situação de crise. Segundo o diretor da Força Sindical Sérgio Luiz Leite, a proposta será discutida após o segundo turno das eleições, independente do resultado, sob a coordenação da Secretaria-Geral da Presidência da República.

“- Somos favoráveis à medida porque a manutenção dos empregos é mais viável do que a demissão – disse Leite.

“Mas a ampliação do lay off, com flexibilização de jornada e corte de salários, enfrenta divergências no governo. Uma das dificuldades é encontrar a fonte de recursos para cobrir as despesas, diante da situação crítica das contas do FAT.

“Para o presidente da Força Sindical, Miguel Torres, apesar da melhora nas vendas de automóveis em setembro, o setor deve engrossar a lista de pedidos de lay off até o fim do ano. Ele disse que a fábrica da Volkswagen no Paraná negocia a substituição de funcionários que estão retornando do regime por outros 422 que permaneceram na empresa. A unidade da GM de São Caetano do Sul pretende colocar em lay off entre 800 e mil trabalhadores a partir do próximo dia 3, além de demitir 400 empregados, sendo 200 com contrato por prazo determinado.

“Sindicalistas, porém, defendem que o lay off é uma medida positiva porque evita demissões. Antonio Ferreira de Barros, o Macapá, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, explica que essa é uma maneira de ganhar tempo e conseguir evitar o corte de trabalhadores – ao menos imediato. Para ele, porém, o governo deveria elaborar uma Medida Provisória (MP) que determinasse a estabilidade dos empregos em todos os setores beneficiados com incentivos fiscais:

“- Só neste ano foram demitidos sete mil metalúrgicos. Isso sem falar dos lay offs e PDVs. Isso mostra que a política de desonerações não segurou os níveis de emprego. Só a empresa é beneficiada.

“O clima entre os trabalhadores que estão com o contrato suspenso é de temor.

“- Sou metalúrgico há 20 anos. A crise começou em 2008. De lá para cá, sempre tem lay off, PDV. Antes disso, não existiam essas coisas – conta metalúrgico em lay off que não quis ser identificado.” (Geralda Doca e Roberta Scrivano, O Globo, 18/10/2014.)

* Rodovias federais pioraram no governo Dilma; país perde R$ 1,79 bilhões por causa do estado das estradas

“Pioraram, no governo Dilma Rousseff, os indicadores de qualidade da malha rodoviária brasileira, segundo a Pesquisa CNT de Rodovias 2014. Houve pouco investimento, deterioração das condições de segurança e aumento do número – de 219, em 2011, para 289, em 2014 – de pontos críticos, tais como cruzamentos entre rodovias e ferrovias no mesmo nível, pontes caídas, queda de barreiras, presença de máquinas em operação nas pistas e buracos grandes. Se as rodovias brasileiras fossem todas boas ou ótimas, o País teria economizado R$ 1,79 bilhão em 2014, calcula o diretor da Confederação Nacional dos Transportes Bruno Batista.

“Nos últimos 10 anos, o número de veículos em circulação cresceu 122% e a extensão das rodovias pavimentadas, apenas 13,8%, segundo o levantamento. Entre 2010 e 2014, o número de quilômetros pavimentados avançou apenas 5,6%. Como o volume de tráfego aumentou mais, as rodovias ficaram mais perigosas, exigindo mais dos motoristas.

“De um total de 203,5 mil km de rodovias pavimentadas e de 1,69 milhão de km que formam a malha brasileira, a pesquisa abrangeu 98,4 mil km – mas só 32,4% estavam em perfeitas condições de rodagem. Nos 18,9 mil km sob concessão privada, 14,3 mil km (75,7%) registravam condições ótimas ou boas, mais que o dobro do porcentual registrado pelas estradas sob gestão pública (34,7%). Em 2013, apenas 4,4 mil km de estradas federais foram licitados e passaram à administração privada, mas não houve tempo suficiente para uma expressiva ampliação de investimentos.

“As rodovias são responsáveis por mais de 60% do transporte de carga no País. Viabilizam o deslocamento das safras de grãos colhidas principalmente na Região Centro-Oeste para os grandes portos do Sudeste e do Sul. Delas depende, portanto, parte do gigantesco superávit do agronegócio brasileiro, superior a US$ 80 bilhões no ano passado. De boas rodovias também depende a competitividade dos produtos brasileiros exportados, mas a CNT calcula que o mau estado das rodovias eleve em 26% o custo do transporte.

“Daí a importância do levantamento anual da CNT sobre o estado das rodovias e os problemas enfrentados por quem se vale delas tanto para se deslocar até o trabalho, a escola ou os centros de lazer como para transportar bens. Qualidade do pavimento, da sinalização, da estrutura de apoio, da geometria das vias, das curvas e dos acostamentos é bem mais do que estatística.” (Editorial, Estadão, 19/10/2014.)

* Analistas ouvidos na pesquisa Focus voltam a reduzir projeção de crescimento, agora para 0,27%

“Depois de um breve intervalo no pessimismo, os economistas do mercado financeiro voltaram a reduzir a previsão para o crescimento da economia brasileira neste ano. De acordo com a pesquisa semanal Focus, divulgada ontem pelo Banco Central (BC), a projeção para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) este ano é de 0,27%. Na semana passada, o mercado havia elevado a estimativa de 0,24% para 0,28%.

“No início do ano, os analistas apostavam em expansão de 2% da economia brasileira em 2014. A cada semana, foram feitos ajustes – houve 19 cortes seguidos -, a partir da deterioração dos indicadores que medem o comportamento da indústria e do comércio, entre outros. Na última pesquisa, pesou o cálculo feito pelo próprio BC para medir o ritmo da atividade econômica no país, o IBC-Br, que, na semana passada, indicou crescimento de apenas 0,27% em agosto, bem abaixo do 1,52% registrado em julho. Com isso, pelas contas da autoridade monetária, o país crescerá somente 0,04% no ano.

“Com relação à inflação, apesar de o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 12 meses estar em 6,75% – acima do teto da meta, de 6,5% -, a projeção do Focus para este ano ficou estável em 5,45%. No entanto, o grupo dos economistas que mais acertam os palpites, o chamado Top 5, aposta que o índice vai ultrapassar o teto da meta em 2014, aos 6,51%.

“O Focus também apontou piora na perspectiva para a indústria em 2014. A previsão é queda de 2,24%, contra retração de 2,16% apontada na pesquisa anterior. Já a estimativa para a Taxa Selic ficou estável em 11%.

“- A queda nas previsões para este ano nada tem a ver com eleição, mas com dados de curto de prazo. As projeções ficam muito sensíveis e respondem aos números que já saíram. Se tivermos surpresa boa em relação à atividade, ainda poderemos ter uma melhora nas projeções – diz Zeina Latif, economista da XP Investimentos.

“Na semana que vem, o Comitê de Política Monetária (Copom), do BC, fará a primeira reunião após a definição do novo presidente.” (Gabriela Valente, O Globo, 21/10/2014.)

A inflação

* Inflação no teto por muito tempo eleva a indexação de salários, o que realimenta a inflação

“Ao deixar a inflação beirar o teto da meta nos últimos anos, o governo tornou ainda mais difícil a tarefa de combater a alta dos preços no país. Especialistas avaliam que há um novo tipo de indexação informal na economia por causa de três fatores: a falta de credibilidade do Banco Central (BC), as expectativas de inflação em alta e o baixo desemprego. Sem saber qual será a elevação de preços no ano seguinte, já que o BC não consegue trazer o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA, que mede a inflação oficial) para o centro da meta, de 4,5%, os trabalhadores pedem valores muito altos em suas negociações salariais. Esse aumento da renda realimenta a inflação.

“Este ano, os pedidos de reajustes de algumas categorias ficaram na casa de dois dígitos. Esse foi, por exemplo, o caso dos bancários, que reivindicaram um aumento de 12,5% em 2014 e acabaram levando 8,5%. Os petroleiros, por sua vez, pleitearam 18% à Petrobrás e conseguiram 6,5%.

“O próprio BC demonstra preocupação com o efeito da alta dos salários na inflação. Na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o BC afirma que ‘a dinâmica salarial ainda permanece originando pressões inflacionárias de custos’. Na visão da cúpula do BC, o desemprego num patamar baixo como o atual, em 5% nas seis principais regiões metropolitanas, força os empresários a concederem aumentos salariais acima da produtividade. Ou seja, o patrão prefere arcar com um reajuste salgado do que se arriscar na busca e no treinamento de um novo funcionário, já que não há mão de obra disponível no mercado.

“— Quando a taxa de desemprego está alta, o empresário prefere demitir e contratar por salário mais baixo. Não é o caso agora. E, como ninguém acredita que o atual Banco Central leve a inflação para a meta de 4,5%, os trabalhadores já começam uma discussão com base na aposta do que deve ser a inflação no ano, ou seja, na casa dos 6% a 7% — analisa o especialista em mercado de trabalho José Márcio Camargo, professor do departamento de Economia da PUC-Rio e economista da Opus Gestão de Recursos.

“— A persistência da inflação tornou mais custoso o combate à alta dos preços, pois indexou mais os salários. Isso mostra a perda de confiança na estabilidade econômica — afirma o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega.

“O professor da PUC-Rio e especialista em inflação Luiz Roberto Cunha lembra que o Brasil ainda é um país traumatizado pela hiperinflação, o que contribui para que haja uma indexação da economia:

“— O fator econômico e cultural é muito importante. Os brasileiros ainda buscam se proteger da inflação, porque se lembram do que era viver num período de descontrole de preços. E, quando você tem cinco anos de inflação resistentemente alta e uma impressão de que o governo foi leniente com a política monetária, é normal que se busque proteção por meio de uma indexação.

“Sobre as negociações salariais, Cunha afirma que as categorias costumam pedir reajustes acima da inflação porque sabem que, se recorrerem à Justiça, vão levar, pelo menos, a correção dos índices de preços.

“— É comum que a Justiça do Trabalho conceda às categorias, pelo menos, a inflação do ano anterior. Isso não existe em outros países e é, sim, um fator de indexação — afirma o professor da PUC.

“Cunha lembra ainda que outros países da América Latina têm meta de inflação mais baixa que a brasileira porque suas economias são muito menos indexadas:

“— São economias diferentes, onde não existe um cenário como o brasileiro. No Brasil, até o salário mínimo é indexado.

“Para o ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman, o remédio é recuperar a credibilidade da autoridade monetária. Para isso, seria necessário mostrar para as famílias brasileiras e para o empresariado que a meta será cumprida e que o BC não flertará com o teto. Atualmente, o IPCA acumula uma alta de 6,75% em 12 meses, acima do teto de 6,5% para o ano.

“— Dada a situação que a gente tem hoje, voltar para os 4,5% é o início — avalia Schwartsman.

“A idéia é apoiada por Camargo, Maílson e pelo professor da Trevisan Escola de Negócios Alcides Leite. Eles sugerem que o próximo governo trabalhe para que a inflação convirja para o centro da meta, de 4,5%, o mais rápido possível.

“— Isso tem um efeito sobre as expectativas e ajuda a reduzir os índices de preços. O Peru, por exemplo, tem uma meta de 2% e cresce mais que o Brasil. Assim como o Chile e o México — observa Maílson.” (Martha Beck e Gabriela Valente, O Globo, 19/10/2014.)

* A indexação dos salários é um dos mais resistentes mecanismos de realimentação da inflação

“A meta de inflação estabelecida pelo governo, há anos, é de 4,5%, com dois pontos percentuais de tolerância para menos ou mais. Não se trata de um percentual escolhido abstratamente. A experiência prática mostra que, quando a inflação ultrapassa os 5%, a sociedade passa a buscar em mecanismos de indexação uma forma de se defender da corrosão do valor da moeda. E, com isso, a inflação acaba se tornando mais resistente, com a alta de preços incorporando um componente de autoalimentação.

“Assim, 4,5% seria o limite que a sociedade é capaz de suportar. Devido a problemas estruturais crônicos da economia, haveria também dificuldade de se perseguir uma inflação mais baixa. O centro da meta deveria ser, então, buscado obstinadamente pelo governo. No entanto, desde o início do mandato da presidente Dilma, o índice oficial que baliza a meta (o IPCA, que mede a variação média do custo de vida de famílias com renda de até 40 salários mínimos mensais), apurado pelo IBGE, tem permanecido no intervalo superior de tolerância de dois pontos percentuais, chegando, em vários momentos, a ultrapassar o teto de 6,5% em doze meses, como acontece agora.

“Em uma conjuntura de baixos índices de desemprego, a pressão por mais indexação se torna crescente nas negociações salariais, restivando a antiga corrida entre preços e salários.

“Com exceção do salário mínimo, todos os demais estão hoje desindexados por força de lei. São definidos por livre negociação, com reajustes coletivos com prazo mínimo de um ano. A regra foi definida pelo Plano Real exatamente para desarmar um dos mais resistentes mecanismos de indexação com forte efeito de autoalimentação da inflação.

“No entanto, o fato de o IPCA ficar acima de 5% ser mais uma constante do que uma exceção fez com as negociações salariais muitas vezes caiam em impasse, cabendo à Justiça trabalhista arbitrar o valor do reajuste, que nunca é inferior à inflação.

“A única maneira de desarmar novamente esse processo perigoso de reindexação é a política de metas de inflação recuperar credibilidade. Para tal, os agentes econômicos e a sociedade em geral precisam ser convencidos de que não só o Banco Central mas todo o governo esteja efetivamente empenhado em fazer com que a inflação convirja para a meta dentro de um horizonte realista e viável, em vez de se constituir apenas numa promessa.

“O Banco Central até que elevou as taxas básicas de juros para 11% ao ano, que não é um patamar desprezível em termos de aperto monetário. No entanto, na outra ponta o governo não para de pisar no acelerador dos gastos públicos, executando uma política fiscal claramente expansionista. Nesse contexto, as autoridades não podem se queixar da volta da indexação. Era previsível.” (Editorial, O Globo, 21/10/2014.)

* Conta de luz da CPFL Piratininga sobre 22,43%

“A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou nesta terça-feira (21/10) um aumento médio de 22,43% das contas de luz dos consumidores da Companhia Piratininga de Força e Luz (CPFL Piratininga). A distribuidora atende a cerca de 1,6 milhão de unidades de consumo de 27 municípios do interior e do litoral São Paulo.

Com o reajuste aprovado, os consumidores de baixa tensão (residências e comércio) terão uma alta de 20,98% no preço da energia. Já a classe de consumo de alta tensão (indústria e estabelecimentos de grande porte) terá a elevação de 24,35% na tarifa de luz.

“As novas tarifas da CPFL Piratininga passam a valer a partir desta quinta-feira (23).” (Extra, 21/10/2014.)

* Prévia do IPCA, o índice oficial da inflação, sobe para 0,48%

“Pressionado pela alta de alimentos, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15), prévia da inflação oficial, acelerou e subiu 0,48% em outubro, informou o IBGE ontem (21/10). É a maior taxa desde maio, quando o indicador havia ficado em 0,58%. O resultado, no entanto, veio abaixo das expectativas de analistas, que projetavam alta de 0,51%, segundo pesquisa da Reuters. Em setembro, o IPCA-15 havia ficado em 0,39%.

“Com o resultado de outubro, o acumulado no ano subiu a 5,23%, acima da taxa de 4,46% do mesmo período de 2013. Nos últimos 12 meses, o IPCA-15 ficou em 6,62%, a mesma variação dos 12 meses imediatamente anteriores (6,62%). Em outubro de 2013, o IPCA-15 também foi de 0,48%. A meta oficial do governo, orientada pelo IPCA, para o ano é de 4,5%, podendo chegar a 6,5%. Considerando o IPCA-15, portanto, em 12 meses a inflação está acima do objetivo do governo.

“Segundo o IBGE, cinco dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados mostraram aceleração na taxa de setembro para outubro, enquanto os outros quatro apresentaram desaceleração. Em outubro, os preços dos alimentos continuaram a subir e foram para 0,69%, após registrarem avanço de 0,28% em setembro.

“O destaque do mês foi a aceleração do grupo alimentação e bebidas, que subiu a 0,69%, após ter tido alta de 0,28% na prévia do mês passado. O aumento fortalece o fim da trégua dos alimentos, que chegaram a registrar deflação em julho e agosto, sempre de acordo com os dados do IPCA-15. Reportagem desta terça-feira do GLOBO mostra que a falta de chuvas já se reflete nos preços de alimentos. Segundo especialistas, no Sudeste, café, carne e leite sentem mais a estiagem.

“A principal influência para a aceleração dos alimentos foi da inflação das carnes, que chegou acelerou a 2,38%, a maior desde abril, quando ficara em 2,83%. Outros itens também apresentaram aumentos significativos em seus preços, como a cerveja (3,52%), o frango (1,75%) e o arroz (1,35%).

“Para o economista Fabio Romão, analista da LCA Consultores, a pressão dos alimentos deve continuar nos próximos meses. Ele projeta que a inflação do grupo alimentação e bebidas feche outubro em 0,79%, acima da prévia divulgada nesta terça.

“ O conjunto de alimentos in natura caiu só 0,1% no IPCA-15 de outubro, depois de cair 2,5% na prévia de setembro. No fechamento de outubro, a previsão é de alta de 2,2%, tendo como carro-chefe o tomate. Também preocupa o item cereais, leguminosas e oleaginosas (arroz e feijão) — explica Romão, que espera que o IPCA fechado do mês fique em 0,49%.

“Já Alexandre de Ázara, economista-chefe do Banco Modal, diz que o foco não deve ser no grupo alimentação, mas sim na inflação de serviços, que continua rodando acima da média da inflação (entre janeiro e setembro, tem alta de 7,42%, segundo o IPCA).

“— Como a gente acaba focando em alimentação, a gente acha que a inflação é alta por causa de alimentos. Mais importante é de serviços — diz o especialista, que esperava IPCA-15 de 0,53% em outubro.

“Ázara afirma que o importante é observar a atividade econômica no quarto trimestre. Ele defende que é mais desejável um PIB mais fraco, que levaria a uma pressão menor sobre os preços, do que uma recuperação pontual, que pode elevar a inflação:

“— Uma alta da inflação, se continuar, vai atrapalhar mais ainda os investimentos. (A recuperação da atividade econômica) seria

uma melhora de médio prazo que apresentaria uma conta alta para o futuro.

“O resultado também surpreendeu o Itaú, que esperava um IPCA-15 de 0,50%. O banco informou, no entanto, que continua a prever que a inflação encerre o ano no teto da meta do governo.

“‘Baseado no relatório do IPCA-15 e outras informações, continuamos a esperar que a inflação pelo IPCA fique em 0,45% em outubro, o que levaria o acumulado em 12 meses a 6,62%, contra 6,75% em setembro. Para o ano, nossa projeção continua em 6,5%’, disse o banco, em comunicado a clientes.

“Para as próximas semanas, a expectativa é de alívio, segundo Hélio Sirimarco, diretor da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA). A organização espera que a chuva comece a cair a partir da semana que vem, o que pode ajudar a recuperar a produção de hortifruti.

“— No momento que a chuva voltar e adequar a oferta, volta ao normal. Mas quando tem a estiagem pesada, você não tem oferta para atender a demanda — afirma Sirimarco, destacando que algumas culturas, como café e cana, demoram mais para se recuperar da seca.

“Não foram só os alimentos que pressionaram o IPCA-15 em setembro, no entanto. No grupo Habitação, cuja variação foi de 0,72% para 0,80% em outubro, os destaques foram as contas de energia elétrica, com alta de 1,28%, e o gás de cozinha, com 2,52%. Na energia elétrica, o maior resultado foi o de Goiânia (15,54%), onde as tarifas tiveram reajuste de 19% em 12 de setembro.

“De acordo com o instituto, os grupos Vestuário (de 0,17% para 0,70%), Saúde e Cuidados Pessoais (de 0,30% para 0,37%) e Despesas Pessoais (de 0,31% para 0,40%) também mostraram aceleração nas taxas de crescimento de setembro para outubro.

“O IBGE destaca o item empregado doméstico, no grupo Despesas Pessoais (de 0,31% para 0,40%): o item avançou 0,73% e merece destaque, afirma o instituto, porque as informações de rendimentos da Pesquisa Mensal de Emprego – PME das regiões metropolitanas de Porto Alegre e Salvador não estiveram disponíveis para os cálculos dos índices de julho, agosto e setembro, o que levou à adaptação da metodologia.

“Já no grupo Transportes, o destaque são as passagens aéreas, que recuaram para 1,40% em outubro, enquanto haviam pressionado setembro com alta de 17,58%.

“Entre os índices regionais, o maior foi o de Brasília (0,73%), em razão da alta da energia elétrica (5,99%) tendo em vista o reajuste de 18,88% em vigor desde 26 de agosto. O menor índice foi o de Belém (-0,04%), onde os alimentos consumidos em casa (-0,01%) mostraram pequena queda. No Rio, a taxa ficou em 0,34% — no ano a alta é de 5,07% e em 12 meses, de 6,43%, acima da média nacional, de 6,62%.

“A diferença entre o IPCA-15 e o IPCA é o período de apuração dos preços e na abrangência geográfica. Neste caso, de 14 de agosto a 12 de setembro. O indicador refere-se a famílias com rendimento de 1 a 40 salários mínimos e abrange as regiões metropolitanas do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, São Paulo, Belém, Fortaleza, Salvador e Curitiba, além de Brasília e Goiânia.

“O IPCA, por sua vez, é coletado entre 1 e 30 do mês de referência. As regiões são de Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Vitória e Porto Alegre, Brasília e municípios de Goiânia e Campo Grande.” (Marcelo Corrêa, O Globo, 22/10/2014.)

A economia estagnada

* A péssima situação da economia se origina de erros exclusivos do governo, cometidos na aplicação voluntariosa do tal ‘novo marco macroeconômico’

“Os mercados mundiais passam por turbulências que há algum tempo não se viam. E, como sempre ocorre nesses momentos, engrossou o fluxo de divisas em busca da segurança dos títulos do Tesouro americano, cuja rentabilidade ficou, na quarta-feira, abaixo dos 2% — quanto maior a procura, menor a taxa. Há um ano isso não acontecia.

“A centelha de ignição desse movimento de fuga de aplicações de maior risco, em todo o mundo, tem sido o temor de que a Europa, ainda na fase de digestão da grande crise deflagrada em 2009, entre em deflação. A redução de preços chega a ser tão ou mais perigosa que a elevação deles, pois os lucros das empresas são corroídos, como reflexo da retração das vendas — o consumidor adia as compras, à espera de preços cada vez mais baixos — e as economias tendem à depressão.

“O próprio Fundo Monetário Internacional alertou, no último fim de semana, para a probabilidade de a Europa voltar à recessão, um péssimo sinal a fortalecer o temor de uma deflação. O prognóstico é reforçado pela informação de que, nos 18 países da zona do euro, a inflação anualizada, no mês passado, foi de ínfimo 0,3%, a taxa mais baixa dos últimos cinco anos. Nessa circunstância, nem a recuperação americana parece ser capaz de compensar o marasmo europeu, até porque seria afetada por ele.

“Visto o mundo por este ângulo e colocado o Brasil nele, o álibi apresentado pela candidata-presidente Dilma Rousseff e seu ministro da Fazenda em aviso prévio, Guido Mantega, para os problemas da economia brasileira — o país está quase estagnado devido à conjuntura externa — fica bastante frágil.

“Uma prova sólida de que grande parte da responsabilidade das panes observadas internamente é doméstica está no fato de que, no exterior, a ameaça é a deflação, enquanto no país o perigo é a inflação, entre outros.

“E ela se origina de erros exclusivos do governo, cometidos na aplicação voluntariosa do tal ‘novo marco macroeconômico’, modelo sem qualquer preocupação com o equilíbrio fiscal. Os gastos continuaram a crescer mais que a arrecadação e o PIB, fator clássico de alimentação da alta de preços.

“Se a economia internacional explicasse tudo o que ocorre no Brasil não faria qualquer sentido o mundo enfrentar riscos de deflação e o país estar com uma inflação de 6,75% — muito acima da meta de 4,5% e além do limite superior dela, de 6,5%.

“Pode ser que a queda das cotações de commodities dê alguma contribuição para atenuar a alta de preços internos. A retração nos preços do petróleo deve até ajudar as finanças da Petrobrás. Mas, na essência, as causas da velocidade na remarcação de preços, de fundo fiscal, continuam intocadas. Ao largo das turbulências mundiais.” (Editorial, O Globo, 17/10/2014.)

* O Brasil se torna um fardo para os países do continente e arrasta para baixo as estatísticas de comércio exterior

“Mais uma das consequências negativas da política econômica do governo Dilma Rousseff, o mau desempenho do comércio exterior brasileiro está arrastando para baixo as estatísticas de exportação e de importação dos países da América do Sul e da América Central. No mais recente relatório sobre o desempenho do comércio internacional, a Organização Mundial do Comércio (OMC) previu que, em 2014, as exportações desses países serão apenas 0,4% maiores do que as de 2013 e as importações cairão 0,7%. Serão resultados bem piores do que o previsto para todo o comércio mundial. Embora tenha sido reduzida em relação à feita em abril, a nova projeção da OMC é de aumento de 3,1% do comércio mundial (a anterior era de crescimento de 4,7%).

“Como maior economia da região, o Brasil tem peso decisivo nessas projeções. No primeiro semestre de 2014, as exportações brasileiras alcançaram US$ 110,5 bilhões, valor 2,6% menor do que as vendas externas da primeira metade de 2013. As importações ficaram em US$ 113,0 bilhões, queda de 3% em relação ao ano passado. Nos países da América do Sul e Central, houve queda de 3,7% nas exportações e de 4,9% nas importações, na comparação dos resultados do segundo trimestre deste ano com as de igual período de 2013.

“São resultados parecidos, ou até piores do que os dos países que a Organização Mundial do Comércio agrupa como “outras regiões”. No segundo trimestre, essas regiões registraram queda de 3,9% nas exportações e de 0,9% nas importações.

“O fato de os países americanos em desenvolvimento terem aumentado mais suas importações parece ser animador. Basta ver a lista dos países incluídos em “outras regiões”, porém, para entender a fraqueza do comércio exterior dos países americanos. A lista inclui todos os países da África assolada pela disseminação do vírus Ebola, o Oriente Médio em permanente conflito e os países que faziam parte da antiga União Soviética – a Comunidade dos Estados Independentes -, dos quais dois, Rússia e Ucrânia, mantêm na fronteira forças militares prontas para a luta.

“O fraco desempenho dos países sul e centro-americanos, bem pior do que o dos demais países emergentes, foi determinante para a redução da previsão da OMC sobre o comportamento do comércio mundial neste ano.

“Em 2015, embora a região deva apresentar resultados bem melhores do que os deste ano, suas exportações crescerão menos do que as de todas as demais regiões, incluídas as economias desenvolvidas (Estados Unidos, Europa e Japão), a Ásia, os países em desenvolvimento e as “outras regiões” – cujos problemas continuarão a afligir os governos.

“A queda dos preços dos principais produtos de exportação da América do Sul e Central – commodities agrícolas e matérias-primas, entre outros – explica boa parte do fraco desempenho de seu comércio exterior. No caso brasileiro, porém, o acúmulo de problemas decorrentes da ineficácia das políticas de estímulo aos investimentos e à produção, da rápida corrosão da credibilidade da política fiscal, dos erros da política de comércio exterior e da acelerada perda de competitividade e da capacidade de inovação da indústria de transformação prejudicou ainda mais o desempenho das exportações e agora começa a comprometer a capacidade de importação. Os efeitos negativos sobre o comércio regional se acentuaram.

“O pífio crescimento da economia esperado para este ano – e que vem sendo revisto para baixo a cada nova estimativa dos analistas do setor privado e pelo próprio governo -, a persistente frustração com os resultados da balança comercial, a deterioração das contas públicas, a inflação alta são consequências da política econômica do governo do PT que os brasileiros já conhecem bem.

“Até agora confinados ao plano interno, essas consequências começam, porém, a contaminar também os resultados regionais, como comprovam as novas estimativas da OMC. Em vez da locomotiva econômica regional prometida pelo governo, o Brasil parece ter-se tornado um fardo para os países americanos.” (Editorial, Estadão, 20/10/2014.)

* A indústria brasileira vem perdendo espaço não só no PIB, mas também nas cadeias globais de valor

“A indústria brasileira não está apenas perdendo importância no PIB do País. Também vem perdendo participação nas cadeias globais de valor, se é que já esteve bem nesse filme. É o que apontou nesta segunda-feira em relatório a Organização Mundial do Comércio, a OMC, hoje presidida pelo diplomata brasileiro Roberto Azevedo.

“O importante hoje não é propriamente produzir da matéria-prima ao produto acabado, como se pensava há alguns anos. A Tecnologia da Informação e as grandes inovações no transporte internacional criaram um novo ambiente e uma nova arrumação da produção, altamente fragmentados.

“É mais importante produzir um chipezinho à toa ou até mesmo prestar um serviço que faça parte de um produto global do que seguir fabricando todos os componentes de uma mercadoria de consumo apenas local.

“O Brasil está perdendo esse bonde porque, há mais de dez anos, o governo não entendeu esse processo. Aferrado a uma visão nacional-sindicalista da produção, aprofundou uma política industrial conservadora e protecionista que vai desembocando nas particularidades do consumo interno e não na integração global.

“Na medida em que se baseia na proteção alfandegária e na criação de reservas de mercado, que abrangem quase sempre da matéria-prima ao produto final, o processo industrial brasileiro enfrenta custos altos demais, que tiram competitividade do setor. E, como não têm nem preço e quase sempre nem qualidade para competir internacionalmente, não há como produto intermediário e produto final se inserirem nas cadeias globais de valor.

“A participação nessas cadeias exige uma estrutura de tarifas alfandegárias baixas, para que a indústria possa incorporar matérias-primas e produtos intermediários importados que depois serão reexportados. No entanto, como mostra o estudo da OMC, o País acabou sendo relegado à posição dos lanternas das cadeias globais de valor. (…)

“A explicação para mais esse mau desempenho do Brasil não está no relatório da OMC, mas é conhecida. Agarrado a seus parceiros do Mercosul, principalmente a Argentina, o País continua se fechando comercialmente e, na medida em que se fecha, vai ficando fora do jogo.

“Durante todos esses anos, o governo Dilma não percebeu a importância do novo processo. Não apenas desestimulou a costura de novos acordos comerciais que abrissem o mercado do setor produtivo a novos negócios, como tratou de defender o mercado interno para o produtor nacional, no pressuposto de que, dessa maneira, criaria condições para o aumento de escala para a indústria.

“Aconteceu o contrário. Travado pelos custos, o setor não conseguiu competir lá fora e perdeu cada vez mais fatias de mercado para o produto importado, apesar do forte protecionismo interno.

“Em geral, os dirigentes da indústria e alguns dos seus economistas continuam argumentando que esse alijamento do setor produtivo se deve à ‘persistência de um câmbio fora de lugar’ e não à baixa competitividade, resultado causado por outros fatores, que nenhum câmbio possível será capaz de compensar.” (Celso Ming, Estadão, 21/10/2014.)

* O governo fez a economia brasileira cada vez mais dependente da argentina. Deu no que deu

“A decisão do governo do PT de tornar a economia brasileira cada vez mais dependente da argentina está impondo um alto preço justamente para o setor industrial mais privilegiado por Brasília desde 2003: a indústria automobilística. A crise da Argentina fez cair bruscamente as exportações brasileiras de veículos e de componentes e já afeta o nível de emprego em toda a cadeia produtiva de automóveis e de caminhões. Por ironia, este é o setor em que, há mais de 30 anos, as lutas sindicais propiciaram o surgimento do PT e de algumas de suas maiores lideranças e, por essa razão, tem merecido atenção especial das administrações petistas.

“A indústria automobilística, como os demais segmentos industriais, está sendo mais afetada pela crise da economia brasileira do que outros setores. Nos nove primeiros meses deste ano, foram produzidos 481,5 mil veículos menos do que no período janeiro-setembro de 2013. O nível de emprego nas montadoras registrou sete quedas seguidas nos últimos meses e está no ponto mais baixo desde 2012. O desemprego seria maior e os problemas para os trabalhadores ainda mais dramáticos se as empresas nãos estivessem adotando medidas como suspensão temporária de contratos, férias coletivas e programas de demissão voluntária, enquanto aguardam a redução dos estoques acumulados nos seus pátios e nas concessionárias.

“Se o governo petista não tivesse escolhido a Argentina – cujo governo é chefiado pela família Kirchner desde 2003, ano em que o PT assumiu o poder em Brasília – como parceira preferencial, os problemas da indústria automobilística não seriam tão graves como são. Como mostrou reportagem de Cleide Silva publicada no Estado (15/10), da quebra de produção registrada até agora, um terço se deve à redução das exportações para a Argentina.

“Por causa da crise no principal parceiro comercial do Brasil no Mercosul – e cujos efeitos o governo Cristina Kirchner vem tentando encobrir com medidas ainda mais danosas, como o controle estrito das importações, sobretudo as procedentes do Brasil -, caiu muito a exportação de carros para lá. Contrariando os princípios da união aduaneira em que teoricamente se transformou o Mercosul, o Brasil concordou em renovar, em junho, o acordo automotivo com a Argentina, que estabelece determinada proporção para as exportações de cada país. Mesmo assim, o total de veículos exportados para a Argentina nos nove primeiros meses de 2014 diminuiu em 155 mil unidades na comparação com igual período de 2013. A Argentina está sem dólares para pagar todas as importações de que necessita.

“Perdas como essas poderiam ser compensadas com vendas para outros mercados. Economias mais preparadas para exportar decerto teriam feito isso. Mas o Brasil, sob o governo do PT, concentrou todo o esforço exportador no Mercosul – e especificamente na Argentina, no caso da indústria automobilística, com a concordância das empresas brasileiras.

“Os números resultantes dessa opção petista pela Argentina são impressionantes. Em 2003, primeiro ano dessa parceria de inspiração ideológica entre os governos petista e kirchnerista, a Argentina absorvia 18,5% das exportações brasileiras de carros; no ano passado, cerca de 80% dos veículos exportados pelo Brasil tiveram o país vizinho como destino. Outros mercados foram abandonados pelo Brasil. Em 2003, o mercado americano absorveu 8,4% dos carros exportados pelo Brasil; no ano passado, não se exportou nenhum veículo para os Estados Unidos. Países da América do Sul, naturais parceiros comerciais do Brasil, como Colômbia, Uruguai, Equador e Chile, foram praticamente ignorados nos últimos anos.

“Com o agravamento da crise argentina e da notável redução de sua capacidade de importação, a Anfavea, associação que representa as montadoras instaladas no Brasil, tenta fechar acordos com os países que vinha ignorando. Não é impossível reconquistá-los, mas, tendo eles se acostumado a importar de outros países, que oferecem produtos mais seguros e modernos e a preços competitivos, a tarefa não será fácil.” (Editorial, Estadão, 21/10/2014.)

As contas públicas desarranjadas

* Tesouro e Banco Central têm números bem diferentes sobre o desempenho fiscal. A discrepância já chega a R$ 3,1 bilhões

“A diferença entre o desempenho fiscal calculado pelo Banco Central e pelo Tesouro Nacional tem criado um ruído adicional na comunicação entre o governo Dilma Rousseff e o mercado financeiro. Neste ano, somente até agosto, o resultado primário do governo federal estimado pelo Banco Central foi R$ 3,1 bilhões pior do que o calculado pelo Tesouro.

“Essa divergência tem aumentado ao longo dos últimos anos. Em 2011, a chamada ‘discrepância’ tinha sido de apenas R$ 489 milhões. Em 2013, somando todas as pequenas diferenças em 12 meses, a conta chegou a R$ 1,78 bilhão.

“A ‘discrepância’ ocorre, oficialmente, porque o BC faz a estimativa seguindo critério ‘abaixo da linha’, que leva em consideração a evolução do endividamento do governo central. O Tesouro faz esse cálculo ‘acima da linha’, isto é, pelos fluxos de caixa – tudo o que entra nos cofres federais como receita é subtraído daquilo que sai como despesa.

“A divergência entre os resultados fiscais de BC e Tesouro sempre existiu, mas está em alta e tem dificultado a análise das contas públicas. Parte da diferença deve-se, segundo especialistas no tema, às várias manobras contábeis adotadas pelo Tesouro para fechar as contas e às chamadas ‘pedaladas fiscais’ que reduziram de forma artificial as despesas federais ao adiar pagamentos obrigatórios da União.

“No ano, a meta de economia para pagar juros da dívida do governo central (constituído por Tesouro, BC e Previdência) é de R$ 80,8 bilhões. Mas essa poupança fiscal somou apenas R$ 4,6 bilhões até agosto, segundo as contas do Tesouro. Na conta do Banco Central, foi ainda menor – R$ 1,5 bilhão.

“O mercado tem adotado uma posição cética quanto à política conduzida pelo secretário do Tesouro, Arno Augustin. ‘O Tesouro calcula quanto gastou e quanto recebeu, e o BC estima o endividamento ou o aumento do patrimônio decorrente desses fluxos, ou seja, a necessidade de financiamento do setor público. Essas contas deveriam ser bem aproximadas’, afirma Bernardo Wjuniski, diretor de América Latina da Medley Global Advisors.

“O economista-chefe da Tullet Prebon Brasil, Fernando Montero, especialista em contas públicas, afirma que desvios e ajustes metodológicos entre as duas contas são normais, mas não na magnitude atual. ‘Claramente, há operações que não aparecem como pagamentos primários nas contas do Tesouro e sim como endividamento, portanto como déficit, nas contas do BC. É incrível que o BC capture melhor as contas do Tesouro do que o próprio Tesouro’, diz Montero, que citou também os ‘indícios de pedaladas’ nas contas do Tesouro.

“Procurados pela reportagem, BC e Tesouro decidiram não se manifestar.

“A discrepância neste ano poderia ter sido ainda maior. Em maio, concluído o levantamento das estatísticas fiscais, o BC percebeu uma diferença expressiva de R$ 4 bilhões para o resultado do Tesouro. Ao descobrir que o dinheiro estava em uma ‘conta paralela’ de um banco privado, o BC incorporou esse valor nas contas. Ainda assim, as estatísticas do governo central, segundo o critério do BC, foram cerca de R$ 500 milhões piores em maio do que o estimado pelo Tesouro.

“Essa manobra nunca foi explicada. A origem do dinheiro, que representa um crédito a favor da União, também não foi esclarecida até aqui. No entanto, a descoberta do dinheiro ajudou a reduzir o rombo nas contas públicas de maio. À época, um porta-voz do BC admitiu, em duas entrevistas ao Estado, que o déficit fiscal ‘seria de R$ 15 bilhões, mas foi de R$ 11 bilhões’ por causa da discrepância de R$ 4 bilhões.

“O BC colocou sua área de supervisão para inspecionar a operação realizada pelo banco privado. Em resposta ao questionamento feito pelo Estado por meio da Lei de Acesso à Informação, o banco afirmou que a investigação conduzida por sua área de supervisão continua, mesmo depois de 100 dias.

“É um tempo incomum de duração para investigações desse tipo, segundo advogados especialistas. Essas auditorias do BC costumam ser rápidas e secretas. O caso dos R$ 4 bilhões não foi, até aqui, nem um nem outro. Questionado sobre a operação à época, o próprio BC deu publicidade à investigação, em nota oficial de 15 de julho.” (João Villaverde, Estadão, 18/10/2014.)

Incompetência, pura e simples

* 9 de 11 obras prioritárias do tal do PAC estão atrasadas

“Os compromissos do governo para este último trimestre de mandato deveriam incluir a inauguração de 11 obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Essa foi a meta estabelecida pela presidente Dilma Rousseff no início de 2011, quando assumiu o governo e apresentou seu primeiro balanço do PAC.

“Quase quatro anos depois, apenas dois empreendimentos previstos para ser concluídos entre outubro e dezembro de 2014 terão, de fato, obras entregues dentro do prazo: as hidrelétricas Santo Antônio do Jari e Ferreira Gomes, ambas construídas no Amapá. A primeira iniciou suas operações neste mês e a segunda deve ligar suas turbinas até dezembro.

“Entre as nove obras que tiveram suas conclusões adiadas estão alguns dos mais caros e emblemáticos projetos do governo, como a transposição do rio São Francisco e a refinaria Abreu e Lima, da Petrobrás, em construção em Pernambuco. Esses empreendimentos já sofriam, na realidade, com frustrações de prazos acumuladas durante a gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Além do atraso, o estouro nos prazos dos cronogramas veio acompanhada de um aumento de 46% nos custos. As 11 obras, que no início de 2011 somavam investimentos de R$ 37,6 bilhões, chegam agora a R$ 54,9 bilhões – um gasto adicional de R$ 17,3 bilhões.

“Os projetos de saneamento básico tocados na região Nordeste do País lideram a lista dos empreendimentos problemáticos. O eixo leste da transposição do São Francisco, canal de 220 km que corta a região de Pernambuco e Paraíba, teve as suas obras iniciadas em 2007. Lula pretendia inaugurá-lo no último semestre do seu governo, em 2010. Mas foi obrigado a deixar a missão para Dilma. Quando assumiu o governo, a presidente reprogramou a data para 19 de dezembro deste ano. Agora, a previsão mais otimista para o São Francisco é verter água no agreste pernambucano em 31 de dezembro de 2015.

“O Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão argumenta que o projeto foi alvo de rescisões e renegociações de contratos, o que exigiu a realização de novas licitações para tocar a construção. ‘No segundo semestre de 2013, o Ministério da Integração Nacional concluiu os procedimentos licitatórios para a contratação dos saldos remanescentes de obra. Com isto, garantiu a mobilização de mão de obra e equipamentos para execução da totalidade do eixo leste. Atualmente, todos os eixos estão em obras e em ritmo normal, com 65,3% realizados’, informou.

“Outros dois projetos ligados às bacias do São Francisco e do Parnaíba enfrentam dificuldades. As obras de esgotamento sanitário das bacias de ambos os rios, ações que se espalham por sete Estados do Nordeste, deveriam ser concluídas neste mês, mas acabaram prorrogadas para o fim de 2015. O mesmo destino foi dado para as ações de recuperação de solo e controle de processos erosivos nos dois rios, além das obras da adutora do Agreste, em Pernambuco, e da Vertente Litorânea (PB), sistema adutor de 94,8 km em construção na Paraíba.

“Na área de transporte, o arco rodoviário do Rio de Janeiro (RJ), que estava orçado em R$ 400 milhões, em 2011, e estaria pronto neste fim de ano, viu seu custo saltar para R$ 1,083 bilhão no balanço mais recente do PAC, divulgado em junho. A entrega da obra ficou para o réveillon de 2016.

“Na área de transporte, a BR-101, em um trecho de 199 km que envolve o contorno de Recife (PE), de 41 km de extensão, também corre atrás do prejuízo. Uma nova licitação para tocar a obra foi realizada, após determinações feita pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

“No setor elétrico, a hidrelétrica de Colíder, em construção no rio Teles Pires, em Mato Grosso, tinha previsão de ligar sua primeira turbina na última semana deste ano, mas a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) já esticou o cronograma para dezembro de 2015.” (André Borges, Estadão, 20/10/2014.)

* Quatro anos de fiascos no Programa de Aceleração do Crescimento

“De fracasso em fracasso, a presidente Dilma Rousseff completará em dezembro quatro anos de fiascos no PAC 2, a segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento. Até o réveillon, só terá conseguido inaugurar 2 de 11 grandes obras com conclusão prometida para o trimestre final de seu mandato. Neste ano, o governo até acelerou os desembolsos para investimentos, como ocorre em todo período eleitoral, mas sem desemperrar a execução da maior parte dos projetos. Desde a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, orçamentos e prazos têm sido rotineiramente estourados. Esse resultado é explicável por uma invulgar incompetência administrativa temperada com boas pitadas de corrupção. A faxina realizada em 2011 no Ministério dos Transportes e a longa saga de escândalos na Petrobrás são episódios importantes e instrutivos dessa história.

“Com operação recém-iniciada, a Hidrelétrica de Santo Antônio do Jari, no Amapá, é um dos dois projetos com entrega atualmente prevista para este fim de ano. O outro é a Hidrelétrica Ferreira Gomes, no mesmo Estado. Deverá funcionar em breve, se nenhuma surpresa ocorrer. As duas usinas são empreendimentos privados.

“Os outros nove projetos, com prazos alongados para os próximos dois anos, incluem a transposição do Rio São Francisco, grandes obras de saneamento no Nordeste, investimentos em rodovias e a famigerada Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Esta é uma das mais vistosas gemas da coroa de escândalos da Petrobrás.

“Bastaria o estouro de seu orçamento – de US$ 2,4 bilhões na previsão inicial para cerca de US$ 20 bilhões nas últimas estimativas – para converter em personagens históricas dignas de estudo as principais figuras envolvidas no projeto. A lista incluiria, naturalmente, o presidente da República, o ministro de Minas e Energia e vários dirigentes da Petrobrás.

“Em 2011, quando a presidente Dilma Rousseff iniciou seu mandato, ainda se previa o começo das operações da Abreu e Lima em 2012. No fim de 2014, a obra deveria estar completa. Um dia essa história poderá ser contada a estudantes de administração como exemplo da desastrosa mistura de irresponsabilidade, incompetência gerencial, asneira ideológico-diplomática (a aliança entre lulismo e chavismo) e corrupção.

“O atraso dessas nove obras prioritárias é um capítulo especialmente interessante da história iniciada em 2003, com a chega do PT ao governo federal, e ainda sem conclusão. Mas é só isso, uma coleção de exemplos particularmente interessantes de ações desastrosas. Administração e investimento nunca foram pontos fortes dos três mandatos petistas.

“Neste ano, o governo federal aplicou, até setembro, R$ 45,3 bilhões em obras e na compra de equipamentos. Investiu, portanto, 30,5% mais que nos nove meses correspondentes do ano anterior. Maiores desembolsos para investimentos têm ocorrido repetidamente em anos de eleições, tanto na administração federal como nos governos estaduais e municipais.

“Nem assim o governo da presidente Dilma Rousseff conseguiu tornar muito melhor a execução de projetos dependentes da União. Boa parte das obras prometidas para a Copa do Mundo de Futebol ficou sem conclusão. O caso dos aeroportos é um exemplo muito claro. Até abril deste ano, só foi concluído um terço dos empreendimentos previstos para o setor no PAC 2, segundo o último balanço divulgado pelo governo. De acordo com esse levantamento, 23 das 108 obras programadas continuavam no papel.

“Além disso, nos primeiros três bimestres de 2014 a Infraero investiu mais que no ano anterior. No quarto, aplicou menos que em julho e agosto de 2013. Explicação mais plausível: depois da Copa, as obras ficaram menos urgentes. ‘Pela primeira vez neste ano a Infraero reduziu o ritmo dos investimentos’, noticiou a organização Contas Abertas, dedicada ao exame das contas públicas.

“A política de investimentos vai mal em todo o setor de infra-estrutura. O PAC continua sendo principalmente um programa de obras imobiliárias e de financiamentos habitacionais. Sem estes componentes, seria mais difícil atenuar o vexame em cada balanço periódico.” (Editorial, Estadão, 22/10/2014.)

Vergonha na área ambiental

* Desmatamento na Amazônia subiu 290% em setembro

“O desmatamento na Amazônia Legal chegou a 402 km² em setembro de 2014 – um aumento de 290% em relação ao mesmo mês do ano anterior, quando foram desmatados 103 km².

“O monitoramento foi feito pelo Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), da organização de pesquisa Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), de Belém (PA).

“De acordo com o boletim publicado pelo Imazon e revelado pelo jornal Folha de S.Paulo, a perda florestal acumulada no período de agosto a setembro de 2014 – que corresponde aos dois primeiros meses do calendário oficial de medição do desmatamento – chegou a 838 km².

“O aumento foi de 191% em relação ao período de agosto a setembro de 2013, quando foram desmatados 288 km².

“Em setembro de 2014, o monitoramento foi realizado em 93% do território da Amazônia Legal. Por causa da cobertura de nuvens, em setembro do ano anterior o monitoramento abrangia 79% do território.

“Segundo boletim, 59% do desmatamento detectado em setembro de 2014 foi registrado em áreas privadas. O restante foi registrado em assentamentos de reforma agrária (20%), Unidades de Conservação (19%) e terras indígenas (2%).

“Rondônia foi o Estado mais afetado pelo desmatamento, com o registro de um terço de toda a derrubada de árvores apontada pelo Imazon. O restante se distribuiu entre Pará (23%), Mato Grosso (18%), Amazonas (12%), Acre (10%), Roraima (4%) e Tocantins (1%).

“Os municípios que mais desmataram foram Nova Mamoré (RO), Novo Progresso (PA) e Colniza (MT), respectivamente com 53,1 km², 30,1 km² e 25,5km² de floresta derrubada.

“Além dos dados sobre corte raso na mata, o Imazon divulgou também números sobre a degradação florestal – áreas onde a floresta não foi inteiramente suprimida, mas foi intensamente explorada ou atingida por queimadas.

“Em setembro, as florestas degradadas na Amazônia Legal somaram 624 km². Em relação a setembro de 2013 houve um aumento de 3.797%, quando a degradação florestal somou apenas 16 km².

“O SAD emprega imagens dos mesmos sensor e satélite utilizados pelo Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que fornece ao governo federal informações sobre novas áreas de desmatamento na Amazônia.

“Entretanto, as metodologias usadas pelo Imazon e pelo Inpe são diferentes. Os dados de desmatamento do Deter para setembro ainda não foram divulgados pelo governo federal.

“Além do Deter, que monitora o desmatamento em tempo real, o Inpe opera o sistema Degrad, que mapeia áreas expostas à degradação florestal, e o sistema Prodes, que tem resolução maior e fornece ao governo as taxas anuais oficiais de desmatamento na Amazônia Legal.

“Segundo os dados do Prodes, entre agosto de 2012 e julho de 2013, foram devastados 5.891 km²: 29% a mais que no período anterior de 12 meses. O Degrad detectou que a área degradada caiu de 8,6 mil km², em 2012, para 5,4 mil km² em 2013.” (Estadão, 20/10/2014.)

No país dividido, um belo apelo à tolerância

* No dia seguinte, deveríamos tentar conversar sobre os problemas do país, que não são poucos. Não precisamos acrescentar a eles a intolerância, o ressentimento, a baixaria que busca se vingar

“O Brasil define dia 26 como vai ser governado nos próximos quatro anos. Num pleito emocionante, os favoritismos oscilam e as previsões são arriscadas. No entanto, dá para ter certeza de uns pontos que se apresentarão no dia seguinte e no mandato que começa no Ano Novo, vença quem vencer.

“O primeiro é econômico: a conta vai chegar e todos teremos de pagar. Eleitores que votaram no governo ou que o rejeitaram. Os preços administrados e represados terão de ser corrigidos. Os subsídios arbitrários mostrarão seus efeitos. O baixo crescimento, a inflação estourando a meta, o descontrole fiscal deverão ser enfrentados. Seja quem for o eleito, terá de agir logo, sem empurrar com a barriga, se tiver um mínimo de senso de responsabilidade. Ao acabar a validade das imagens da propaganda eleitoral, será necessário encarar a realidade de que não se poderá fugir: tomar algumas medidas duras de ajuste para consolidar conquistas que são de todos.

“O segundo ponto incontornável é que o país que emerge das urnas está dividido. Rachado em dois grandes grupos e subdividido em um sem-número de partidos políticos e facções. Mais que isso: é uma sociedade que se radicalizou numa campanha cheia de distorções, má-fé, mentira, agressões, ódio.

“Vai ser necessário pacificar o Brasil. Em vez de desqualificar divergências, tentemos, antes de mais nada, entender por que algumas pessoas que amamos, admiramos ou respeitamos votaram diferente de nós. As relações pessoais não podem ser pautadas por superficialidades ressentidas e agressivas como as que se têm visto, na permanente demonização de quem não pensa igual. Por mais que algumas opiniões nos espantem e até nos choquem, é possível reconhecer o que o outro lado fez de bom, seja plantando e enraizando a estabilidade na economia, seja podendo colher seus frutos na redistribuição de renda e nos programas sociais. Daqui para a frente, há que fazer um esforço mútuo de entendimento na consolidação de denominadores comuns essenciais para o país crescer e os cidadãos continuarem melhorando. Manter a crise e as hostilidades não pode ser o projeto de futuro de nenhum dos dois lados.

“É indiscutível que teremos de caminhar juntos. O caminho coletivo que a nação vem construindo no último quarto de século incorporou conquistas que todos (excetuando os irresponsáveis dispostos a tocar fogo no circo) queremos ver consolidadas. Antes de mais nada, a democracia, com respeito às instituições, à Constituição, aos direitos humanos, à separação de poderes, à liberdade de opinião. Em seguida, a estabilidade da economia, a responsabilidade fiscal, a possibilidade de desenvolvimento com regras claras. E também os programas de cunho social e a redistribuição de renda.

“Além de manter tudo isso, temos de avançar muito em aspectos básicos cujas carências ainda são incrivelmente gigantescas, apesar da recente enxurrada de oba-oba estatístico — educação de qualidade em todos os níveis, saneamento básico, segurança pública, saúde que realmente atenda ao cidadão, transporte que não roube diariamente horas da vida de cada um chacoalhando num coletivo e tendo de vencer distâncias enormes e engarrafamentos inacreditáveis. Enfim, todos aqueles motivos que levaram multidões às ruas em junho do ano passado.

“Quem vencer as eleições jamais será perdoado se não tiver a inteligência de reconhecer o recado das urnas, como Marina Silva resumiu após o primeiro turno, ao afirmar que ‘não se pode tergiversar com o sentimento de 60% dos eleitores’. Essa maioria disse que não está satisfeita com o atual estado de coisas. Até a presidente, para buscar a vitória, promete mudar. Deseja-se a manutenção das conquistas econômicas e sociais, mas se exige a satisfação das necessidades essenciais reivindicadas nas manifestações de 2013, inclusive uma atitude ambiental cuidadosa, e novas formas de fazer política, que não transformem negociação em negociata.

“O dia seguinte trará ainda uma oposição forte como não se viu nos últimos 12 anos, em que os tucanos ficaram encolhidos. Os mais moços podem não saber do que se trata. Mas, se o lulo-petismo for para a oposição, o governo não terá trégua, como FH não teve. E, se a escolha for pela reeleição da presidente, os últimos meses mostraram que, pela primeira vez em muito tempo, o PSDB defende suas conquistas sem levar desaforo para casa o tempo todo, rabinho entre as pernas — e está conquistando aliados. Oposição faz parte da democracia e assim deve ser entendida. Não pode é virar cruzada para destruir o adversário.

“Por tudo isso, cada um de nós bem que podia, no dia seguinte, refletir alguns minutos para entender o que significam os votos diferentes do seu. E tentarmos caminhar juntos. Discordando, mas trocando idéias para vencer os problemas do país. Que não são poucos. Não precisamos acrescentar a eles a intolerância, o ressentimento, a baixaria que busca se vingar.” (Ana Maria Machado, escritora, O Globo, 18/10/2014.)

24 de outubro de 2014

Outras compilações de provas da incompetência de Dilma e do governo lulo-petista: 

Volume 140: Notícias de 9 a 15/5/2014.

Volume 141: Notícias de 16 a 22/5/2014.

Volume 142: Notícias de 23 e 29/5/2014.

Volume 143: Notícias de 30/5 a 5/6/2014. 

Volume 144: Notícias de 6 a 12/6/2014. 

Volume 145: Notícias de 13 a 19/6/2014.

Volume 146: Notícias de 20 a 26/6/2014.

Volume 147: Notícias de 27/6 a 3/7/2014.

Volume 148:  Notícias de 4 a 10/7/2014.

Volume 149: Notícias de 11 a 17/7/2014.

Volume 150: Notícias de 15 a 21/8/2014. 

Volume 151: Notícias de 22 a 28/8/2014.

Volume 152: Notícias de 29/8 a 4/9/2014.

Volume 153: Notícias de 5 a 11/9/2014.

Volume 154: Notícias de 12 a 18/9/2014.

Volume 155: Notícias de 19 a 25/9/2014.

Volume 156: Notícias de 26/9 a 2/10/2014.

Um comentário para “Más notícias do país de Dilma (159)”

  1. CONTAGEM REGRESSIVA.
    FALTAM SOMENTE 70 DIAS PARA O FIM DAS MÁS NOTÍCIAS.

    O PIG ESTA SEMANA ESTÁ INSUPERÁVEL, BATEU O DESESPERO, OS MERDAIS RESOLVERAM ESCANCARAR O “JORNALISMO” PRÓ CANDIDATURA DO PLAYBOY FARINHEIRO. O BRASIL NÃO MERECE!

    O que será feito do ódio e de sua linguagem?

    A questão incontornável é o que será feito do ódio e de sua linguagem que vêm sendo construídos e estimulados com a participação ativa da grande mídia ao longo dos últimos muitos meses, independentemente dos resultados das urnas. Como se comportarão os oligopólios da mídia partidarizada, derrotados ou vitoriosos, depois das omissões e distorções evidentes em favor de uma das posições políticas em disputa?

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