O amor nos tempos do coronavírus

Uma janela de décimo andar é um bom lugar para um sujeito aborrecido se apoiar nos cotovelos e apreciar a paisagem. O duro é que nada muda na paisagem. Fazia já duas semanas que se isolara para fugir do vírus. Nem mesmo na vizinhança havia novidade. Em um prédio, um pouco distante, via uma mulher à janela. Sempre a mesma, na mesmíssima janela. Continue lendo “O amor nos tempos do coronavírus”

Anotações de um confinado

Se minha situação fosse de preso na penitenciária, teria uma pequena vantagem. A leitura de livros abate tempo de pena. Livros, tenho. Mas o tempo de reclusão está nas mãos de nossas autoridades da área de saúde. Bem, espicho o olho para os mirrados salvados da mudança de minha casa para um apartamento. Continue lendo “Anotações de um confinado”

Lila Covas

Sobre a mesa de Dona Lila Covas havia algumas barrinhas de chocolate, quando ela me recebeu, no Palácio dos Bandeirantes. “São para minhas netas”, disse. Começamos a conversar sobre netas, porque contei que tinha duas. Logo ela pegou duas barrinhas e mandou para elas. A conversa, digo, entrevista, seguiu descontraída. Continue lendo “Lila Covas”

Anotações de um confinado

Aqui, dentro do meu quarto, estou protegido. O vírus me espreita lá fora, na rua. É um quarto pequeno, para solteiro. Nele estão um  armário de roupas, a cama. Ao lado do armário, um bureau, que ganhei do meu pai quando tinha quatorze anos. Abre a parte de cima, para a gente poder escrever (na debaixo estão meus livros prediletos). Continue lendo “Anotações de um confinado”

Tanta história, só no Ponto Chic

Abril de 1969.

Um palhaço triste, como em um quadro. A mesa de um bar, um copo, lá fora a chuva. No Ponto Chic, um bar antigo do Largo do Paissandu, Antonio Francisco da Costa pensa em seu circo, que pegou fogo sexta-feira. Ele não está maquilado, nem com suas roupas folgadas e  coloridas. Se estivesse, seria Rebiam, o alegre palhaço do Circo e Teatro Jóia, do Parque São Domingos. Mas ele está triste. Porque, além de palhaço, é o dono do circo. Continue lendo “Tanta história, só no Ponto Chic”

O furo da telefonista do jornal

Duas horas da madrugada. Os jornalistas que cobrem a guerra da Nicarágua vêem a porta de um salão se abrir, no Hotel Intercontinental, em Manágua, e já imaginam o que está para acontecer. Políticos que terminavam uma reunião anunciam que um deles é o novo presidente da República. O que interessava: Anastasio Somoza havia deixado o poder, depois de 42 anos de ditadura. Continue lendo “O furo da telefonista do jornal”

Só vai quem ainda não morreu

Morávamos quase na esquina de uma agradável avenida de Guarulhos, que corre ao lado do  bosque municipal. Trânsito moderado, uma grande paz. Caminhava-se pela calçada, ao lado do bosque, ouvindo o trinar dos pássaros. A idade nos tirou de lá (casa tem escada), e colocou em um apartamento. Ainda bem! Continue lendo “Só vai quem ainda não morreu”

O cara não passeia – viaja a trabalho!

Soube de fonte fidedigna (Mary Zaidan, a mulher dele) que Sérgio Vaz anda sem vontade de viajar.  Estranhei… quem não gosta de sair um pouco de casa e desfrutar as delícias de novos ares em plagas (perdão) distantes? Em dado momento percebi tudo. O que acontece com Sérgio Vaz é que ele não é um turista, um viajante, um itinerante – ele é um enviado especial. Vai a trabalho. Continue lendo “O cara não passeia – viaja a trabalho!”

O Brasil aos olhos do repórter

Meus filhos resolveram que o pai deles vai ter reportagens suas publicadas em um e-book. Equipe de edição: Mônica, editora; Danilo, diagramador (é designer gráfico); e Paulo, apoio na preparação dos textos. Há apenas um detalhe. Mônica quer a notícia por trás da notícia. Como fiz para levantar os dados, o trabalho de campo…  Muito interessante. Continue lendo “O Brasil aos olhos do repórter”

A escola de samba do capitão

Como quem pode, pode, ele tem todo direito de decidir criar uma escola de samba para desfilar na avenida.  O carro principal teria a forma de um palanque, com um microfone que ele empunharia durante o desfile, não para cantar (embora, na empolgação pudesse fazê-lo), mas para falar. Continue lendo “A escola de samba do capitão”

E se não houvesse jornalista para ouvir o capitão?

Bolsonaro passa os olhos pelo clipping  com notícias  de jornais e encontra uma que o desagrada especialmente. “Esses jornalistas são uns ***”, xinga, enquanto dá um soco na mesa. Aquilo fica entalado na garganta, tem que despejar o quanto antes nos jornalistas que o esperam à saída do Palácio.

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A deliciosa tradição do capeletti

Nos meus treze, catorze anos, comprei madeira e construí um cavalete, com séria intenção de fazer desenhos a carvão. O cavalete sustentava uma prancha de uns setenta por sessenta centímetros, que recebia a folha de papel. Desenhos, mesmo, fiz poucos. Mas minha mãe, Elza, gostou muito da prancha. Continue lendo “A deliciosa tradição do capeletti”