Caridade não tem idade

Tão pequenas, aquelas crianças passavam horas na rua, em dias muitos quentes, às vezes frios, abordando motoristas de carros parados no farol. “Compra, moço, compra, dona”. Ofereciam garrafas de água. Era como um esmolar, de resultado difícil. Em um dia destes, tiveram uma boa surpresa. Um motorista comprou todas as garrafas que tinham. Como ficaram contentes os pequenos, e o irmão mais velho, que os vigiava… Puderam voltar cedo para casa.

Em um fim de noite muito frio, um grosso cobertor cai sobre um indigente que dorme encostado a um muro, em uma calçada. O homem mal acredita no que acontece. Chega a pensar em milagre, enquanto trata de cobrir-se rapidamente. Ouve-se o motor de um carro que se afasta…

A dona de certo brechó fica muito feliz quando aquele mesmo veículo estaciona à sua porta. Recebe com um sorriso o cliente. Sabe que seu estoque de roupas, usadas mas em bom estado, vai sofrer uma baixa. As de inverno têm preferência.

O que chamavam pracinha, em uma favela especialmente pobre, era um terreno baldio, de bom tamanho. Ali as crianças se reuniam para brincar com uma bola estropiada, quando havia, ou simplesmente estar juntas. O Dia da Criança passava longe. De repente, nessa data, um objeto muito estranho surge no céu.

O drone, eis o que era, passa bem baixo pelo terreno e despeja uma carga de pequenos objetos. A criançada só olha, atônita. Não se dá conta de que estava “chovendo” bala, bombom e pequenos tabletes de chocolate. Quando o drone se afastou, e viram o que era, encheram as mãos, deliciadas.

A notícia correu. Outras crianças, e mesmo adultos, foram para a praça. Chegaram tarde… Não, pois prevendo isso, o operador do drone repetiu duas vezes a “chuva”.

Quem era essa alma caridosa? Eis que chega um assessor do vereador fulano para dizer que aquele era o presente de sua excelência pelo Dia da Criança. O sujeito foi posto a correr, pois o citado nunca fora visto no bairro. O verdadeiro autor nunca se mostrou.

No fim do inverno, em uma noite de muito frio, um indigente que tiritava deitado em um banco de concreto sentiu que alguém lhe oferecia um conjunto de moletom. No entanto, começou a ter dificuldade para vestir a peça sobre seus andrajos. O benfeitor já se afastava, quando viu o que acontecia. Voltou, e ajudou o homem. Deu-se o diálogo.

– Deus o abençoe, Deus o proteja – diz o homem, emocionado. – Mas… quantos anos você tem?

– Vinte.

Esta crônica foi originalmente publicada no blog VIvendo e Ensinando, em 15/9/2023. 

2 Comentários para “Caridade não tem idade”

  1. Que maravilha esse mundo moderno! Doces caindo de um droner.
    O que imediatamente faz lembrar o passado, quando a ganhava presentes aos pés da árvore de natal. Abraço grande, Valdir. Saudades. Adaptou-se de vez ao apartamento?

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