Bigtechs ganham, democracia perde

No dia 5 de dezembro, quando foi ungido pelo pai, Flávio Bolsonaro fixou o anúncio de sua candidatura no alto de seu perfil no X. De lá para cá, sua campanha está correndo solta nas redes sociais. O presidente Lula não fica para trás. Em público, fala à vontade sobre sua disposição de disputar o quarto mandato, com replique das mensagens. Assim como os demais atos de campanha, a propaganda eleitoral na internet só é oficialmente autorizada a partir de 16 de agosto. Mas os pré-candidatos em todo o país pouco se importam com a lei. Sem fiscalização, fazem lives e impulsionam conteúdos. Uma festa com fartos lucros para os bilionários das bigtechs. Continue lendo “Bigtechs ganham, democracia perde”

O outsider da vez

O Maranhão é “uma bosta” que precisa de intervenção federal, o “sistema político brasileiro é podre”. Defesa de prisão perpétua e pena de morte legal ou oficiosa (executada por policiais) e até da produção de bomba atômica. Com ideias e falas absurdas, que rendem engajamento nas redes sociais, Renan Santos, do novíssimo partido Missão, é o outsider da vez. Imagina se tornar competitivo com discurso antissistema, lançando farpas para todos os lados e infernizando a vida dos favoritos na disputa presidencial. Filmou-se jogando sal grosso em frente da casa em que Lula morou na infância, em Caetés (PE), e promete “acabar com a raça” de Flávio Bolsonaro – “O traíra tem de morrer”. Continue lendo “O outsider da vez”

Temporada de troca-troca

Mais de 20 parlamentares mudaram de sigla na primeira semana da janela de transferência partidária iniciada no dia 5 deste mês e que se estende até 3 de abril. Em 2022, a troca de camisa começou com 12 e alcançou 83 parlamentares, 16% dos 513 deputados. O movimento frenético, análogo às negociações de compra e venda de atletas dentro do calendário de transferências do futebol europeu, aponta o desprezo dos políticos com um dos pilares da estrutura da democracia representativa: os partidos. Continue lendo “Temporada de troca-troca”

O Agente Laranja dá uma força a Lula

Na sexta-feira 13, o Itamaraty rejeitou todas as contrapropostas dos Estados Unidos às sugestões feitas pelo Brasil para ações colaborativas no combate às facções criminosas. No mesmo dia, o conselheiro de Donald Trump, Darren Beattie, que omitiu e mentiu sobre os motivos de sua visita ao Brasil, teve seu visto suspenso. Ainda que a série de nãos brasileiros arrisque a “química” entre Trump e Lula, ela pode provocar uma onda favorável ao petista em meio ao baixo-astral dos últimos tempos. Continue lendo “O Agente Laranja dá uma força a Lula”

Está tudo muito esquisito

Maior fraude financeira da história do país, o caso Master agudizou na semana passada. Junto com a prisão preventiva do dono do banco liquidado, Daniel Vorcaro, e da suspensão do sigilo dos dados de seus celulares, ambas por ordem do novo relator do caso no STF, ministro André Mendonça, confirmou-se a extensa rede criminosa do ex-banqueiro, com gente graúda de todas as matizes políticas e em todas as esferas de poder. Continue lendo “Está tudo muito esquisito”

Os fura-leis

Acordos para ampliar e manter privilégios dos abastados são praticados desde os tempos do Brasil Colônia. Intensificaram-se no Império, com farta distribuição de terras e poder aos amigos do rei, perpetuando-se na República. O voto popular até funcionou para criar algum constrangimento, substantivo completamente em desuso. A concessão e a defesa de regalias para o andar de cima são o novo normal, com argumentos desavergonhados que não chegam nem a corar a face de quem os usa. Continue lendo “Os fura-leis”

Uma lei de mentirinha

Pouco importa se a Acadêmicos de Niterói infringiu ou não a legislação eleitoral ao homenagear o presidente Lula ou se lá em 2022 as motociatas do ex Jair Bolsonaro o beneficiaram. Quase sempre os delitos de propaganda antecipada não dão em nada e, quando dão, a punição é tão pífia que estimula candidatos e partidos a burlarem a proibição. Continue lendo “Uma lei de mentirinha”

STF Futebol Clube

Poderia ser apelidado de bloco do STF para combinar com o Carnaval, mas o ministro Flávio Dino preferiu usar a alegoria futebolística: “sou STF Futebol Clube”. Dito e feito. Como um time, a Corte se uniu na proteção do colega Dias Toffoli, protagonista de lambanças em série frente à relatoria do caso Master, o maior golpe financeiro da história do país. A blindagem mirava tirar o Supremo do olho do furacão. Falhou. Continue lendo “STF Futebol Clube”

Não há democracia sem transparência

Política não costuma gerar fatos isolados. Os acontecimentos estão quase sempre encilhados uns nos outros. Não é por acaso, portanto, que o ministro do STF Flávio Dino tenha determinado o fim da festa dos puxadinhos nos salários de servidores dos Três Poderes na mesma semana em que a Câmara, em votação relâmpago, aprovou novos penduricalhos aos seus funcionários. Muito menos que o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), tenha defendido com unhas e dentes as emendas parlamentares, cujo sigilo e falta de rastreabilidade estão na mira do Supremo desde os tempos de Rosa Weber e, agora, de Dino.   Continue lendo “Não há democracia sem transparência”

Marcha à ré

Um ano pode ser bom para uns, péssimo para outros. Raros são aqueles sem catástrofes e guerras, inventos geniais ou curas tidas como impossíveis. Mas os anos parecem andar para trás, como se a Terra estivesse girando ao contrário. Já tinha sido assim na última década, repetindo-se em 2025. E nada aponta que será diferente em 2026. Continue lendo “Marcha à ré”

Em sacos, malas e cuecas

Flagrado com a boca mergulhada na botija, o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), nem mesmo corou ao dizer que os R$ 470 mil em espécie achados pela Polícia Federal em seu flat brasiliense eram de um imóvel que vendeu em algum lugar de Minas Gerais. Sem se lembrar da localização ou do dia da transação, ele caprichou na desfaçatez: não teria depositado o valor “por um lapso”. Ao “esquecer” quase meio milhão de reais dentro de um saco de lixo no armário do quarto, ele enriquece a despudorada criatividade dos políticos quando o dinheiro vivo salta de malas e cuecas.

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Pode não ser o que parece

Sabe-se que política não é ciência cartesiana, tampouco se atrela à previsibilidade. Não raro,  as negociações  – muitas delas inconfessáveis – têm desfecho contrário ao pretendido. A votação na Câmara que acabou por preservar o mandato da deputada condenada Carla Zambelli (PL-SP), resultado anulado pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, parece comprovar a tese. O mesmo vale para o PL da Anistia, que virou da Dosimetria, e para a extemporânea candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Nos três casos, os tiros escaparam pela culatra encontrando os pés. Continue lendo “Pode não ser o que parece”

Melhor para Tarcísio

Auto-anunciado como ungido pelo pai, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) conseguiu agitar a sexta-feira com o lançamento de sua candidatura à Presidência da República. Deixou a direita perplexa, irritou aliados de peso como o pastor Silas Malafaia, derrubou a Bolsa, acelerou o dólar, e até antecipou comemorações entre lulistas. O ato extemporâneo do zero um repôs o nome Bolsonaro no jogo e, ainda que à primeira vista não pareça, fez multiplicar as chances do governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos). Continue lendo “Melhor para Tarcísio”

Esculhambação geral

Foragido desde setembro, dias antes de sua condenação a 16 anos e um mês pela trama golpista, o deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ) protagonizou uma fuga espetacular, provavelmente terrestre, pela Guiana, e de lá para Miami. Seus passaportes, tanto o comum quanto o diplomático, já estavam cancelados, mas ele não esbarrou em dificuldades para sair do Brasil, tampouco para entrar nos Estados Unidos. Tirou licença-saúde válida até 12 de dezembro, continua recebendo seu salário régio e ainda cobrou ressarcimento de gastos com gasolina. Nada que provoque espanto à esculhambação geral endossada e até estimulada pela Câmara dos Deputados, permissiva ao extremo com os seus fora da lei de estimação.

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Mais uma lei não resolve

Impor penas mais rigorosas, classificar crimes como hediondos e ameaçar puni-los com o “rigor da lei” costumam ser saídas fáceis para questões que nem de longe políticos sabem ou querem solucionar. O projeto Antifacção, originário do governo, modificado pela oposição e aprovado por ampla maioria na Câmara – 370 votos a favor versus 110 contra – é mais uma prova disso. Nem um dos poucos consensos, a ampliação de penas para 30, 40 e até 66 anos de cadeia para líderes de facções, se sustenta em pé. O Brasil prende mal e, mesmo que quisesse, não teria como prender mais ou por mais tempo. Continue lendo “Mais uma lei não resolve”