A desgraça da graça

Gênese da democracia, liberdade é valor intrínseco, inegociável. Está na raiz da evolução humana e ilumina o progresso das civilizações. Nestes tempos de Bolsonaro, nunca ela foi tão surrada, deturpada, vilipendiada. Mais do que usá-la para justificar suas ações autocráticas, como o acintoso perdão concedido a Daniel Silveira, a intenção é que a “defesa da liberdade” possa legitimar o golpe, dando guarida à reação armada de segmentos da população contra a eventual – e provável – derrota eleitoral. É isso que está posto, com todas as falas, gestos e modos. Continue lendo “A desgraça da graça”

Por cima da lei

Na sexta-feira, o presidente Jair Bolsonaro voltou a torrar dinheiro dos impostos dos brasileiros para mais uma motociata, a 13ª em menos de um ano. Indiscutíveis atividades de campanha eleitoral, sem vínculo com qualquer ação de governo que justifique os gastos – segundo a Folha de S.Paulo, os passeios anteriores somaram R$ 5 milhões -, ele continua a fazê-las. Impunemente.

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Líderes sem causa

Aconteceu em 1994, na duríssima campanha ao governo de São Paulo. Durante uma entrevista, Mario Covas antecipou que, se eleito, não daria reajuste ao funcionalismo porque o Estado estava quebrado. Sua mulher, Lila, também não dourou pílulas. No debate reunindo esposas de candidatos, disse que aborto não era questão de opinião, mas de saúde pública e foro íntimo. Isso em meio à acirrada disputa com o “Segure na mão de Deus” Francisco Rossi. Covas manteve as posições durante a campanha e depois dela. Foi eleito e reeleito.  Continue lendo “Líderes sem causa”

A estrela da hora

Não foram poucos os que enterraram a terceira via após os movimentos erráticos dos pré-candidatos João Doria e Sérgio Moro. Teve funeral, com gente se divertindo diante das  trapalhadas no chamado centro democrático. A questão é que não há como sepultar o que não nasceu. E é fato: inexiste hoje uma alternativa viável à polarização Jair Bolsonaro versus Luiz Inácio Lula da Silva. Pelo menos até aqui. Pode acontecer? Sim. Mas o tempo corre.  Continue lendo “A estrela da hora”

Cara no fogo

É abjeto, repugnante, dá engulhos. Mas o gabinete paralelo no Ministério da Educação, gerido por pastores suspeitos de embolsar propinas para liberar construções de creches e escolas, é só mais um entre vários. Faz parte da organização, da índole do governo do presidente Jair Bolsonaro. Continue lendo “Cara no fogo”

Verdades alternativas

Suspender temporariamente o Telegram por descumprimento a ordens judiciais não é censura, proibir o filme Como se Tornar o Pior Aluno da Escola é. Tornar nulas condenações por tecnicismos processuais não é declaração de inocência, assim como delação ou investigação não significam crime ou culpa. Mas, dando ares de alhos aos bugalhos, fatos são traduzidos de acordo com a conveniência. Uma tática política velha, indisfarçável mesmo sob o novo apelido – narrativa -, por sinal, pra lá de antipático. Continue lendo “Verdades alternativas”

Pode ficar pior

De oito a dez ministros devem sair do governo até 2 de abril, data limite para candidatos às eleições de outubro deixarem seus cargos. À exceção da ministra da Agricultura Tereza Cristina, cuja atuação destoa dos demais colegas, eles não farão falta. O mais grave, talvez, esteja por vir: como o presidente Jair Bolsonaro sempre trocou auxiliares péssimos por piores, uma dezena de mudanças de uma só vez apavora. Continue lendo “Pode ficar pior”

O não-país

Nos últimos tempos, tenho a impressão de viver em um não-país. Nada parecido com a destemida Ucrânia que o tirano Vladimir Putin taxa como um não-país. Até porque lá a resistência forjou um líder, enquanto por aqui a mediocridade de populistas domina. Habitamos um Brasil regido por um desconcertante pouco caso com as aflições humanas, dúbio, que emite sinais confusos, ressuscita corruptos e joga no lixo boa parte de suas virtudes. E isso não é de hoje, começou muito antes da covarde invasão de Putin à Ucrânia. Continue lendo “O não-país”

Covardes e oportunistas

Mesmo com exemplos de sobra – estatismo exacerbado, ojeriza à imprensa, obediência cega ao chefe, que sempre está acima de tudo e todos -, petistas e bolsonaristas viram bichos quando alguém aponta semelhanças entre eles. Na invasão da Ucrânia por Vladimir Putin as parecenças reavivaram-se. Continue lendo “Covardes e oportunistas”

Por coincidência ou não

Não basta colocar o Brasil “do lado oposto da maioria global”, como destacou a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, ao comentar a solidariedade derramada a Vladimir Putin, em meio ao recrudescimento da crise Rússia-Ucrânia. O presidente Jair Bolsonaro quer mais. Conspira cotidianamente contra a civilidade e empenha-se, com afinco, em expurgar o país do mundo regido pela democracia. Continue lendo “Por coincidência ou não”

Audiência em baixa, riscos em alta

Nem o ar de profeta (de araque) – “…nos próximos dias vai acontecer algo que vai salvar o Brasil” -, ensaiado para os cativos do cercadinho do Alvorada, nem a mais recente bateria de “denúncias” de que o Exército teria encontrado “dezenas de vulnerabilidades” nas urnas eletrônicas funcionaram. Ambos movimentos do presidente Jair Bolsonaro tiveram repercussão baixíssima. Por um lado, é salutar que não se faça grande eco às suas sandices. Por outro, é um perigo. Deixa-se o monstro à solta para continuar a mentir, difamar as instituições e minar a democracia. Metodicamente. Continue lendo “Audiência em baixa, riscos em alta”

Federação, o jeitinho da vez

O Supremo Tribunal Federal deve decidir nesta semana o futuro das federações partidárias, novidade introduzida pelo Parlamento para driblar a cláusula de barreira – que impõe critérios de representatividade mínima aos partidos políticos – e o fim das coligações proporcionais. Ainda que contenha méritos, a nova regra, judicializada antes da estreia, resulta do improviso e açodamento do Congresso, que altera a legislação eleitoral com mais frequência do que o eleitor troca de roupa.  Continue lendo “Federação, o jeitinho da vez”

Dias piores virão

Depois de três anos sob a presidência de Jair Bolsonaro, há apenas uma certeza: tudo sempre pode piorar. Agora, não apenas ele, que abriu a campanha pela reeleição no dia da posse, mas também seus auxiliares aumentam o tom das imbecilidades. Buscam consolidar candidaturas regionais patrocinando um campeonato de sandices que seria até risível, não fosse nefasto, abominável, acintoso. Continue lendo “Dias piores virão”

Ano Novo, Bolsonaro velho

A defesa da não obrigatoriedade de vacinação das crianças para a matrícula escolar reúne todos os ingredientes para virar a nova polêmica a ser insuflada pelo presidente Jair Bolsonaro, cujo estoque de conflitos anda repetitivo, insuficiente para mobilizar até o seu público mais fiel. Continue lendo “Ano Novo, Bolsonaro velho”

O Brasil tem fome

Fome. O tema é indigesto para iniciar o ano, mas obrigatório em um país onde mais da metade da população – 116,8 milhões – não come todos os dias e 9% – 19 milhões – têm carência alimentar grave. Avesso a pobres, o governo Jair Bolsonaro era sabidamente incapaz de fazer frente a essa penúria, que, pelo menos até aqui, também não frequenta a agenda dos demais presidenciáveis. No máximo, usam o estômago oco de milhões para rechear de indignação seus discursos, sem expor estratégias para livrar da indigência esse enorme contingente de brasileiros. Continue lendo “O Brasil tem fome”