A cem dias da eleição de 2022, o Datafolha apontava Lula à frente das intenções de voto com vantagem de 18 pontos e possibilidades reais de vitória ainda no primeiro turno. Diante desse cenário, Jair Bolsonaro recorreu ao peso da caneta presidencial para tentar reverter o quadro por meio da chamada PEC Kamikaze. A jóia da coroa de seu pacote de bondades foi a elevação do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600. Ampliou ainda o número de beneficiários, praticamente dobrou o valor do auxílio-gás, zerou impostos federais sobre combustíveis, criou benefícios para caminhoneiros e taxistas e estendeu o crédito consignado aos beneficiários do programa. Continue lendo “Tudo pelo eleitoral”
Jacobismo de toga
O Supremo Tribunal Federal ocupa, em qualquer democracia constitucional, uma posição de equilíbrio delicado: é, ao mesmo tempo, guardião da Constituição e árbitro final de conflitos institucionais. Dessa condição deriva não apenas o seu poder, mas também a sua responsabilidade de autocontenção. Quando a Corte ultrapassa esse limite e passa a agir como protagonista político, o risco não é apenas jurídico; é também institucional, podendo comprometer valores fundantes do Estado de Direito Democrático. É nesse contexto que ganha força a crítica ao que se convencionou chamar de “jacobinismo de toga”. Continue lendo “Jacobismo de toga”
O tripé que ameaça a reeleição de Lula
A rodada de pesquisas de abril trouxe um conjunto consistente de sinais de alerta para a reeleição de Lula. O dado mais visível é a vantagem, ainda que estreita, de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno. No levantamento Genial/Quaest, o senador aparece numericamente à frente, com dois pontos de diferença. Mais importante do que a fotografia do momento é a tendência: desde dezembro, a curva de Flávio é ascendente, enquanto a de Lula mostra estagnação. Continue lendo “O tripé que ameaça a reeleição de Lula”
Obrigado, Hungria
Assim que as urnas confirmaram a vitória do partido oposicionista Tisza, seu líder e próximo primeiro-ministro húngaro, Péter Magyar, correu ao Facebook e postou: “Obrigado, Hungria”. O agradecimento não é apenas dele. O resultado eleitoral foi também um sinal político relevante para a Europa e para a Otan. A derrota do “iliberal” Viktor Orbán, eurocético de raiz e ícone da extrema-direita global, representa igualmente um revés para Vladimir Putin, que perde um aliado importante no interior da União Européia. Continue lendo “Obrigado, Hungria”
As duas faces de Flávio
Havia lógica, e até alguma sofisticação política, na estratégia de Flávio Bolsonaro de se apresentar como a face mais moderada do bolsonarismo. Num país que permanece dividido praticamente ao meio, como reiteram sucessivas pesquisas de opinião, o centro de gravidade da disputa eleitoral deslocou-se para os eleitores independentes. Esse contingente, menos ideológico e mais pragmático, tornou-se o fiel da balança. Não se trata de um público entusiasmado, mas de um eleitorado que decide com base em percepções de estabilidade, previsibilidade e rejeição ao radicalismo. Em 2018, migrou para Bolsonaro; em 2022, para Lula. Agora, observa atentamente os dois principais contendores. Continue lendo “As duas faces de Flávio”
O Brasil falha onde tudo começa
É na infância que se descobrem histórias, personagens e ideias que ampliam o olhar sobre o mundo. Antes mesmo de compreender plenamente a linguagem, a criança intui que ali existe algo maior: uma possibilidade de imaginar, explorar e dar sentido ao que a cerca, muitas vezes por meio das imagens, que inauguram esse encontro com a mesma potência das palavras. A literatura infantil não é apenas uma etapa na formação do leitor. Ela constitui uma base essencial da formação cultural, cognitiva e criativa. Continue lendo “O Brasil falha onde tudo começa”
O voto passa pelo bolso
Lula e sua equipe queimam a pestana para entender por que o bom desempenho dos indicadores da economia, com inflação sob controle e emprego em alta, não se traduz na aprovação do governo. Tampouco produziu, até aqui, uma situação confortável para a disputa presidencial. Ao contrário, a curva de desaprovação cresce e o favoritismo se estreita, indicando um cenário mais competitivo do que o esperado. Continue lendo “O voto passa pelo bolso”
O STF perde sua autoridade
No dia 12 de fevereiro, os ministros do Supremo Tribunal Federal realizaram uma reunião fechada para discutir como retirar a Corte do epicentro da crise do Banco Master. Nos diálogos, divulgados pelo Poder360, ficou registrada uma frase da ministra Cármen Lúcia: “Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo”. A observação encontra respaldo na pesquisa AtlasIntel/Estadão: 60% dos brasileiros não confiam no STF. Continue lendo “O STF perde sua autoridade”
O grande ausente
Pela primeira vez desde a redemocratização brasileira, uma eleição presidencial se aproxima sem a presença clara de um candidato identificado com o campo do centro-democrático. Ao longo das últimas décadas, mesmo quando esse espaço parecia eleitoralmente frágil, ele sempre encontrou alguma forma de se expressar na disputa. Agora, o cenário é distinto: o centro político, entendido como um campo comprometido com a democracia liberal, com reformas graduais e com a conciliação social, encontra-se sem um porta-voz nítido. Continue lendo “O grande ausente”
Favoritismo de Lula em xeque
Autor do livro A mão e Lula: o que elege um presidente, o cientista político Carlos Alberto Almeida é uma voz respeitada por expoentes da esquerda, como o próprio Lula. É de sua autoria a sentença com poder de provocar pesadelos no presidente e em sua equipe: Lula “é favorito para perder”. Continue lendo “Favoritismo de Lula em xeque”
Irã, um novo atoleiro americano?
Não há dúvidas quanto ao caráter ditatorial do regime iraniano. Nas últimas décadas, milhares de manifestantes foram mortos pela repressão da teocracia instalada após a Revolução de 1979. Mulheres foram perseguidas por desafiar o código de vestimenta imposto pelo Estado. Algumas chegaram a ser condenadas à morte por apedrejamento, pena que em certos casos só não se consumou graças à pressão internacional. Outras morreram sob custódia policial após serem presas por não usarem corretamente o véu. Também é incontestável que o aiatolá Ali Khamenei consolidou um regime autoritário e intolerante. Continue lendo “Irã, um novo atoleiro americano?”
Lula e o voto evangélico
Às vésperas do carnaval, João Santana, ex-marqueteiro de Lula e de várias campanhas do PT, divulgou um vídeo que passou quase despercebido. Nele, fazia um alerta. Era preciso olhar para fora da avenida e avaliar os efeitos políticos que viriam após o desfile da Acadêmicos de Niterói, cujo enredo celebrava a trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sua advertência era clara: a narrativa da escola poderia agradar à bolha petista, mas produzir efeitos negativos duradouros no universo evangélico e nas regiões onde o agronegócio possui peso econômico e cultural. Continue lendo “Lula e o voto evangélico”
O Supremo sob tensão
A crise institucional que tem o Supremo Tribunal Federal no centro do furacão deu mais um salto de patamar com a revelação da investigação sobre o vazamento de dados fiscais de ministros e familiares. A decisão de conduzir o caso no âmbito do inquérito das Fake News, já existente, provocou críticas no Congresso e também dentro do próprio tribunal, onde houve quem visse no ato conflito de interesses e defendesse a abertura de procedimento autônomo, com distribuição regular. Continue lendo “O Supremo sob tensão”
Lula e António José Seguro: duas esquerdas, dois caminhos
A vitória do socialista moderado António José Seguro na eleição para presidente de Portugal tem um significado que vai além de suas fronteiras por indicar o caminho da conciliação como o mais adequado para enfrentar o populismo e a polarização. Continue lendo “Lula e António José Seguro: duas esquerdas, dois caminhos”
Autocorreção – o momento decisivo do Supremo
O discurso recente do ministro Edson Fachin, ao reconhecer a necessidade de autocorreção no Supremo Tribunal Federal, sinalizou a percepção, dentro da própria Corte, de que a relação com a sociedade atravessa um momento delicado e que a credibilidade institucional passou a ser um tema incontornável. Continue lendo “Autocorreção – o momento decisivo do Supremo”
