Santiago de Chile

Olhávamos os mapas, tentando entender onde estávamos, no primeiro dia da viagem. Uma senhora se aproximou e disse: Que calle cercas? Era uma mulher de uns 50 anos, simples, classe média média. Não se conteve diante dos dois turistas que pareciam perdidos, quis ajudar.

No Metro (se dice métro, no metrô), um jovem pai que brincava com uma bola de futebol com o filho fez menção de se levantar para me dar o lugar, certamente por causa da minha barba branca. Em outro dia, também no Metro, uma garotinha de uns 12 anos, roupa de escola, levantou-se sorridente, serelepe, para dar lugar para Mary – e Mary tem baby face.

No imenso Parque Quinta Normal, uma trabalhadora, rastelando folhas caídas, abriu um sorriso para nós, turistas com los paráguas abiertos, e brincou dizendo algo como: Parece que vá a llover! – para em seguida completar: Y eso es bueno, por el aire.

Esses pequenos gestos (e houve vários outros como eles) me parecem como uma definição dos chilenos, das pessoas comuns de Santiago: pessoas boas, bem humoradas, gentis, educadas, amigas.

Essa característica básica, fundamental, da gentileza das pessoas, foi a que mais deixou Mary impressionada.

Claro: há também os bandidos. Em uma curta passagem de sete dias, fui roubado duas vezes – sem qualquer violência, por dois bandidinhos que são autênticos artistas. É assim, nas metrópoles.

Uma metrópole aos pés de uma espetacular cordilheira

Santiago me deu, nesta segunda/primeira visita, a maravilhosa sensação de estar numa grande metrópole. Algo como tinha sentido em Toronto, quando estive lá tanto tempo atrás, por uma gentileza de Rodrigo Mesquita, a ocasião em que conheci Fátima Belchior, uma séria, competentíssima jornalista niteroiense então na Gazeta Mercantil, que descobria como eu que uma cidade não precisa ter mais de 3 milhões de habitantes para ser uma metrópole. Belo Horizonte, a minha cidade da infância, inchou tanto que tem quase isso, mas continua sendo uma pequena cidade provinciana. Toronto tem em torno de 2,5 milhões, e é uma metrópole.

Santiago às vezes lembra Toronto, às vezes lembra Buenos Aires e também Londres, e muitas vezes lembra Paris. Mas Santiago tem uma coisa que nenhuma outra metrópole tem – Santiago tem a cordilheira.

Há muitas grandes, belas cidades à beira do mar, ou cortadas por belos rios. Nenhuma tem, como Santiago, uma cordilheira.

No nosso segundo dia na cidade, me ocorreu que Jacques Brel ficaria chocado, deslumbrado com Santiago. Para um poeta de um país plano, que tem as catedrais como suas únicas montanhas, seria um estúpido encanto se deparar com a cordilheira que tem Santiago a seus pés.

Logo abaixo daquela imensidão de blocos de altas montanhas, a cidade é de uma planura impressionante. Pode-se atravessar Santiago de uma ponta a outra, de Leste a Oeste, de Norte a Sul, sem enfrentar nenhum declive forte. Mas parece que os poetas gostam de montanhas; isso poderia explicar por que Pablo Neruda escolheu ter sua casa no início de uma montanha, e não no meio da planura que é praticamente todo o resto da cidade. A casa de Neruda, La Chascona, fica no sopé de uma montanha de 288 metros, muito mais alta que qualquer catedral da Bélgica de Brel – mas, comparado à cordilheira, aquela montanha é tão pequena que leva o nome de cerro, Cerro San Cristóbal – e, segundo o dicionário, cerro é colina, outeiro. É como o Corcovado deles, e no alto, ao qual se pode chegar por um funicular (um bando de santiaguinos loucos gosta de subir de bicicleta pela estrada sinuosa), há uma estátua de uma Virgem Maria, a Immaculada Concepción. A Virgem, de 14 metros de altura, sobre um pedestal de outros 8,5 metros, e os mortais que chegam ao alto do cerro têm uma vista deslumbrante da cidade. Mas tão deslumbrante quanto ver a imensa cidade lá embaixo é ver a cordilheira bem lá em cima.

Subir até o alto do Cerro San Cristóbal – seja de táxi, a pé, de bicicleta, mas preferencialmente de funicular – é programa absolutamente obrigatório. Visitar La Chascona, no sopé do morro, também é, mas Mary e eu não chegamos a pagar o ingresso para percorrer a casa do poeta: havia brasileiros demais, lá, todos falando alto, como sempre falam alto os brasileiros. Saímos correndo. Neruda não ficará chateado.

Neruda é um orgulho nacional chileno, merecidissimamente. O Chile é, acho, o único país das Américas (ou será do mundo?) que teve não apenas um, mas dois poetas premiados com o Nobel de Literatura. Antes dele, Gabriela Mistral já havia recebido a honraria.

Gabriela está nas notas novas de 5 mil pesos. Neruda não figura nas notas, mas está, como Gabriela, presente em diversos lugares da cidade, em estátuas, citações em placas, com suas obras em destaque em todas as muitas livrarias.

Santiago inspira a alma. E seca a pele

Li estas mal traçadas acima para Mary, depois de dizer que estava achando o texto um tanto bobão, um tanto porcamente metido a besta. Mary me replicou com o seguinte: Bem, talvez o ar de Santiago, além de secar a pele, inspire a alma.

Ela tem razão: Santiago inspira a alma. E seca a pele. Não se deve ir a Santiago sem creme hidratante.

Dois casais de santiaguinos no momento mágico da conquista

Por puro golpe de sorte, pude ver, no meio dos batalhões de turistas, dois casais de santiaguinos no momento do encantamento maior, o momento da conquista.

O primeiro casal era de jovens muito jovens. Ela era linda, de cabelos louros, grandes, cuidadíssimos, umas quatro horas do dia dedicados a cuidar deles; parecia ter 17 – ah, volver a los diecisiete sin ser sabio competente –, nunca mais que 20 anos. Ele parecia ter uns 22, no máximo 23, com aquela barbinha de estudante que quer parecer intelectual. Era obviamente o primeiro encontro a sós, a primeira vez que saíam juntos. Tentavam se impressionar, ele a ela e ela a ele, como fazem todos os jovens do mundo quando saem pela primeira vez, como fazem todos os casais do mundo no primeiro encontro. Pediram uma tábua de queijos e frios, e um vinho. A moça falava muito mais do que o rapaz. Não ouvi o que eles diziam, mas percebi que ela falava mais para que ele não se sentisse mal com o eventual silêncio que pode surgir num primeiro encontro. Achei que ela estava muito mais fascinadinha por ele do que ele por ela, mas a verdade é que possivelmente ele estava apenas sendo bobo, idiota, homem: emquanto ela se esforçava por conquistá-lo, ele só pensava no momento em que poderia enfim comê-la, e então não conseguia dizer muita coisa.

Será que a lourinha linda conseguiu comer o garoto bobo?

Jamais saberei.

Muito pior era a situação do cara que marcou encontro com a moça no Astrid y Gastón, restaurante chique, carésimo, badalado, da moda, seguramente para impressionar, para parecer rico e fino – e a moça não chegava. Era um sujeito aí de uns 30, 35 anos, sozinho de tudo, em uma bela mesa, muito possivelmente reservada com uma semana de antecedência, ou mais; à esquerda dele, havia uma longa mesa para umas 12 pessoas, uma grande reunião familiar de brasileiros e chilenos; diante dele, num corredor, estava um casal de brasileiros – Mary e eu, eu de frente para Mary e para ele. Me sentia desconfortável naquele lugar metido a besta, fresco, veado – mas via que o rapaz estava pior. Aí tocou o celular dele – e ele atendeu à chamada como se naquele momento sua vida estivesse sendo salva. Brinquei com Mary que a amante do moço estaria tentando dizer que o marido tinha voltado de viagem, e ela não poderia ir – mas a novela que criei na cabeça era errada. A moça estava chegando, tinha se perdido, demorado a achar o lugar, mas estava chegando, estava lá. E era seguramente um dos primeiros encontros, o encontro da conquista. Sentaram-se – ele a deixou escolher onde ficar, ela quis a cadeira diante de onde ele já estava, e assim continuei vendo a cara dele, fazendo charme para a moça, cada vez mais feliz, a voz cada vez mais entusiasmada, mais alta,  embora, é claro, não tão alta quanto a de qualquer turista brasileiro.

Jamais saberei, é claro, se o ansioso rapaz terá conseguido comer a moça que se atrasou para o encontro no restaurante chique e fresco. Mas imagino que o encontro na cama não tenha acontecido naquele dia. Era o início de um namoro de pessoas de uns 30 e tantos anos. Não sei, jamais saberei – mas quero crer que o casal jovem terá se comido antes que o casal trintão. Os jovens são mais rápidos.

Uma metrópole que mantém vivo e vibrante o seu Centro

A região metropolitana de Santiago tem hoje cerca de 6 milhões de habitantes, num país de 15 uns milhões. A conta é óbvia: de cada três chilenos, um vive na capital. Mais impressionante que isso, aqui perto, só o Uruguai, onde nada menos da metade dos habitantes vive na capital.

Toda Santiago, com suas 37 comunas, tem, assim, pouco mais da metade de habitantes da cidade que escolhi para viver. A Grande São Paulo está aí com uns 20 milhões de habitantes, mas, creio, as comparações devem ser feitas entre a Grande Santiago e o município de São Paulo – a Grande Santiago, com suas 37 comunas, é uma coisa só, toda integrada, enquanto os municípios da região metropolitana de São Paulo são cada um uma entidade própria: São Paulo é São Paulo, Santo André é outra coisa, Guarulhos é outra coisa, Osasco é outra coisa, e assim por diante.

Santiago dá dez a zero em São Paulo em diversos, diversos itens, pequenos e grandes, minudências e macro-marcos.

O ponto macro mais macro, mais marcante: Santiago tem um Centro, enquanto nós, nas últimas quatro décadas, abandonamos o nosso, deixamos que o nosso fosse esvaziado, vilipendiado, miserizado.

O povo de Santiago vai às ruas do Centro e das proximidades do Centro – assim como vai às ruas dos diversos bairros. (As comunas, na verdade, na prática, são como bairros de uma mesma cidade.)

O povo de Santiago, aliás, adora ir às ruas. As ruas estão sempre cheias – durante o dia e à noite. Sim, há carros, há congestionamentos, há um extraordinário serviço de ônibus, há uma bela rede de Metrô, perdon, de Métro, mas as ruas estão sempre cheias. Há vida nas ruas, e não apenas dentro dos restaurantes, lojas, shoppings.

La Plaza de Armas – a Praça da Sé deles – continua sendo hoje o que sempre foi (e ela foi uma das primeiras coisas a ser definidas a partir da fundação de Santiago, em 1541, 13 anos antes de Anchieta e Nóbrega fundarem São Paulo): o centro do Centro, o coração, o epicentro da metrópole. Está sempre cheia, nos dias úteis como nos fins de semana – cheia, populosa, vibrante. Grupos e pessoas se apresentam, fazem performances – e como há performáticos em Santiago. Há contadores de histórias, malabaristas, músicos de todos os tipos – e ao redor deles se fazem grandes rodas de gente. Em uma única tarde, havia uma cantora brega, deficiente física, com discos gravados, e num outro canto, uma pequena orquestra de dez jovens (violinos, violoncelos, e um fagote!) apresentando o Canon de Pachelbel, com alguma maestria. Numa das extremidades da praça, sob um grande coreto, há diversas mesas em que velhinhos disputam partidas de xadrez, observados por passantes, curiosos. Manifestantes de todos os credos fazem discursos ali.

O Metrô deles é quase o dobro do de São Paulo

Ah, sim, o Metro.

O Metrô de São Paulo, a maior cidade do país que hoje tem mais de 180 milhões de habitantes e é uma das dez maiores economias do mundo, foi inaugurado em meados dos anos 1970. Tem hoje cinco linhas, 61 estações, 70 km de trilhos. O Metro de Santiago começou a ser construído na mesma época, e tem cinco linhas, mas com 108 estações e 103 km. O de São Paulo tem, neste primeiro semestre de 2011, quatro estações em que se pode trocar de linha; Santiago tem o dobro exato: são oito estações de integração – ou combinación, como eles dizem.

Esses números são impressionantes demais. Se a gente parar um pouco para pensar, é de dar muita vergonha. O Chile é um país muito menor, com uma população 12 vezes  menor que o Brasil. Só o Estado de São Paulo, com 41 milhões de habitantes, tem 2,7 vezes a população do Chile inteiro. O Brasil, e o Estado de São Paulo sozinho, têm economia maior que a chilena. Começamos a construir o Metrô de São Paulo na mesma época que eles – e eles têm quase o dobro de estações que São Paulo.

É de dar muita vergonha. Mas não é só.

Santiago tem sinais de trânsito que avisam aos pedestres quanto tempo falta para ficar vermelho. São Paulo ainda não tem isso, em 2011.

Nos cruzamentos em que os carros podem virar à esquerda, não há sinais de trânsito trifásicos: os carros esperam que os pedestres cruzem as ruas. É um dado da realidade – se há pedestres, os carros param -, e pronto. É civilização.

Há muitos estacionamentos subterrâneos, muitos, às dezenas. E são subterrâneos os fios em boa parte da cidade, outro sinal de civilização. Em São Paulo não se pode fazer belas fotos de casas ou árvores porque há sempre um monte de fios atulhando a vista.

Santiago é uma cidade limpa. Que competência tem o serviço de limpeza! Na quinta-feira do grande protesto estudantil, dia 30 de junho, 80 mil manifestantes nas ruas segundo os órgãos oficiais, 200 mil segundo os organizadores, vimos o trabalho de limpeza na Alameda: um exército de varredores, ajudado por máquinas, avançou, triunfou – poucas horas depois da marcha dos meninos, da ação de alguns vândalos que quebraram vidros de bancos, lojas, e do ataque feroz dos carabineros, com bombas de gás lacrimogêneo e jatos de água gelada, o chão da Alameda estava limpo, perfeito, impecável.

As calçadas são lisas, sem buracos, sem remendos visíveis. É de dar vergonha aos paulistanos, os de nascimento e os por opção. Mary reparou, assim que voltávamos para casa, como os passeios de Perdizes (e Perdizes é, inegavelmente, um área nobre de São Paulo) são feios, esburacados, cheios de remendos, sem uniformidade, cada qual de um jeito. Um horror.

Os de Santiago são impecáveis.

Os canteiros centrais das avenidas, os espaços nas praças são cheios de flores.

E como há praças. Há parques gigantescos, grandes praças, plazuelas, plazuelitas – bem cuidadas, limpas.

Há bancos nas ruas para que os pedestres sentem e descansem. Há bancos em todos os lugares.

Edificações das primeiras décadas do século passado e prédios moderníssimos

Ao contrário do que acontece em São Paulo, onde sobram muito poucos prédios do século XIX, ou do início do XX, em Santiago o novo convive com o velho. Há grandes edificações das primeiras décadas do século XX, não só na região mais central, como também em bairros mais afastados, convivendo em harmonia com edifícios mais recentes, alguns meio bocós, aquelas pilhas de vidro de cima abaixo, mas muitos de uma arquitetura moderna mas de bom gosto, extremamente arrojados. Não é à toa que chamam parte da cidade de Sanhattan.

Na Plaza de Armas, por exemplo, construiu-se um desses prédios modernosos, imensos, gigantescos, entre a belíssima e antiquíssima Catedral, de 1789, e o prédio histórico do Correio central, de 1882 – não é à toa que virou cartão postal obrigatório a convivência física ali da modernidade com a tradição.

O novo convive com o velho também na paisagem humana. Mary se impressionou muito com as hordas de jovens presentes nas ruas, nas praças, e, afinal, passamos lá uma semana em que os jovens – os estudantes secundaristas e os universitários – estavam no auge de suas manifestações (me gustan los estudiantes, dizia um cartaz escrito à mão diante do prédio do Universidad de Chile, na Alameda, lembrando Violeta Parra). Mas há gente madura e velhos em tudo quanto é lugar também.

Assim como há crianças – e, mi Diós del cielo y también de la tierra, como há playgrounds para crianças em Santiago. Muitos, muitos, e com equipamentos bem construídos, dando impressão de imensa segurança, e com um design inventivo, coloridos, atraentes. Os brinquedos da Plaza Brasil, no barrio Brasil, afastado dos lugares que atraem turistas, são esculturas, obras de arte. (Há uma foto de um deles mais abaixo.)

Há gente de todas as idades, aos magotes, em todos os lugares.

Até os malabaristas de Santiago dão de dez a zero nos de São Paulo. Aqui, nos cruzamentos, vemos garotos muito pobres tentando ganhar uns trocados jogando para o ar duas ou três bolas. Numa esquina na entrada do bairro Bellavista, por exemplo, vimos um trio de jovens fazendo malabarismos dignos de um bom circo, jogando a garota da trinca para o alto e a aparando de volta como um bom goleiro posando para fotos num treino.

Um senhor de bem mais de 60 anos, lanterninha de cinema

No coração da cidade cheia de jovens, Santiago mantém uma tradição espetacular, fantástica: o lanterninha de cinema. O lanterninha do El Biógrafo, no charmosíssimo bairro de Lastarrias, é um senhor de bem mais de 60 anos; veste-se de terno e gravata, com elegância. Leva os espectadores até suas cadeiras, mesmo quando as luzes ainda estão acesas – os ingressos são numerados, como nos teatros. E aqui há um detalhe interessante: ao contrário do que acontece no resto do mundo, que eu saiba, a fila A é a mais distante da tela, e não a mais próxima.

Imbecil, este turista aqui não reparou que os serviços do lanterninha são recompensados com gorjetas; atenta, Mary notou que as pessoas passam para o lanterninha algumas moedas com a maior discrição, quase imperceptivelmente. É claro que, ao me dar conta do erro, me levantei e fui até o lanterninha para entregar-lhe duas moedas. Ele se mostrou surpreso: certamente imaginou que o turista iria fazer uma pergunta, um pedido. Agradeceu com um sorriso polido.

Naquela sessão, a das 19h30 de uma quinta-feira, exibindo um filme italiano recente, Cosa Voglio di Più, no Brasil Que Mais Posso Querer (apresentado lá com o título original, sem tradução para o espanhol), só ficaram cheias as últimas fileiras, as marcadas com as letras de A até D. Os espectadores eram pessoas maduras; boa parte tinha mais de 50 anos. O cine El Biógrafo exibia, alternadamente, uma sessão de Cosa Voglio di Più e uma sessão do penúltimo Woody Allen, Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos.

Fuma-se, em Santiago. Santiago respeita a noção de que cada um é dono de seus pulmões

Em Santiago, se fuma. E muito.

Eis aí um tema polêmico. Muita gente poderá dizer que acolher bem os fumantes, em pleno ano da graça (ou seria da desgraça?) de 2011, é uma prova de atraso, subdesenvolvimento. Seguindo o exemplo de tantas metrópoles do Primeiro Mundo, São Paulo baniu o fumo dentro de todas as edificações. Nova York está proibindo o fumo até mesmo nas áreas ao ar livre, nos parques.

Não quero entrar na polêmica agora, até porque já deixei claro de que lado estou nela em outros textos publicados aqui; dá imensa preguiça, e há muito o que escrever sobre Santiago, e então vou em frente.

Santiago põe em prática a noção de que cada um escolhe o que quer, de que as pessoas são donas de seus narizes (e pulmões), não precisam ser tuteladas pelo Estado Pai que se outorga o direito de saber melhor que elas o que é bom, é certo, é direito, e então fuma-se em Santiago nos bares, nos restaurantes, do mesmo jeito que nas praças e nas ruas.

Há bares e restaurantes – dos mais simples e dos mais finos – que mantêm áreas isoladas para fumantes e não-fumantes. Há outros em que simplesmente se fuma; quem não quiser fumar ou sentir o cheio de cigarro que procure a sua turma.

No Patio Bellavista – um grande shopping plano e ao ar livre, com pequenas lojinhas e diversos tipos de bares e restaurantes, inaugurado há poucos anos –, por exemplo, o simpático francês Le Fournil tem boas mesas para fumantes na área externa. Fazia frio (durante nossa semana lá, a temperatura, nos lugares e horários em que andamos, oscilou entre uns 3 e 12 graus), mas havia aquecedores; acabamos saindo da área externa para nos refugiarmos na interna, não fumante, para fugir da conversa em voz alta de duas brasileiras atrás de nós. (Lá dentro, felizmente, ouvimos espanhol, inglês e até japonês, mas nada de português.)

Na saída do Le Fournil, fomos atraídos pela música que saía de um bar. Uma dupla se apresentava no palco: um sujeito de uns 40, 45 anos, de cabelo grande e barba grisalhos, cantava e tocava violão; a seu lado, um senhor de uns 60 anos ou mais tocava acordeão. Não bandoneón – acordeão, mesmo. E tocava uma música do Inti-Illimani! Não tinha como não entrar, e entramos – e todo o ambiente, fechado, era, como eles dizem, fumador. (Será que se escreve humador? Não sei.) Fumava-se em todas as mesas, enquanto o duo tocava músicas dos mais diversos países – a cubana “Siboney”, por exemplo, e até uma grega, muito provavelmente de Teodorakis – ou seria de Hadjidakis?

Música é tema obrigatório. Terei que voltar a ele.

Ainda o fumo. Diante do já citado cine El Biographo, pertinho da Plaza Mulato Gil de Castro (na foto), onde fica o Mavi, Museo de Artes Visuales, topamos com um bar-restaurante simpático, descolado, onde, bem na entrada, um grupo de umas seis ou sete santiaguinas confraternizava tomando as primeiras do início de noite. Perguntamos à garçonete, bela, simpática, se havia espaço fumador, e ela respondeu que todo o lugar era fumador.

Na noite seguinte, voltamos à mesma Calle José Victorino Lastarria, para jantar no maior, mais austero, mais sisudo Gatopardo (com um t só, diferentemente do italiano). Austero e sisudo em termos, porque abrigava grandes e falantes grupos de chilenos aí entre os 25 e os 35 anos, na sua área fumante; na área não fumante, a predominância era de pessoas mais velhas, de gente madura, aí na faixa dos 40, e vários casais e grupos de mais de 60.

O que é interessante: mais jovens fumando, mais velhos não fumando. Claro que não se pode generalizar, tomar toda Santiago pelo restaurante Gatopardo, e dizer que os jovens fumam mais que os mais velhos, mas o fato inconteste é que muitos jovens fumam – nos restaurantes, nos bares, nas ruas, namorando, ou participando das passeatas, manifestações e enfrentamentos com os Carabineros de Chile.

Faz muito frio, e os santiguinos se encapotam como se estivessem na Finlândia

Em Santiago faz frio.

Nesta semana em que estivemos lá, início de inverno, neve na cordilheira, a máxima, segundo os boletins meteorológicos da TV e dos jornais, não passou de 18 graus, com a mínima chegando a 0. É bem mais frio que Buenos Aires; as duas capitais são paralelas, em termos de latitude (a de Santiago é 33 graus Sul, a de Buenos Aires, 34); mas Buenos Aires está no nível do mar, e Santiago fica a uns 560 (na região central), quase 600 metros de altitude (na parte mais alta, a Leste, mais perto ainda da cordilheira).

Então faz frio, e faz frio durante um bom tempo, desde junho até setembro, segundo nos frisaram duas santiaguinas bonitas, sorridentes, aí na faixa dos 35 anos, que seis meses atrás abriram uma cafeteria simples e simpática, Les Amis, na Avenida Apoquindo, perto da Estación Manquehue, a terceira mais próxima da cordilheira, na linha 1 do Metro, a vermelha, que corta a cidade de Leste a Oeste. Segundo elas, os moradores da cidade não saem de casa sem consultar a previsão de tempo; a meteorologia é um hobby, uma mania, uma necessidade, para os santiaguinos.

Isso foi o que disseram as moças. O que Mary e eu vimos é que aquele povo exagera nos agasalhos. Pela quantidade e qualidade de sobretudos, casacos, botas, cachecóis, echarpes, chapéus, bonés e luvas que usam, parece que estamos na Finlândia, ou na Suécia; bem, nunca estive lá, mas posso imaginar o frio, e o fato é que os santiaguinos saem de casa vestidos para enfrentar o mais gélido inverno nórdico.

Há atores que over act; o povo de Santiago se over dress, se posso dizer assim.

E o fascinante é que muitos não tiram os sobretudos, casacos, chapéus, cachecóis, echarpes, luvas, quando entram em ambientes fechados e aquecidos.

Paradoxalmente, no entanto, eles adoram sorvete.

Vendem-se mais helados durante uma hora em um bairro de Santiago do que durante uma década inteira em Teresina, o lugar mais insuportavelmente quente em que já pus os pés. Os santiaguinos tomam helados nas helaterias e também nas ruas. Aos bandos, em grupos pequenos, os casais, pessoas sozinhas. É outro esporte nacional.

Talvez eles usem o frio como exibição de maior civilização que os demais latino-americanos. Sei lá eu.

Mas a verdade que, embora muito bem agasalhados, Mary e eu passamos frio em vários momentos, como, em especial, quando fomos passear no imenso Parque Quinta Nacional e depois à saída do extraordinário, maravilhoso, emocionante Museo de la Memoria y los Derechos Humanos, pertinho do parque, no único dia que pegamos de chuva.

Os Andes cobram seu preço, e a cidade fica permanentemente sob o smog

A chuva, como nos lembrou a sorridente, bem-humorada gari no parque, perto de outro grande Museo, o de Historia Natural, é necessária, por causa do ar. Claro, também por causa das plantas, e do abastecimento de água, mas principalmente por causa do ar.

Santiago tem o ar extremamente seco; nunca venta muito, e não se dispersa a poluição, por causa da localização da cidade, muito próxima à gigantesca cordilheira; o vento que vem do Pacífico esbarra nos Andes, e acaba, e então há o smog.

Há muitos anos não ouvia a palavra, que, me lembro, era muito usada em referência a Londres e Los Angeles. Em São Paulo, para os dias em que a poluição fica pior, se usa a expressão inversão térmica. Mary, que sempre se cobra quando percebe que ainda não sabia determinada coisa, se cobrou por jamais ter ouvido falar que Santiago é coberta por smog – a mistura de smoke com fog, poluição e neblina.

O smog fica pior no inverno, porque no inverno a neblina é mais densa, mas ele cobre Santiago sempre, o ano inteiro.

A camada de resíduos poluentes forma como um tapete espesso no céu, um tapetão cinza escuro, conforme bem mostra o clichê acima, tomado no Cerro San Cristóbal. (Claro que não se trata de um clichê, mas a vida inteira quis fazer uma legenda de foto como as que se faziam no passado distante, sempre começando com “no clichê acima”, e então aproveitei.)

Quando se sobe ao Cerro Santa Lucia, um morro encravado na área central, junto do barrio Lastarria, e quando se vai até o cume do Cerro San Cristóbal, o da Immaculada Concepción, muitíssimo mais alto (o primeiro seria assim uma espécie de Morro da Urca para o Rio de Janeiro, e o segundo, assim como o Corcovado), se vê mais o smog do que propriamente a cidade. Vê-se a cidade, sim, é claro – e os dois passeios aos cerros, o Santa Lucia e o San Cristóbal, são absolutamente obrigatórios, em qualquer época do ano –, mas vê-se a cidade através do smog.

Do cume do San Cristóbal, aos pés da estátua da Virgem que foi abençoada pelo Papa João Paulo II em sua viagem ao Chile em 1987, tem-se uma visão deslumbrante de Santiago, a imensidão a perder de vista (a cidade que não tem mais fim, não tem mais fim, como na canção), a planura, as grandes, largas, amplas avenidas, os gigantescos prédios mais novos, os prédios mais antigos – mas vê-se tudo através do smog.

Lá do alto, tem-se também uma visão de tirar o fôlego da cordilheira, a Leste. O topo da cordilheira, coberto de neve, está acima do tapete de ar sujo. Entre o topo da cordilheira e a cidade que não tem mais fim aos pés dela fica aquela interminável mancha cinza.

Pegamos chuva na quarta-feira, chuva ruim para os turistas, abençoada para a cidade, porque limpia el aire – mas no mesmo dia o La Tercera noticiava que “condiciones de ventilación empeorarán en el fin de semana”. “Pese a que durante la tarde de hoy deberían caer precipitaciones en la capital, la lluvia no será suficiente para mejorar las condiciones de ventilación de la cuenca”, informava o jornal. Tanto os jornais de papel quanto os da TV falavam muito das doenças respiratórias, dos problemas causados pelas condições do ar.

É um problema sério, grave, este, da falta de ventilação na cidade, da qualidade ruim do ar. As autoridades fazem o possível para diminuir seus efeitos: o rodízio de carros é rígido – a cada dia se proíbe a circulação de veículos com quatro diferentes finais de placa -, e há diversas outras medidas para tentar reduzir a poluição. Pode-se amenizar um pouco o problema, mas solução de fato não há – são as condições geográficas e climáticas que o criam.

Santiago paga um preço alto por estar aos pés da beleza extraordinária da cordilheira.

Há dias em que a neblina rouba a cordilheira

E às vezes a cordilheira some.

Os Andes estavam deslumbrantes nos três primeiros dias da nossa viagem, do sábado, 25 de junho, até a segunda, 27. Na terça, 28, e na quarta, 29, o dia da chuva, era como se tivessem roubado a cordilheira. A neblina espessa simplesmente impede que se vejam aquelas montanhas colossais.

Pensávamos muito em Fernanda e Carlos, que estiveram em Santiago algumas semanas antes de nós, e pegaram todos os dias de muita neblina. (A rigor, foi o fato de ter ouvido minha filha falar da viagem dela, contar de quanto tinha gostado de Santiago, que me fez admitir a possibilidade de fazer a viagem. Há muito Mary sugeria que fôssemos; tinha muita vontade de conhecer o Chile, e sabe bem da minha admiração pelo país, por sua história, sua música, pela cidade, que visitei numa outra encadernação, quando tinha apenas 23 anos, e volta e meia acenava com a possibilidade – afinal, não é tão longe, são só quatro horas. O problema é que Mary tem rodinhas nos pés, e eu tenho nos pés bolas de ferro de prisioneiro medieval, uma imobilidade que se aproxima da agorafobia. Mas fazia tanto tempo que não dava a Mary o prazer de viajar com ela que, quando Fernanda contou sobre a viagem dela ao Chile, admiti fazer o sacrifício.)

Fernanda e Carlos não tiveram tanta sorte, não viram a cordilheira como Mary e eu vimos. Mas Fernanda é jovem, vai certamente voltar. Mary também é jovem – durante a viagem, falamos muito em planos de ela voltar com a mãe, outro ser dotado de rodinhas nos pés.

Depois de sumir por dois dias e meio, a cordilheira reapareceu, e pudemos vê-la do alto do Cerro San Cristóbal, das margens do Mapocho, do Museu de las Esculturas, da Apoquindo, e depois, no último dia, do lugar mais próximo a ela a que chegamos, Los Dominicos, onde ficam a estação de mesmo nome (a mais oriental da linha 1, a vermelha, do Metro), a igreja colonial dos dominicanos, linda, e o Pueblito (na foto, um trechinho dele), uma reconstituição de um típico povoado chileno do século XIX, com ruelinhas e pracinhas e casinhas, um gelado córrego no meio com água vinda da nascente ali perto na cordilheira; ali funcionam 150 lojas de artesanato.

O Pueblito Los Dominicos, construído nos anos 70 junto da igreja dos dominicanos, é lindo, fascinante, e seguramente deixa encantados todas os brasileiros que o visitam (havia muitos brasileiros enquanto estávamos lá), não só pela beleza, e pela proximidade da cordilheira, mas também porque tem todo tipo de lembrancinha ou lembrançona que pode ser trazido de volta para os amigos e parentes. Adorei ter ido até lá, ter andado nas ruazinhas, mas já estava na angústia pré-aeroporto, só tínhamos na carteira os pesos contados para o táxi do hotel até o aeroporto, e nosso instinto comprador, de qualquer forma, estava fechado, e assim não compramos absolutamente nada de nenhuma das 150 lojas.

E, na nossa última viagem de Metro, de Los Dominicos até Manquehue (em que aproveitei para fotografar uns painéis publicitários de meias de mulher, que desde o primeiro dia me fascinaram pela forte, explícita sensualidade), houve uma coincidência sensacional: nossa tarjeta Bip – o equivalente ao Bilhete Único do Metrô paulistano – zerou. Não sobraram sequer dez pesos, não faltaram dez pesos: zerou. Um acaso fortuito, porque as tarifas do Metro são variáveis, mais caras nas horas de rush, mais baratas à noite. Na próxima ida a Santiago, Mary poderá usar a nossa tarjeta Bip, sem precisar pagar pelo custo de uma nova, que é de 1.300 pesos.

Há uma formulazinha que ajuda a entender quantos pesos equivalem a tantos reais

1.300 pesos, aliás, é uma merreca. Atualmente, há uma conta simples a se fazer para entender os preços chilenos. Multiplica-se cada 1 mil pesos por quatro, e dá, mais ou menos, o equivalente em reais. Assim: 10 mil pesos (o preço médio de um CD, ou de um prato em restaurante razoável ou bom) são R$ 40,00. Uma corrida curta de táxi de 2 mil pesos significa R$ 8,00.

Ou então, para fazer a conversão por dólar, basta multiplicar 1 mil pesos por 2. Um DVD de 12 mil pesos, assim, dá mais ou menos US$ 24,00. Ou R$ 48,00. Um bom guia-livro turístico de Santiago, que custa 6 mil pesos, dá cerca de US$ 12,00, ou R$ 24,00.

Câmbio sempre me deixa zonzo. Não me entra pela cabeça, não consigo compreender – jamais consegui, em época alguma.

Mas me lembro bem que, quando Guiminha e eu estivemos uns três ou quatro dias em Santiago, no final de fevereiro de 1973, na época do encerramento da campanha eleitoral para parte do Senado e para eleições municipais – as últimas que seriam realizadas no Chile antes do golpe militar de 11 de setembro que derrubou o governo socialista do presidente Salvador Allende –, a situação da moeda era completamente caótica. Havia um valor no câmbio oficial, e outro absoluta, totalmente diferente no câmbio negro. “Distribuir riqueza não é fácil”, nos disse um venerando jornalista mineiro que visitamos, e que estava exilado no Chile então democrático – não consigo me lembrar o nome dele, sujeito admirável, imensa figura. Seria José Maria Rabelo? Pode ser. Vou pedir a ajuda do Guiminha, talvez ele se lembre.

Esta é a segunda vez em que me refiro aqui àquela minha primeira visita a Santiago, em 1973. Lá no início do texto falei que esta agora foi minha primeira/segunda viagem ao Chile. É a segunda porque a rigor houve a primeira, aquela de uns poucos dias – viajamos no Fusca do Guiminha de São Paulo até Porto Alegre, depois Rio Grande, onde assistimos ao casamento do Fruet e da Vera, depois Montevidéu, depois Buenos Aires. Aí, embora não tivéssemos lá grande salário no Jornal da Tarde, jovens que éramos, sobrou um dinheirinho, e Guima, Esdra Guimarães do Carmo, grande, querida figura, teve a idéia de darmos um pulinho ao país de Allende.

Esta viagem agora foi de uma certa forma a primeira porque aquela lá, de 1973, foi muito curta, eu era jovem demais, aconteceu de fato numa outra encadernação.

Quero falar um pouco de política, do Chile de Allende e do Chile de hoje, das impressões do Sérgio Vaz comunista de 1973 e do Sérgio Vaz anti-comunista, anti-Estado onipotente de 2011, da movimentação dos estudantes de agora, do que dizem os jornais chilenos hoje do governo de direita de Sebastian Piñera, mas não cabe neste texto aqui. Será, se for para ser, num segundo texto, se eu conseguir, tiver fôlego para fazê-lo.

Bem no coração do Centro, o Palácio La Moneda

No Rio de Janeiro, até lá pelos anos 70, antes de inventarem essa coisa de Barra da Tijuca, a distinção era clara: a Zona Norte era a pobre, a Zona Sul era a rica. Em Santiago, a divisão se dá não de Norte para Sul, mas de Leste para Oeste

Os bairros ricos e novos ficam a Leste da área central: é a parte da cidade que os turistas ficam conhecendo. Os mapas turísticos são retangulares, horizontais, e pegam Santiago de um pouquinho a Oeste do Centro para Leste. Os mapinhas mais comuns, que se distribuem nos hotéis, cortam fora tudo o que está a Oeste da Estación Los Heroes da linha 1, a vermelha, a Leste-Oeste deles.

Los Heroes é a primeira do lado esquerdo nos mapas, a Oeste, portanto, da Estación La Moneda – a que dá nas costas do palácio presidencial de La Moneda, o palácio que foi atacado e bombardeado em 11 de setembro de 1973, onde estava Salvador Allende e onde ele morreu. A Estación La Moneda, assim como diversas outras da linha 1, vermelha, fica sob a Alameda, a via principal, a mais larga do Centro – mas nos mapas não há uma Alameda.

O nome oficial da Alameda é Avenida Libertador Bernardo O’Higgins, em homenagem ao político e militar que é tido como o pai da pátria, personagem fundamental na luta pela independência do Chile e primeiro chefe de Estado da então recém-implantada República de Chile, entre 1817 e 1823.

E aqui reconheço que, de tanta informação, o texto ficou confuso, ininteligível.

O fundamental é que a Alameda, ou Avenida Libertador Bernardo O’Higgins, é a principal via do Centro, correndo no sentido Leste-Oeste. Sob ela passa a linha 1, a vermelha, do Metro.

Da Estación La Moneda se sai para a Alameda, bem atrás do Palácio La Moneda. Sob o amplo espaço entre a Alameda e o Palácio, no subsolo, se construiu, já na pós-ditadura, sob a presidência de Ricardo Lagos, o Centro Cultural Palacio La Moneda. Uma maravilha. Tem lá, entre outras coisas, uma cafeteria, uma sala dedicada à memória de Violeta Parra (aqui me pongo a cantar las Violetas Populares, cantava Amelita Baltar), uma livraria, a cinemateca nacional, lojas, amplíssimo espaço para exposições temporárias, o escambau. Do outro lado do Palácio fica a Plaza de la Constituición, de onde se vê a fachada do La Moneda, a fachada que pegou fogo, bombardeada pelos carabineros e pela Força Aérea no dia do golpe (a fachada está na foto acima, a única que está neste post que não foi feita por Mary ou por mim).

É impossível andar por qualquer praça de Santiago sem lembrar da canção emocionante de Pablo Milanés, composta durante a ditadura: Yo pisaré las calles nuevamente / de lo que fue Santiago ensangrentada, / y en una hermosa plaza liberada / me detendré a llorar por los ausentes. (…) Un niño jugará en una alameda / y cantará con sus amigos nuevos, / y ese canto será el canto del suelo / a una vida segada en La Moneda.

Mas ali, na Plaza de la Constituición, entre Teatrinos e Morande, entre Agustinas e Moneda, de frente para a fachada do palácio, onde a vida de Allende foi segada, a lembrança da canção faz doer.

Num canto da praça, próximo do belo prédio da Intendência, junto da esquina de Morande com Moneda (na foto abaixo), há hoje uma estátua de Allende.

Um turista babaca seguro demais – e lá veio o lanceiro

Não temos as muitas fotos que fizemos no primeiro dia da viagem, o sábado, 25 de junho, da Plaza de la Constituición, da fachada do La Moneda, da estátua de Allende, do Centro Cultural Palacio La Moneda, e também da Catedral, da Plaza de Armas, do Mercado Central. Guardamos apenas umas poucas feitas por Mary no iPhone. Minha máquina foi roubada diante do Mercado, na ponte de pedestres sobre o Mapocho, na região da Estación Puente Cal y Canto da linha amarela.

Foi besteira minha. Completa besteira minha. Mea culpa, mea maxima culpa.

Me sentia seguro demais. A cidade transmite segurança. Os guias falam para ter cuidado com o pickpocket, o furto de carteira, como em qualquer lugar do mundo. E então eu me sentia seguro demais, tranquilíssimo. Milhares e milhares de pessoas na região central naquele sábado à tarde, tudo calmo, pacífico. A ponte para pedestres sobre o Mapocho é apinhada de vendedores ambulantes, camelôs. Lá bem atrás, ao fundo, o Mapocho na frente, estavam as cordilheiras. Saquei da bolsinha a Cyber-shot Sony que Fernanda e Carlos tinham me dado de presente de aniversário alguns anos atrás, e nem tomei o cuidado de botar a alça da máquina no pulso, braço adentro. Botei a máquina na minha frente, uns 30 centímetros adiante do meu nariz de turista imbecil, e me preparei para fotografar o Mapocho em primeiro plano e a cordilheira lá atrás.

Algumas cenas da vida passam em câmara lenta. Juro que tinha notado um sujeito à minha direita olhando para o casal de turistas. Até passei para a esquerda da Mary para fazer a foto histórica do Mapocho com a cordilheira atrás. E aí – zás.

Vi o camarada dar um primeiro pique rumo ao Norte. Vi ele olhar para trás, para ver se eu estaria correndo atrás dele. Vi ele dar uma segunda olhada para trás, antes de desaparecer no meio do povaréu. Não me mexi. Vi as expressões de dois dos ambulantes que vendiam suas coisas na ponte – Mary também viu. Expressões assim de tsc, tsc – uma tristeza daquelas pessoas humildes ao ver um marginal roubar turistas, coisa ruim para eles, que estão ali trabalhando, vendendo suas tralhas, ganhando honestamente seu pouco dinheiro.

Num milésimo de segundo, compreendi que tinha dado touca, tinha feito besteira, tinha dado sopa pro azar.

Mary tentaria argumentar que não teria adiantado eu ter botado a alça no pulso – teria sido pior, eu poderia ter me machucado.

Mary depois diria, com toda razão, que bom é quando nossa máquina fotográfica é roubada no primeiro dia de viagem. Tem toda razão. Mary tem razão mais ou menos em 99% das vezes.

Algumas horas depois, estávamos numa Paris, uma das grandes lojas de departamento do Chile, na Alameda, vendo os preços de máquinas fotográficas. Mary quase comprou uma. Eu disse pra gente pensar mais um pouco.

Compraríamos uma bela máquina no dia seguinte, num shopping da Apoquindo, perto do hotel. Uma bela Canonzinha, uma  compra acertada. Com ela faríamos boas fotos, ao longo dos seis dias seguintes.

Bom é quando nossa máquina fotográfica é roubada no primeiro dia de viagem.

Paris, os Parra, o Père Lachaise, Santiago – coincidências, coincidências

Num milésimo de segundo após o roubo, na ponte para pedestres sobre o Mapocho, me lembrei do momento em que fui roubado em Paris. Lá foram dois caras: o metrô estava para sair da estação, eu estava de pé junto de uma das portas do vagão; um sujeito segurou meus pés, o outro enfiou a mão no bolso de trás da minha calça jeans e levou a carteira. A ação durou menos de dois segundos. Nos milésimos de segundo de tontura após a coisa, me diverti pensando que os dois malandros franceses iriam ficar putos da vida: a carteira tinha pouquíssimos euros e alguns reais guardados para o táxi de Cumbica até em casa.

Fantástico: fui roubado em Paris no metrô quando voltávamos de um show de Isabel e Angel Parra, num arrondissement bem distante, muito para lá do cemitério de Père Lachaise.

No filme italiano que vimos em Santiago de Chile, o Chile dos Parra, o marido da protagonista, um apaixonado por Jim Morrison, lê sobre o cemitério de Père Lachaise, onde Jim Morrison está enterrado.

Algumas horas após o roubo na ponte sobre o Mapocho, entraríamos numa das lojas da Paris para ver os preços de máquinas fotográficas.

Paris, os Parra, Père Lachaise, Santiago. Quanta coincidência.

Nas metrópoles há pickpockets.

Passear por Santiago é tão seguro quanto passear em Paris. Eventualmente, se você der sopa para o azar, podem roubar alguma coisa de você. Normal, normal: não tem problema algum.

As ruas de Santiago têm o som da música chilena

Na única vez em que estive em Paris, e em que vi apenas dois shows, um de Georges Moustaki no legendário Olympia e outro dos irmãos Isabel e Angel Parra num bairro muito, muito distante, pude constatar que as ruas de Paris têm o som que sempre havia imaginado que Paris teria.

As ruas de Santiago têm o som da música chilena, que aprendi a amar quando tinha 20 e poucos anos, a rigor, a rigor, numa outra encadernação, anterior à atual.

É doido ouvir, na Plaza de Armas, um conjunto de dez jovens instrumentistas executarem o Canon de Pachelbel. Mas é de chorar, é realmente de chorar quando a gente passa diante de um bar fumador no Patio Bellavista e ouve dois instrumentistas tocando uma canção do Inti-Illimani, ou quando, na estação do funicular do Cerro San Cristóbal, um velhinho violeiro toca uma canção de Violeta, ou ainda quando, nas escadarias de uma das quatro saídas da Estación Manquehue, um solitário violonista toca outra música ainda do Inti-Illimani.

Sempre me impressionou muito o fato de que, em Buenos Aires, o lugar onde se criou o tango, uma música que se espalhou para todo o mundo, e encantou e encanta todo o mundo, da Europa Oriental a Hong Kong, passando por the U. S. of A., só se ouve tango em lugar para turista. Como se os porteños, metidos a besta como em geral são, considerassem o tango uma coisa brega. Como se tivessem vergonha do tango, como se não tivessem a capacidade de perceber que o tango foi a melhor coisa que a Argentina jamais produziu.

Em Santiago, muito ao contrário, ouve-se nas ruas o som das canções chilenas. Das canções folclóricas originais, que Violeta resgatou, que a nueva canción chilena do finalzinho dos anos 60 e início dos 70 reverenciou. Passadas a utopia e a euforia da Unidad Popular, passado o golpe, os longos, intermináveis anos da ditadura sangrenta, passados os governos da Concertación, o som da nueva canción chilena continua nas ruas de Santiago.

Meu comprador estava de fato fechado, e então comprei muito pouca coisa. Uma beleza de livro sobre Violeta, dois discos com gravações dela mesma, um de Isabel, dois de Inti-Illimani, um de tributo a Victor Jara. Do próprio Victor Jara, nem procurei: com o que eu mesmo sempre tive, e mais o que Geraldo e Eneida já haviam me trazido de uma viagem deles a Santiago, acho que tenho praticamente tudo do grande compositor.

(E achei ainda, na loja do Museo de los Derechos Humanos, um CD não oficial (para não dizer pirata) com a gravação ao vivo do show de Joan Baez no Auditório Santa Gemita, em Santiago, em 1981; foi na mesma passagem de Joan Baez pela América Latina em que a ditadura brasileira não permitiu que ela cantasse no Tuca. O regime sangrento de Pinochet permitiu que ela se apresentasse no Chile; os milicos brasileiros, já na fase da abertura, proibiram. Cada coisa.)

Não me aventurei pelos músicos chilenos mais jovens, porque sou imbecil e porque estava de comprador fechado, mas vi que nos tributos há pelo menos uma faixa de Francisca Valenzuela, garota jovem, cantora e pianista, que aparece na TV hoje. Talvez encomende discos dela a Mary, para que me traga na próxima viagem dela ao Chile.

Sim, e é preciso também dizer, dentro do item música, que esqueceram de avisar para Santiago e os santiaguinos, assim como para Porto Alegre, que o CD acabou. Ao contrário do que acontece em São Paulo, em que as lojas de disco estão acabando, há um monte delas em Santiago. Um monte. Seriam desinformados, eles? Alheios ao mundo? O subitem loja de discos reaparece mais adiante.

Um passeio por um bairro que não está nos mapas dos turistas

É coisa demais para dizer, e me perdi um pouco, ou talvez bastante. Eu dizia, lá atrás, que os mapas turísticos mostram o lado Leste de Santiago, e não mostram o que há a Oeste do Centro. Pois é.

Tudo o que fica a Oeste da Estación Los Heroes não aparece nos mapas turísticos. Parece que isso se deve, ao menos em parte, ao fato de que, algumas décadas atrás, construíram a Norte-Sur, uma via expressa fenomenal para os carros, e mortal para os seres humanos. A linha amarela do Metro, que faz a rota Norte-Sul, em um bom trecho corre junto da via expressa. Muito legal – só que cortou a cidade. Ruas centrais no sentido Leste-Oeste, como Huerfanos, Agustinas, Moneda, prosseguem rumo ao Oeste – mas mudam completamente de feição a Oeste do corte provocado pela autopista Norte-Sur. Ficam mais abandonadas, mais pobres.

Fomos parar lá só porque Mary, especialista em viagens, em turismo, em mapas, em guias, viu que havia referências ao barrio Brazil, à Plaza Brasil, e Concha y Toro (na foto acima).

É difícil achar a tal da Concha y Toro, especialmente quando se vai lá um dia depois de ter sua máquina fotográfica roubada.

Diz sobre Concha y Toro o guia que Fernanda nos emprestou, um guiazinha meio chinfrim, editado pela Abril, na Coleção Viagem de Bolso (é muito difícil achar guias sobre Santiago no Brasil, e mesmo na própria Santiago): “Um conjunto de sobrados de fachadas neoclássicas e góticas, dispostos ao redor de uma charmosa pracinha. Declarado monumento histórico nacional em 1989, o bairro começou com um palácio mourisco de 3.500 metros quadrados, morada de Enrique Concha y Toro, irmão caçula de Don Melchor, o fundador da famosa vinícola.”

É de fato charmosíssimo esse pequeno lugar, Concha y Toro, com ruelinhas redondas numa cidade que é toda feita de quadrados, como tabuleiros de dama. Nas ruelinhas redondas há um monte de casas construídas no início do século XX, lindas, muitas precisando de um pintura, recuperação. Mas é difícil chegar até lá; não há indicações, setas, mapas. E, numa segunda-feira feriado (San Pedro y San Pablo para eles é feriado nacional), com todo o comércio fechado, o lugar fica estranho, vazio.

Parece que o Oeste é lugar de se viver; lá vivem os santiaguinos classe média média. Não é lugar para turistas.

A Plaza Brasil (na foto, os brinquedos infantis no meio dela), a cerca de, sei lá, cinco, seis quadras da Concha y Toro, é uma comprovação disso. Felizmente não há brasileiros ali, apesar do nome; só se ouve o espanhol chileno, famílias de classe média média com suas crianças, grupos de jovens, namorados. Fernando Henrique esteve lá, quando era presidente, conforme informa uma placa, e, num canto da praça, inaugurou uma homenagem a Vinicius de Moraes.

Uma das ruas que rodeiam, que formam a Plaza Brasil, chama-se Maturana. A Calle Maturana começa bem perto da Concha y Toro. Demorou muito para cair a ficha para nós que Calle Maturana é uma coisa, e Avenida Matucana é outra. Maturana, Matucana – e ainda por cima paralelas, na mesma região. Parecidas as palavras, diferentíssimos os endereços.

A Maturana é uma ruazinha. A Matucana é uma avenida imponente, que faz um dos limites do imenso Parque Quinta Normal, e que agora abriga o recente Museo de la Memoria y los Derechos Humanos, inaugurado por Michelle Bachelet, que foi presidente entre 2006 e 2010.

E esse foi o máximo de Oeste a que fomos. Não tivemos tempo de ir mais a Oeste, nem mais a Sul; assim, não botamos os pés em Nuñoa, o bairro que fica ao Sul da Plaza Italia e que, dizem, é onde os modismos ainda não chegaram – é o bairro anti-turistas, o bairro que se mantém fiel ao estilo de vida original dos santiaguinos.

É em Nuñoa que fica o Estádio Nacional, onde o golpe militar prendeu dezenas de milhares de pessoas, onde Victor Jara escreveu suas últimas palavras, antes que os milicos cortassem suas mãos.

As últimas palavras que Victor Jara escreveu – e que Pete Seeger recita num disco dele ao vivo gravado pouco depois de 1973 – estão inscritas num imenso mural no lado de fora do Museo de la Memoria. Mas o tema história, política, isso é para um outro texto.

Paris-Londres, um pequeno oásias de ruas redondas no traçado de quadrados

Bem perto do La Moneda, e portanto do centro do Centro, junto da Alameda, fica um pequenino bairro que, como Concha y Toro, é diferente de todo o resto da cidade de traçado de quadras, de quadrados, à la tabuleiro de xadrez, por ter ruelinhas estreitas e em curva, redondas, onde há belas e antigas construções provavelmente aí dos ano 1930, 1940 – sobrados, ou então de três andares apenas. É onde se cruzam as Calles Londres e Paris. Há ali simpáticos hotéis pequenos, alguns restaurantes e bares, a sede do Partido Socialista que já foi de Allende e é da ex-presidente Michelle Bachelet, a sede de vários sindicatos, e muitos estudantes. Fica bem perto da Universidad de Chile e da Universidad Catolica.

Como é mais central, e não ficou do outro lado da autopista Norte-Sur, esse bairrozinho Paris-Londres tem muito mais vida que Concha y Toro, e os prédios estão muito mais bem cuidados. Gracinha de lugar. Em uma das calçadas, escreveram-se nas pedras os nomes de alguns dos muitos mortos pela ditadura. Chegamos lá já no finalzinho da tarde, mas deu para Mary fazer algumas fotos. (O Héctor da foto abaixo,  como se vê, tinha 18 anos, e era do MIR, o Movimiento de Izquierda Revolucionaria, grupo radical que apoiava a Unidad Popular, a grande aliança que elegeu Salvador Allende.)

Mas a verdade é que são belos os bairros onde ficam os turistas

Então, a região Leste é o pedaço que os turistas visitam, onde se hospedam, passeiam, comem, fazem compras. É o trecho onde vive boa parte da classe média mais para alta.

Parece que o avanço de Santiago rumo ao Leste, o lado da cordilheira, se deu a partir dos anos 1950. Para lá foram sendo criados os novos bairros, as novas comunas, ao longo da continuação da Alameda – as Avenidas Providência e 11 de Septiembre, que depois viram Apoquindo.

Na região Leste, o Mapocho, ao Norte desse corredor Providência-11 de Septiembre-Apoquindo, é cercado por parques, belos parques que fazem lembrar Paris.

São regiões belíssimas de se ver, de se percorrer. As avenidas são extremamente amplas, agradáveis, as ruas são belas, há muito comércio, diversificadíssimo, e em todo lugar há milhares e milhares de pessoas andando, caminhando, rindo, conversando, namorando – uma maravilhosa cidade que oferece mil opções para todos.

Num trechinho da Nueva de Lyon, por exemplo, depois do passeio pelo Museo de las Esculturas, um museu ao ar livre, entre árvores, à beira do Mapocho, tão recente que sequer o motorista de táxi conhecia (e ele era honesto, dos bons), demos de cara com uma baita, mas uma baita de uma loja de discos especializada em rock e seus subgêneros. Na vitrine frontal, na entrada, havia mais LPs do que DVDs ou CDs – LPs desses novos, esses de não sei quantos gramas, que até o Fábio De Domenico considera frescura, tudo caríssimo. Os recentíssimos relançamentos de Paul McCartney, sobre os quais tinha lido poucas semanas atrás, estavam todos lá. A seção de indies era de fazer inveja a uma loja da Virgin em Londres; havia muita coisa da décima quarta geração do pós punk inglês, mas, em compensação, não havia um único disco de música chilena próxima do tradicional; em espanhol, só rock bravo. Quem pedir um Victor Jara nessa loja corre o risco de levar porrada.

Entre a linha quase reta desse corredor Providência-11 de Septiembre-Apoquindo, com a linha 1, vermelha, do Metro por baixo, e o Mapocho ao Norte, há o que parece ser a região mais rica, fina e chique do comércio de Santiago. Esse trecho aí inclui uma trolha gigantesca, o que se promete ser o edifício mais alto da América do Sul, ainda em construção, e também a região das lojas chiques, de grife, as Louis Vitton da vida, nas Avenidas Vitacura e Alonso de Córdova. Não botamos os pés lá. Tudo bem que a gente não foi a Nuñoa porque faltou tempo – mas mesmo se tivéssemos tempo de sobra jamais iríamos ficar passeando pelas Oscar Freire de Santiago. Somos turistas, mas não somos bestas.

O mais perto que chegamos dessa parte da cidade, da região de Vitacura, foi quando fomos jantar no Nolita, na Avenida Isadora Goyenechea. Lugar bom, fino sem ser fresco, bonito, elegante sem ser veado, boa comida, ainda mais para quem pouco antes havia caído no conto do vigário do Astrid y Gastón.

Na saída do Nolita, no entanto, rara vez em que não usamos o Metro, fomos roubados pela segunda vez. Foi o golpe do motorista de táxi esperto. O prejuízo foi menor do que no roubo na área mais popular, que nos levou a Sony Cyber Shot. Foi de exatos 13 mil pesos – R$ 52,00, pelas contas simplificadas. Para o bolso, coisa de pouca monta. Para meu orgulho, meus brios, golpe pesado. Me senti um perfeito idiota. Mary tentou me consolar: o que a gente poderia fazer? Se reagíssemos, poderia haver violência. Consola um pouco, mas não resolve. Fui um perfeito idiota duas vezes, em Santiago: me expus a ter uns cobres roubados, e eles se aproveitaram, o ladrãozinho da área central e o ladrãozinho da região mais rica.

“El rio que yo más quiero”

Por mais que eu queira continuar este texto, indefinidamente – assim como Mary queria continuar em Santiago, falando brincando mas na verdade muito a sério em alugar um apartamento, ali em Lasturrias, perto do Bellas Artes, do Parque Florestal, do Mapocho, em alguma coisa mais bela, mais feliz que este desgraçado país tomado de assalto pelo lulo-petismo-peemedebismo –, em alguma hora é preciso acabar.

Como diz a canção do grupo Rumo, em alguma hora tem que acabar.

Encaminho o fim do texto para o Mapocho, que está aí na foto – a calha gigantesca para a quantidade de água do inverno. (À direita está o Cerro San Cristóbal.)

Mary brincou com o Mapocho, riu do Mapocho. Corguinho de merda, disse ela, em mineirês autêntico. Filetinho d’água de merda, espécie de Arrudas.

(Ninguém é obrigado a saber, mas o Ribeirão Arrudas é o filete de água que atravessa Belo Horizonte. Quando chove, arrasa, destrói. Quando não chove – e, na imensa maior parte do tempo, não chove em Belo Horizonte –, o Arrudas é isso mesmo, um corguinho de merda.)

Não era uma ofensa, uma assertiva brava. Mary é sempre bem-humorada, brincalhona, frasista.

O Mapocho foi provavelmente a única coisa de Santiago da qual ela poderia rir, que ela poderia gozar.

Ao longo de uma semana de viagem, Mary comentou umas trocentas vezes que é de dar vergonha comparar São Paulo a Santiago, o Chile ao Brasil.

Então acho que não sobrou nada que ela pudesse condenar, criticar – ainda que brincalhonamente – a não ser o Mapocho.

Corrguinho de merda, dizia e repetia ela.

O Mapocho que vimos neste mês de junho, início de julho, é de fato uma coisa pequena dentro de uma calha imensa.

No passado, nas épocas do degelo da cordilheira, onde ele nasce, o Mapocho crescia tanto que assustava a cidade. Mesmo depois que abriram e aprofundaram sua calha, no degelo ele chegava a subir tanto que batia nas pontes.

Hoje em dia isso não acontece mais. Parece que fizeram espécies de piscinões para reter a água que vem da cordilheira, para que aquilo tudo a) não se perdesse, fosse aproveitado para o abastecimento; e b) não fosse embora toda no leito do rio, ameaçando a cidade.

Eu, euzinho (e Mary também, se for falar a sério), eu tenho o maior respeito pelo rio – riacho, arroio, creek, córrego, corguinho, seja lá o que for – Mapocho.

Lembro da canção belíssima: “El rio que yo más quiero…”

Santiago trata seu rio com imenso respeito. Como Paris faz com o Sena, como Londres faz com o Tâmisa. Ao contrário do que São Paulo faz com o rio dela.

Santiago trata seu rio e seus cidadãos com muito mais respeito do que São Paulo trata os dela.

O Mapocho cruza uma cidade que me faz ter vergonha da minha.

Santiago e São Paulo, junho e julho de 2011

 

13 Comentários para “Santiago de Chile”

  1. Bravo, SV Um, fiquei com inveja de vocês flanando e anotando tudo pelas ruas e por interiores de Santiago. Eu estive lá,no início do 21, mas uma enxaqueca brava me atacou impiedosamente, prendendo-me no hotel a maior parte do tempo da minha estadia. Cosas de la vida.

  2. Caro Sérgio, eu só espreitei, venho aqui noutra altura porque merece ser lido nas calmas.

  3. Servaz, fiquei com os pés doendo ao ler o texto, mas valeu a pena. Foi um agradável passeio, temperado por suas idiossincrasias sinceras (sobrou até para o argentinos). Levei um susto qundo li que vocês esteve lá em outra encarnação. Depois fixei melhor a vista e li encadernação. Adorei o “clichê acima”, boa sscada. Então, você deu a Mary o prazer de sua companhia… Esses chilenos não estão com nada. Precisam chamar um ministro brasileiro para resolver o problema da ventilação de Santiago. Um túnel sob os Andes, que também poderia agilizar as viagens para o litoral. Será que eles ouviram falar no Nascimento e na Odebrecht?

  4. Depois melhorei a solução para livrar Santiago da poluição. Não só um túnel, mas várias perfurações sob os Andes, de modo a permitir a passagem dos ventos marítimos. O Piñera podia pedir ajuda da Dilma, ela podia mandar o Nascimento e seu staf, que estão desempregados mesmo, para comandar o Perfurando A Cordilheira, PAC.
    Já imaginou não uma montanha, mas uma cordilheira de dinheiro?

  5. Gostei muito de todo o seu relato a respeito da vida de um turista em Santiago do Chile. Só não consegui entender como foi a forma utilizada pelo ladrão, para subtrair sua máquina fotográfica! não ficou esclarecido se foi tirada do bolço, do pulso ou se foi tomada na hora em que estava fotografando. Só sabemos que pessoas ficaram olhando com muita tristeza o Sr. sendo roubado. por favor da proxima vez esclareça melhor, para que possamos tomar as nossas precauções quando for-mos ao Chile.

  6. Caro Edinaldo,
    Agradeço muito pela sua mensagem.
    Mas não compreendi seu pedido para que eu esclarecesse melhor como foi o roubo, onde estava a máquina fotográfica na hora do roubo. A descrição de como foi está lá no texto, pormenorizada.
    Um abraço.
    Sérgio

  7. Que orgulho me deu da cidade em que nasci. Entretanto não a conheço tão a fundo assim! Depois desse texto tive uma vontade enorme de ir e ficar…

  8. Sergio, adorei ler suas impressões sobre Santiago. Foram úteis para me atualizar, mas acima de tudo vejo como é bom ver uma Santiago desprovida de tanto conflito político como quando vivi lá. Santiago sempre foi bela, sempre muito próxima das boas cidades europeias, seja pelo bem ou não. Mas, é inegável a contribuição que deram e dão para fazer uma cidade linda, cheia de vida, de misturas, de restaurantes ótimos, de gente bonita, de estudo de qualidade sempre. Estive em SAntiago apenas uma vez depois que vivi lá e já era início dos anos 80. Quero muito voltar e sua viagem intensificou esta vontade de rever lugares, amigos que ficaram por lá, rever a faculdade, passear um pouco pelo presente e passado. grande abraço, anaclara

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