Cidade Maravilhosa, Maravilhosa

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Foi uma viagem bem curtinha ao Rio de Janeiro Fevereiro e Março que continua lindo, mas deu para confirmar que o verso escrito pelo Gil em 1969 vale sempre – e para conhecer dois lugares até aqui inéditos para nós: o Parque Dois Irmãos e o Bairro Peixoto. 

Bem, a rigor, três, se contarmos a Timóteo da Costa, uma rua que só poderia mesmo existir no Rio de Janeiro, aquela cidade apertada entre o mar e os morros. É uma rua redonda, circular – não leva até outra rua, até uma praça, nada. Você entra nela, sobe, sobe, sobe, sobe o morro. As subidas de Perdizes são fichinha perto daquela lá. E então sobe, sobe, sobe, a rua vai virando à esquerda, virando à esquerda, chega num topo, a uns, sei lá, 100, talvez 150 metros acima do nível do mar que está ali pertinho, e aí continua virando à esquerda, virando à esquerda, descendo, descendo – e cai de volta nela mesma, depois de percorrer um círculo sinuoso morro acima e morro abaixo.

2015-03 - Rio 002Na verdade, ela muda de nome: você entra nela quando ela chama Timóteo da Costa e tem duas mãos; lá no alto, nas grimpas, de repente ela fica só mão para quem veio de baixo, e passa a se chamar Sambaíba. E a Sambaíba, que é a continuação da mesma rua, desce, desce, desce e cai na própria Timóteo da Costa lá embaixo.

Só no Rio de Janeiro. Duvido que exista uma rua assim em qualquer outra cidade do mundo.

Lúcio Costa, que bolou o traçado de Brasília, jamais seria capaz de desenhar a Timóteo da Costa. Nem com a ajuda de um ácido.

A Timóteo da Costa é uma das mais conhecidas no Alto do Leblon, o nome do pedaço do Leblon que fica encarapitado no morro localizado no extremo Sul do bairro, ao Sul do canal que passa no meio da Avenida Visconde de Albuquerque (o azulzinho no mapa acima), que, por sua vez, acompanha o sopé do morro.

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Ficamos observando o traçado da Timóteo da Costa no Google Maps – e aí vimos que, ali bem pertinho, está o que aparece como “Parque Natural Municipal Penhasco Dois Irmãos – Arquiteto Sérgio Bernardes”.

O Google Maps mostra que, dentro do parque, há uma estradinha extremamente sinuosa, com mais curvas que a Estrada de Santos cantada pelo Roberto e a Rua Timóteo da Costa juntos.

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Esse parque, junto do Alto do Leblon, bem no sopé do Morro Dois Irmãos, é uma maravilha. É imperdível. Tem que ser visitado. Depois que o turista for ao Corcovado e ao Pão de Açúcar, tem que ir lá.

São três mirantes, em três alturas diferentes. O terceiro, o mais alto, fica de fato no sopé do Dois Irmãos, grudado na base do Dois Irmãos, aquela coisa deslumbrante, acachapante.

A vista do marzão aberto, das ilhas Cagarras, de Leblon-Ipanema, do Vidigal, e do Dois Irmãos acima da gente, é literalmente de tirar o fôlego. Breathtaking – para usar a palavra que é, ela mesma, de tirar o fôlego.

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Mas Mary e eu achamos que, dos três mirantes do parque, o que tem a vista mais fantástica é o primeiro, o mais baixo. Mais baixo do que os outros dois, mas alto pra cacete. Você vê o mar lá embaixo, pelo menos cem metros abaixo de você. O Mirante do Leblon, ali no início da Avenida Niemeyer, está visível como se você estivesse no topo do Empire States olhando para os pedestres lá embaixo.

O Rio é uma cidade tão maravilhosamente bela que um lugar extraordinário como esse Parque Dois Irmãos é pouco conhecido – pelos turistas e até mesmo pelos cariocas. Nós nunca tínhamos ouvido falar dele – vimos o nome pela primeira vez porque estávamos observando o mapa daquela região no Google. Mas nem mesmo o motorista de táxi que nos levou lá em cima – figura simpaticíssima, como, na verdade, todos os dez ou 12 que conhecemos nesta visita – nunca tinha entrado lá, sequer tinha ouvido falar nele.

Foram simpáticos, atenciosos, gentis também todos os guardas do parque a quem pedimos indicações.

Quando voltamos ao primeiro mirante, depois de ter subido até os outros, através da sinuosa estradinha no meio da exuberância da Mata Atlântica, dispensamos o táxi, pra poder ficar mais tempo de boca aberta, queixo caído e a câmara do iPhone clicando sem parar. Depois descemos a pé, que pra baixo todo santo ajuda – e a mata é linda.

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Mary ficou impressionadíssima (eu também, claro, mas ela mais ainda) como o parque estava bem tratado. Tudo limpo – nenhuma sujeira no chão. Grama aparada, nos locais próximos aos mirantes.

A sensação de cidade bem tratada no que é visualmente mais perceptível, mais óbvio, nos perseguiu ao longo dos cinco dias. Nada de lixo, de papel, de garrafa, de lata nas ruas. Ruas limpas, praças limpas. Grama cortada, aparada – e não alta a ponto de esconder uma capivara ou uma anta, como ali ao lado da minha casa, na Avenida Sumaré, por exemplo.

E isso assim não só na orla elegante, Delfim Moreira-Vieira Souto-Atlântica. Também nas ruas de dentro do Leblon, do Baixo, de Ipanema, de Copacabana, do Bairro Peixoto, do Flamengo, por onde andamos bastante. O Largo do Machado estava tão limpo quanto o Aterro do Flamengo em plena tarde de domingo, com milhares de pessoas andando pra lá e pra cá, curtindo o dia exato em que o Rio de Janeiro completava 450 anos – ou curtindo o domingão simplesmente, sem sequer dar bola para o dia do aniversário.

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O fato de estarmos lá exatamente no dia dos 450 anos do Rio foi pura, mera coincidência. Não pensamos nisso quando Mary marcou a viagem; ela estava já há algumas semanas planejando passar uns dias lá, para encontrar várias pessoas, fazer contatos.

A viagem era coisa dela – a rigor, a rigor, eu não tinha forte motivo para ir, e é sabido por todos que, se Mary tem asinhas nos pés, como aliás os Zaidans todos, eu, muito ao contrário, fui dotado de uma bola de ferro atada ao tornozelo, e qualquer viagem me assusta. Mas como recusar a possibilidade de ver aquela beleza de cidade, ainda que tendo que fazer esforço para carregar a bola de ferro?

Registro aqui que perdi a oportunidade de ver duas amigas muito queridas, por quem tenho grande afeto, Claudia e Fátima. Como a viagem era de Mary, e cabia a ela montar a agenda, só avisei que estava lá depois de chegar, e, assim em cima da hora, cada uma delas me respondeu, com gentileza e elegância, que tinha compromisso já marcado na segunda e terça.

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Embora estivéssemos lá no dia do aniversário, não vimos as festas pelos 450 anos. Não me animei a ir até a Quinta da Boa Vista na noite do sábado, 28 de fevereiro, onde haveria um show com apresentação de uns 15 artistas e/ou grupos, culminando com Paulinho da Viola, Gil e Caetano.

Estranhamente, não houve nada programado para Copacabana no próprio dia do aniversário, 1º de março, domingo. Até teve um treco de D.Js. no Arpoador, no princípio da noite – mas treco de D.Js. não é propriamente a nossa praia, e então passamos por lá não por causa do som, e sim pelo pôr-do-sol, o que é outro capítulo.

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A verdade é que o Rio não precisa de festa de aniversário pro povo ir pra rua: o Rio, como a Paris que Hemingway viu, é uma festa. Em São Paulo temos o Minhocão fechado aos carros aos domingos e entregue às pessoas. Os cariocas têm um pouquinho mais de sorte, de beleza e de espaço: têm todas as pistas do Aterro do Flamengo e as pistas Sul-Norte de toda a orla de Copacabana, Ipanema e Leblon.

É uma maravilha: milhares, dezenas, centenas de milhares de pessoas andando no asfalto proibido aos carros – a pé, de skate, de bicicleta, de patins. No Aterro vimos um gostoso cruzamento de charrete com bicicleta, algo como uma bicirrete, carregando pai, mãe, filhos.

Crianças de todos os tamanhos e idades lotam as ruas – e não apenas no domingão durante o dia, mas também à noite.

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Vimos e sentimos um Rio de Janeiro muito mais limpo e bem cuidado que São Paulo, e uma cidade muitíssimo menos temerosa, pânica, do que já foi no passado.

Há muito tempo eu não ia ao Rio, mas minha lembrança das últimas vezes era de uma cidade que transmitia medo, pânico. Os motoristas de táxi não paravam de dizer pra gente tomar cuidado, que o perigo de assalto era muito grande. Era uma coisa insistente, e extremamente desagradável.

2015-03 - Rio 11Não vimos nem sentimos nada disso agora. Muito ao contrário. Vimos famílias inteiras caminhando pelas ruas numa boa, de tarde, de noite, de noitão. Crianças, adolescentes, velhinhos. Sem medo, sem pânico.

Dora Kramer, que marcou encontro conosco no concorridíssimo Talho Capixaba, numa mesa do lado de fora, no passeio da Ataulfo de Paiva, contou que as pessoas estão especialmente tensas depois do caso do sequestro da médica por bandidos, ocorrido na semana anterior; ela estava no estacionamento de um shopping, foi pega por bandidos, e eles ficaram com ela durante algumas horas enquanto a obrigavam a tirar dinheiro de caixas eletrônicos.

Uma moça com quem cruzamos na Timóteo da Costa, ela descendo do táxi, nós entrando nele, também citou o sequestro da médica. E, no nosso passeio pelo Bairro Peixoto, no final da tarde de terça-feira, um camarada gritou pra gente chamando a atenção para o fato de que a bolsa da Mary estava aberta. (Na verdade estava fechada, mas a aparência era, sim, de aberta.)

Mas essas duas referências ao sequestro e esse aviso dado meio aos berros foram os únicos sinais de insegurança, de preocupação com os assaltos, a criminalidade.

2015-03 - Rio 12E ainda teve, nesse capítulo segurança, o episódio da minha bolsa.

Mary quis conhecer o Veloso, basicamente por causa do nome histórico. É um bom bar, na esquina da Aristides Espínola com San Martin. Do original, aquele de Ipanema frequentado nos anos 60 por Tom e Vinicius, de onde o Poetinha via o corpo dourado de Helô Pinheiro se encaminhando para a praia, e que mais recentemente mudou o nome para Garota de Ipanema, tem apenas o nome e diversas fotos, reproduzidas nas pilastras e nas paredes.

Mas não é só isso que são suas qualidades.

Tínhamos jantado bem cedo, em Copacabana, depois de nos encontrarmos no Bairro Peixoto, ela vindo de encontro de trabalho, eu apenas passeando. E então fomos tomar mais alguns chopes no Veloso, antes de subir o morro da Timóteo da Costa.

Tomamos vários. Estávamos numa mesa na Aristides Espínola, para 4 pessoas, e botei minha bolsa na cadeira vazia ao meu lado, do lado de dentro da mesa. Estávamos relaxados e felizes, na última noite da visita ao Rio de Janeiro Fevereiro e Março que continua lindo.

Pegamos um táxi, em dez minutos chegamos ao apartamento que um amigo nosso nos tinha emprestado, no alto da Timóteo da Costa.

2015-03 - Rio 16Cinco minutos depois de chegarmos, percebi que tinha esquecido minha bolsa. Com apenas, simplesmente, tudo: iPad, iPhone bem novo e com todas as fotos recentes, todos os documentos, cartões de banco, cartões de crédito. Tudinho.

Daí a uns 15 minutos cheguei de volta ao Veloso, e a bolsa estava lá no caixa.

O Veloso do Leblon pode não ser o herdeiro legítimo do Veloso onde Tom e Vinicius compuseram “Garota de Ipanema”, mas tem chope de boa qualidade, garçons extremamente simpáticos, e eles guardam as bolsas que os clientes um tanto bebinhos esquecem lá.

Definitivamente, o Rio de 2015 não inspira pânico. Muito ao contrário.

(A foto abaixo é de um colégio no Largo do Machado. As três fotos acima são de prédios do Flamengo.)

***

IMG_0330Detalhinho delicioso: paulistas todos, pessoas apressadas de uma maneira geral, não se dirijam a um carioca fazendo direto a pergunta que têm a fazer. Levarão uma bronca educada, mas firme.

Mary chegou perto de um ônibus e perguntou para o motorista que dormitava a que horas o ônibus sairia. Ele respondeu, sério: – “Boa tarde”. E, depois de uma pausa: “Sai daqui a dez minutos”.

Numa gigantesca Lojas Americanas da Figueiredo de Magalhães, em Copacabana, onde fomos depois do passeio no Bairro Peixoto, fiz uma pergunta direta a uma funcionária sobre um produto lá. Ela, com educação, mas firmeza, me corrigiu: “Boa noite. Ah, sobre o secador de cabelo…”

Lição que vai aqui de graça: no Rio de Janeiro, primeiro cumprimentem a pessoa, e só depois façam sua pergunta.

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Outro detalhinho, este nada delicioso: o Rio de Janeiro está caro. Tudo, quase absolutamente tudo no Rio de Janeiro é caro. Os hotéis estão mais caros que em Roma. Os preços de um hotel 3 estrelas são mais altos que um 4 estrelas em Portugal, e mesmo na França ou na Itália. (A comparação, claro, foi feita pela Mary.)

Os restaurantes e os bares são caros. Lugares bem classe média, nada frescos, nada chiques, nada sofisticados, cobram preços semelhantes a bons restaurantes de Higienópolis e Jardins – por pratos piores.

Há alguma generalização aqui, mas paciência. Foi o que vimos.

Agora, a verdade dos fatos é que o chope do Rio, de qualquer botequim do Rio, é melhor do que o de 90% dos lugares de São Paulo. Sei lá qual é o segredo, mas essa é a verdade dos fatos.

Só há duas coisas boas e bem baratas no Rio, pelo que pudemos perceber nesta visita: os táxis e La Trattoria.

Os táxis são realmente muito baratos, bem mais do que em São Paulo. E, mais ainda do que em São Paulo, são muitos – sobra táxi. Neste maravilhoso mundo novo dos aplicativos, a coisa mais fácil (e simples, e rápida, e segura) é chamar um táxi. A velha desculpa – ih, não achei táxi – caiu em absoluto desuso.

Pelo aplicativo, a demora não é maior que dez minutos. E, nas ruas, há táxis a dar com o pau.

Os taxistas são bem humorados, falam com você se você der trela, respeitam seu silêncio se você quiser ficar em silêncio – e são honestos. Não vi exemplo algum de neguinho tentar dar volta. A imensa maioria liga o Waze ou o Google Maps ou algo parecido.

Ah, sim, La Trattoria. Mary a descobriu no Google. Segundo a Veja Rio, é o restaurante de melhor relação custo-benefício da cidade. Fica na Fernando Mendes, ruazinha entre a Nossa Senhora de Copacabana e Atlântica, é bem simpática, a massa é de fabricação própria, os pratos de fato são muito baratos, fartos e bons. Para pessoas normais que tomam dois chopes por refeição, é de fato uma pechincha; para quem toma pelo menos cinco, a R$ 7,20 cada, no entanto…

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Detalhinho interessante: no Rio de Janeiro que sempre foi muito simpático à “esquerda”, não vi ninguém defendendo o PT. Motoristas de táxi, muito ao contrário, mostraram-se quase tão anti-petistas quanto eu mesmo.

Não vou abrir um capítulo sobre política, mas, mesmo sem ele, é preciso registrar que só agora, no Rio, conheci pessoalmente Elena Landau, pessoa que admiro faz muito tempo. Mary já havia se encontrado com ela algumas vezes em São Paulo, mas eu, não. Elena veio nos encontrar naquele já citado Talho Capixaba (na foto abaixo, que roubei na internet), fascinante cruzamento de café com rotisserie onde primeiro tínhamos estado com a Dora.

zzzzzztalhoDora, aliás, está ótima. Está exausta após 41 anos de jornalismo, 20 consecutivos de coluna diária, e quer mudar isso. Andam saindo notinhas nas redes dizendo que ela está sendo demitida do Estadão, e isso é mentira pura e simples: Dora pediu um tempo, precisa respirar, descansar.

Questionei Dora sobre a possibilidade de  aposentadoria, e ela disse que não pensa, de forma alguma, em parar. Expliquei que fiz a pergunta porque euzinho aposentei faz tempo e estou feliz da vida. Dora ficou curiosa por saber quando eu tinha tomado a decisão, e ficou absolutamente surpresa quando eu disse que, a partir dos 40 anos, mirei parar, e comecei a planejar a aposentadoria.

Ela não conseguia entender como isso é possível – e tentei explicar que passei 37 anos no jornalismo corrigindo, melhorando, mexendo nos textos dos outros, e que, ao cascar fora, queria me vingar dos 37 anos em que não me deixaram escrever, e que minha vingança era justamente escrever, escrever, e escrever sem parar.

Elena é uma mulher extraordinária. A inteligência dela só não é maior que sua hiperatividade. Já a admirava antes, passei a admirá-la mais depois de ter ouvido ela falar coisas fortes, corretíssimas, de extrema lógica, ao longo de uma hora.

Se tivéssemos umas 100 pessoas como Elena no PSDB, não perderíamos uma única eleição para o PT.

Ah, mas este é um texto sobre o Rio de Janeiro, e não há capítulo sobre política.

Outro encontro gostosíssimo que tivemos foi com nossa amiga Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa e o Alfredinho – um sujeito que, como eu, é absolutamente apaixonado por filmes. Maria Helena é amiga do filho único assim como sou amigo da minha filha única. Falamos sobre isso; ela perguntou sobre Marina, que acompanha via Facebook. Maria Helena nos contou boas histórias.

***

Detalhinho importante para quem está preocupadíssimo com a falta de chuvas e a escassez de água no Sudeste: as toneiras no Rio parecem ter uma pressão absurda, muitíssimo maior que as de São Paulo. Todas as do belo apartamento em que ficamos têm esse problema, e todas as toneiras que abri nos banheiros dos muitos bares e restaurantes pelos quais passamos também: você começa a abrir a torneira, bem devagarinho, e sai um jato d’água que dá medo de esvaziar a Cantareira, quer dizer, o Guandu.

Os cariocas parecem não ter se tocado de que não é só em São Paulo que a crise de água é muito séria. Ouvi alguém dizendo: “É, em São Paulo vocês estão com esse problema de falta d’água…”

Como se os reservatórios com água do Rio Paraíba do Sul estivessem cheios.

Outro detalhinho do Torneio Rio-São Paulo: no quesito metrô, estamos bem à frente.

É claro, é o óbvio ululante que São Paulo não está com essa bola toda. Quando estivemos em Santiago do Chile, aquela maravilha, me envergonhei ao comparar o metrô de São Paulo com o deles. Mesmo assim, estamos bem melhor que o Rio – tanto em termos do número de quilômetros de trilhos quanto no estado de conservação e aparência geral das estações. O metrô do Rio tem mais ou menos a mesma idade do nosso – mas, estranho, as estações parecem mais velhas, mais gastas, mais depauperadas. Não sei explicar bem por quê, mas foi o que sentimos.

Mas há muitas obras do metrô na cidade, o que é muito bom. No entanto, notamos um mau humor generalizado das pessoas com o fato de haver muitas obras. Ora bolas: não se faz metrô sem fechar ruas, encher praças de tapumes. Tão reclamando de quê, os manos cariocas?

Números, para dar precisão à coisa: Santiago do Chile, 6,3 milhões de habitantes, 94 km de metrô. São Paulo, 10 milhões e bordoada de habitantes, 78 km de metrô. Rio de Janeiro, 6,3 milhões de habitantes, igualinho que nem Santiago, 40 km de metrô.

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Sobre o Bairro Peixoto, não falei nada – só citei o nome duas ou três vezes. É que o Bairro Peixoto é tão fascinante que não caberia neste texto, ou faria com este texto, já muito grande, ficasse absurdamente gigantesco.

Vou ter que fazer outro texto só sobre o Bairro Peixoto.

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Então, para finalizar: errei as contas, e, por alguns minutos, perdemos o pôr-do-sol no Arpoador.

Mais belo que o pôr-do-sol visto do Arpoador, neste país, que eu saiba, só existe um outro: o visto de São Salvador, Bahia, quando a gente está dentro da Baía de Todos os Santos.

Uma vez, no início dos anos 80, vi o pôr-do-sol na Barra com duas francesinhas que tinham viajado comigo no vapor do São Francisco, desde Pirapora até pouco antes de Petrolina-Juazeiro, e daí de ônibus até Salvador. Lucienne, a mais velha, pessoa inteligente, bem informada, deixou escapar, em um espanhol ruim, depois que o sol se pôs atrás da Baía, atrás de Itaparica: “Tumé de Suza era inteligente!”

Já estive na Barra depois daquela vez com a Lucienne algumas várias vezes, e vi o povo aplaudir o pôr-do-sol lá.

Desta vez, no Rio, perdemos – por uns 10, 15 minutos – o momento do aplauso. Chegamos ao Arpoador às 18h35. O sol já havia desaparecido, mas ainda estava marcando de laranja o céu em torno dos Dois Irmãos e da Pedra da Gávea lá ao fundo.

Perdemos o momento exato do aplauso – mas pudemos sentir o clima, ver como é a coisa.

IMG_0363Para coroar ainda mais a beleza da coisa, para adicionar uma cereja extra em cima do bolo,  ainda tivemos a sorte de assistir a um belíssimo show de um violonista e um dançarino de flamengo. O violonista é de extrema competência – assim como o dançarino, vestido a caráter, tocando castanholas e sapateando em cima de uma pequenino tábua de madeira colocada sobre o passeio.

Dezenas, dezenas, dezenas de neguinhos na Pedra do Arpoador. Centenas, centenas, centenas andando pelo extremo da praia, procurando o lugar perfeito para a foto com os amigos, para a selfie, com that lucky old Sun lá atrás.

A Revista do Globo fez há pouco matéria de capa sobre a mania de selfie no Arpoador, com o Dois Irmãos lá atrás, engolindo o sol.

De alguma maneira, o Dois Irmãos dominou a paisagem, nesta nossa visita ao Rio.

Tem todo sentido. Afinal, nos hospedamos no sopé dele. Ele estava presente em cada paisagem. E tem a canção do Chico, uma das mais belas de sua fase madura. São tantas as gravações – a paulistérrima Ná Ozzetti fez uma das mais belas.

Tem minha paixão por montanhas. Ninguém é mineiro à toa. Mar é uma maravilha, mas não há nada como as montanhas – e o Rio tem as duas coisas juntas.

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Uma das lembranças que quero ter para sempre é a do sol se pondo atrás do Dois Irmãos, vistos do Arpoador, e com Mary.

5 de fevereiro de 2015

Vai aqui um agradecimento ao Hubert!

5 Comentários para “Cidade Maravilhosa, Maravilhosa”

  1. Sérgio, pelo que acabo de ler, você se enganou e pegou uma bola de isopor. Para a próxima vez, se só houver bola de ferro, deixe de lado e use uma tornozeleira.
    Mas não deixe de viajar pelas maravilhas da nossa natureza (antes que acabem).

  2. Sérgio realmente o Rio continua lindo apesar dos viadutos e túneis, obras e mais obras superfaturadas e que enriquecem empreiteiros. O RIO vai restaurar a zona portuária e copiar Porto Madero de Buenos Aires para garantir novos restaurantes e casas noturnas e restaurantes com tradicional e gostoso chope carioca.
    Nào custa nada dar uma ajudazinha a natureza.
    Voces andaram pelos bairros da classe média carioca,mas tem muito mais, faltou uma visita a Lapa de hoje que revive teimosamente a lapa de outrora. Os famosos arcos, os velhos mosteiros e o bairro de Santa Teresa que vai dar acesso aos Dois Irmaos.
    Gostaria qu SAMPA fizesse uma grande obra, superfaturada uqe fosse. mas que devolvesse o Tiete aos paulistas. Com águas limpas e recicladas, navegável e com orlas ajardinadas e gramadas, tal qual o parque do Flamengo. O histórico rio pode se tornar útil e agradável, cartào de visitas da paulicéia.
    Ammigo SÉRGIO seu texto é uma homenagem aos cariocas esquecidos da bela cidade. Quando as bolas foram de isopor nào deixe de visitar o por do sol de Maricá, cidade da regiào dos lagos do RIO, onde se implanta as tarifas zero.

  3. Fiquei com pena de nunca ter ido ao Brasil e poder ver o que o Sérgio aqui descreve tão bem. As minhas saídas foram apenas para os países vizinhos: Espanha, França, Itália, etc..

  4. Delícia de texto, Sérgio! Me reacendeu a vontade de voltar ao *Rio, mas confesso que mesmo com você falando que as referências à criminalidade diminuíram, ainda sinto medo de voltar. Outra coisa que pega é o preço absurdo de tudo, a começar pela hospedagem. Até foi criada uma página no Facebook, chamada “Rio $urreal – Não pague”, para divulgar e boicotar os preços extorsivos cobrados na cidade.
    Mas em termos de beleza natural o Rio ganha de lavada, não tem pra nenhuma outra no mundo.

    Quando e se eu voltar, vou querer fazer esse passeio ao Parque Dois Irmãos.
    Sobre o metrô não posso falar, só andei de busão (é horrível, não recomendo), mas lembro que quando voltei de Buenos Aires e passei em São Paulo, achei o de vocês bem melhor que o dos hermanos, mais limpo, e alguns até mais novos.
    Que maravilha que devolveram/guardaram sua bolsa. O que devia ser normal, a gente acaba comemorando.
    Também gosto de montanhas, mas minha paixão, amor eterno mesmo é o mar. Só de vê-lo já me sinto melhor.
    Enquanto lia o texto hoje de madrugada, senti falta de uma foto de vocês. Ao chegar ao final, adorei ver uma foto da super Mary (‘tá gatona), mas faltou uma sua também, ou de vocês dois juntos – quem sabe uma selfie. hehehe
    Abraços.

    *Será que vou ter que voltar também a Salvador pra ver o pôr-do-sol de dentro da Baía? Ano passado vi um arrebol que não fica muito atrás: numa praia no interior do Ceará, a gente consegue vê-lo de dentro do mar, tomando banho. Um espetáculo! A verdade é que apesar de todas as mazelas, nosso país é mesmo “bonito por natureza”, lindo demais.

  5. Aproveito um alívio na dor da lombar que me derruba, apesar dos remédios e dos tratamentos, para dizer que seu texto é lindo. E para confessar: meu filho e eu adoramos o La Trattoria na Fernando Mendes e só não marcamos encontro com você e a Mary por lá por achar um desaforo levar paulistas a trattorias cariocas… Erro meu, má fortuna… Desculpem! MH

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