Montand, Semprun e o mundo

O livro de Jorge Semprun sobre Yves Montand e o mundo – Yves Montand: A Vida Continua (*), publicado em 1983 – é absolutamente fascinante por uma série respeitável de razões.

Tento enumerá-las, sem que estejam em ordem de importância.

Porque Yves Montand, a personalidade retratada, é uma figura maravilhosa, um artista admirável, extraordinário cantor, showman e ator. Sua vida é riquíssima, uma trajetória que conta boa parte da história do século XX, tanto a artística, cultural, quanto a política.

Porque Jorge Semprun, embora bem menos conhecido do grande público, é um artista importantíssimo, intelectual de cultura imensa, enciclopédica, autor de diversos livros, roteirista de obras fundamentais, alguns dos mais importantes filmes políticos já feitos – A Guerra Acabou, Z, A Confissão, O Atentado, Stavisky, Seção Especial de Justiça.

Porque o Brasil está muito presente na obra. Um dos fios condutores da narrativa é a turnê mundial de Yves Montand no início dos anos 80, que incluiu o Brasil. O livro abre falando do show no Maracanãzinho, em 31 de agosto de 1982. Há diversas referências ao Brasil, a personalidades brasileiras, políticos, jornalistas, escritores.

Porque o texto de Jorge Semprun é uma absoluta delícia, de uma grande riqueza literária, cheio de achados inteligentes – e é sempre pessoal, personalíssimo. Não é uma biografia; é, segundo o autor, um “retrato-ensaio”, e Montand não é apenas o sujeito, mas também o destinatário do texto. No livro, uma grande carta a seu amigo Yves Montand, uma declaração de amor, respeito, admiração, importam tanto os fatos que ele relata, fatos importantes da Grande História ao longo de várias décadas e fatos específicos da história de vida do artista múltiplo, quanto as sensações pessoais do autor diante deles. O texto de Semprun recusa-se, teimosamente, terminantemente, a obedecer à ordem cronológica. Como em alguns filmes dos grandes diretores com quem colaborou, Alain Resnais e Costa-Gavras, sua narrativa vai e volta no tempo da mesma maneira como fazem nossas lembranças, o fluxo do nosso pensamento. Quase como um paciente de distúrbio bipolar em fase de euforia, abre dez janelas para diferentes temas e épocas ao mesmo tempo, abre parênteses, colchetes, semicolchetes – mas, ao contrário dos pacientes da antiga psicose maníaca-depressiva, vai voltando atrás e amarrando tudo e concluindo um por um os diversos temas abertos.

E porque, escrito por um ex-comunista, a respeito de um ex-comunista (quem não foi comunista em algum momento da vida é em geral uma pessoa menor, incapaz de generosidade), é uma beleza de panfleto anticomunismo, anti-partidos comunistas, anti-União Soviética, antiditaduras de esquerda, assim como também antiditaduras de direita. Uma beleza de panfleto.

Um processo de distanciamento do PC que começa ainda em 1953

Ler o livro de Semprun, passear por seu texto primoroso, aprender com seu estilo, com seu imenso cabedal de conhecimento, sabedoria, dá um grande prazer – mas também um travo amargo na garganta. Ao nos depararmos com tantas provas de que a inteligência européia já fazia um exame crítico dos erros do comunismo nos hoje longínquos anos 60, fica ainda mais chocante nossa realidade latino-americana, a última região do planeta que ainda se fascina por aquela doutrina que há tanto tempo se provou falida.

No belíssimo A Guerra Acabou/La Guerre est Finie (foto), realizado por Alain Resnais em 1966 com base em roteiro original de Jorge Semprun, Yves Montand faz o papel de Diego Mora, um dos líderes do Partido Comunista Espanhol, radicado na França, retornando de uma de suas viagens clandestinas a seu pais natal, onde havia se reunido com companheiros, traçando planos na luta contra a ditadura do generalíssimo Franco. Embora ainda na ativa, cumprindo as diretrizes do comitê central, Diego já começava a ter dúvidas a respeito dessas diretrizes, a respeito do acerto das decisões dos dirigentes.

Diego Mora – que Yves Montand interpreta com um brilho incomum – tem muito do seu criador, Jorge Semprun, e também do seu próprio intérprete. Semprun estava radicado na França desde o fim da Segunda Guerra Mundial, pertencia à direção do PCE, mas já estava questionando o partido, seus métodos, suas decisões. Na verdade, questionava o PCE, e sua cega obediência às determinações do PCURSS, desde a morte de Stálin, em 1953, desde que os crimes de Stálin começaram a ser divulgados.

Montand, ao contrário de Semprun, jamais pertenceu formalmente ao Partido Comunista (no caso dele, o PCF). Havia sido um correligionário, um simpatizante, praticamente desde sempre. E sua fidelidade ao PCF, naqueles meados dos anos 1960, estava sendo posta em questão duramente. A rigor, como mostra o livro, a fidelidade de Montand ao ideário comunista estava abalada desde que os tanques russos haviam invadido a Hungria para sufocar a revolta popular contra o regime, ainda em 1956. Desde antes, na verdade – desde que, pouco a pouco, o próprio PCURSS havia começado a reconhecer os crimes da era stalinista.

Um filho do velho comunista repensa, o outro, não

A simpatia pelo comunismo, no caso de Montand, veio de berço. Seu pai, Giovanni Livi, de uma família camponesa, havia deixado a Itália, onde passara a ser perseguido pelos fascistas de Mussolini, e se radicado em Marselha, o grande porto mediterrâneo francês, em 1924. Montand, o mais novo dos três filhos de Giovanni e Giuseppina Livi, tinha então três anos: nascera em Monsummano Alto, na Toscana, a 13 de outubro de 1921. Chamava-se Ivo Livi; seus irmãos mais velhos eram Giuliano, que depois passaria a se assinar Julien, e Lydia.

Com Lydia, segundo o relato de Semprun, Yves Montand sempre se deu bem, desde o tempo em que ainda era Ivo Livi. Com Julien, teria atritos, alguns bem sérios, por causa da ideologia. Julien permaneceu sempre comunista, não importando quantos crimes de Stálin fossem sendo revelados, quantas revoltas populares por liberdade nos países do Leste europeu fossem sufocadas pelos tanques da União Soviética.

Uma das rusgas entre os irmãos tornou-se pública. Em setembro de 1977, a revista Le Nouvel Observateur publicou uma entrevista com Montand. Diz Semprun, na tradução de Rita Braga para a edição brasileira:

As perguntas abordadas eram essencialmente de ordem política. A uma delas, sobre o porquê e o como ele se tornara companheiro de lutas do PCF, Montand respondia: “Um problema de meio. De certa maneira, eu era comunista de nascença”. Em seguida, ele falou de seu pai, do exílio deste, expulso da Itália fascista, de seu trabalho em Marselha. “Ele trabalhava dez a doze horas por dia numa fábrica de óleos”, acrescentava Montand. “Terminado o dia, caindo de sono, ia aprender francês num curso noturno. Para melhorar de situação, para lutar. Para ele, isso era o primeiro ato revolucionário.”

Essas linhas mostram bem a admiração e o respeito por seu pai, que já acentuei. E, para terminar o retrato de Giovanni Livi, ele acrescentava: “Politicamente, era antes socialista, mas socialista unitário”. (…)

Essa formulação, através da qual Montand pretendia dizer simplesmente que seu pai fora socialista antes de tornar-se comunista, antes de criar em torno dele esse ‘meio’, que levou naturalmente o filho Yves a tornar-se companheiro de luta, provocou uma reação indignada, violenta, de Julien Livi, o irmão mais velho, que escreveu uma carta seca e peremptória ao Nouvel Observateur.

Ainda e sempre fiel aos desígnios do Partido, do Partido-Mãe, do Partido-Pai, Julien Livi contestou duramente o que o irmão mais jovem havia dito na entrevista, na sua carta, na qual se refere ao outro filho de seu pai como “o sr. Yves Montand”.

“Memória comunista honesta” – uma formulação antinômica

Lá pelo meio do livro, na página 189 da edição brasileira, para ser preciso, Semprun, falando de um amigo, Lucio Losa, diz que ele possui uma “memória precisa e viva”, que “contém tesouros, trágicos ou cômicos, como os de toda memória comunista honesta”. E aí como que percebe que falou algo absurdo, e se retrata: “Ou antes, ex-comunista, já que a formulação precedente é antinômica por excelência”.

Antinômico – contraditório, oposto. Oxímoro é ainda mais elegante – combinação de palavras contraditórias ou incongruentes, como, por exemplo, “silêncio barulhento”, “grito silencioso” ou “memória comunista honesta”. Os dois primeiros exemplos estão no dicionário de Português que mais uso, o da Editora Unesp; o terceiro exemplo é o que Jorge Semprun usa. Mas preferiu qualificar o oxímoro pelo termo mais simples – antinômico.

Um personagem fictício que acredita na URSS como os crentes na Bíblia

Nas conversas com os amigos mais chegados, Yves Montand, astro maior da música francesa, astro maior do cinema francês e mundial, que havia sido comunista desde o berço, eterno batalhador contra todas as ditaduras, e exatamente por isso a partir dos anos 60 um ex-comunista, criou um personagem fictício, imaginário. Chamava-se sra. Pluvier. Renitente, cega à realidade que teimava em se mostrar à sua frente, a sra. Pluvier acreditava no comunismo como um crente acredita na verdade de cada frase da Bíblia:

A sra. Pluvier – que às vezes tinha o nome de Bernadette, mas que também conhecemos por outros nomes – é uma personagem inventada por Montand. Foi depois de 1956, se é que minha pesquisa foi rigorosa, quando começavam os desvios que o afastaram do continente glacial do comunismo, que Montand a inventou. A Sra. Pluvier era – e certamente continua a sê-lo (…) – uma militante do PCF. Uma mulher simples, fiel e generosa. Corajosa e devotada. (…)

O morceau de bravure era, na maioria das vezes, o relato que ela fazia, pela boca de Montand, de sua última viagem à Rússia, ao país radioso do socialismo. A sra. Pluvier tinha respostas para tudo (…). Alguém se queixava de que não havia estradas suficientes nas áreas rurais da Rússia? Mas vejamos, dizia a sra. Pluvier, isso é deliberado! É para preservar a beleza natural da natureza, para obrigar os caucasianos ao exercício salutar da caminhada a pé, para evitar a poluição dos gases, que o poder socialista fabrica poucos carros e constrói poucas estradas.(…)

Ducon ironizava o fato de não haver imprensa opiniosa na URSS? Mas que exigência tola!, respondia a sra. Pluvier. A verdade não é una e indivisível? Se existem, na França, jornais de todas as opiniões, é porque a mentira lá é livre. Se não existisse nossa querida e valorosa Humanité (para quem não lembra: L’Humanité, o órgão oficial do PCF), difundida pelos não menos queridos e valorosos CHD, as massas trabalhadoras poderiam conhecer, ainda que parcialmente, a verdade? No dia em que o socialismo triunfar na França haverá apenas uma verdade: a verdade una e indivisível. Haverá então apenas um só jornal, L’Humanité. E depois, o jornal de nossos camaradas não se chama precisamente Pravda? A verdade, portanto. E bico calado!

A verdade única – uma piada trágica. Para alguns, ainda e até hoje um sonho

Ah, quanta beleza e quanta tristeza há em nossa capacidade de rir da própria tragédia que nos cerca.

Ao ler sobre Madame Pluvier, é impossível não deixar de lembrar da Velhinha de Taubaté. Naquele passado distante em que fazia oposição – e “imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados” –, Luis Fernando Verissimo criou a personagem inesquecível, a última pessoa no Brasil que ainda acreditava nos governos da ditadura militar instaurada em 1964. O tempo passa, o tempo gira, a Lusitana roda, e quem fica parado exatamente no mesmo lugar fica como Verissimo e sua Velhinha de Taubaté, Chico Buarque e sua Carolina, que não vêem nada do que está à sua frente. Se vivessem mais cem anos, Verissimo e Chico, mais Niemeyer, seriam muito provavelmente os únicos brasileiros a acreditarem no lulo-petismo.

A trágica piada que Montand criou a partir de 1956 nos faz estremecer de pavor quando pensamos que os tais “blogueiros progressistas”, toda a fiel camarilha do ex-ministro Franklin Martins, dedicam a vida a defender, ainda que por vias transversas – hoje, mais de meio século após a morte de Stálin e as revelações sobre os crimes de seu regime, 20 anos após a queda do império comunista – o ideal de Madame Pluvier, que Fidel soube tão bem colocar em prática: uma única pravda, um único jornal, um único pensamento. O resto é grande imprensa golpista a soldo do imperialismo ianque.

Montand, Semprun, Costa-Gavras – todos “vendidos ao imperialismo ianque”

Os comunistas franceses acusaram Yves Montand, Jorge Semprun e Constantin Costa-Gavras – um italiano de nascimento, francês de formação, artista do mundo, um espanhol de nascimento, cidadão do mundo, um grego de nascimento, cineasta do mundo, todos com sólido histórico de militância de esquerda – de terem-se vendido ao imperialismo ianque.

Foi quando os três se juntaram mais uma vez (haviam feito juntos Z, em 1969, uma denúncia violentíssima da ditadura de direita dos coronéis gregos, e fariam depois, em 1972, Estado de Sítio, uma denúncia tanto da ditadura dos milicos uruguaios quanto dos métodos assassinos dos tupamaros) para fazer A Confissão/A’Aveu, de 1970.

Denunciar ditaduras de direita, tudo bem, maravilha. Mas o que que é isso, meu Marx do céu, contar a história – verdadeira, baseada no livro autobiográfico de Arthur London – dos processos na Checoslováquia em que os torturadores do regime obrigavam as pessoas a confessarem crimes que nunca, jamais, haviam cometido?

Horror, nojo – vendidos ao imperialismo!

É fascinante: eles querem o poder, e uma vez aboletados lá recusam-se a sair, e usufruem de suas benesses, mas é só pelo ideal, pelo bem do povo. Quem não está com eles, esses são vendidos ao imperialismo ianque.

As ditaduras de direita podem ser derrubadas. Já as ditas de esquerda…

Por diversas vezes, ao longo de seu belo relato, Jorge Semprun vai direto à jugular. Como quando se lembra de uma visita que fez, junto com Costa-Gavras e Yves Montand, à Grécia que acabava de derrubar a ditadura de direita dos coronéis:

Pois uma das diferenças – certamente não é a única – entre as ditaduras de direita e as sorrateiramente ditas de esquerda é que as primeiras podem ser derrubadas. Ou que, mesmo se não o são, determinados acontecimentos, como a morte dos ditadores, podem abrir um processo de restabelecimento progressivo das liberdades democráticas. Há até casos – e o Brasil, onde estávamos, Montand e eu, no fim do verão de 1982, é um deles – em que é a própria vontade da classe político-militar dominante, indubitavelmente submetida às pressões das circunstâncias sociais, que reabre um processo de democratização.

Em contraposição, nas segundas, nas ditaduras impropriamente ditas de esquerda, a situação é irreversível. Nelas não se volta atrás, em vista de um futuro de verdadeira democracia.

Para ilustrar o que está dizendo, Semprun conta sobre a Polônia do Solidariedade – ao fim de uma cada uma de suas apresentações, durante temporada no Olympia, Montand exibia uma bandeira do primeiro sindicato livre surgido no império comunista –, e sobre o soturno general Jaruzelskï, que, cumprindo as ordens de Moscou, em dezembro de 1981 proclamou o estado de guerra no país, para acabar com aquela farra.

Sempre foi assim. Na Hungria, em 1956. Na Checoslováquia, em 1968. Na Polônia, em 1981. Os tanques, unidos, jamais serão vencidos.

Uma descrição dos antigos PCs – e como se descreve bem o lulo-petismo

Mais adiante, ao falar de algo que conheceu bem, tendo sido ele mesmo durante anos intermediário entre a cúpula do PCE e dirigentes de base, em suas viagens clandestinas à Espanha de Franco, Semprun aborda a imensa distância entre uma e outros. E é impressionante como, ao falar sobre o “centralismo democrático” dos partidos de vocação totalitária, ele parece estar falando especificamente do lulo-petismo:

Os militantes comunistas – e a fortiori os companheiros de luta – não fazem realmente política. Não são os atores. A política se faz sem eles, na cúpula, no segredo das deliberações dos Politburos. Os militantes são apenas “pequenos parafusos”, as “pequenas engrenagens”, como dizia o marechal Stálin, do grande aparelho de transmissão das decisões da cúpula. Não há, em verdade, militantes autênticos nos partidos comunistas: há apenas ativistas e intermediários entre uma estratégia que se decide sem eles e uma realidade social, cujas reações nem sempre podem enviar à cúpula, já que não estão realmente à escuta dessa realidade; já que são apenas falantes, e até alto-falantes verborréicos e surdos, em meio a essa realidade.

O militante, assim, não faz política: confia.

Em 1982, Cuba liberta prisioneiro político. Já em 2010…

A Terra gira, a Lusitana roda, mas, para alguns baluartes da vanguarda do atraso, que por triste ironia se definem como progressistas, nada sai do lugar. Estávamos já em 2010 quando tivemos que ver as imagens de Lula e Franklin Martins sendo fotografados e se fotografando sorridentes, em flagrante de tietagem explícita, ao lado de Fidel e Raúl Castro, poucas horas depois da morte de Orlando Zapata Tamaya, ao fim de 85 dias de greve de fome.

Para os dois tietes brasileiros, é como se estivéssemos, naquele fevereiro de 2010, em plena euforia de 1959, Cuba enfim livre da ditadura corrupta de Fulgêncio Batista.

Como se, ao longo de mais de meio século, o que se seguiu ao regime de Batista não tivesse se transformado numa ditadura igualmente corrupta.

Semprun se lembra, em seu livro, de fatos de 1982, quando se anunciou que o poeta Armando Valladares seria libertado das prisões políticas de Fidel Castro:

A notícia (da libertação de Valladares) deixara Montand extremamente satisfeito. De fato, ele fazia parte dos que, havia anos, protestavam publicamente contra a prisão de Valladares. Participara das delegações que tinham apresentado petições à embaixada de Cuba em Paris. Falara do caso de Valladares durante toda a sua turnê mundial. (…)

Não sabíamos que triste concerto de insinuações, de perfídias, a libertação de Valladares iria desencadear. Uns se espantaram gritantemente pelo fato de que ele caminhava com suas duas pernas ao descer do avião que o levou a Paris. Não tinham dito que estava paralítico? Como se o fato de ter retornado com um estado de saúde normal lhe tirasse o direito de ter sido libertado. Outros começaram a murmurar que Valladares não era um bom poeta. (…)

Montand, tão logo tornemos a falar a esse respeito, terá uma posição categórica sobre a questão. O que é inadmissível, dirá ele, aquilo contra o qual protestávamos, é o fato de que Valladares tivesse ficado preso por mais de vinte anos por delito de opinião. Isso é tudo. (…) Mesmo lépido, mesmo campeão de cem metros de corrida de obstáculos, Valladares teria o direito de ser livre. E ainda que tivesse simulado a paralisia, não haveria nada a censurar-lhe. Em todas as prisões do mundo, diante de todas as polícias políticas do mundo, temos o direito de defender-nos por todos os meios: pela simulação, pela mentira. Qualquer meio ao alcance do prisioneiro inerme diante de seus carcereiros. Isso é evidente.

A visão libertária de Semprun, a visão sabuja de dois brasileiros tietes

Meu Deus do céu e também da terra: que imensa diferença essa postura – “Em todas as prisões do mundo, diante de todas as polícias políticas do mundo, temos o direito de defender-nos por todos os meios” – e a do então presidente do Brasil, que comparou os prisioneiros políticos da Cuba de 2010 aos criminosos comuns de São Paulo.

Que vergonha aquele senhor e seu ministro, groupies, tietes de ditador, fizeram todos os brasileiros passarem.

Aquilo é algo que não se deve esquecer jamais.

García Márquez, grande escritor, fascinado pelos poderes dos caudilhos

Jorge Semprun (na foto) não tem medo de uma boa polêmica – nem mesmo quando se coloca diante de grandes ícones. E espanhol bom vai agora ter medo de dizer Por que no te callas? Ao relatar o episódio da libertação de Armando Valladares das prisões políticas cubanas, o escritor lembra que alguns personagens quiseram atrair para si a glória, o mérito de ter influenciado a ditadura cubana na decisão de devolver a liberdade ao poeta:

Quem levava a palma nesse terreno era, sem dúvida alguma, Gabriel García Márquez, grande escritor de um grande livro, Cem Anos de Solidão, que obteve o Prêmio Nobel pouco depois da libertação de Valladares, mas curioso personagem fascinado pelos poderes dos caudilhos sul-americanos, como qualquer herói de seus próprios romances.

García Márquez entrou de borzeguins. Declarou à imprensa espanhola que Fidel Castro libertara Valladares para agradar pessoalmente a ele, García Márquez. E que as intervenções insistentes e intempestivas dos franceses quase tinham estragado tudo. Essa declaração dá a medida da vaidade do grande escritor e também da arbitrariedade despótica de Castro, que só liberta prisioneiros políticos para conceder um favor ou um beneficio aos escritores de sua corte tropical, e não por preocupação de justiça.

Uma frase de Joan Baez para dizer obrigado a Montand e Semprun

Me aproprio de uma frase de Joan Baez, trocando o nome que ela cita – Natalia Gorbaneskaya, uma prisioneira política da felizmente agora defunta pátria mãe do socialismo:

Estou convencido de que é por causa de pessoas como Yves Montand e de Jorge Semprun que você e eu podemos continuar a caminhar na face desta Terra.

(*) Yves Montand: A Vida Continua (no original Montand – La Vie Continue) foi lançado no Brasil pela Editora Nova Fronteira, em 1983. A edição original é daquele mesmo ano, das Éditions Denoël. Que eu saiba, o livro não foi relançado depois disso no Brasil. No entanto, pode ser encontrado através do site http://www.estantevirtual.com.br/. Garanto isso porque acabo de comprar um exemplar através do site, depois que grifei tanta coisa no que li que não me sentiria à vontade para emprestá-lo a um amigo.

Março de 2011

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