Nem cor nem gênero

Há pouco mais de uma semana vieram à tona as negociações do então vice e agora presidente em exercício para formar o governo, dando conta de barganhas ao estilo toma-lá-dá-cá, tão usuais na política brasileira. Para abrigar aliados, Michel Temer teria de ceder na ideia de reduzir pastas. Teria de fazer mais do mesmo. Não foi o que se viu: anunciou uma equipe menos obesa, com 23 ministros. Mas, em vez de elogios, tomou uma saraivada de críticas pela ausência de mulheres no primeiro escalão – como se governo fosse questão de gênero — e por fundir os ministérios da Educação e Cultura. Continue lendo “Nem cor nem gênero”

O parto da girafa

O abalo sísmico provocado pelo deputado Waldir Maranhão, presidente interino da Câmara e ilustre desconhecido até anteontem, é emblemático de quanto chão temos pela frente até o Brasil se transformar em um país estável e de instituições fortes. Iniciar a travessia de um Estado patrimonialista, onde a política é uma intermediação de interesses subalternos, para um Estado verdadeiramente republicano será a prova dos nove para o vice-presidente Michel Temer. Continue lendo “O parto da girafa”

E o cinema fumou

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Devemos-lhe o mudo sobressalto do primeiro orgasmo que o cinema filmou. Bastaria para ter um halo de aventureira santidade sobre a cabeça. Um igualzinho ao de Nossa Senhora, e não me leva a Senhora a mal, que a humanidade que somos tanto quer a felicidade no céu como na terra. Continue lendo “E o cinema fumou”

Os bodes de Cabrobó

Encravada no sertão pernambucano, a 531 quilômetros do Recife, a pequena Cabrobó, de 32 mil habitantes, talvez seja uma das cidades mais usadas e abusadas pelo populismo petista, que dela faz gato e sapato há mais de uma década. Lá, o ex Lula garantiu, em 2009, que a transposição das águas do Rio São Francisco estaria concluída em 2012, e Dilma Rousseff reiterou as juras de um futuro redentor em gravações para as campanhas de 2010 e 2014. Na sexta-feira, sem a maquilagem dos programas eleitorais, a presidente repetiu o cenário. Foi patético. Continue lendo “Os bodes de Cabrobó”

Vai que dá certo

Não se ignora a dramaticidade do quadro social, econômico e político no qual Michel Temer terá de operar como futuro presidente da República. Os desafios são imensos. Mas não está escrito nas estrelas que o próximo governo, apropriadamente caracterizado de “emergência nacional”, dará com os burros n’água, como preconizam algumas pitonisas de plantão. Vai que dá certo, como ficam as premonições catastrofistas? Continue lendo “Vai que dá certo”

Cristo, olhai para isto!

Quem já foi a Pompéia não esquece as cenas da vida cotidiana que o Vesúvio petrificou para sempre. Os habitantes e frequentadores daquela cidade de veraneio próxima a Nápoles, uma das mais lindas e ricas da península, foram apanhados de surpresa e não puderam se postar da maneira como gostariam de ser eternizados. Continue lendo “Cristo, olhai para isto!”

Sem ambiguidades

Mais uma vez o PSDB vive o drama shakespeariano. O dilema é participar ou não do governo Michel Temer. Diante do histórico dos tucanos, a nova dúvida existencial seria cômica não fosse a extrema gravidade do momento. Nele, não há o menor espaço para ambiguidades. Não cabe a postura de semi-governo ou semi-oposição. Continue lendo “Sem ambiguidades”

Como é que choro?

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Voltamos sempre às mesmas discussões. Há sempre a remota hipótese de o PCP estar enganado e a Coreia do Norte não ser uma democracia. E mesmo que uma inesperada maioria da Assembleia da República fuja com o rabo à seringa, uma injecção de “Estado de Direito” no regime de Luanda era coisa que os nossos irmãos angolanos agradeceriam. Outra velha e amena discussão é a da qualidade artística de Hollywood. Continue lendo “Como é que choro?”

“Mas a senhora veio pedir asilo? Não pode voltar ao Brasil? É isso?”

Escrevo este artigo na quinta-feira, 21 de abril, dia em que dona Dilma embarcou para Nova York determinada a fazer um pronunciamento bomba no plenário da ONU e, também, se puder, repeti-lo em entrevistas a jornalistas que estão cobrindo a Conferência. Continue lendo ““Mas a senhora veio pedir asilo? Não pode voltar ao Brasil? É isso?””

Do ABC aos grotões

O mapa da votação na Câmara Federal aponta uma dessas ironias da História. No seu nascedouro, no ABC paulista, o lulo-petismo pintou como produto da modernidade do desenvolvimento capitalista – a exemplo de outros partidos operários que se erigiram em poder em países capitalistas e, de fato, criaram um ordenamento social mais justo. Continue lendo “Do ABC aos grotões”