Sem ambiguidades

Mais uma vez o PSDB vive o drama shakespeariano. O dilema é participar ou não do governo Michel Temer. Diante do histórico dos tucanos, a nova dúvida existencial seria cômica não fosse a extrema gravidade do momento. Nele, não há o menor espaço para ambiguidades. Não cabe a postura de semi-governo ou semi-oposição.

Será absolutamente imperdoável se o PSDB se furtar às suas responsabilidades para se “preservar” com vistas a 2018, como pregam algumas de suas lideranças. A História costuma ser cruel com quem põe seus interesses particulares acima dos interesses gerais da nação.

Pensando em seu projeto eleitoral, o PT simplesmente recusou-se a participar do governo Itamar Franco depois de ter sido um dos artificies do impeachment de Collor. Amargou em seguida duas derrotas acachapantes, na disputa presidencial de 1994 e 1998.

Guardadas as devidas proporções, os tucanos correm o risco de enveredar pelo mesmo caminho, ainda que não venham a praticar as sandices e o radicalismo do PT. Não serve de consolo acenar com o apoio parlamentar a Temer e ao mesmo tempo se eximir de responsabilidades de governar e de ajudar na construção de saídas para a maior crise do país pós 1930.

Não se prega a pura e simples adesão ao governo Temer. Ao contrário, como explicitou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, esta participação deve ter como requisito o compromisso com um programa mínimo para tirar o país do atoleiro e com a continuidade da Lava-Jato.

Se houver concordância sobre tais pontos, qual o óbice para esta participação a não ser projetos ou ambições pessoais?

A História não acontece conforme os nossos desejos, mas com as circunstâncias que nos são dadas.  O fim do regime militar não ocorreu como se imaginava e a transição democrática se deu de maneira não prevista pelos teóricos de plantão. Poucos, muitos poucos, vislumbraram o papel que Itamar Franco findou por desempenhar.

Fenômeno semelhante vem ocorrendo com o fim do lulopetismo. Há dois anos, seria impensável que ele ocorresse dessa maneira. Mas é assim que está acontecendo.

Ou participa-se deste processo ou fica-se na janela, vendo o tempo passar; como a Carolina cantada em prosa e verso por Chico Buarque de Holanda. Parodiando o poeta mais uma vez: é risível a postura de ser governo ma non tropo, preconizada por alguns tucanos de alta plumagem.

A cada dia, a agonia de todo o dia. A agonia de hoje é fazer a travessia do lulopetismo para um governo pautado em valores republicanos, capaz de resgatar a esperança dos brasileiros e a credibilidade das instituições; entre elas a própria Presidência da República.

Goste-se ou não, essa travessia passa por Temer.

Não há essa de “eleições gerais” fora dos dispositivos constitucionais. Nem Lula e nem o PT acreditam de verdade nesse caminho.  Ao contrário, apostam no fracasso do próximo governo, em fazê-lo sangrar por dois anos para ressurgir das cinzas, ou melhor, da lama na qual estão atolados, em 2018.

Todas as aspirações pessoais são legítimas, bem como todos os projetos partidários. Absolutamente natural que o PSDB persiga sua vocação pelo poder. Mas há aqui uma ressalva a ser feita: tudo é legítimo desde que não se entre em rota de colisão com os interesses maiores da nação, e que se esteja em sintonia com o que é melhor para o Brasil.

A recusa de participação no governo Temer aparenta ser um “purismo”, uma doença infantil dos tucanos, ou de parte deles. Por detrás desta postura pueril podem estar ambições desmedidas. As ambiguidades deixam as águas turvas, dificultam enxergar quem é quem, ou quem está querendo exatamente o quê.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 27/4/2016. 

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