Como é que choro?

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Voltamos sempre às mesmas discussões. Há sempre a remota hipótese de o PCP estar enganado e a Coreia do Norte não ser uma democracia. E mesmo que uma inesperada maioria da Assembleia da República fuja com o rabo à seringa, uma injecção de “Estado de Direito” no regime de Luanda era coisa que os nossos irmãos angolanos agradeceriam. Outra velha e amena discussão é a da qualidade artística de Hollywood.

Que valor estético pode ter um cinema tão fluentemente narrativo, tão popular, tão universal? É verdade, os filmes americanos foram incensados por uns jovens loucos parisienses de uma revista de capa amarela chamada Cahiers du Cinéma. Mas essa lúcida excepção não se compara ao volume de prosas que execram Hollywood e cantam as indeglutíveis deliquescências estéticas de gloriosas cinematografias exógenas.

Ali, pelo meio de 1950, estavam uns 200 tipos nos estúdios da Paramount a filmar Sunset Boulevard. Com cínica descontracção, Billy Wilder, o realizador, virou-se para o seu irmão de armas, o director de fotografia John F. Seitz, e disse-lhe: “Johnny, aguenta-me esse plano desfocado, quero ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro.”

O segredo do cinema americano talvez esteja nesta self-indulgence. Ou, como se diria em Luanda, mas nunca em Pyongyang, em Hollywood desconseguiram de ser importantes. Até uma criança de cinco anos desconsegue. Há uma menina que me faz chorar todos os anos, quando vejo Meet Me in Saint Louis, filme que inventou o conceito de família e o torrencial amor de pais, filhos e irmãos. Margaret O’Brien foi menina-prodígio nesse filme de Vincente Minnelli. E tinha de chorar. Virou-se para o realizador e, desconseguindo de ser importante, perguntou-lhe: “E como é que quer que eu chore? Deixo correr as lágrimas à solta ou só até meio da face?

Nada sei dos velhos de Pyongyang, mas sabia do respeito aos cotas, esses mais-velhos de Luanda. O genial Spencer Tracy, ia eu a dizer, já parecia velho quando ainda era novo. Nos anos 60, apanhou um realizador artístico, talvez Stanley Kramer, que lhe pedia pérolas de simbolismo numa das cenas. O realizador arengou, chato e longuíssimo, como todos os corifeus da vanguarda. Tracy cortou cerce: “Poupa-me, estou cansado, já sou velho e sou demasiado rico para me estar a ralar. Vamos lá fazer a cena.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

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