Aquela noite, no bar

Certa noite, dirigindo o carro pela Avenida Antártica, este que vos escreve passou pelo Bar do Alemão e quase caiu duro. O ponto habitual do pessoal do Jornal da Tarde para uma bebidinha depois do trabalho estava com as portas baixadas! Em frente, na calçada, havia uma seleta de notívagos.

Resolvida certa questão, fui direto para o bar saber o que havia acontecido. E… as portas estavam abertas! A clientela dentro. Entrei, dei um alô para Sinval, o garçom, e sentei com o meu pessoal do JT. Então soube o que havia acontecido. Entre a freguesia estavam não um, mais dois bêbados chatos. Implicavam com o garçom, com o vizinho de mesa; ou os “alugavam” para despejar uma fala desconexa. Eram um homem e uma mulher. Faziam número solo, não se conheciam.

Às tantas as vítimas fizeram um conchavo com Dagô, o dono do bar. Logo, ele avisou que o chope tinha acabado e ia fechar a casa. Pôs todo mundo para fora. A ébria foi instalada em um táxi; o ébrio vacilou um pouco, mas se foi. Então Dagô reabriu a porta e voltaram todos para suas mesas, aliviados e felizes. Isto não é ficção. Realmente aconteceu.

A clientela do turno da madrugada, jornalistas, músicos da noite (que às vezes davam uma canja com seus instrumentos), enfim, os habitués, muitas vezes chegavam em grupo. Assim que se sentavam, o antológico Sinval – o único garçom – começava a servir chope, sem que lhe pedissem, pois sabia quem tomava a bebida. Trazia duas canecas para cada um. Pois o freguês ia virar a primeira, e gritar: “Sinval, mais uma”. Assim, servia logo as duas.

O serviço estava sujeito a interrupções. Pois em dado momento Sinval saía para a calçada e se atracava com o orelhão. Conversava o que tinha a conversar; depois entrava no bar e o serviço recomeçava.

Em uma madrugada de setembro de 1978, o pessoal que acabara de fechar a edição do JT estava muito tranquilo com sua bebidinha… Eis que  surge o Guido, o secretário gráfico do jornal: “O papa morreu.” Ah, sim, todo mundo sabia disso. Paulo VI havia falecido um mês antes e João Paulo I era o novo papa. O Guido insiste. Até se fazer entender. O papa morto era João Paulo I.

Debanda de derrubar cadeiras. Os jornalistas correm para a redação, apanham o noticiário que as agências de notícias despejam pelos teletipos, desenham-se novas páginas, martelam-se as teclas das máquinas de escrever. E o Jornal da Tarde chega às bancas com a morte do papa na manchete.

Esta crônica foi originalmente publicada no blog Vivendo e Escrevendo, em 30/3/2024.

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