Livrar o Brasil de Bolsonaro (8)

A inflação está em disparada, o acumulado de 12 meses passou dos 12%. A prévia de abril do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi de 1,73%, a maior alta para o mês desde 1995 e a maior variação mensal desde fevereiro de 2003. Mas Jair Bolsonaro só se ocupa de avançar na escalada contra as instituições.

O desemprego ficou em 11,1% no último trimestre. Segundo o FMI, o Brasil está entre os dez países com maior desemprego no mundo. Mas Jair Bolsonaro quer saber é de “atacar o processo eleitoral, envolver as Forças Armadas em seus devaneios conspiratórios, zombar do Judiciário e profanar a liberdade de expressão”.

“O governo parece gostar de inflação.” A frase duríssima não é de um político de oposição, mas do presidente da Febraban, a Federação Brasileira dos Bancos, Isaac Sidney, e foi dita em entrevista a Adriana Fernandes publicada em O Estado de S. Paulo deste sábado, 30/4.

O governo parece gostar de inflação – e o presidente gosta mesmo, sem dúvida alguma, é de “afrontar o Supremo, promover a desconfiança contra o sistema eleitoral e ainda envolver o bom nome das Forças Armadas em questões políticas”.

Nunca se desmatou tanto no Brasil. Em 2021, aconteceu no Brasil 40% do desmatamento de todas as florestas primárias registrado no mundo inteiro, segundo dados do Global Forest Watch. A redução da mata nativa no país no ano passado foi de 1,5 milhão de hectares. Um milhão e meio de hectares de mata nativa derrubada! Mas, nas redes sociais, os bolsonaristas falam do caso de um professor que repreendeu aluno favorável ao uso de agrotóxicos. Sobre o filme Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola. Sobre o caso de um deputado petista que liderou uma invasão a uma igreja em Curitiba.

Tudo vai mal no Brasil – saúde, educação, meio ambiente, a economia. Mas os bolsonaristas desviam a atenção para questiúnculas comportamentais, a defesa de posições retrógadas na área do comportamento – enquanto Bolsonaro vai destruindo as instituições democráticas e preparando o golpe para quando o resultado das urnas mostrar que ele não foi reeleito presidente.

Editoriais do Estadão e do Globo deste sábado, 30/4, demonstram tudo isso, tintim por tintim. Eles vão aí abaixo na íntegra, nesta oitava compilação da série “Livrar o Brasil de Bolsonaro”. A compilação inclui também uma reportagem de Marlen Couto publicada no Globo deste sábado mostram como os bolsonaristas usam as redes sociais para ofuscar os temas incômodos para seu líder. (Sérgio Vaz)

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Golpismo é arma eleitoral de Bolsonaro

Editorial, O Estado de S.Paulo, 30/4/2022

Jair Bolsonaro avança, com desenvoltura crescente, na sua escalada contra as instituições. Não se vislumbra quais seriam os limites de sua irresponsabilidade. Num só dia, como fez na quarta-feira passada, é capaz de atacar o processo eleitoral, envolver as Forças Armadas em seus devaneios conspiratórios, zombar do Judiciário e profanar a liberdade de expressão. É uma sucessão de barbaridades que, a rigor, não têm nenhuma relevância para o País. Enquanto Jair Bolsonaro entretém seu eleitorado com afrontas golpistas, a população tem de enfrentar a inflação, o desemprego, a fome e a falta de perspectiva quanto ao futuro.

O quadro é grave e requer realismo. A situação do Brasil em 2022 não guarda nenhuma semelhança com o que se viu em 2017 e 2018. No governo de Michel Temer, havia a crise social e econômica gestada nas administrações petistas, mas tinha um Executivo federal disposto a trabalhar e a enfrentar os problemas nacionais. Esse esforço gerou resultados visíveis: redução da inflação, condições sustentáveis para a diminuição dos juros e a retomada do crescimento.

O cenário hoje é inteiramente diferente. Não são apenas os indicadores econômicos ruins; por exemplo, a inflação volta a apresentar índices não vistos desde os anos 90 do século passado. O mais grave é que, mesmo com essa situação, o presidente da República entende que o seu papel é afrontar o Supremo, promover a desconfiança contra o sistema eleitoral e ainda envolver o bom nome das Forças Armadas em questões políticas.

Não bastasse ter declarado a inocência de um condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) – o presidente da República pode conceder perdão, mas não reescrever uma sentença judicial –, Jair Bolsonaro promoveu no Palácio do Planalto um ato que, sob pretexto de defender a liberdade de expressão, homenageou o deputado que não respeita as leis e as instituições do País. O bolsonarismo expõe, assim, sua verdadeira identidade. Não é liberalismo, não é eficiência na gestão pública, não é abertura comercial, não é zelo pelo ambiente de negócios, não é estímulo à produtividade, não é melhoria da educação. Seu símbolo perfeito é Daniel Silveira, aquele que vem exercendo na atual legislatura o papel desempenhado por Jair Bolsonaro na Câmara durante seus vários mandatos. O padrão é rigorosamente o mesmo: quebra de decoro e violência contra as instituições democráticas como tática para ganhar visibilidade, na tentativa de acobertar a irrelevância política.

E é o que continua fazendo Jair Bolsonaro na Presidência da República. Sem disposição e competência para enfrentar os problemas nacionais, Bolsonaro percorre o caminho da ameaça e do enfraquecimento das instituições. No ato de quarta-feira no Palácio do Planalto, Bolsonaro defendeu a contagem paralela de votos pelas Forças Armadas. Por todos os ângulos que se veja, a proposta é inconstitucional. A definição do processo eleitoral não é uma disposição do chefe do Executivo federal, mas competência do Congresso Nacional. Não cabe às Forças Armadas a função de revisor do sistema eleitoral.

Jair Bolsonaro mostra-se alheio à Constituição e, também, à lei. São crimes de responsabilidade, segundo a Lei 1.079/50, “utilizar o poder federal para impedir a livre execução da lei eleitoral” e “incitar militares à desobediência à lei ou infração à disciplina” (art. 7.º, 4 e 7). Bolsonaro pode não gostar, mas tem o dever de respeitar a legislação eleitoral aprovada pelo Congresso. A Presidência da República não é órgão legislador.

Sem cumprir o que lhe cabe, que é governar o País, Jair Bolsonaro cria novas frentes de atrito e confusão. Revisa sentença judicial, desdenha da legislação aprovada pelo Congresso sobre processo eleitoral, instiga os militares a desempenharem funções além dos limites constitucionais. Nada disso é casual. É o bolsonarismo em ação, que ataca não apenas o STF, mas o papel e as competências constitucionais de todas as instituições, também do Congresso e das Forças Armadas. Não é política, é golpe.

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Reeleição de Bolsonaro esbarra na economia

Editorial, O Globo, 30/4/2022

A avaliação negativa do presidente Jair Bolsonaro, mesmo com a queda recente, beira os 50%. Desde a instituição da reeleição, nenhum presidente em busca do segundo mandato foi tão mal avaliado. Embora Bolsonaro seja aprovado pelos 25% do eleitorado que consideram seu governo ótimo ou bom, isso é sabidamente insuficiente para ele vencer. E fica a cada dia mais claro, faltando pouco mais de cinco meses para o pleito de outubro, que a economia não será uma alavanca capaz de catapultá-lo à vitória.

A inflação é destacada em todas as pesquisas como um dos maiores problemas do Brasil, ao lado de saúde, economia e desemprego. Nenhuma surpresa. O acumulado de 12 meses passou dos 12%. A prévia de abril do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi de 1,73%, a maior alta para o mês desde 1995 e a maior variação mensal desde fevereiro de 2003. A inflação não está apenas alta, como tem se espalhado para mais produtos e serviços. Mesmo considerando que pode desacelerar nos próximos meses, economistas reviram as previsões deste ano para além de 8%, mais que o dobro da meta de 3,5%.

O desemprego não traz notícias melhores para o governo. É verdade que o índice do último trimestre aponta ligeira queda. Saímos de quase 15% no pico de 2020 para os atuais 11,1%. Mas o FMI coloca o Brasil entre os dez países com maior desemprego no mundo. Comparando a taxa atual à da época da posse de Bolsonaro, pouco mudou. Em dezembro de 2018, havia 12,2 milhões de desempregados. Hoje são quase 12 milhões. Nada sugere uma criação de vagas forte e acelerada nos próximos meses.

A aposta de Bolsonaro é recuperar os eleitores de renda mais baixa graças ao Auxílio Brasil, agora estipulado em no mínimo R$ 400. Só que esse valor está aí desde o início do ano e tem sido insuficiente para resgatar a popularidade dele nos estratos inferiores da pirâmide social. Ele também liberou gastos públicos de forma irresponsável, planeja aumentos para o funcionalismo e tenta se desvincular do aumento dos combustíveis.

Serão tais medidas suficientes para levar sua popularidade ao nível necessário para a reeleição? Difícil acreditar. Ele precisaria ganhar no mínimo dois pontos na avaliação ótimo e bom por mês para chegar a outubro como um candidato competitivo. Desde o início do ano se passaram quatro meses — e ele mal ganhou três pontos.

Para os bolsonaristas radicais, inflação nas alturas, desemprego de dois dígitos, suspeitas de corrupção, negacionismo na pandemia, mentiras sobre as urnas eletrônicas, nada é grave o suficiente para apagar o fervor. O eleitor sem ideologia, aquele que acabará decidindo a eleição, é mais sensível ao que se passa na economia. O conjunto da obra pode ser suficiente para levá-lo ao segundo turno, mas é difícil crer que garanta a vitória nas urnas. O próprio Bolsonaro não parece acreditar muito nessa hipótese. Não há maior evidência disso que seus repetidos ataques mentirosos ao sistema eleitoral, criando um pretexto para justificar uma virada de mesa.

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Na rede, bolsonaristas ofuscam temas incômodos

Por Marlen Couto, O Globo, 30/4/2022

A tentativa de desviar a atenção de temas negativos à imagem do governo do presidente Jair Bolsonaro tem sido uma estratégia recorrente da base bolsonarista nas redes sociais. Um levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV/DAPP) aponta que a prática foi mobilizada, recentemente, com o compartilhamento no Twitter do caso de um professor que repreendeu um aluno em um evento com a participação da líder indígena Sônia Guajajara, em uma escola particular de São Paulo.

O ápice de menções ao assunto ocorreu no dia 6 de abril, quando foram contabilizadas 18 mil postagens no Twitter. Naquele mesmo dia, o número superou o debate sobre o escândalo dos pastores lobistas no Ministério da Educação (MEC), tema que somou 15,9 mil tuítes na rede social. Nos demais dias analisados, porém, a discussão sobre corrupção no MEC foi maior e sobressaiu. Ao todo, entre 5 e 19 de abril, o volume foi pouco mais de quatro vezes o de menções ao episódio do aluno paulista. Foram 324,6 mil postagens sobre as denúncias no MEC contra 50,2 mil tuítes sobre a escola de São Paulo.

Os dados apontam que a discussão foi impulsionada por políticos, blogueiros, influenciadores digitais e canais conservadores, que declararam apoio ao adolescente. No evento, o estudante se irritou com afirmações de Sônia Guajajara, que se posicionou contra agrotóxicos e a favor de uma reforma agrária, e terminou sua fala com a frase “por favor, melhore”, dirigida à palestrante. Ele foi, em seguida, repreendido pelo professor, que citou seu currículo com doutorado em Antropologia para pedir respeito.

Diante da insatisfação, o estudante escreveu uma carta dizendo que discordava do rumo tomado pela discussão e que tinha sido “humilhado” pelo professor que mediava o encontro. As postagens acusaram o professor e a escola de investirem na doutrinação ideológica dos seus alunos, uma agenda do movimento “Escola sem Partido”.

Outros exemplos recentes da tentativa de pautar o debate com temas dispersivos são o indulto ao deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ), que tem servido para manter mobilizada a base bolsonarista, o caso do filme “Como se tornar o pior aluno da escola”, com Danilo Gentili e Fábio Porchat no elenco, e a volta das citações a Adélio Bispo, autor da facada no presidente Jair Bolsonaro nas eleições de 2018, quando o presidente é hospitalizado. Em fevereiro, a invasão liderada pelo vereador petista Renato Freitas à igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de São Benedito, em Curitiba, também teve o debate concentrado entre apoiadores do presidente. As postagens sobre esses temas ocorreram num momento em que a agenda econômica, principalmente a inflação, ganhou espaço entre as preocupações dos brasileiros.

O diversionismo da base bolsonarista, em geral, costuma envolver temas da chamada “guerra cultural”, que serve, na avaliação de especialistas ouvidos pelo Globo, para mobilizar apoiadores e atingir eleitores para além dos limites do reduto do presidente. A exploração da pauta de costumes deve ser uma das apostas de Bolsonaro para a campanha eleitoral à reeleição.

Professor de Literatura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e autor do livro “Guerra cultural e retórica do ódio”, João Cezar de Castro Rocha explica que nem todo diversionismo é guerra cultural, mas que toda guerra cultural é diversionista. A estratégia, explica, parte da produção de narrativas polarizadoras com base em notícias falsas e teorias conspiratórias. O professor vê na mobilização por meio dessa agenda a busca por produzir engajamento pela construção de “inimigos em série”:

— A guerra cultural é sempre diversionista porque nela não há dados objetivos da realidade. É a mais poderosa máquina eleitoral do século 21 porque é perfeitamente ajustada ao universo digital. Sua principal função é produzir afeto, não argumentos. E nada mantém as pessoas mais aguerridas o tempo todo que afetos como ódio, inveja e ressentimento.

No fim do ano passado, o carnaval se tornou o inimigo do momento. Em meio à queda de popularidade do governo, Bolsonaro se manifestou, em novembro, contra a realização do carnaval deste ano, mirando em governadores e prefeitos. O aceno remeteu ao episódio do “golden shower” do primeiro ano de governo. Em julho 2020, acusações falsas de pedofilia já haviam sido mobilizadas contra o youtuber Felipe Neto. Enquanto o presidente enfrentava o desgaste do primeiro pico de mortes na pandemia, influenciadores bolsonaristas amplificaram a campanha #TodosContraFelipeNeto.

No mesmo ano, em setembro, a ministra Damares Alves, da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, mirou o filme “Cuties”, acusado por ela de sexualizar crianças, e chegou a pedir que a Netflix o retirasse do ar. A obra foi premiada no Festival de Sundance e indicada a melhor filme no Festival de Berlim. Na ocasião, a Netflix afirmou que o filme é um “comentário social contra a sexualização de crianças”.

A antropóloga Isabela Kalil, pesquisadora e docente da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), chama atenção para a mobilização do pânico a partir de agendas morais. Estudiosa do bolsonarismo, ela vê na estratégia a possibilidade de se comunicar com um eleitorado que não está engajado na campanha de Bolsonaro e para além de grupos religiosos ou conservadores. Por outro lado, alerta para a dificuldade de manter esses temas em alta:

— Essa agenda tende a ter hoje um pouco menos de importância do que tinha anteriormente, por conta de outras questões que foram surgindo no cotidiano, incluindo a inflação, o aumento de combustível, o valor da cesta básica e a pandemia. Ela tende a não ter mais o foco que tinha antes, o que não significa que deixa de ter sua força. Temas como pedofilia e Segurança Pública, por exemplo, permanecem quentes. O pânico moral é algo que atravessa toda a sociedade. São questões que funcionam, inclusive, para mobilizar pessoas que não estão engajadas na campanha de Bolsonaro.

Sócio da Arquimedes, Pedro Bruzzi concorda que as táticas diversionistas, seja com a participação de Bolsonaro ou apenas de seus apoiadores, costumam ter a prevalência da agenda conservadora porque ela é capaz de ultrapassar o bolsonarismo mais convertido. Para ele, o objetivo é alterar a pauta das eleições de outubro, em que a avaliação do governo é o caminho natural.

— Em vez da avaliação do governo, Bolsonaro busca reeditar a agenda de 2018, cujos temas principais foram os costumes conservadores, combate à corrupção, fim dos privilégios e fortalecimento da segurança pública — diz Bruzzi.

30/4/2022

Este post pertence à série de textos e compilações “Livrar o Brasil de Bolsonaro”.

A série não tem periodicidade fixa.

A única ameaça a eleições límpidas, confiáveis, são as investidas de Bolsonaro cxontra a Justiça Eleitoral (7)

O presidente vai enfraquecendo as instituições – e o Congresso, em vez de reagir, se dobra. (6)

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