De pai pra filho, de filho pra pai

Outro dia vi no Caderno 2 do Estadão que estava estreando um filme sobre Laura Pausini. Não conheço coisa alguma de Laura Pausini, a rigor, mas tenho simpatia por ela, assim, do nada, e então, numa dessas noites em que, depois de ficar escrevendo sobre filmes e bebendo algumas, vou me juntar a Mary na sala e lá procuro músicas ao léu, ao random, ao shuffle no YouTube, caí em Laura Pausini cantando “Strani Amori”.

É uma maravilha.

Há vários, vários vídeos de Laura Pausini cantando “Strani Amori” – inclusive o do Festival de San Remo de 1994, em que o apresentador anuncia que ela e a música conquistaram o terceiro lugar. Deliciosamente, uma Laura Pausini de 28 anos atrás surge no palco mais saltitante do que minha filha quando ela saltitava feliz criancinha de tudo nas férias nossas em Porto Seguro. (Diacho: um dia gostaria de escrever um suelto sobre o Festival de San Remo – Luigi Tenco, “Ho Capito che ti Amo”, Luigi Tenco e Dalida, o suicídio. E em outra edição, outro ano, Roberto cantando a maravilhosa “Canzone per Te” de Sergio Endrigo e Sergio Bardotti. Ou seria só de Endrigo?)

Há um “oficial vídeo” – um clipe maravilhoso, em preto-e-branco, que era pra dizer que eles todos ali gostavam dos filmes do neo-realismo, uma das coisas mais belas que o povo daquela bota já fez, e olha que eles fizeram coisas belas demais da conta. É um clipe que mistura tomadas de Laura cantando com um filmetinho, uma historinha – essa coisa maravilhosa dos clipes de contar historinhas, fazer curta-metragens em quatro, cinco minutos. Ali é uma historinha de um triângulo amoroso, talvez de um quadrado – strani amore.

Gostaria de ouvir mais Laura Pausini, conhecer mais sobre essa moça que às vezes faz uns agudos que a rigor poderiam até incomodar, se não fossem tão típicos de tantas canções italianas cantadas por mulheres – e como há belas cantoras na música italiana.

Mas hoje me deu vontade de ouvir “Strani Amori” na voz grave, cheia, forte, possante, poderosa, de Renato Russo – e, meu, cacete, como é bela a gravação de “Strani Amori” com Renato Russo!

Aliás, que cantor extraordinário era esse rapaz, meu Deus do céu e também da Terra! Que bela voz! Que coisa poderosa!

Os fãs da Legião que me perdõem, minha filha em primeiro lugar, mas euzinho acho que Renato Russo já seria um artista grande, importante, apenas pelos discos que fez solo, cantando canções americanas de vários gêneros (em The Stonewall Celebration Concert, 1994) e italianas (Equilíbrio Distante, 1995), e um misturado, com os outtakes dos dois anteriores (O Último Solo, 1997).

(Diacho: um dia gostaria de fazer um texto sobre o Renato Russo que fez discos solo cantando em inglês e italiano. É verdade que já fiz um texto específico sobre The Stonewall Celebration Concert, mas gostaria de fazer um abrangente sobre o ídolo de mais da metade dos jovens brasileiros que, à parte de sua carreira na Legião, gostava de fazer covers de belas canções americanas e italianas que não tinham nada a ver com rock.)

(Ah, sim, claro: um dia gostaria de fazer um longo, sério, denso texto sobre essa fantástica coisa que é a amizade entre a música italiana e a música brasileira, essa coisa que vem lá de Chico e Sérgio Endrigo e Roberto e Sergio Bardotti e Ornella Vanoni e Vinicius e Toquinho, depois Renato Russo, e que continua agora com Fiorella Mannoia…)

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Hum… Falei aí entre parênteses de um monte de coisa sobre o que gostaria de escrever, mas faltou dizer sobre o que, raios, afinal, é este texto aqui!

Ué, e eu sei lá? É um suelto… Os sueltos são textos que, mais ainda que os demais, se escrevem sozinhos…

Este suelto aqui pensei em escrever como uma comemoração dessa coisa maravilhosa que é a gente ir passando nossas paixões musicais para quem vem depois – e, ao mesmo tempo, ir aprendendo coisas novas com os mais jovens.

Neste dia, neste momento em que escrevo estas mal traçadas, ou elas me escrevem, minha neta está ali perto, no Allianz Park, o nome chique do Porcódromo, no show do Kiss – a banda que, para o pai dela, é o que os Beatles são para mim.

Desde que se entende por gente, Marina ouve o pai falar sobre o Kiss, ouve referências ao Kiss, vê fotos e bonequinhos do Kiss, ouve as músicas do Kiss. É óbvio que, aos nove anos de idade, Marina ficou doidinha para ir com pai e mãe ao show dos Beatles dele.

Me ocorreu a comparação: imagine se, quando minha filha estava com nove anos, os Beatles tivessem vindo tocar no Porcódromo, ou no Bambiródromo! É claro, é óbvio que ela teria ficado doidinha para ver os Beatles.

E aí me ocorre – esse é o problema dos sueltos! – que… “Será que um dia eles vêem aí / Cantar as canções que a gente quer ouvir?”

(Um dia eu ainda escrevo um texto sobre a “Rua Ramalhete“, a canção do Tavito, e a Rua Ramalhete onde eu brinquei dos 7 aos 11 anos, e fui feliz pra cacete.)

Vixe. Tergiversei.

Embora, diabo, em suelto é tudo solto, não existe esse negócio de tergiversar.

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Este suelto aqui pensei em escrever – no dia em que fizemos o primeiro encontro amplo família pós início da pandemia, e no dia em que o Carlos todo orgulhoso foi mostrar o Kiss pra Marina – para comemorar essa coisa maravilhosa que é os mais velhos ensinarem para os mais jovens e ao mesmo tempo aprenderem com eles.

Modéstia às favas, Fernanda teve mãe e pai de excelente gosto musical. Ouviu preciosidades desde bebê – música boa, das mais diferentes procedências, dos mais diferentes estilos. O pai do Carlos era um absoluto apaixonado pela Grande Música Americana, uma das paixões do pai da Fernanda. Não seria nada estranho que a filha de Fernanda e Carlos gostasse de boa música.

Fernanda tentou de tudo quanto é jeito que eu entendesse e gostasse da Legião Urbana, dos Titãs. Muito mais tarde, me mostrou Marisa Monte. Aprendi a gostar de muitas coisas da Legião – e virei fã de carteirinha de Marisa Monte. Isso para dar só uns pouquíssimos exemplos.

Dos dois aos 14 anos, eu via Fernanda sempre na casa da mãe dela durante a semana, e ela passava os fins de semana comigo – em boa parte desse tempo, com Regina e Inês. Inês convivia comigo mais tempo do que Fernanda – e portanto era mais suscetível à minha influência musical do que Fernanda.

Aconteceu aí um fenômeno interessante, fascinante – que, na verdade, só vim a entender bem mais tarde. Inês foi mais aplicada de música por mim do que pela própria mãe!

Fã de Chet Baker, de Macalé, de Caetano muito mais que de Chico, a mãe de Inês nunca teve muita paciência com Milton – e jamais teve paciência alguma pelos demais mineiros. Pois não é que Inês aprendeu comigo a gostar de Beto Gueedes, Lô Borges, 14 Bis? Além de Bob Dylan, Joan Baez, James Taylor…

Isso para não falar, é claro, de tudo o que todos nós sempre amamos, as terras firmes, os portos seguros – Chico, Caetano, Gil, Gal, Bethânia…

A influência vai – e a influência vem. Foi Inês que me ensinou a entender e a gostar de Police e Dire Straits.

Minhas meninas me ensinaram maravilhas!

E quem me ensinou a gostar de Harry Potter foi a filha da minha filha…

Hoje, na primeira Vazarada desde o início da pandemia, meu sobrinho mais velho de todos, Sérgio, nos mostrou as pesquisas que fez sobre as origens dos Vaz, desde o primeiro nosso ancestral que dá para verificar, um João Vaz da Silva que saiu das Ilhas da Madeira ali por 1850, e foi parar na região de Formiga, Minas Gerais.

É muito bom saber de onde a gente veio – até porque para onde a gente vai nunca se sabe. Mas a verdade é que bom mesmo é que a gente encontre, se veja, converse, faça contato.

E agradeça por essa maravilha que é aprender enquanto ensina, ensina enquanto aprende com os mais jovens, como com os mais velhos.

30/3 e 1º/5/2022

P.S. A coisa do “um dia gostaria de escrever um texto sobre isso” é uma brincadeira que eu faço constantemente com a Mary. Gostaria de escrever sobre tudo. Como diz minha filha: “Tudo na sua vida vira texto, paiê”.

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