Livrar o Brasil de Bolsonaro (14)

Eliane Cantanhêde escreveu:

“’Catástrofes acontecem…’, deu de ombros o presidente para quem perdeu amores, parentes e bens e suas casas. E, ao comentar a barbárie contra Genivaldo, trancado no porta-malas com gás lacrimogêneo e spray de pimenta por agentes da PRF, defendeu ‘justiça, mas sem exagero’. Sem exagero?!”

Vera Magalhães escreveu:

“O caos que Jair Bolsonaro promove no Brasil não afeta só a vida dos mais pobres, a economia, a imagem do país no exterior, a resiliência da democracia e direitos e liberdades vários. Vira e mexe acontece, também, de essa esculhambação geral atingir o próprio Bolsonaro. Quando isso ocorre, o que se vê é um homem em franco desespero, sem saber como lidar com as próprias limitações. E aí o risco é para todos os brasileiros.”

Mariliz Pereira Jorge escreveu:

“Bandido bom é bandido processado, julgado e condenado. Espero que seja esse o seu destino, de seus filhos e da penca de políticos canalhas que o cercam. Tudo ‘dentro das quatro linhas da Constituição’. Sem exageros, sem tortura, sem sprayzinho de pimenta ou cano de escapamento na cara, mas em cana.”

Que maravilha os textos dessas três mulheres, cada um deles publicado em um dos três maiores jornais do país, O Estado de S. Paulo, O Globo e Folha de S. Paulo. Textos que dignificam os jornais para os quais foram escritos, e dignificam o jornalismo. O presidente da República é uma catástrofe, a pior que já aconteceu ao Brasil nestes 522 anos de História, mas o jornalismo, felizmente, vai muito bem, assim como as instituições republicanas, STF e TSE à frente.

Aí vão as íntegras dos três textos, no volume 14 da série de compilações “Livrar o Brasil de Bolsonaro”.  (Sérgio Vaz)

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Tem vagabundo que vira presidente, mas não vamos generalizar

Por Mariliz Pereira Jorge, Folha de S. Paulo, 1º/6/2022

Jair Bolsonaro ficou fulo da vida quando questionado sobre a ação da PRF no episódio de tortura e assassinato de Genivaldo de Jesus Santos, em Sergipe. Deu chilique básico de gente autoritária, disse que será feita justiça “sem exageros”. Não faço ideia do que seja “justiça sem exageros”, mas pelo visto é mandar os diretores dispensados da corporação para uma temporada nos EUA.

Genivaldo foi asfixiado em uma viatura. Tudo filmado por uma enorme plateia, mas as perguntas que incomodam Bolsonaro são culpa da mídia que “sempre tem um lado, o da bandidagem”. “Não podemos generalizar”, disse. Sobre a ação criminosa da polícia, só silêncio. A passada de pano habitual de quem defende que a ditadura deveria ter matado 30 mil.

Senhor Jair, não posso falar por todos, mas há fartos indícios de que a “mídia” queira ver marginal na cadeia. Prova disso, o senhor não sai do noticiário. Então é o senhor que não pode generalizar. Eu, por exemplo, tenho horror a bandidagem, mas não acredito que bandido bom seja bandido morto. Muito menos quem é inocente

Bandido bom é bandido processado, julgado e condenado. Espero que seja esse o seu destino, de seus filhos e da penca de políticos canalhas que o cercam. Tudo “dentro das quatro linhas da Constituição”. Sem exageros, sem tortura, sem sprayzinho de pimenta ou cano de escapamento na cara, mas em cana.

Bandido para o senhor é qualquer pobre, preto, considerado vagabundo pela polícia. O que não falta é bandido de terno, imunidade parlamentar e Deus da boca pra fora. O senhor ficaria horrorizado em saber que tem vagabundo que usa dinheiro público para comer gente, desvia pagamento de funcionário para o próprio bolso, interfere na PF, prevarica, difama o sistema eleitoral, vaza informações sigilosas para atacar o TSE. Veja só, tem vagabundo que se elege presidente e não trabalha.

É bandido da pior espécie, mas não vamos generalizar.

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Promessas fake assombram Bolsonaro

Por Vera Magalhães, O Globo, 1º/6/2022

O caos que Jair Bolsonaro promove no Brasil não afeta só a vida dos mais pobres, a economia, a imagem do país no exterior, a resiliência da democracia e direitos e liberdades vários. Vira e mexe acontece, também, de essa esculhambação geral atingir o próprio Bolsonaro. Quando isso ocorre, o que se vê é um homem em franco desespero, sem saber como lidar com as próprias limitações. E aí o risco é para todos os brasileiros.

Tirado das cordas em que se enfiou com sua gestão temerária da pandemia, graças à vacina que tanto tentou boicotar e à ajuda do Centrão, Bolsonaro mirou alguns outros truques para voltar a crescer nas pesquisas: de um lado aprofundar o ataque ao sistema eleitoral e estimular o antipetismo irracional, e de outro fazer “mandrakarias” fiscais para turbinar o Auxílio Brasil, tentar segurar o preço dos combustíveis e fazer média com o funcionalismo, sobretudo com as categorias de policiais federais, por meio de reajustes.

O segundo braço da estratégia naufragou por completo até aqui. O Auxílio Brasil se mostrou, como já apontavam os economistas e especialistas em políticas públicas, um programa mal desenhado, sujeito a desvios, com logística capenga e, pior, cujo acréscimo de valor em relação ao Bolsa Família foi rapidamente corroído pela inflação.

O resultado é que, segundo o mais recente Datafolha, 69% dos beneficiários o consideram insuficiente, a rejeição a Bolsonaro (45%) entre os que recebem o pagamento é maior que no conjunto da população, e 66% dos cadastrados afirmam que o programa não terá influência sobre seu voto.

No caso dos combustíveis, o capitão troca presidentes da Petrobras e ministros em série, sem perspectiva de provocar alguma redução consistente nas bombas de postos e no botijão de gás. Pior: o Banco Central sinaliza que a inflação está fora de controle e disseminada por amplos setores da economia e que o choque de juros deverá continuar.

Por fim, há o papelão do presidente nos acenos aos servidores federais. Impossibilitado de conceder reajuste expressivo aos policiais, que gostaria de levar para seu palanque, sob pena de paralisar setores vitais da administração pública, Bolsonaro está feito barata tonta: não sabe mais se adianta conceder um reajuste linear de 5% que não lhe trará um eleitor e só ampliará a antipatia geral, mas também corre o risco de, diante de tantas idas e vindas, passar a sofrer boicote da máquina pública (o que os bolsonaristas amam chamar de deep state, de que se pelam de medo).

Para alguém que todos os dias planta teorias da conspiração contra as urnas eletrônicas e adora incitar insubordinação nas polícias militares contra os governadores, não deixa de ser irônico que Bolsonaro possa ter a si mesmo, aos filhos e aos aliados do Centrão como reféns de policiais e auditores fiscais, transformados em inimigos pela sua completa inaptidão para a governança e pela mania de mentir e prometer coisas sem ter condições de cumpri-las.

O quadro acima é uma evidência de quanto a agenda eleitoral atabalhoada de um presidente incidental tem potencial para bagunçar o ambiente da vida nacional em múltiplas e importantes camadas.

A sangria provocada pela sanha eleitoreira de Bolsonaro na Petrobras ainda demorará a ser calculada — da perda de valor da companhia aos gastos com indenizações de executivos demitidos sem nenhum respeito nem liturgia.

Que ele experimente doses cada vez maiores do próprio veneno e fique exposto como está ao menos é didático para que aqueles que espantosamente ainda aprovam este governo inepto — de parlamentares beneficiados pelo sequestro do Orçamento a empresários alheios à realidade do resto da população — entendam o custo alto a que sujeitam o Brasil.

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“Catástrofes acontecem…”   

Por Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo, 31/5/2022.

Nada poderia ser mais sarcástico e irritante, neste momento de horrores, do que o sanguinário Vladimir Putin enviar mensagem para o presidente Jair Bolsonaro lamentando a tragédia em Pernambuco. Qual o sentido de quem massacra milhares de ucranianos lastimar a morte de dezenas de brasileiros?

“A Rússia compartilha o pesar daqueles que perderam seus parentes e entes queridos como resultado do desastre natural desenfreado e espera uma rápida recuperação de todas as vítimas”, diz a mensagem de Putin a Bolsonaro, depois postada no Telegram.

Putin não está nem aí para mortes no Brasil e fica claro o namoro com Bolsonaro desde a ida do presidente brasileiro a Moscou, com o filho especialista em internet e toda a cúpula militar, às vésperas da invasão da Ucrânia. Os objetivos, os interesses e as intenções nunca foram devidamente explicados.

As reações do próprio Bolsonaro a dor, morte e destruição em Pernambuco, sobretudo no Recife, não são de um presidente preocupado com seu povo e de um ser humano com empatia e coração. São de um candidato que só pensa na reeleição.

Se pudesse, Bolsonaro repetiria o que fez quando as chuvas devastaram a Bahia no início do ano: largaria tudo para lá e iria passear de jet ski nas águas paradisíacas de Santa Catarina. Mas generais e líderes do Centrão deram um toque: não pegou nada bem. Só por isso ele foi a Minas e agora a Pernambuco durante as enchentes.

Mas “todo mundo morre” e o presidente “não é coveiro”, lembram? Em vez de demonstrar compaixão, dedicou-se a fazer comício de campanha no Recife. Falou de auxílio emergencial na pandemia, de Auxílio Brasil (um Bolsa Família para chamar de seu) e das maravilhas do seu governo. De quebra, atacou governadores, pelo isolamento social contra o vírus, e particularmente o do Estado, Paulo Câmara (PSB).

Segundo Bolsonaro, Câmara não foi acertar ações comuns entre os governos federal e estadual contra a tragédia. Já o governador informa que nem sequer foi comunicado da ida do presidente ao Recife. No Datafolha, o ex-presidente Lula tem 62% e Bolsonaro, 17% no Nordeste. E o recorde de votos de Lula é sempre em Pernambuco, onde nasceu.

“Catástrofes acontecem…”, deu de ombros o presidente para quem perdeu amores, parentes e bens e suas casas. E, ao comentar a barbárie contra Genivaldo, trancado no porta-malas com gás lacrimogêneo e spray de pimenta por agentes da PRF, defendeu “justiça, mas sem exagero”. Sem exagero?! O ex-presidente Lula não precisa fazer campanha e Ciro Gomes e Simone Tebet podem deixar Bolsonaro para lá. Ele dispensa adversários, é o seu maior adversário.

1º/6/2022

Este post pertence à série de textos e compilações “Livrar o Brasil de Bolsonaro”.

A série não tem periodicidade fixa.

Não adianta coisa alguma trocar ministro ou presidente da Petrobrás. Tem que trocar o presidente da Repúblicas. (13)

Ou livramos o Brasil de Bolsonaro, ou Bolsonaro vai conseguir livrar o Brasil da democracia. (12)

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