Impeachment, urgente

“Jair Messias Bolsonaro é um presidente contra a Constituição. Comete desvarios em série na sua fuga rumo à tirania e precisa ser parado pela lei que despreza.” Por isso, “a deliberação sobre os pedidos de impeachment torna-se urgente”.

Não sou que estou dizendo isso. Eu venho escrevendo isso aqui a meses, mas, diacho, eu não sou importante.

Quem escreveu a frase acima não é tampouco um importante jornalista, assim da respeitabilidade de Miriam Leitão, Eliane Cantanhêde, Carlos Alberto Sardenberg, Vera Magalhães, Rolf Kuntz, Fernando Gabeira. Creio que todos eles já escreveram algo parecido, em seus artigos, mas, por mais importantes que sejam, emitem suas opiniões pessoais. Merecem toda consideração, é claro, mas falam em nome deles.

As frases acima são a opinião não de uma pessoa apenas, mas de uma instituição nacional, um dos três maiores, mais antigos e mais respeitados jornais do país, a Folha de S. Paulo.

Repeti aqui, é claro que propositadamente, três parágrafos que escrevi no dia 11 de julho, quando O Estado de S. Paulo publicou o editorial “Chega de chantagem”, em que afirmou que “o presidente Jair Bolsonaro não reúne mais as condições para permanecer no cargo”, e pediu a abertura do processo de impeachment.

O editorial do Estado afirmava:

“Cabe agora ao presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), mostrar ao País que tem brio e espírito republicano. Lira deve dar seguimento a 1 dos 123 pedidos de impeachment contra Bolsonaro que pairam sobre sua mesa. Tibieza não assegura lugar de honra na História.”

Feliz da vida, naquele dia escrevi:

“Agora é esperar que O Globo e a Folha de S. Paulo façam o mesmo. Que assumam em editorial a defesa do impeachment que já fazem praticamente todos os seus colunistas e comentaristas.”

Pronto: agora só falta O Globo.

Nesta sexta-feira, a Folha de S. Paulo, que como nenhuma outra publicação no Brasil (talvez no mundo) sabe fazer marketing de si mesma, publicou na sua primeira página o editorial “Ensaio de ditador”, com o seguinte olhinho, como chamamos a linha fina que vem sob o título: “Inação da PGR e Congresso põe democracia em risco; é preciso reagir, até pela sobrevivência”

Tenho a maior felicidade em transcrever aqui o editorial da Folha:

***

Ensaio de ditador

Editorial, Folha de S. Paulo, 6/8/2021

Jair Messias Bolsonaro é um presidente contra a Constituição. Comete desvarios em série na sua fuga rumo à tirania e precisa ser parado pela lei que despreza.

Há loucura e há método na sequência de investidas contra a democracia e o sistema eleitoral, ao passo que o país é duramente castigado pela ausência de governo. São demasiadas horas perdidas com mentiras, picuinhas e bravatas enquanto brasileiros adoecem, morrem e empobrecem.

Os danos na saúde, na educação e no meio ambiente, cujos ministérios têm sido ocupados por estafermos, serão sentidos ao longo de gerações.

Os juros sobem e a perspectiva de crescimento cai quando há nada menos que 14,8 milhões de desempregados. A disparada nos preços de energia e comida vitima os mais pobres. Artimanhas para burlar a prudência orçamentária afugentam investidores.

Aqui a insânia encontra o cálculo. Ao protótipo de ditador cujo governo fracassou resta enxovalhar as instituições e ameaçá-las de ruptura pela força.

Mas o uivo autoritário encontrou reação firme de agentes da lei. O Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral incluíram o presidente da República em inquéritos, que precisam ir até o fim.

Os presidentes da Câmara e do Senado e o procurador-geral da República, no entanto, não entenderam o jogo. Por ingenuidade ou interesse equivocado, associam-se a uma figura que se pudesse fecharia o Congresso, o Ministério Público e o Supremo.

Falta ao procurador Augusto Aras perceber que a vaga que ambiciona no STF de nada valeria em um regime de exceção; ao deputado Arthur Lira (PP-AL), que a pusilanimidade de hoje não seria recompensada com mais poder em uma ditadura.

A deliberação sobre os pedidos de impeachment torna-se urgente. Da mesma maneira, os achados e conclusões da CPI da Pandemia devem desencadear a responsabilização do presidente. À Procuradoria cumpre exercer a sua prerrogativa de acionar criminalmente o chefe do governo.

A inação de Aras e Lira põe em risco a democracia; é preciso reagir, até pela própria sobrevivência. “

6/8/2021

Este post pertence à série de textos e compilações “Fora, Bolsonaro”. 

A série não tem periodicidade fixa.

O Estado de S. Paulo defende a abertura do processo de impeachment. (54)

Os números da tragédia, o povo nas ruas, as análises nos jornais: tudo vai na mesma direção. (53)

Em seus editoriais, os três maiores jornais do país expõem o perigo que o presidente representa (52).

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