É preciso tirar Bolsonaro de lá

Jair Bolsonaro cada vez radicaliza mais. E cada vez fica mais isolado.

Nos últimos dias, levou pancadas, críticas duras e/ou chega-pra-lá de governadores e prefeitos, de ministros do Supremo Tribunal Federal, de grande maioria do Senado – inclusive do seu líder do governo na Casa –, de juízes de primeira instância, do Twiter, do Facebook, do Instagram, de colunistas e articulistas em todos os principais jornais, no Brasil e no mundo, de presidentes e lideranças de vários partidos políticos, de algumas das mais importantes entidades da sociedade, como CNBB, OAB, SBPC, ABI, Associação Brasileira de Ciências, de médicos, de juristas, de milhares de brasileiros que batem panelas e gritam palavras de ordem como “Fora, Bolsonaro” noite sim e a outra também – e até do seu ministro da Saúde.

A cada onda de críticas, Bolsonaro reage com mais radicalização. E as críticas a ele e seu isolamento político só aumentam.

Depois do patético, absurdo, ridículo, lamentável pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão na terça-feira, 24/3, em que se insurgiu contra todos os conselhos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e dos médicos de todo o mundo sobre como tentar reduzir a velocidade da propagação no novo coronavírus, parecia que não tinha mais armas no arsenal de insanidades do presidente da República.

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Enganou-se redondamente quem pensava assim. O arsenal de insanidades de Jair Bolsonaro não parece ter fim, e, depois do pronunciamento da terça-feira – que Miriam Leitão muito bem definiu em sua coluna em O Globo como “cinco minutos de delírio, insensatez, irresponsabilidade e desinformação” –, o presidente:

1) desobrigou os órgãos públicos a prestar informações pedidas durante o enfrentamento da crise causada pelo coronavírus; fez isso através de medida provisória divulgada ainda na terça, 24;

2) partiu para o ataque frontal ao governador de São Paulo, João Doria, em teleconferência com os governadores do Sudeste para tratar dos esforços contra a pandemia. Depois de ouvir críticas de Doria, em tom firme porém respeitoso, ao seu pronunciamento em cadeia nacional, Bolsonaro mostrou-se nervoso, irado, e acusou o governador de fazer demagogia e de pensar nas eleições de 2022. Como se ele não pensasse e não agisse apenas fixado com sua  reeleição.

Felizmente, os governadores não deram a menor bola para os insistentes pedidos de Bolsonaro para parar com o isolamento social, e reafirmaram que vão manter as medidas de restrição de circulação de pessoas, conforme recomendado pela OMS e posto em prática na maioria dos países;

3) ainda na quarta-feira, 25, propôs “isolamento vertical”, só para idosos e doentes;

4) liberou igrejas, templos religiosos e casas lotéricas a ficarem abertas, contrariando as determinações de governadores de diversos Estados e a lógica, a razão. A liberação foi feita através de decreto na quinta, 26, que incluiu igrejas e lotéricas na lista de serviços essenciais.

Felizmente, ainda há juízes e Justiça no Brasil, e muitos dos arroubos insanos de Bolsonaro têm sido derrubados nas varas e tribunais. O item de medida provisória que restringia a Lei de Acesso à informação foi vetado na quinta, 26, pelo ministro Alexandre de Moraes, atendendo a pedido da OAB, a Ordem dos Advogados do Brasil.

Um juiz federal de Duque de Caxias (RJ) suspendeu trecho do decreto que permitia a abertura de igrejas e lotéricas.

5) saiu-se com uma das declarações mais estapafúrdias de que se tem notícia na história da humanidade: “’O brasileiro tem que ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto ali, sai, mergulha, tá certo? E não acontece nada com ele.”

A fantástica, sensacional patacoada foi feita na quinta, 26. Nesse dia, ele também afirmou que não há risco de transmissão do novo coronavírus dentro de casas lotéricas porque o vidro que separa os funcionários do público é blindado!

6) ainda na quinta-feira, o governo lançou nas redes sociais a campanha “O Brasil não pode parar”. Um mês antes, a prefeitura de Milão, na Itália, havia liderado o movimento “Milano non si ferma”, Milão não se fecha; naquele mesmo dia, exatamente naquela quinta-feira, 26/3, o prefeito de Milão, Giuseppe Sala, admitia em entrevista coletiva: “Foi um erro. Ninguém ainda havia entendido a virulência do vírus”. A Itália, como se sabe, especialmente a Lombardia, a região de Milão, tem alguns dos números mais assustadores da doença até aqui. Até aquela quinta, já havia mais de 80 mil casos registrados no país, com mais de 8 mil mortes.

Uma juíza federal do Rio determinou a suspensão da campanha “O Brasil não pode parar”.

Aí aconteceu algo absolutamente grotesco, ridículo: o governo passou a negar que a campanha tivesse existido! É óbvio que as peças publicitárias – com a assinatura da Secretaria de Comunicação do governo – haviam sido fotografadas. Mas o governo Bolsonaro acredita que consegue desmentir os fatos que o país inteiro viu!

7) na sexta-feira, 27, no programa de José Luiz Datena na Bandeirantes, Bolsonaro relinchou: “Vamos enfrentar o vírus. Vai chegar, vai passar. Infelizmente algumas mortes terão. Paciência, acontece, e vamos tocar o barco. As consequências, depois dessas medidas equivocadas (os pedidos dos governadores para que as pessoas ficassem em casa), vão ser muito mais danosas do que o próprio vírus;

8) ainda no programa de Datena, o presidente da República colocou em dúvida as estatísticas mundiais sobre os efeitos do novo coronavírus. E foi além: disse que não acredita nos números de mortos pela doença em São Paulo. Colocou sob suspeição os números da Secretaria Estadual da Saúde do maior Estado da federação! Que são adotados pelo Ministério dele!

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Poderia haver mais um ato de radicalização, de escalada na violência, da virulência das demonstrações de desapreço à ciência, à lógica, à razão?

Ah, com Bolsonaro sempre pode. E então, neste domingo, 29, deu-se um espetáculo ainda mais patético, absurdo, ridículo, lamentável, delirante, irresponsável, insensato do que o pronunciamento em cadeia de rádio e TV da terça. 24. O sujeito saiu às ruas no Distrito Federal, visitou lojas, cumprimentou pessoas, promoveu ajuntamentos para fazer fotos.

Fez, para todo o país ver, exatamente tudo o que as autoridades médicas dizem que não pode ser feito de forma alguma.

Expôs dezenas e dezenas e dezenas de brasileiros ao contágio do coronavírus que já contaminou mais de meio milhão de pessoas no mundo e até o dia 23 já havia matado 15 mil pessoas.

E, na segunda-feira, em meio a rumores insistentes de que Bolsonaro tem dito aos mais próximos que está “de saco cheio” do ministro Luiz Henrique Mandetta, o governo acabou com as entrevistas diárias do Ministério da Saúde sobre a pandemia do novo coronavírus. As entrevistas passarão a ser no próprio Palácio do Planalto, com a presença de mais de um ministro, e sob o olhar atento do general Braga Netto, chefe da Casa Civil.

Todas as informações do Ministério da Saúde sobre a pandemia terão que ser submetidas ao crivo da Secretaria de Comunicação.

No governo Bolsonaro é assim: é proibido um ministro ser competente. Se for – como Mandetta tem demonstrado ser –, deixa o chefe “de saco cheio”, morto de inveja. Periga ser demitido – e, enquanto não for demitido, é enquadrado pelo Palácio do Planalto.

Os resultados, neste primeiro dia do novo esquema, não foram muito favoráveis a Bolsonaro. Em vez de ficar diminuído, Mandetta até se engrandeceu ainda mais, na entrevista dentro do Palácio. Manteve-se firme da defesa do isolamento social, contrariando a vontade do chefe.

É verdade que o general Braga Netto prestou-se ao lastimável papel de interromper a entrevista coletiva no momento em que um repórter perguntou a Mandetta sobre o passeio criminoso de Bolsonaro por regiões comerciais do DF. Mas esse tipo de coisa só demonstra mais uma vez como esse governo é incompetente, fraco e isolado.

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A verdade é que o cara não é apenas um idiota, um despreparado, um irresponsável. É um criminoso. Tem que ser responsabilizado criminalmente.

No domingo, 29, na sua coluna do Blog do Noblat (e sempre reproduzida aqui neste 50 Anos de Textos), a jornalista Mary Zaidan sintetizou no título: “O Brasil tem que parar Bolsonaro”.

Também no domingo, em sua coluna em O Globo, Bernardo Mello Franco afirmou, com carradas de razão, que o impeachment pode ser pouco: “Os desvarios de Jair Bolsonaro não cabem mais na esfera da política. Quando o presidente se torna uma ameaça à saúde pública, sabotando o esforço nacional contra a pandemia, seus atos devem ser submetidos aos tribunais. (…) Quando a epidemia passar, a abertura de um processo de impeachment pode ser pouco para enquadrar o presidente. Se sua cruzada contra a vida prosperar, ele se candidatará a uma denúncia ao Tribunal Penal Internacional, que julga crimes contra a Humanidade.”

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Nesta segunda-feira, 30, o Twitter tirou do ar dois posts da conta de Bolsonaro. Segundo a empresa, os tuítes, que mostravam imagens do passeio, foram excluídos por violar as políticas do site. Nas últimas semanas, o Twitter vem retirando do ar mensagens com notícias falsas sobre a pandemia de coronavírus e removendo publicações que incentivam ações que podem potencializar a infecção, como sair às ruas.

O Facebook e o Instagram tomaram medidas idênticas.

Também na segunda, dia 30, o ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, afirmou que a necessidade de isolamento social diante do coronavírus se justifica pela forma como a pandemia tem evoluído ao redor do mundo: “Tudo que tem ocorrido no mundo leva a crer na necessidade do isolamento, realmente, para puxar a diminuição de uma curva (de contágio) e ter atendimento de saúde para a população em geral.”

E o Senado Federal divulgou um manifesto em defesa do isolamento. No texto, o Senado se manifesta “de acordo com as recomendações da Organização Mundial da Saúde e apóia o isolamento social no Brasil, ao mesmo tempo em que pede ao povo que cumpra as medidas ficando em casa.”

O texto teve a assinatura da maioria dos senadores – inclusive do líder do governo, Fernando Bezerra (MDB-PE).

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Na sexta, 27, os presidentes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Comissão Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns, Academia Brasileira de Ciências (ABC), Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) divulgaram uma nota oficial com o título de “Em Defesa da Vida”.

É bom lembrar que a união de CNBB, OAB, ABI, SBPC, durante a ditadura militar, ajudou, e muito, a ir quebrando os alicerces do regime de exceção.

Eis o texto da nota:

“As entidades que subscrevem esta nota reuniram-se nesta sexta-feira (27), de modo virtual, para alertar à população que fique em casa respeitando as recomendações da ciência, dos profissionais de saúde e da experiência internacional.

Estratégias de isolamento social, fundamentais para conter o crescimento acelerado do número de pessoas afetadas pelo coronavírus, visam a organização dos serviços de saúde para lidar com esta situação, que, apesar de grave, pode ser bem enfrentada por um sistema de saúde organizado e bem dimensionado.

A campanha de desinformação desenvolvida pelo Presidente da República, conclamando a população a ir para a rua, é uma grave ameaça à saúde de todos os brasileiros. A hora é de enfrentamento desta pandemia com lucidez, responsabilidade e solidariedade. Não deixemos que nos roubem a esperança.”

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E, na segunda-feira, 30, os presidentes de cinco partidos políticos divulgaram um manifesto à nação em que afirmam:

“Bolsonaro não tem condições de seguir governando o Brasil e de enfrentar essa crise, que compromete a saúde e a economia. Comete crimes, frauda informações, mente e incentiva o caos, aproveitando-se do desespero da população mais vulnerável.”

Eis a íntegra do manifesto, assinado pelos presidentes de PDT, PSB, PT, PCdoB e PSOL e também por lideranças desses partidos, como Ciro Gomes, Fernando Haddad e Flávio Dino:

“O Brasil não pode ser destruído por Bolsonaro

O Brasil e o mundo enfrentam uma emergência sem precedentes na história moderna, a pandemia do coronavírus, de gravíssimas consequências para a vida humana, a saúde pública e a atividade econômica. Em nosso país a emergência é agravada por um presidente da República irresponsável. Jair Bolsonaro é o maior obstáculo à tomada de decisões urgentes para reduzir a evolução do contágio, salvar vidas e garantir a renda das famílias, o emprego e as empresas. Atenta contra a saúde pública, desconsiderando determinações técnicas e as experiências de outros países. Antes mesmo da chegada do vírus, os serviços públicos e a economia brasileira já estavam dramaticamente debilitados pela agenda neoliberal que vem sendo imposta ao país. Neste momento é preciso mobilizar, sem limites, todos os recursos públicos necessários para salvar vidas.

“Bolsonaro não tem condições de seguir governando o Brasil e de enfrentar essa crise, que compromete a saúde e a economia. Comete crimes, frauda informações, mente e incentiva o caos, aproveitando-se do desespero da população mais vulnerável. Precisamos de união e entendimento para enfrentar a pandemia, não de um presidente que contraria as autoridades de Saúde Pública e submete a vida de todos aos seus interesses políticos autoritários. Basta! Bolsonaro é mais que um problema político, tornou-se um problema de saúde pública. Falta a Bolsonaro grandeza. Deveria renunciar, que seria o gesto menos custoso para permitir uma saída democrática ao país. Ele precisa ser urgentemente contido e responder pelos crimes que está cometendo contra nosso povo.”

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Seria o sujeito um doido, um louco?

Há muita gente que defende essa tese.

No dia 25, o deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG), protocolou uma pedido de afastamento de Jair Bolsonaro da Presidência devido ao “histórico das reiteradas e irresponsáveis declarações” feitas por ele sobre a pandemia do novo coronavírus. Nesta segunda-feira, tarde da noite, anunciou-se que o  ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, encaminhou o pedido de afastamento de Jair Bolsonaro à Procuradoria Geral da República.

As chances de o procurador-geral Augusto Aras dar seguimento ao pedido são absolutamente mínimas. Eu diria que giram em torno de 0,0000001%. Aras foi escolhido a dedo por Bolsonaro para ser um engavetador-geral de tudo quanto for pedido contra ele, Bolsonaro, seu desgoverno e os crimes de seus fedelhos.

Mas o simples fato de um ministro do Supremo (mesmo sendo Marco Aurélio, esse sujeito esquisitão, que muitas vezes parece tomar decisões só para chocar a sociedade, o mundo jurídico e o mundo político) ter aceito uma petição dessas, e ter encaminhado o pedido para a PGR, já é algo gigantesco, jupteriano. É  significativo. É emblemático.

Do jeito que as coisas vão, vai ficando claro que o Capitão das Trevas dificilmente terminará o governo em 31 de dezembro de 2022.

Seja por impeachment, seja por interdição por loucura, seja por renúncia, o Brasil vai ficar livre dele antes disso.

30 e 31/3/2020

Um lembrete: esta série de textos e compilações não tem periodicidade fixa.

Ou o Brasil se livra de Bolsonaro, ou não tem mais Brasil (7).

Ou o Brasil se livra de Bolsonaro, ou não tem mais Brasil. (6)

Ou a democracia pára Bolsonaro, ou Bolsonaro pára a democracia (5)

Ou a democracia pára Bolsonaro, ou Bolsonaro pára a democracia (4)

3 Comentários para “É preciso tirar Bolsonaro de lá”

  1. É extraordinário como os Brasileiros elegem um animal deste calibre para Presidente.

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