Os mais belos duetos de Joan Baez

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Terá Joan Baez comido Jeffrey Shurtleff?

Era um garotão de fina estampa, esse Jeffrey Shurtleff. E Joan era uma danada de uma comedora.

Foi Joan que comeu Bob Dylan, e não vice-versa. Tenho absoluta certeza disso.

Quando passou pelo Brasil, Joan comeu Eduardo Matarazzo Suplicy. Eu, pessoalmente, acho que ter sido comido por Joan Baez foi a melhor coisa que o sonso do Suplicy fez na vida. E ter comido o bobo brasileiro foi a maior besteira da vida de Joan.

Por duas dessas coincidências e azares de que é feita a vida, testemunhei dois fatos que ligam o chato Suplicy à maravilhosa Joan Baez.

Quando ela veio ao Brasil, em 1981, para, entre outros compromissos, uma apresentação no Tuca, o teatro da PUC de São Paulo, eu estava lá para escrever o texto sobre o show, escalado pelo César Giobbi, na época pauteiro da Variedades do Jornal da Tarde. Acabou não havendo o show, proibido à última hora pela então quase agonizante ditadura dos milicos.

Joan foi recebida no Brasil pelo então jovem (e até bonitão, segundo algumas mulheres) Eduardo Suplicy, na época deputado estadual pelo MDB.

O filho da mãe estava ao lado dela quando, numa sala ao lado do Tuca, ela, de pé, deu uma rápida entrevista explicando que seu show havia sido proibido.

zzjoan3Ficou famoso o fato de que os dois haviam transado.

Em abril de 1992, aconteceu de eu ver que Supla comprou, na livraria da Berkeley University, do outro lado da Baía de San Francisco, a autobiografia de Joan Baez, And a Voice to Sing With, que eu havia comprado anos antes. Na van que nos levava de volta para San Francisco, na qual estava também a então mulher dele, Marta, eu o provoquei, apontando para o saco de livros que ele havia comprado: “Mulher fantástica, não é, senador?”

Ele sorriu aquele sorriso sonso dele.

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Bem, mas o fato que interessa (só fugi dele um pouquinho, por uma absolutamente desnecessária vontade de dizer que eu vi o que vi) é que Joan come quem ela quer comer.

Ela vai, chega, e come.

Joan Baez é tão avestruz que é capaz de comer tanto Bob Dylan quanto Eduardo Matarazzo Suplicy.

Mas terá ela comido Jeffrey Shurtleff?

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Os duetos de Joan com o rapaz são belíssimos. Suas vozes combinam maravilhosamente bem. Devem ter ensaiado bastante antes das gravações e das apresentações. Jeffrey Shurtleft tem belo timbre, e os dois brincam com suas belíssimas vozes, entremeiam suas vozes uma na outra, ora um indo para a região mais aguda, ora o outro.

Não me lembro de outros duetos tão belos de Joan com vozes masculinas quanto os que ela fez com Jeffrey Shurtleff.

Há três duetos deles no disco dela de 1969, One Day at a Time. Além da canção que dá o título do álbum, de autoria de Willie Nelson, os dois cantam juntos “Take Me Back To The Sweet Sunny South”, uma folk song de autor desconhecido, uma legítima trad, tradicional, e mais “Seven Bridges Road”, de Steve Young.

Na caixa de três CDs que a Vanguard – a primeira gravadora dela – lançou em 1993, com um apanhado de toda a gloriosa carreira de Joan até então, Rare, Live & Classics, apareceram outras três gravações de duetos com Jeffrey Shurtleff. Duas são canções de Merle Haggard, “Mama tried” e “Sing me back home”, e a terceira é outra trad, de autor desconhecido, “Angel Band”. Todas haviam sido gravadas em 1969, e tinham permanecido inéditas em discos oficiais até o lançamento da coletânea preciosa.

zzjoan2Naquele mesmo ano de 1969, Joan levou Jeffrey Shurtleft para o festival de Woodstock. Joan não era exatamente o que o público roqueiro de Woodstock queria ouvir, mas a apresentação dela foi brilhante, como se pode ver e ouvir no documentário famoso dirigido por Michael Wadleigh – e agora também no YouTube, é claro. Jeffrey Shurleft fez um irônico discurso político (algo de difícil compreensão para quem vê o filme ou a canção hoje) antes da apresentação de “Drugstore Truck Driving Man”, de autoria dos Byrds Roger McGuinn e Graham Parsons. Enquanto ele discursa, Joan faz umas caras bem humoradas assim como quem diz: Ah, essa meninada rebelde.

One Day at a Time foi o 12º álbum de Joan, no curtíssimo espaço de nove anos, após a estréia em 1960. Já não era apenas a Rainha do Folk, como a chamavam no início de carreira; havia já gravado com músicos country de Nashville, cantado canções de Paul Simon, Lennon-McCartney, Richards-Jagger, feito um dos primeiros álbuns duplos da História, Any Day Now, de 1968, só com canções de Bob Dylan. E havia começado a gravar canções assinadas por Joan Baez, uma compositora, na minha opinião, de primeira linha.

O disco veio depois de David’s Album, também de 1969. O David a quem o disco era dedicado era seu marido, David Harris, um líder estudantil que na época estava preso, como muitos outros jovens que haviam resistido ao alistamento militar obrigatório, o país afundado até o pescoço no lodaçal da guerra do Vietnã.

David é o pai de Gabriel, o único filho de Joan. Acho interessante o fato de ela ter dado ao filho o mesmo nome que mais tarde Suely, no seu segundo casamento, daria para o irmão mais velho da minha filha única.

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Joan Baez fez belos duetos com sua irmã mais nova, Mimi Fariña. Com Mimi Fariña e Judy Collins fez uma única mas antológica gravação, em 1967, a canção absolutamente flower power de Donovan “Legend of a girl child Linda”. Muitíssimo mais tarde, faria belos duetos com Janis Ian, Dar Williams, Mary Black, Mary Chapin Carpenter.

Com vozes masculinas, sem dúvida os mais belos duetos que fez na vida foi com Jeffrey Shurtleff. São mais redondos, perfeitos, do que os poucos que fez com o próprio Donovan.

Para ouvir no YouTube: “One day at a time”, filmado em Woodstock; “Drugstore Truck Driving Man”, também filmado em Woodstock: “Angel Band” (ilustrado só com fotos); “Take me back to the sweet sunny South” (só com fotos); “Seven bridges road” (também só com fotos).

zzjoan4Não gosto dos duetos de Dylan e Joan.

Tenho sempre a sensação de que Dylan fica incomodado quando canta com Joan, a artista já famosa que primeiro apostou nele, deu força a ele quando ela já era ídolo e ele era um iniciante.

O jovem Dylan parecia que fazia questão de ficar ainda mais taquara rachada quando cantava junto com a Madona que o introduziu às platéias folk nos festivais de Newport. Parecia querer se opor à voz maravilhosa, perfeita, dom divino, da Madona, e aí forçava a barra para soar ainda mais desagradável.

O jovem Dylan parecia querer sacanear a Diva que o ajudou a aparecer para o mundo. Mudava o andamento das canções, mudava o tom, tornava difícil para ela acompanhá-lo.

O jovem Dylan sacaneou Joan Baez o quanto pôde, até chegar à sacanagem máxima de convidá-la para seus concertos na Inglaterra em 1965, na fase do início da eletrificação, e aí simplesmente tirá-la dos shows. (Parte disso é mostrada no documentário hoje histórico Don’t Look Back, de D.A. Pennebaker, de 1967).

Em 1975, durante a turnê doidona, maluca, chamada Rolling Thunder Revue, tentaram acertar as contas. Até que conseguiram fazer duetos aceitáveis. Três anos depois, em 1978, Dylan lançaria seu filme igualmente doidão, maluco, Renaldo and Clara ( foto abaixo), em que os três principais atores são ele, ela e Sara, a mulher para quem Dylan escreveu algumas das mais belas canções que já foram criadas na face da Terra, e com quem ele foi casado por cerca de uma década.

Os velhos, em geral, são mais sábios que os jovens – o que é perfeitamente natural. Em uma entrevista para um DVD sobre a carreira de Joan, How Sweet the Sound, de 2009, Dylan fala dela com respeito, admiração, amizade.

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zzjoan5E aqui faço uma rápida confissão pessoal.

Uma vez, no meio de uma de nossas muitas discussões, Regina quis me sacanear feio, e disse que não gostava de ouvir os duetos de Joan Baez e Bob Dylan: “Ela estraga a voz dele”.

Meu Deus do céu e também da terra. Como éramos jovens, e tolos.

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Joan jamais escondeu o quanto amou o rapazola genial que ajudou a tornar famoso. Escreveria pelo menos três canções que são abertas declarações de amor a ele.

Na mais bela das três, “Diamonds and Rust”, Joan diz: “You burst on the scene Already a legend, The unwashed phenomenon, The original vagabond. You strayed into my arms And there you stayed Temporarily lost at sea. The Madonna was yours for free”. De forma estupidamente menos bela, é algo assim: Você explodiu na cena já como uma lenda, um fenômeno novo em folha, o vagabundo original. Você se desgarrou nos meus braços e lá ficou, temporariamente perdido no mar, a Madona era sua de graça”.

Em sua autobiografia, aquela já citada lá em cima, And a Voice to Sing With, Joan fala lindamente da história entre ela e Dylan, desde a primeira vez em que se viram, num bar do Village. Mostra claramente como foi apaixonada por ele. Conta até do dia, em Londres, em que era para os dois se apresentarem no Royal Albert Hall, e a presença dela havia sido banida por ele; naquele dia, ela comprou uma camisa para dar de presente a ele; quando bateu à porta da suíte do hotel, foi atendida por Sara, que ela jamais havia visto na vida. “Ela pegou o pacote das minhas mãos com um olhar paciente e gozador na sua bela face, piscou seu gigantescos olhos negros, me agradeceu suavemente e fechou a porta.”

zzjoan6Sobre Jeffrey Shurtleff, ela fala en passant, no capítulo 4, “For a While in Dreams”, dedicado basicamente ao período de sua vida em que se casou com David Harris e Gabriel nasceu. Fala de uma turnê que fez enquanto David estava na prisão: “Dois resistentes (os draft resisters, os jovens que se recusavam a fazer o serviço militar obrigatório que poderia levá-los ao Vietnã) estavam trabalhando comigo: Jeffrey Shurtleff, de sandálias de praia de borracha e uma voz de mel e prata, e Fondle, um guitarrista cujo nome verdadeiro era alguma outra coisa.”

Duas páginas mais adiante, ela conta que, depois de dez meses de David na prisão, e depois do nascimento de Gabriel, aconteceu de ela ter um caso. Tentou manter o caso absolutamente em sigilo, e sentia-se culpada. O nome da pessoa não é revelado.

Seria Jeffrey Shurtleff?

Não importa.  Não tem a menor importância.

Na cama, não dá para saber como foi.

Na música, dá. Os duetos de Joan Baez com o garotão Jeffrey Surthleff – que não existiria na História se não fosse por eles – são muitíssimo mais belos que aqueles feitos pela Rainha com o Grande Gênio.

Agosto de 2013

Um P.S.:

Entre fevereiro e abril de 2010, escrevi um longo texto sobre Joan Baez, que chamei aqui de Joan Baez Volume 1: uma trajetória luminosa. Era um texto que pretendia dar uma geralzona sobre a vida e a arte de Joan, mas se concentrava basicamente no início de sua carreira.

Chamei de Joan Baez Volume 2 a reportagem (bem fraquinha) que havia escrito para o Jornal da Tarde sobre o não show da cantora no Tuca, em São Paulo, em abril de 1981.

Minha intenção era fazer um Volume 3 sobre ela e Dylan, o encontro dos dois, o relacionamento conturbado, o período da vida dela aí entre 1962 e 1969. Para isso, teria que, entre outras persquisas, reler a autobiografia dela e pelo menos mais um belo livro, Positively 4th Street – The Lives and Times Joan Baez, Bob Dylan, Mimi Baez Fariña and Richard Fariña, de David Hajdu.

E, depois, pretendia fazer um Volume 4 sobre a carreira dela do final dos anos 60 para cá.

Para isso, seria preciso tempo, fôlego e determinação – coisas que me faltam. Sou dispersivo, pouco organizado, pouco disciplinado, preguiçoso, não sei ocupar da melhor maneira meu tempo.

Mas sempre tenho vontade de escrever sobre Joan Baez, sobre Dylan, artistas que admiro desde sempre.

Uma noite, alguns meses atrás, provavelmente depois de ter ouvido Joan cantar com Jeffrey Shurtleff (e de ter mamado alguma cachaça), fiz o começo deste texto aí acima.

Dias atrás, dei uma olhada nele, e achei que valeria a pena continuar. Deu aí no que deu. Não é o que gostaria de escrever. Está longe da minha intenção – but then again há sempre uma distância amazônica entre intenção e gesto.

Penso aqui, agora, neste momento, que o Joan Baez Volume 3 que imaginei – o período da colaboração entre ela e Dylan – não precisa ser escrito. Coisa demais já foi escrita sobre isso.

Se eu não fosse tão dispersivo, pouco organizado, pouco disciplinado, preguiçoso, deveria escrever o Joan Baez Volume 4, o período menos conhecido e badalado da vida dela, a partir do finalzinho dos anos 1960.

Gostaria muito de fazer esse texto.

6 Comentários para “Os mais belos duetos de Joan Baez”

  1. Um pouco louco seu texto, mas para um fan de Jack Keuroac normal…você esqueceu também do Steve Jobs…Por falar em duetos gosto da Joan cantando The Boxer com Paul Simon, Gracias a La Vida com Mercedes Sosa, e o mais perfeito dueto de Joan, na minha opinião é na canção em francês “Les Choses le plus Simple” com Maxime Le Forestier mas também não se pode deixar de lado seus duetos com Jackson Browne e Roger Mcguinn.
    Espero estar em São Paulo, dia 23 de março de 2014 no Teatro Bradesco. Abraços

    Ah sim, Joan faz um dueto com Jeffrey na canção “Como tu” o que reforça sua teoria.

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