Bem-vindos ao clube

Um amigo me contou que L. e E. acabam de ser avós. Entraram para o clube.

Uso apenas as iniciais para preservá-los. Há quem se exponha demais, como eu mesmo; há quem prefira não se expor, e eles devem ser respeitados.

Exposição demais é um tema que não tem saído da minha cabeça, nos últimos dias. A preocupação diz respeito à minha neta, que exponho demais no Facebook.

Um sobrinho meu outro dia me disse: “A Marina vai te processar por excesso de exposição”.

Pretendo escrever sobre essa coisa de excesso de exposição. Mas agora, neste momento, quero é falar de L. e E., que acabam de ser avós. “Tudo na sua vida vira texto”, disse, vários meses atrás, judiciosamente, a mãe de Marina – e ela tem toda a razão, como quase sempre, praticamente sempre.

L. é uma figura, uma dessas figurinhas carimbadas, difíceis, raras.

Contam-se mil histórias sobre ele – e fica difícil saber o que é a verdade dos fatos, o que é lenda mais gloriosa que a verdade, e então ficou valendo a lenda.

Conta-se, por exemplo, que no dia em que pela primeira vez viu E., L. disse para si mesmo (ou teria sido para o colega que estava ao lado dele?): “Vou casar com aquela mulher, e vou ter dois filhos com ela, um menino e uma menina. A menina vai se chamar M.A. e o menino, C.”

L. casou-se com E., tiveram dois filhos, um menina e uma menina, M.A. e C.

M.A. acaba de dar a L. e E. sua primeira neta.

Tem todo o jeito de história inventada, criada, lenda, isso aí. Mas há que jure de pé junto que aconteceu.

O primeiro encontro entre L. e E. aconteceu na PUC, ali pertinho de onde moro, ali pertinho de onde morei na era Regina Lemos, ali pertinho de onde moram hoje minha filha e minha neta. Onde minha filha estudou.

Segundo a Wikipedia, L. é de 1943, sete anos, portanto, mais velho que eu. E. é bem mais jovem que eu, seguramente. É uma mulher linda, inteligente, doce, suave. L. estava certíssimo ao querer casar com ela.

***

Quando E. deu a L. seus dois filhos, L. se encantou como todos os pais têm que se encantar. Mas ele talvez tenha, como tantos outros pais, exagerado um pouquinho.

Quando M.A., a primogênita, estava assim com uns três anos, L. dizia que ela sabia reconhecer um concerto de Vivaldi, um quadro de Renoir. Não me lembro bem, mas é bastante possível que L. tenha nos contado também que, aos três anos, M.A. curtia especialmente os poemas concretistas dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos.

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Devo muito a L. na vida.

Se revelar muito, estarei deixando de preservar seu anonimato. Mas acho que é possível dizer que L. achava injusto o entendimento do então redator-chefe de que eu era uma b… de um jornalista, que não mereceria jamais o direito de virar sequer sub-editor.

Ao contrário do então redator-chefe, L. me considerava um bom jornalista.

Deu várias provas disso. Não uma, mas várias.

Tenho certeza de que não fui um grande jornalista. Mas também tenho certeza de que nunca fui tão b… como me achava o então redator-chefe.

          ***

Trabalhar sob o comando de L. foi uma das minhas melhores experiências profissionais. Tão boa quanto foi, mais tarde, ter sido o número 2 na redação comandada por Regina Lemos, já então minha ex-mulher. Tão boa quanto foi, mais tarde ainda, ter sido chamado por Sandro Vaia para ser o que ele chamou de editor de texto do Estadão.

Tenho grande admiração por L.

Não porque ele confiava em mim, mas por tudo. Por sua postura. Por seu imenso talento.

Que talento!

O cara é brilhante.

Mas não se vende como um gênio. É low-profile, o anti show off.

Optou, já maduro, por uma postura de apaziguador.

Velhos amigos acham que ele exagera no ficar em cima do muro.

Nunca fomos amigos íntimos, L. e eu. Estive na casa dele só uma, duas vezes se tanto – e, na casa dele, fui muitíssimo bem recebido por E. Jamais compreendi por que, mas ela simpatizava comigo. Por uma dessas coincidências malucas da vida, E. foi colega de Aliança Francesa da minha irmã, e, ao ver pelo sobrenome que havia ligação, fez para a minha irmã elogios a mim; disse que o marido dela gostava muito de mim.

***

Assim como eu, E. e L. demoraram para ser avós.

Prova de que criamos bem nossas filhas.

Quanto mais velhas as mulheres têm filhos, hoje em dia, melhor.

No passado não era assim. A avó de minha filha teve Suely com 17, 18 anos. Suely teve minha filha jovem demais, aos 22. A terra roda, a Lusitana gira e as pessoas aprendem. Bem, pelo menos algumas.

Sejam bem-vindos ao clube, caros amigos!

Mas, L., por favor, não venha nos dizer que sua neta de alguns dias já pede para ouvir Vivaldi, tá?

11 de setembro de 2013

4 Comentários para “Bem-vindos ao clube”

  1. Caro S.
    Que tempos estes, tem-se excessos de cuidado até para falar de um acontecimento tão puro, como o nascimento de um neto (a). Em todo caso, você poderia ter dado o primeiro nome dos avós, Luiz e Esther, se fossem. Ou usado pseudônimos,Luiz e Marisa Letícia, entre tantos possíveis.
    Abraço, e um beijinho para a M.
    V.

  2. A esperança ganha corpo. Os cuidados são excessivos, o mundo precisa saber que a esperança nasce e renasce e tem nome.
    Pena que eu não faço parte do clube. Invejo E&L; S&S; AC&L; G&C;

  3. Caros V. e M.,
    De fato, talvez tenha sido excesso de cuidado. Eu tendo a ser confessional, livro aberto, quanto se trata de coisas da minha vida, e talvez exatamente por isso seja cuidadoso ao falar de outros.
    Acho que de fato ficaria mais elegante se eu tivesse usado pseudônimos.
    Mas paciência, agora já foi.
    E sabe o que me deu grande alegria, V.? E. e L. me mandaram mensagens dizendo que se divertiram com o texto!
    Grande abraço!
    S.

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