O Estado é Lula?

A história de vida de um nordestino que saiu da miséria para a Presidência da República parece um conto de fadas e poderia ser um bom roteiro de filme. Quem não gosta de histórias heróicas de superação de alguém que sai do nada para chegar à glória?

Esse é um dos motivos da espantosa popularidade de Lula, embora ela só tenha se materializado depois de três tentativas de chegar à Presidência da República, e, não por coincidência, depois que a sua imagem, até então abrasiva e conflituosa, foi moldada por um arranjo mercadológico e político que aparou as arestas que o separavam do convívio pacífico com o status-quo. A maquiagem do paz-e-amor somada à rendição aos dogmas do mercado, representada pela “Carta ao Povo Brasileiro”, fizeram do zangado sindicalista de resultados um presidente amado pelo povo e mitificado em boa parte do mundo.

Até aí, tudo bem. É justo que Lula se orgulhe de seu destino, de sua história de vida, de seu triunfo.

Perfeito seria se ele usufruísse de seu instante histórico de glória para ajudar a fortalecer as frágeis instituições da jovem democracia brasileira em vez de dedicar-se a desrespeitá-las, no deboche contínuo e deliberado que ele comete ao confundir a popularidade com a onipotência.

A sabedoria grega criou uma palavra para isso – húbris – que Houaiss define como “orgulho arrogante ou autoconfiança excessiva; insolência”, e é isso que o presidente vem praticando, com a mesma prodigalidade com que os novos ricos investem sua fortuna recente em gestos e objetos que tornam evidentes a sua pouca familiaridade com o decoro e as regras elementares da convivência civilizada. A fortuna recente de Lula são os seus 80% de aprovação.

Lula foi multado quatro vezes por crime eleitoral e sua resposta foi debochar da Justiça. Não deu e nem dá qualquer sinal de que pretende respeitar as leis. Lula inaugurou o canal internacional da TV Brasil e a chamou de “minha TV”, em mais uma de suas contínuas e repetidas confusões entre público e privado. Lula herdou uma sólida plataforma econômica e institucional dos governos que o precederam, e nunca disse uma palavra de reconhecimento. Afirmou – e depois repetiu para confirmar – que o Brasil de verdade começou no instante de sua posse. Lula tornou supérfluos, ou dispensáveis, os tribunais de contas, ironizou as CPIs, tripudiou do Ministério Público. Se falasse francês, diria, como Luiz XIV, “L’État c’est moi”.

Tudo em nome de uma tentativa de perpetuação no poder de seus conceitos e estilos, ainda que através de interposta pessoa – que tenta obstinadamente moldar à sua imagem e semelhança.

Nas democracias maduras, as instituições estão acima das pessoas. Nas democracias jovens, como a nossa, talvez esse personalismo seja um defeito temporal, episódico, um tributo pago à pouca maturidade e à curta convivência com a prática da democracia.

Lula provavelmente não é capaz de avaliar o estrago que a sua “húbris” pode provocar às instituições e o prejuízo que isso pode trazer ao futuro da democracia no País. Se estivesse cercado por bons conselheiros, em vez de áulicos, aproveitadores e aduladores, poderia empenhar-se em ser um presidente para a História e não apenas para a glória dos fogos de artifício que se apagam e dos ibopes que o tempo derrete.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat

Um comentário para “O Estado é Lula?”

  1. Sandro,

    ainda bem que ele não fala francês.
    Já estamos sendo suficientemente castigados em português, não?

    Abraço

    Vininha.

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