Historinhas de redação (3): A matéria que o editor matou

Era Sexta-Feira da Paixão, feriado. Este que vos escreve perfilava-se entre os repórteres de plantão na redação do Jornal da Tarde. O Zé Maria, no comando da redação, nessa manhã, me vem com uma pauta.

– Sanches (me chama assim) como estará o movimento nas churrascarias, hoje?

Não entendi a proposta.

– Churrascarias no feriado…

Ele me encarou com um olhar de “então?…”.

Ah! Demorou mas repassou ligado (antigo caiu a ficha). Churrascaria no dia em que não se come carne… Sim, boa pauta. Solicito a companhia de um caçador de imagens (como dizia o grande Rolando de Freitas, sobre seu trabalho) e embarcamos na viatura da reportagem.

Logo na Avenida Sumaré havia uma churrascaria, não muito grande, mas bem ajeitada. Entramos. Umas tantas mesas ocupadas. Escolhi pelo jeito o entrevistável, que parecia comandar a mesa com mais dois homens. Abordamos.

– Somos repórteres do Jornal da Tarde…  (detesto interromper a refeição de alguém, mas não havia jeito).

O homem parou de comer sua picanha. Expliquei a matéria, ele entendeu o espírito (santo?) da coisa. Tinha uma pequena empresa no bairro, e estavam trabalhando, mesmo com o feriado. Os outros dois eram seus empregados.

Vai aquela conversa boba, comer carne hoje, Sexta-Feira Santa?. que que tem, é coisa antiga, poucos ainda ligam, etc., etc.. Fotos do homem com seu prato de carne. Para não inibir, nessas situações, pergunto o nome no fim da entrevista.

– Como é seu nome?

– Jesus Barbalho.

Barbalho? Puxa, o governador Jader Barbalho estava na crista do noticiário, acusado de irregularidades. Falamos um pouco sobre isso, fiz mais duas ou três perguntas, e saímos.

Na rua, o fotógrafo pede o nome do entrevistado, para identificar a foto. Leio minhas anotações e caio duro. Jesus Barbalho. O homem se chama Jesus! Me impressionei tanto com o Barbalho que não gravei o Jesus! Que nenhum foca saiba disso.

Avaliei se era o caso de voltar à mesa e interromper novamente o almoço do bom Jesus. Mas não, o que eu tinha estava bom.

Fomos a mais duas churrascarias, embora a matéria já estivesse pronta. Numa delas, pergunto o nome do entrevistado.

– Ricardo Teixeira.

E não tinha nenhuma ligação com futebol.

Entrei na redação contando logo que tinha entrevistado Jesus comendo carne. Redijo, entrego a matéria. Foi para um copy altamente criativo (o nome, miseravelmente, não lembro). Deu o título, para o alto de página:

Jesus vai de picanha na Sexta Santa

A redação se empolga. Matéria bem humorada, diferenciada, acima do noticiário de estradas e cemitérios. Na época, o editor de Geral era um rapaz com jeito de super boy, puro dinamismo. Mas fora de tom, para um jornal como o JT. Leu o título, ficou inseguro – e o vetou.

Em seu lugar entrou alguma coisa opaca, que matou a página e o espírito da matéria. O texto, com algum molho, foi mantido. Mas não era a mesma coisa.

Postado em maio de 2010

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