Sabedoria precoce

O pai torce pelo galo, o avô pelo coelho e ela sabe do time do Brasil. Ela diz que é do galo. Escolheu ter uma camisa cor de rosa muito antes que o clube adotasse, para um de seus uniformes, essa cor. Indiferente aos conflitos do mundo e dos torcedores, ela aponta o polegar para cima quando cita os nomes dessas três equipes. E o Cruzeiro?, alguém pergunta. A resposta vem com o gesto do polegar virado para baixo.

Acontece que ela adora o tio, companheiro brincalhão, sempre pronto para fazer alguma boa bagunça. E ele, no que se refere a futebol, não fez a mesma escolha que ela. Desde menino, há muitos anos, influenciado pela opinião de adultos, ele se diz cruzeirense.

Dia destes, ela mostrava para a avó, sem perceber a chegada sorrateira dele, suas preferências clubísticas. Para cima três vezes e para baixo, uma vez, ela repetiu seu gestual. Eis que percebe, de repente, que não estavam sozinhas. Imediatamente se manifesta para o titio: “Não estamos falando nada.”

Gargalhadas dos dois e, a seguir, também dela, tomaram conta do ambiente.

Diante dela, esqueço-me da vida lá fora e mergulho nessa fonte de encantamento, inteligência e vivacidade presentes nesse pequeno belo corpo de menina que, a cada momento, me ensina, me renova e me faz pensar em projetos.

Sua alma me anima. Duvido que eu tenha tido, na mesma idade, essa força criadora que ela manifesta. Rapidamente, compreende, apreende, assimila. Responde aos estímulos com uma naturalidade que me espanta.

Eu sei que ela não é a única criança capaz de tais proezas. Mas é com ela que eu mais convivo. Por ela eu tenho mais paciência com o mundo dos crescidos, mais esperança em que mais gente grande vai espelhar o que foi na infância.

No caminho de casa, ela veio passar o final de semana conosco, me conta que vai dizer ao tio que ela é do galo. Ela, vê-se, está preocupada em não magoá-lo. No meio das brincadeiras em casa e na escola, dos desenhos que risca no papel com as duas mãos, sente um incômodo e quer desfazê-lo.

Faltam ainda dois meses para que faça quatro anos, mas sua cabecinha inquieta elabora soluções para conflitos. Fico sabendo que adorou o show da Adriana Calcanhoto, tanto que canta “Lig Lig Lê”. Mas, antes de combinar que brincaremos de “dama cor-de-rosa” e eu serei o seu compadre, ela retorna ao assunto dos times. Pretende, terá coragem?, conversar com o tio.

E – no mesmo momento em que a incompreensão, o autoritarismo, a violência, brigas entre partidos, religiões e torcidas e tanta coisa ruim domina o mundo – ela me diz com sua vozinha doce: “a gente pode gostar de um time e também gostar da pessoa que não é do nosso time”. Aprenderam, grandões?

 Esta crônica foi publicada originalmente no Estado de Minas

Um comentário para “Sabedoria precoce”

  1. Fernando,

    estou tentando aprender, há anos. Difícil.

    Abraço

    Vivina.

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