Historinhas de redação (5): o fulcro do assunto

– Ô Mitre, eu já escrevi 400 linhas e ainda não cheguei ao fulcro do assunto.

O autor da frase ainda não era tão conhecido naquele tempo quanto é hoje, mas já era grande, e bom de serviço: eram os anos 80, aí entre 1980 e 1984, e Celso Ming era um dos melhores, mais preparados jornalistas econômicos do país. O que, aliás, continua sendo.

O Mitre a quem se dirigia é Fernando Mitre, então redator-chefe do Jornal da Tarde, ainda na sua fase gloriosa. Como tantos bons chefes de redação antes e depois dele, Mitre queria que seu jornal conseguisse aquela proeza dificílima de falar de economia não em economês, mas em português compreensível para qualquer pessoa alfabetizada. E então incumbia Celso Ming de traduzir para os simples mortais alfabetizados as complexas questões econômicas.

Não me lembro qual era o tema daquela vez, qual era o abacaxi que Mitre queria que Celso descascasse, mas certamente era um pacote econômico daqueles cabeludos.

Mitre olhou para Celso Ming com aquela cara de Mitre – por mais sério que Mitre tente parecer, e ele sempre tenta parecer sério, a gente tem a permanente impressão de que ele está gozando o interlocutor – e falou algo do tipo:

– Ué – então jogue as 400 linhas no lixo e comece pelo fulcro do assunto.

 Dezembro de 2010

Se alguém de memória boa se lembrar da frase exata, prometo corrigir o texto. 

Outras historinhas de redação:

Ainda o fulcro do assunto

Modorra na delegacia

A matéria que o editor matou

O Cafa e a lista telefônica

Bob Kennedy baleado

2 Comentários para “Historinhas de redação (5): o fulcro do assunto”

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.