O Supremo Tribunal Federal ocupa, em qualquer democracia constitucional, uma posição de equilíbrio delicado: é, ao mesmo tempo, guardião da Constituição e árbitro final de conflitos institucionais. Dessa condição deriva não apenas o seu poder, mas também a sua responsabilidade de autocontenção. Quando a Corte ultrapassa esse limite e passa a agir como protagonista político, o risco não é apenas jurídico; é também institucional, podendo comprometer valores fundantes do Estado de Direito Democrático. É nesse contexto que ganha força a crítica ao que se convencionou chamar de “jacobinismo de toga”. Continue lendo “Jacobismo de toga”
Palanques incertos
O imbróglio da governança do Rio de Janeiro não mexeu com o favoritismo de Eduardo Paes (PSD) ao Palácio Guanabara. De acordo com a Paraná Pesquisas, o ex-prefeito bate em 53% na preferência dos eleitores e pode até ser eleito no primeiro turno. Além de mais uma ducha de água fria no candidato do PL, deputado Douglas Ruas, com 13,2%, a sondagem, divulgada na sexta-feira, aponta a fragilidade de Flávio Bolsonaro em seu próprio Estado. Embora afirme contar com palanques em 20 estados, e apoio do Centrão em 18, há beiradas soltas nos três maiores colégios eleitorais. Continue lendo “Palanques incertos”
Desapego
Há um tempão, meses e meses e meses, seguramente mais de dois anos, eu vinha pensando que tinha finalmente de começar o movimento de me desfazer de discos. Continue lendo “Desapego”
Minha aventura na Rádio Eldorado
Eu tive um programa na Rádio Eldorado.
Foi muito, muito, muito tempo atrás, quase em outra encadernação. (Jornalista não reencarna – reencaderna.) Tinha ridículos 32 e 33 anos. Como sou um eterno guardador de anotações, ao longo de todas as minhas encadenações, achei agora um texto em que reclamava de não ter tempo para arrumar minha estante de livros: Continue lendo “Minha aventura na Rádio Eldorado”
Boca Mole x Miolo Mole!
Nem em briga de torcidas tem tanta baixaria quanto no embate entre o ministro decano do STF, Gilmar Mendes, e o governador de Minas Gerais, Romeu Zema. Continue lendo “Boca Mole x Miolo Mole!”
O tripé que ameaça a reeleição de Lula
A rodada de pesquisas de abril trouxe um conjunto consistente de sinais de alerta para a reeleição de Lula. O dado mais visível é a vantagem, ainda que estreita, de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno. No levantamento Genial/Quaest, o senador aparece numericamente à frente, com dois pontos de diferença. Mais importante do que a fotografia do momento é a tendência: desde dezembro, a curva de Flávio é ascendente, enquanto a de Lula mostra estagnação. Continue lendo “O tripé que ameaça a reeleição de Lula”
Filosofia de botequim
Era um sujeito tão otimista, que comemorava o dia primeiro de ano… e todos os trezentos e sessenta e quatro seguintes.
Prometem o céu, entregam o inferno
Primeiro pré-candidato a presidente a lançar diretrizes de um programa de governo, o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) engordou a já conhecida tendência de soluções mágicas para problemas complexos, usual entre políticos à caça de votos. Com um agravante que também não é incomum: promessas de lotes no céu que não serão entregues. Boa parte delas é puro populismo e nem mesmo está na alçada do chefe do Executivo. Continue lendo “Prometem o céu, entregam o inferno”
Uma pitada de nonsense na MPB
Se alguém um dia fizesse uma antologia das frases mais bizarras da música popular brasileira, com toda certeza precisariam estar presentes versos de “O trem atrasou”. Continue lendo “Uma pitada de nonsense na MPB”
Obrigado, Hungria
Assim que as urnas confirmaram a vitória do partido oposicionista Tisza, seu líder e próximo primeiro-ministro húngaro, Péter Magyar, correu ao Facebook e postou: “Obrigado, Hungria”. O agradecimento não é apenas dele. O resultado eleitoral foi também um sinal político relevante para a Europa e para a Otan. A derrota do “iliberal” Viktor Orbán, eurocético de raiz e ícone da extrema-direita global, representa igualmente um revés para Vladimir Putin, que perde um aliado importante no interior da União Européia. Continue lendo “Obrigado, Hungria”
Promessas
Com certeza a Hungria não conta nada na ordem das coisas, mas a extrema direita estava no poder por lá há 16 anos e prometia mais 16. Orbán era um ícone do extremismo fascista, adulado por Trump, Putin e outros, como o clã miliciano-rachadista que sonha com novo estelionato eleitoral para este ano no Brasil. Continue lendo “Promessas”
Sem anistia. Sem dosimetria
É cedo para dizer se o veto do presidente Lula ao PL da dosimetria será ou não derrubado pelo Congresso no dia 30, data marcada pelo senador Davi Alcolumbre (União-AP) para apreciação da matéria. O certo é que daqui até lá o perdão a golpistas, debate que emperrou o país no segundo semestre de 2025, volta à cena. Agora, acrescido pela métrica eleitoral. O time de Flávio Bolsonaro está animado – se o veto cair, a pena de 27 anos e 3 meses do ex pode ser reduzida para pouco mais de 2 anos. Mas a maioria dos brasileiros endossa o veto ao PL. A dosimetria é rejeitada por 63,3% da população, segundo pesquisa Atlas/Bloomberg. Continue lendo “Sem anistia. Sem dosimetria”
De Tiririca em Tiririca!
De Tiririca em Tiririca o país está indo pras pica!
Essa expressão, “indo pras pica”, pode ser interpretada de várias formas, mas, ao analisar alguns candidatos que estão sendo cogitados para as próximas eleições, significa ir pro espaço, pro lado oculto da Lua. Pro breu total! Continue lendo “De Tiririca em Tiririca!”
As duas faces de Flávio
Havia lógica, e até alguma sofisticação política, na estratégia de Flávio Bolsonaro de se apresentar como a face mais moderada do bolsonarismo. Num país que permanece dividido praticamente ao meio, como reiteram sucessivas pesquisas de opinião, o centro de gravidade da disputa eleitoral deslocou-se para os eleitores independentes. Esse contingente, menos ideológico e mais pragmático, tornou-se o fiel da balança. Não se trata de um público entusiasmado, mas de um eleitorado que decide com base em percepções de estabilidade, previsibilidade e rejeição ao radicalismo. Em 2018, migrou para Bolsonaro; em 2022, para Lula. Agora, observa atentamente os dois principais contendores. Continue lendo “As duas faces de Flávio”
Tempestade
Alarmada com um som de tempestade, Gláucia abre a janela da sala de casa, que dá para uma praça, e se choca com o que vê. Uma mulher, com uma criança, busca abrigo sob uma árvore, que não as protege de nada. Gláucia abre a porta da sala e começa a chamar por elas, mas à toa. Não conseguem ouvi-la. Corre para a cozinha, pega duas tampas de panela, volta à porta e bate uma na outra com toda força. O som atraí a mamãe. Ela vê a porta aberta, com a mulher que a chama. Pega a menina pela mão, e corre. Na porta da sala, vacila. “Vamos molhar tudo”. E é puxada para dentro.
