Eu tive um programa na Rádio Eldorado.
Foi muito, muito, muito tempo atrás, quase em outra encadernação. (Jornalista não reencarna – reencaderna.) Tinha ridículos 32 e 33 anos. Como sou um eterno guardador de anotações, ao longo de todas as minhas encadenações, achei agora um texto em que reclamava de não ter tempo para arrumar minha estante de livros:
“Me dediquei a dar um jeito na estante, que estava toda desarrumada, como resultado da minha total falta de tempo desde o final do ano passado, 1982, a partir de quando passei a – além de trabalhar de seis a sete horas como subeditor de Reportagem Geral do Jornal da Tarde, além de fazer críticas de música para o Jornal da Tarde e eventuais outros bicos, além de colecionar recortes sobre música, além de ter que ouvir dezenas de discos recebidos das gravadoras – trabalhar também para a Rádio Eldorado.”
Sujeito reclamão, aquele Sérgio Vaz encadernação início dos anos 80. Diacho: ter um programa na Rádio Eldorado deveria me fazer feliz, orgulhoso, até meio metido. Mas não: quando anotei sobre ele, anotei reclamando.
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Não me lembro exatamente como aconteceu. É a tal coisa – verba volant, scripta manent, ou, em bom português, se não anotou, dançou. Não anotei como, quando, onde e por quê o João Lara Mesquita cometeu a loucura de permitir que tivesse um programa na rádio. O que sei é que o João – o terceiro dos filhos do dr. Ruy Mesquita, depois do Ruyzito e do Rodrigo – havia passado um tempo na Inglaterra, estudando música. E, quando voltou, recebeu da família o convite (ou a incumbência…) de assumir a direção da rádio.
A Eldorado era, sempre havia sido, desde sua fundação em AM, em 1948 (a FM viria em 1975), uma rádio sóbria, quase sisuda. Rica fina chique. A AM estabeleceu um padrão de locutores que anunciavam e desanunciavam as músicas tocadas com uma voz elegante, empostada – dava para o ouvinte perceber que o locutor falava ao microfone usando terno e gravata impecáveis.
A programação musical era absolutamente, perfeitamente, maravilhosamente refinada.
João era jovem como todos nós – na verdade, mais novo até do que eu mesmo. E chegou à direção da rádio para promover um aggionamento. Não uma revolução, uma bagunça, uma baderna, mas um necessário, saudável aggiornamento.
E então me convidou para fazer alguma coisa na rádio.
Em 1981, com 11 anos de casa, eu havia começado a escrever críticas de música e de shows no Jornal da Tarde, convidado pelo então editor de Variedades, Sandro Vaia. Seguramente deve ter sido essa a minha credencial para receber o convite do João.
Não consigo me lembrar se a idéia de um programa de uma hora chamado “Alegria, Alegria” – só com músicas pra cima, animadas, gostosas – foi do João ou se foi minha. Mas o fato é que, no dia 27 de setembro de 1982, entre as 21h30 e as 22h30, estreou o novo programa semanal.
– “Alegria, alegria. Esta é uma hora pra deitar e rolar, pra fazer tremer o chão da praça”, estava escrito no roteiro do programa para que o locutor, com aquela voz de terno perfeito dele, falasse. E, em seguida, Elis cantou “Vou deitar e rolar” e Moraes Moreira, “Chão da Praça”.
Como é que eu sei disso, diacho?
Simples: porque eu guardei o roteiro do programa, que eu datilografei no papel fino, de várias cópias, com o nome “Rádio Eldorado Ltda.”
Vejo agora, 43 anos depois, que cabia ao programador escrever, no roteiro, um determinado número diante de cada faixa musical a ser tocada, seguida pela indicação da faixa do disco – lado A ou lado B, faixa de número tal. Depois vinha o nome da canção, o nome dos autores e o da gravadora – este último, uma indicação para o pagamento do direito autoral. Cópias de todos os roteiros da programação deveriam ser enviadas provavelmente ao ECAD, imagino eu agora.
Aquele primeiro número, não tenho idéia hoje do que seja, mas muito provavelmente era o número com que o disco – o LP, o borrachão – havia sido cadastrado na discoteca da rádio.
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Ah, meu, a discoteca da rádio…
A emoção que eu tinha ao ver as estantes intermináveis com todos os LPs importantes que a humanidade havia produzido… Ah, é uma coisa sem jeito, absolutamente sem jeito. É a visão do paraíso, do Éden, da terra onde correm leite e mel.
Há coisas que as gerações muito mais novas não serão capazes de compreender jamais. Quando falo com a minha neta de 13 anos sobre a vida antes da existência do celular, da internet, percebo pelos olhos lindos dela que Marina se esforça para imaginar como seria aquele mundo pré-histórico mas, diabo, simplesmente não consegue.
Em 1982, 1983, não havia CD, não havia computador. As informações sobre o acervo de LPs da rádio eram anotadas à máquina de escrever em fichinhas de papel.
A gente consultava as fichinhas de papel, seguramente arquivadas em kardex, e aí anotava os números correspondentes no roteiro da programação, para que a equipe técnica pegasse a bolacha preta com furo no meio e colocasse para tocar no momento exato em que o locutor anunciava a música que viria a seguir!
Depois de Elis e Moraes Moreira, o roteiro do primeiro programa “Alegria, Alegria” indicava que o locutor deveria ler: “Na Eldorado FM, vamos lembrar as festinhas dos anos 60, com Sá, Rodrix e Guarabyra. E entrar no ritmo da guitarra de Robertinho do Recife.
Entrava “Os Anos 60”, faixa A/1 do LP do trio do rock rural, e em seguida vinha “Louco por Ti”, fixa A/3 do LP do fantástico guitarrista.
E por ai seguia, com Caetano, Gil, Alceu Valença, Elba Ramalho, grupo Rumo, Frenéticas, Gal Costa, Chico Buarque, Tetê e o Lírio Selvagem, Premê…
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Foram ao ar mais de 35 programas “Alegria, Alegria”. Não sei exatamente quantos foram, nem me lembro por que ele deixou de ser apresentado – se foi o João que achou que não estava tendo bom resultado, se fui eu que disse que não conseguia continuar.
Lembro é que, enquanto preparava os roteiros do “Alegria, Alegria”, me ocorreu a ideia de sugerir para o João um programa chamado “Fora de Catálogo”, no qual seriam apresentadas apenas canções que estavam em discos que, por algum motivo, não haviam sido reeditados pelas gravadoras.
Cacete, me deu um trabalho do cão identificar as canções que estavam fora dos catálogos das gravadoras.
Me lembro que tive que botar uma mesinha pequena, de fórmica, na nossa ampla sala do apartamento da Rua Ministro de Godoy, junto dos meus discos, para trabalhar na pesquisa de que faixas não estavam mais nos catálogos das gravadoras. A mesinha no meio da área de lazer da sala incomodou profundamente Regina, e seguramente também a Inês, e até a Fernanda, que passava os fins de semana com a gente.
O programa “Fora de Catálogo” não chegou a ir ao ar.
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Lembro muito pouco dos programadores da rádio. O que ficou na minha memória foi que eles me receberam muito bem, com a maior boa vontade, ensinaram o be-a-bá de que eu precisava, deram a maior força.
Vejo agora que anotei muito pouco sobre essa fantástica experiência que foi trabalhar um pouquinho como programador da Rádio Eldorado.
E, se não anotou, dançou.
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De resto, diante da notícia de que a Eldorado vai acabar…
Meu Deus do céu e também da Terra! Que imensa tristeza…
24/4/2026


Que deliciosas lembranças, meu querido amigo. Certamente cheguei a ouvir alguns desses programas. Jamais imaginaria que quem os orquestrava estaria, quase 4 décadas depois, tomando cerveja comigo. Que orgulho
Isso tudo o que você conta é tão fantástico que valeria um filme. Fico imaginando como era fazer a seleção ideal diante de tanta oferta. E o prazer de ouvir o selecionado, sabendo que naquele momento em muitas casas havia pessoas se deliciando…
Um livro! Como filme é complicado você bem pode publicar essas memórias. Já estou com a caneta pronta para a noite de autógrafo.
Caríssimos André e Valdir,
O que eu posso dizer?
Ah, como é bom ter amigos!
Muitíssimo obrigado!
Sérgio