Uma pitada de nonsense na MPB

Se alguém um dia fizesse uma antologia das frases mais bizarras da música popular brasileira, com toda certeza precisariam estar presentes versos de “O trem atrasou”.

O empregado – o narrador da canção – explica para o patrão por que chegou tarde ao trabalho:

“Trago aqui um memorando da Central / O trem atrasou meia hora.”

Ora, meu, imagine se cada vez que um trem da Central do Brasil atrasasse meia hora a empresa distribuísse um memorando! Não faria outra coisa na vida…

Mais ainda: para distribuir cópias do memorando a todas as centenas de passageiros, seriam necessárias várias horas. O empregado-narrador do samba chegaria ao trabalho com no mínimo umas 3 horas de atraso, vai…

***

Certamente pouca gente se lembra hoje de “O trem atrasou”. A pérola é assinada por Arthur Villarinho-Estalisnau Silva-Paquito, e foi gravada por Nara Leão em 1965 ao vivo no histórico, fantástico Teatro Paramount de São Paulo, ali na Brigadeiro Luiz Antônio, onde foram apresentados os dois mais importantes festivais de música da TV Record na época em que ela pertencia a Paulo Machado de Carvalho. Está no no álbum 5 na Bossa, de 1965, que reunia Nara, o jovem Edu Lobo e o Tamba Trio – Luizinho Eça, Bebeto e Chana. Meu Deus do céu, como era esplêndida, excelente, incrível a tal da música popular brasileira.

Vi agora – nunca soube disso antes, ou, se soube, tinha esquecido, o que dá no mesmo – que os Demônios da Garoa também gravaram a pérola. O que me parece estranho, porque os Demônios da Garoa, paulistanos como seu próprio nome indica, conhecem o trem para Jaçanã – mas não tinha idéia de que tivessem passeado pelos trens da Central do Brasil no Rio de Janeiro.

Bem: era uma canção típica para ser cantada em 1965, como protesto contra o golpe militar que havia caído como uma Quarta-feira de Cinzas sobre o país, interrompendo uma era dourada de renovação e esperança, com bossa nova, capital nova, cinema novo…

E é interessante pensar nisso, porque, assim que houve o golpe de 1964, a música brasileira se encheu de canções de protesto – exatamente ao mesmo tempo em que as protest songs tinham o seu auge naquele paisão do Norte. Lá, desde o início dos anos 60 havia o que eles chamavam de folk revival – a popularização de canções folclóricas por artistas engajados no movimento dos direitos civis, contra o racismo que era legalizado em diversos Estados do Sul do país. Lá havia, na primeiríssima linha, Pete Seeger, Joan Baez, Bob Dylan (enumerados de acordo com sua entrada em cena). Aqui tínhamos dezenas de artistas, talentos extraordinários, fazendo e cantando canções que denunciavam as injustiças sociais, e que, naquele momento, protestavam contra a ditadura dos generais abençoada pelo patronato.

A canção que Nara quis gravar era, dentro da lógica daquele momento, um hino anti-patronal, portanto anti-ditadura.

A causa, meu Deus do céu e também da Terra, era justíssima.

Mas “O Trem Atrasou”, vamos e venhamos, é uma imensa, insanável porcaria.

Bem… Nem mesmo quando era um adolescente que se acreditava comunista eu conseguia engolir a letra de “Opinião”, de Zé Kéti.

Tudo bem: os moradores das favelas da Zona Sul não queriam ser forçados a mudar para longe pra cacete, pra Vila Kennedy do governador Carlos Lacerda. Mas a coisa do “podem me prender, botem me bater” que “daqui do morro eu não saio, não” é um tanto besta, não?

Tá certo, pode ter que ache bonito, lúcido e inserido no contexto, como se dizia no Pasquim, outra das manifestações culturais que vieram pós 1964 para protestar contra a ditadura. Agora,…

Patrão, o trem atrasou

Por isso estou chegando agora

Trago aqui um memorando da Central

O trem atrasou, meia hora

O senhor não tem razão

Pra me mandar embora !

O senhor tem paciência

É preciso compreender

Sempre fui obediente

Reconheço o meu dever

Um atraso é muito justo

Quando há explicação

Sou um chefe de família

Preciso ganhar meu pão

E eu tenho razão.

Como diz minha neta quando mando para ela piadinhas infames: NAAAAAAAAAAAAO!

4/2025. E, finalmente, 4/2026

Um P.S.: Botei no ar este suelto e de repente me ocorreu que um eventual leitor desavisado pode achar que vai aí alguma crítica a Nara Leão.

Meu Deus do céu e também da Terra, não dá para deixar que possa haver algum mal-entendido: Nara é um dos maiores ídolos da minha vida!

Felizmente, tive a oportunidade de escrever muita babação sobre ela. Estão aqui no site estes textos:?

Nara, num momento especial (1982)

O belo disco de uma Nara alegre e segura (1982)

Nara. Antenas de sensibilidade, nenhum preconceito (1989)

Nara e Elis (2012)

Sobre Nara – e o básico, o clássico, o eterno (2013)

Veja errou sobre Nara – e errou feio (2018)

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *