Dava para pegar no ar o entusiasmo das pessoas

Sou um veterano bem veterano em manifestações na Avenida Paulista. Por exemplo: apenas oito dias atrás, no sábado, dia 3, tínhamos ido ao último ato da campanha do Lula antes do primeiro turno das eleições. E, diacho, eu nunca tinha visto uma coisa assim como hoje, domingo, dia 11.

Não tem sido feita contagem das recentes manifestações, nem pela PM, nem pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital da USP, e então a gente nunca vai saber um número confiável. Tudo bem; não importa tanto o número. A quantidade de gente era imensa. E havia muitos jovens, difentemente da anterior. Mas o que me impressionou mais foi o clima, o ambiente, o que a minha neta chamaria de vibe.

Meu, as pessoas estavam muito alegres. Contentes. Felizes. Cordiais.

Por exemplo: uma hora lá eu quis subir num daqueles paredões quadrados cheios de terra que cercam algumas árvores das calçadas, para tirar foto da multidão. Tanto na hora de subir quanto na de descer, umas três pessoas diferentes se ofereceram para me ajudar.

Umas três ou quatro vezes pedi desculpas a pessoas por ter esbarrado nelas, naquela andação que as pessoas ficam o tempo todo, quem tá pra cá vai lá e quem tá lá vem pra cá. Todas as vezes as pessoas faziam gestos ou expressões que queriam dizer, mais do que “não foi nada”, algo mais parecido com “que é isso, cara?, tá tudo na boa”.

As pessoas estavam comunicativas. Demonstravam prazer em responder a alguma pergunta, estendiam o papo, puxavam papo.

As pessoas entregavam seus celulares a gente desconhecida para que fizessem fotos. Eu mesmo fiz isso, uma hora em que vi um Lula de papelão em tamanho natural e achei divertido ter uma foto minha abraçado com ele – eu, que nunca na vida fui lulista nem petista. Não sou nada bom de selfie, e pedi para uma moça fazer a foto. Ela fez numa boa, sempre sorridente.

Pânico porque tem roubo de celular a dar com o pau em São Paulo (assim como em qualquer outra cidade do mundo)? Que nada. Todo mundo fazendo foto na boa, botando o celular pro alto pra ter ângulo melhor e  pegar mais gente.

Dois momentos me deixaram especialmente de queixo caído: a chegada à Paulista, na Estação Consolação, e a saída de lá, na mesma estação que eu conheço muitíssimo bem.

O início da manifestação tinha sido marcado para as 11h. Na Estação Sumaré, onde embarquei duas horas depois do início, já havia gente voltando pra casa; eu até perguntei para um grupo: – “vocês já estão voltando? Como está lá?” E um deles respondeu que estava muito bom, bem cheio.

Pois bem. Desci do metrô na Estação Consolação ali pelas 13h10 – e levei um choque ao ver a horda de gente na plataforma caminhando em direção às escadas rolantes, em direção à Paulista, e berrando o refrão do Lula-lá. No mezanino da estação, me encostei numa parede para fazer uns filmetes do povarão passando pelas catracas e cantando o Lula-lá. A parede tinha diversas pessoas fazendo a mesma coisa – sorridentes, alegres.

Eram hordas, hordas de gente!

O outro momento especialmente impressionante foi quando entrei de volta na estação, para voltar pra casa, dever cívico cumprido, contente, feliz, animado. A multidão no mezanino, em direção às catracas, era compacta, dura. Só lembro de multidão assim tão compacta, dura – e interminável – nas saídas dos shows do estádio do Palmeiras.

No sábado antes do primeiro turno Mary e eu tínhamos pegado uma multidão bastante apertada na descida da Rua Augusta, na caminhada entre a Paulista e a Praça Roosevelt lá embaixo, onde o caminhão de som com o Lula iria parar para os discursos. A quadra entre a Dona Antônia de Queiróz e a Marquês de Paranaguá, por onde a gente escaparia do cortejo, me pareceu infinita – estava muito quente, e comecei até a me sentir um pouco mal.

Pois naqueles momentos ali no mezanino da Estação Consolação a multidão estava muitíssimo mais compacta. Pensei em tentar sair, desistir do metrô – mas não tinha retorno fácil possível, estava tudo compacto demais.

E o fantástico é que não ouvi reclamação, xingamento, não senti empurra-empurra. Aquele incrível ajuntamento de gente enfrentava os minutos compriiiiidos de espremeção, quase esmagação… na boa. Na maior. Porque cada um estava, como eu mesmo, com uma porra de uma sensação de felicidade no peito.

***

Como no noticiário de TV, deixei o mais importante, o que deveria ter sido o lead, para o fim.

A multidão na Paulista neste domingo, 11 de outubro, exalava entusiasmo. Grande, imenso, palpável.

Não parecia, de forma alguma, que Lula tivesse perdido no primeiro turno para o filho do coiso. Que os analistas nos digam que a virada do primeiro para o segundo turno é difícil demais, praticamente impossível.

O clima, a vibe era de entusiasmo.

Dava para pegar no ar o entusiasmo das pessoas.

11/10/2026

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