Coração de estudante

De repente, os estudantes foram para as ruas de Norte a Sul do país. Parecia que estavam dormindo ou mortos. Sua ressurreição é o fato mais positivo, inusitado e explosivo, desta campanha eleitoral de favorecimento ao crime organizado — talvez o único positivo, ante a passividade do PT em reagir de imediato e à altura contra seu adversário eleitoral.

Os estudantes têm votos. Cada um tem pai, mãe e família e pode arrastar de dentro de casa para as urnas o bom senso que faltou aos 33 milhões de eleitores que se recusaram a votar no primeiro turno por um futuro mais digno para seus descendentes. 

Quando eu era estudante eu também tinha voto, mas não havia eleições. Canceladas pela ditadura, só voltariam na década seguinte ao  golpe militar. E na primeira delas demos um banho neles, votando em massa nos candidatos do MDB de então — hoje um partido relegado à função de lambe botas do bolsonarismo, assim como o derivado PSDB, federado com o antigo partidão, que atende pelo nome de Cidadania. Comunistas e bolsonaristas unidos, quem diria, para derrotar Lula e voltarmos a 1964…

Estudantes podem fazer a diferença, sim. Nós não derrubamos a ditadura, mas demos passos decisivos e corajosos para ela cair de podre anos depois. Isto nos custou prisões ilegais, tortura e morte. Os de hoje não podem permitir de braços cruzados que as trevas e o crime retornem às mãos do Estado. 

As manifestações são gigantescas e em sequência avassaladora, durante a última semana, em todas as capitais e dezenas de cidades do interior, culminando com a multidão que ocupou no domingo a avenida Paulista em SP de ponta a ponta. Contadas as vias adjacentes, por onde a massa humana buscava se aproximar da avenida, havia de 2 a 4 milhões de pessoas na região. 

Nem por isso a imprensa nacional, tevês e emissoras de rádio deram importância aos atos, Brasil afora. Só a imprensa internacional abre fotos expressivas dia a dia para mostrar as concentrações. Uma vergonha para os meios de comunicação brasileiros, que se vendem fácil nas calçadas da Faria Lima. 

Se nos envergonha, não nos deve desanimar. Também não tivemos a imprensa conosco nas passeatas dos anos 60 e 70 do século passado. Era, sem exceções, contra nós. Também não tivemos o apoio, salvo nos dias finais, quando fomos em massa para as ruas no movimento das Diretas Já, na década seguinte. Perdemos as Diretas, mas ganhamos no Colégio Eleitoral, perdemos o presidente eleito mas construímos uma nova Constituição em 1987/88. 

Como dizia o torneiro mecânico, agora às vésperas de completar 81 anos, a luta continua. Uma luta sem fim. 

Nelson Merlin é jornalista aposentado e ainda com o coração de estudante. 

12/10/2026

     

     

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