Ou Lula ou o horror. E a decisão é agora.

O Brasil vive neste ano de 2026 uma situação esdrúxula, esquisitíssima, incompreensível. Nunca, nunca jamais em tempo algum foi tão fácil escolher entre dois candidatos à Presidência da República quanto agora – e no entanto chegamos ao dia do segundo turno com Lula e o filhote do sujeito condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado rigorosamente empatados nas pesquisas.

Nunca foi tão fácil escolher entre dois candidatos.

Como escreveu Flávia Oliveira em sua coluna no Globo neste sábado, 24/10, “amanhã, o Brasil escolhe entre democracia e autoritarismo, diversidade e supremacismo, avanço e retrocesso, soberania e subordinação, enfrentamento às desigualdades e salve-se quem puder. Não há meio-termo”.

Como resumiu Madonna em um post nas redes sociais, o voto em Lula é “Pela democracia. Pelos povos indígenas. Pela Amazônia. Pela educação e ciência. Pela cultura. Pela liberdade de ser quem somos. Por um Brasil sem fome, com dignidade para todos. Pela vida e pelo nosso futuro.”

Como disse editorial de O Estado de S. Paulo ainda antes do primeiro turno, em 23/9: “Cada eleitor tem a liberdade assegurada pela Constituição para dar seu voto a qualquer candidato regularmente registrado na Justiça Eleitoral. Mas que todos estejam cientes de que, dado o histórico, a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro embute o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República.”

Como disse o título de reportagem publicada pela revista semanal alemã Der Stern, “Os Trumps parecem uma família boazinha perto do clã Bolsonaro”

Como resumiu a jornalista Valéria Wally: “O pior não é o Lula perder – é do jogo. Desgraça é o Flávio ganhar – é a falência dos valores que fazem uma democracia.”

Como escreveu Míriam Leitão em sua coluna no Globo na terça-feira, 6/10, “o perigo extremo e concreto da eleição do candidato do PL é nova tentativa de golpe de Estado. Flávio segue as mesmas idéias do pai e já disse que é preciso que haja uma intervenção nas instituições.”

Como escreveu José Tadeu Gobbi no Facebook: “Numa democracia, se você não gosta do governo você troca. Em um governo miliciano, se você não gosta do governo você vai pra vala.”

Como escrevi aqui quatro dias após a vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno por uma diferença de 1,87 pontos percentuais dos votos válidos, e depois repeti nas minhas compilações “Ou Lula ou o horror”: “É preciso lembrar, reafirmar:  esta eleição, assim como a de 2022, é muito mais que uma escolha entre direita e esquerda. É uma escolha entre escola e clube de tiro. Entre conhecimento, ciência, e ignorância, negacionismo. Entre defesa da natureza, do meio ambiente, da sobrevivência do planeta e o passar o trator. Entre democracia e ditadura. O que está em jogo é a escolha entre civilização e barbárie.”

***

O Brasil que vimos nos atos de apoio a Luiz Inácio Lula da Silva ao longo desta campanha, no noticiário dos jornais e da TV, e que presenciamos nas ruas, não merece as trevas.

Tive o privilégio a alegria e de estar em quatro grandes manifestações – as três da Avenida Paulista, nos dias 3, véspera do primeiro turno, 11 e agora 24, véspera do segundo, e mais a liderada pelos estudantes universitários      da PUC e da Uninove que terminou numa concentração diante do histórico Tuca. Mary só não esteve comigo na do dia 11 – entre as duas votações, já que ninguém é de ferro e ela tem asinhas nos pés, viajou ao Deserto de Atacama.

As três gigantescas manifestações na Paulista foram num fantástico crescendo. Não apenas no número de pessoas – mas também na alegria, no entusiasmo, na emoção. Na afetividade entre as pessoas. Na facilidade com que as pessoas de um grupo entram na conversa de outro grupo, e são bem recebidas, com sorrisos, com simpatia quase amor.

A da véspera do primeiro turno foi bela, grandiosa, emocionante – e gigantesca. Gigantesca. Caminhamos no meio de uma multidão dura, compacta, Rua Augusta abaixo – e, quando já queríamos sair dali, e a saída era à esquerda (hê hê…), pela Rua Marquês de Paranaguá, parecia que não iríamos chegar nunca.

Mas, como a Mary observou na hora, com seu incrível faro de repórter da Política, havia poucos jovens. Bem poucos.

“A campanha presidencial que amanheceu morna, anoitece fervendo”, escreveu Flávia Oliveira no seu artigo deste sábado. (…) “Foi no segundo turno da eleição presidencial de 2026 que o Brasil reencontrou o vigor, a alegria e o engajamento de jovens estudantes, que andavam sumidos das praças, ruas, avenidas.”

Neste sábado agora, véspera do segundo turno, Mary perguntava para mim, para todos e ninguém em particular, enquanto estávamos no meio de jovens de todas as tribos possíveis e imagináveis: – “Mas onde eles estavam escondidos???”

Estranhamente, estranhissimamente, o Monitor do Debate Político da USP, do Pablo Ortellado, não fez contagem das pessoas nessas três grandes manifestações pró-Lula. Mas tudo bem. O número – chutado e inflado pelos organizadores ou cientificamente estudado e profundamente diminuído pelos drones do Ortellado – não importa tanto. O que posso garantir, pelo que vi meus olhinhos e senti no corpo pelo esmagamento da multidão, é que tinha gente pra cacete no dia 3, muito mais gente pra cacete ainda no dia 11 e muito, muito, muito mais gente pra cacete neste sábado 24.

Meu, a gente levou – éramos um grupo até grande, a Ana Sales, o Gabriel Madeira, o Ti filho deles, a mãe da Ana e uma amiga deles, Mary e eu – bastante tempo pra conseguir chegar às catracas da Estação Sumaré do Metrô. Levamos, sei lá, uns bons 10, talvez 15 minutos para atravessar a plataforma da Estação Consolação até as catracas de saída. E aí, uma vez na Paulista…

O Monitor não monitorou o número de gente, eu não monitorei o número de minutos, mas com toda certeza foi necessário mais de meia hora para conseguirmos andar os cerca de 150 metros entre a saída do elevador da estação e a esquina com a Rua Augusta, que dobramos com alívio…

E a partir daí passeamos pela Augusta, pela Alameda Santos, até a Peixoto Gomide, junto do Parque Trianon, que fica diante do Masp.

Chegamos à Paulista por volta de 14h40. A concentração havia começado ali pelo meio-dia. A chegada de Lula – que participou da gigantesca manifestação na Avenida Atlântida, em Copacabana, antes de viajar para São Paulo – estava prevista para as 16h.

Não cabia todo mundo na Avenida Paulista, que teve 14 de suas 18 quadras tomadas pela multidão, segundo noticiou o Jornal Nacional e os vídeos feitos por drones mostraram. Simplesmente não cabia todo mundo na Paulista, e então a manifestação se espalhou pelas transversais e pela Alameda Santos, assim como certamente pela paralela do outro lado, a Cincinato Braga-São Carlos do Pinhal.

E o clima era absolutamente delicioso, de uma imensa alegria.

De, diacho, liberdade igualdade fraternidade.

Esses princípios básicos civilizatórios que estarão em xeque se o lado do miliciano que jamais trabalhou, que jamais fez qualquer coisa útil na vida, vencer.

Deus que nos livre dos Bolsonaros, das trevas, do horror.

Agora, se acontecer o pior, se nova Quarta-Feira de Cinzas se abater sobre o país, como em 1964, de uma coisa eles podem estar certos: nós aqui, 50% do país, estaremos firmes, fortes, atentos. Resistindo para existir.

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Mobilização progressista sobreviverá à eleição

Por Flávia Oliveira, O Globo, 24/10/2026.

A campanha presidencial que amanheceu morna, anoitece fervendo. O pleito de 2026 já está na História como o mais disputado, sobressaltado, imprevisível e arriscado para o regime instituído pela Constituição de 1988. Amanhã, o Brasil escolhe entre democracia e autoritarismo, diversidade e supremacismo, avanço e retrocesso, soberania e subordinação, enfrentamento às desigualdades e salve-se quem puder. Não há meio-termo.

Depois de um primeiro turno tragado pela crise fratricida no Supremo Tribunal Federal (STF), as três semanas até o resultado final deixaram lampejos tanto sobre os projetos políticos em disputa quanto sobre os caminhos de mobilização e resistência pela sociedade civil. A totalização dos votos nas urnas não retirará do campo progressista o repertório amealhado de última hora, mas de vida útil duradoura. É dele que me ocupo nesta véspera do 25 de outubro, Dia da Democracia no Brasil. A efeméride foi instituída em honra e memória do jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado por agentes da ditadura, em 1975.

Foi no segundo turno da eleição presidencial de 2026 que o Brasil reencontrou o vigor, a alegria e o engajamento de jovens estudantes, que andavam sumidos das praças, ruas, avenidas. A vitória de Flávio Bolsonaro sobre Lula, por 2 pontos percentuais, no primeiro turno não ativou apenas o modo sobrevivência de nomes do Centrão, que se bandearam para o lado do candidato do PL, e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que ficou com o petista.

Na noite da segunda-feira 5 de outubro, alunos da Universidade Federal Fluminense marcharam por Niterói (RJ), num chamado democrático que ecoou Brasil afora. Voltaram às mesmas ruas no dia seguinte. Na quarta-feira, o centro da capital foi tomado por dezenas de milhares de estudantes que atenderam à convocação da União Nacional dos Estudantes (UNE) e de outras entidades.

A partir dali, nas capitais, em cidades médias e pequenas localidades, os jovens não saíram mais das ruas. E foram acompanhados de trabalhadores, aposentados, idosos, famílias, que se apresentaram para defender educação pública inclusiva e de qualidade, trabalho digno e bem remunerado, poder de compra, cultura e, claro, democracia. As manifestações numerosas e volumosas, mesmo sem a presença do candidato, mais que um trunfo da campanha de Lula, ressuscitaram na esquerda um meio de mobilização que, havia década, parecia exclusiva da direita.

Também na sequência à derrota no primeiro turno, comunidades de fãs de estrelas internacionais da música ofereceram perfis nas plataformas digitais à campanha petista. Foram tão relevantes para o impressionante ato pró-Lula na Avenida Paulista, em São Paulo, no domingo 11 de outubro, que o candidato não só compareceu, como agradeceu publicamente aos fandoms. Lula tornou-se político de um tempo em que manifestação política era obra de sindicatos e partidos.

A campanha pouco empolgante, algo embolorada, do PT no primeiro turno abriu espaço às incursões digitais de jovens parlamentares recém-eleitos, caso dos deputados Ana Elisa (PT-MG) e Guilherme Cortez (PSOL-SP); para aliados vitoriosos no Nordeste, aí incluídos o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, e o senador Camilo Santana, coordenador da campanha local no Ceará, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues, senador e governador reeleito da Bahia, respectivamente. Podem vir dali os sinais de renovação de uma legenda refém das deliberações de seu maior líder.

Fica também a herança da mais bem-sucedida experiência digital da campanha de 2026, o “Exército do Lula”, obra do deputado André Janones (Rede-MG). A convocação, que bateu a marca de 10 milhões de “soldados”, horas antes do debate derradeiro entre Lula e Flávio, organizou como nunca antes o eleitorado petista e simpatizantes. Janones aglutinou, orientou e entusiasmou pessoas, num espelho à esquerda do que sempre fora monopólio, em participar, da extrema direita. O engajamento foi capaz de aturdir algoritmos e perturbar calejados influencers do campo conservador. Imprimiu aos integrantes os sensos de propósito, pertencimento, importância. Prova disso foi o aumento da relevância digital da campanha de Lula, atestado por indicador da Quaest. De tão incômodo, o canal quase foi censurado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Seja quem for o próximo presidente, o campo progressista chega ao fim deste segundo turno com votos, régua e compasso. Para reivindicar. Para resistir.

24/10/2026

Ou Lula ou o horror (1)

Ou Lula ou o horror (2)

Dava para pegar no ar o entusiasmo das pessoas

Ou Lula ou o horror (3)

Ou Lula ou o horror (4)

 

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