Livrar o Brasil de Bolsonaro (11)

Há um ponto em que se pode confiar no desgoverno Bolsonaro: quando sai um ministro, entra outro pior. O caso das Minas e Energias desta semana só confirma essa regra.

E haja saída e entrada de ministro neste desgoverno. Foram 28 trocas ao longo de 3 anos e 4 meses, segundo levantamento publicado no UOL em 30 de abril – poucos dias atrás –, em texto de Franceli Stefani.

Não tenho certeza se a saída do almirante Bento Albuquerque do Ministério das Minas e Energia, e sua substituição pelo economista Adolfo Sachsida é a 29ª troca de ministro, ou se houve alguma outra entre 30 de abril e 12 de maio, quando foi anunciada essa nova mudança, mas o número exato não importa tanto.

Importa é que, de cara, já deu para perceber que Adolfo Sachsida é uma nulidade grotesca, um bolsonarista radical, um sujeito capaz de dizer que Hitler e Pinochet eram de esquerda. O que apresentou ao país foi um teatrinho ridículo, uma fantasia, um factóide, um papo pra boi dormir – a privatização da Petrobrás.

Eis alguns pontos para se entender o que existe na cabeça dele:

* Na primeira fala como ministro, imitou o Capitão das Trevas, fez discurso religioso, citou o nome de Deus e exibiu uma imagem de Nossa Senhora na lapela; nada contra a pessoa ser religiosa, mas o Estado é laico;

* Não apresentou planos, projetos viáveis, racionais, e não falou sobre os preços dos combustíveis – a alta desses preços foi a responsável pela queda de seu antecessor, assim como de dois presidentes da Petrobrás escolhidos por Bolsonaro. A proposta de privatizar a Petrobrás e a PPSA, a estatal criada para cuidar especificamente do pré-sal poderia até ser uma boa piada, se não fosse uma triste nuvem de fumaça para tentar esconder os reais problemas do país – e do governo. É absolutamente claro, óbvio, que o governo não vai conseguir fazer avançar a proposta nos sete meses que lhe restam;

* É um bolsonarista de primeira hora; “Começou a cortejá-lo em 2017, quando Paulo Guedes ainda oferecia seus serviços a outros presidenciáveis”, como escreveu Bernardo Mello Franco em seu artigo desta sexta-feira, 13/5, no Globo;

* No 7 de Setembro do ano passado, participou da manifestação a favor de Bolsonaro e contra o Supremo Tribunal Federal, portanto contra o regime democrático;

* Já deu declarações contra a licença-maternidade de seis meses; dissew que as mulheres faltam mais ao trabalho que os homens, e que por isso é natural que os empresários prefiram contratar homens, e não mulheres;

* já afirmou que é “difícil” argumentar que haja uma dívida histórica com a população negra do Brasil;

* já defendeu que Adolf Hitler e Augusto Pinochet eram de esquerda.

O que levou Bernardo Mello Franco a cunhar uma ótima frase ao final do seu artigo: “Se ele transportar seus conhecimentos de História para a economia, ainda sentiremos saudade da gasolina a R$ 8”.

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Este volume 11 da série de compilações “Livrar o Brasil de Bolsonaro” traz abaixo a íntegra do artigo citado acima e uma reportagem do Globo, assinada por Gabriel Shinohara, que historia algumas das declarações polêmicas – para usar um termo extremamente brando – do novo ministro das Minas e Energia.

Antes, transcrevo também dois ótimos artigos que analisam e contextualizam essa mudança no Ministério das Minas e Energia, em meio à inflação em alta, à disparada dos preços dos combustíveis e à dificuldade de Jair Bolsonaro em conseguir se reeleger em outubro. No Estado de S. Paulo desta sexta-feira, Eliane Cantanhêde mostra que Bolsonaro resolveu trocar de canal: sai (momentaneamente) a guerra ao TSE e entram demissão de militares e privatização da Petrobrás. E, no Globo do mesmo dia, Vera Magalhães escreveu: “Prometer baixar o preço da gasolina, do diesel e do gás de cozinha na base da pressão sobre a Petrobras e acenar para servidores com reajustes com que o Tesouro não é capaz de arcar são só alguns dos embustes de Bolsonaro em matéria econômica” (Sérgio Vaz)

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Bolsonaro preso a seus próprios embustes

Por Vera Magalhães, O Globo, 13/5/2022

O teatrinho encenado entre Paulo Guedes e seu ex-subordinado e agora colega Adolfo Sachsida a respeito da disposição de privatizar a Petrobras é uma forma de entreter a claque para que não perceba o óbvio: Jair Bolsonaro ameaçou fazer, acontecer, demitiu dois presidentes da empresa e um ministro, e não será possível alterar a política de preços dos combustíveis. Não haverá privatização alguma, nem mesmo os passos iniciais para isso. Eles sabem, todos sabem.

Da mesma forma, os levantes dos funcionários do Banco Central, que chegaram a pressionar a Economia pelo reajuste de 22% para seus servidores, e dos agentes e delegados da Polícia Federal, que cobram em peças publicitárias que “Bolsonaro cumpra sua palavra” e dê o aumento que prometeu a eles, são consequências da forma leviana, despreparada e populista como o presidente age também nessa área, que resulta em tiro em seu próprio pé.

Prometer baixar o preço da gasolina, do diesel e do gás de cozinha na base da pressão sobre a Petrobras e acenar para servidores com reajustes com que o Tesouro não é capaz de arcar são só alguns dos embustes de Bolsonaro em matéria econômica. Dizem respeito a temas em que ele tem muito a perder por achar que fala o que quiser, sem conhecimento de causa, sem planejamento e sem se conscientizar de que há limites para a ação do Executivo, impostos seja pela lei, seja pelo mercado, seja pela responsabilidade fiscal.

De fato, a disparada do preço dos combustíveis, em razão de fatores diversos, torna a inflação galopante um problema para qualquer presidente incumbente que deseje se reeleger. Mas, em momento algum, o governo estruturou sequer um plano emergencial para dar subsídios ao preço, se fosse o caso, avaliando quanto isso custaria ao Tesouro e de onde viriam esses recursos.

Não. Bolsonaro preferiu vociferar contra o lucro da Petrobras, chamando-o de pornográfico e criminoso, ligar direto para sucessivos presidentes da companhia, como se seus subordinados fossem, depois demiti-los e ao ministro Bento Albuquerque, dando demonstrações públicas, com seu arroubo populista pela reeleição a qualquer preço, de que, na hora do vamos ver, nem a patente serve de aval para que um subordinado não ande na prancha.

Essa facilidade em limar aliados que passam a ser inconvenientes, ou que deixam de se curvar aos caprichos presidenciais, deveria servir de alerta aos militares, que têm aceitado fazer coro a outra frente de embuste presidencial: a campanha contra o sistema eletrônico de votação.

A economia em frangalhos, agravada por sua incapacidade administrativa, faz com que Bolsonaro permaneça em desvantagem nas pesquisas, e é essa percepção de que a reeleição está distante que torna as investidas do capitão contra a democracia a cada dia mais ousadas e explícitas.

Quanto mais os servidores encostarem a faca no pescoço do governo por reajustes inviáveis de conceder — mas prometidos pelo próprio presidente, algo de que ele não tem como se esquivar — e a cada aumento que venha na bomba de gasolina, mais irascível se tornará Bolsonaro, que não aceita a possibilidade de deixar o poder pelo voto popular, o mesmo que o levou a subir a rampa do Palácio do Planalto em janeiro de 2019.

A semana foi marcada pela reação da Justiça Eleitoral às investidas das Forças Armadas no sentido de desacreditar a segurança das urnas eletrônicas. Mas nada indica que a declaração do ministro Edson Fachin — de que não cabe aos militares dar a última palavra no processo eleitoral — calará um presidente em desespero, porque acuado. É incerto se será o bastante para que a ala dos militares embarcada na pantomima perceba a gravidade do erro e recue a tempo de evitar crises ainda mais sérias.

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Enquanto isso, no ‘porto seguro’…

Por Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo, 13/5/2022

O presidente Jair Bolsonaro parou de crescer nas pesquisas e enfrenta rejeição alta, preço do diesel e da gasolina aumentando e inflação disparando. Como ele reage, entre uma motociata e outra? Atacando Supremo, TSE e urnas eletrônicas, dizendo que o lucro da Petrobras é um “estupro”, fritando ministros e presidentes da estatal em lives e lançando a ideia de privatização da mais importante e simbólica empresa brasileira.

Já demitiu o economista Roberto Castello Branco e o general Joaquim Silva e Luna e está indócil com o terceiro presidente da Petrobras, o químico industrial e ex-militar José Mauro Coelho. Mudam os nomes, não muda nada. Com perfis diferentes, os três concordam no principal: reprimir o preço dos combustíveis na marra é burrice, porque o efeito, bumerangue, seria contra o próprio interesse público.

Como derrubar os presidentes da Petrobras não funcionou, Bolsonaro subiu o tom e o status, demitindo o próprio ministro de Minas e Energia, almirante de esquadra Bento Albuquerque. E aí, vai mudar alguma coisa? Na prática, nada, mas o discurso já começou a entortar.

No primeiro pronunciamento, sem direito a perguntas, o novo ministro, Adolfo Sachsida, advogado com doutorado em Economia, só fez enrolar, distrair a plateia. Citou Deus, família e Bolsonaro, enalteceu a iniciativa privada e falou que o Brasil é um “porto seguro” para investimentos das “democracias ocidentais” – essas que, convenhamos, andam assustadas com o que ocorre por aqui.

E combustíveis? Inflação? Saídas possíveis? E a rede privada de gasodutos do “rei do gás”, com R$ 100 bilhões dos cofres públicos? Nenhuma palavra. Em vez disso, Sachsida, bolsonarista desde criancinha, aderiu às manobras diversionistas do chefe e lançou a privatização da Petrobras. Se a água está suja, joga o bebê fora. Mas, a cinco meses da eleição, a sete do fim do governo, qualquer bobinho sabe que é para enganar o bobo na casca do ovo.

Tem-se, assim, um respiro na guerra de Bolsonaro e sua tropa do Ministério da Defesa contra o TSE, mudando o canal para distrair o País com a ficção da privatização da Petrobras e mais um episódio da série de como jogar almirantes ao mar, brigadeiros no ar e generais na terra crua.

A reação se resume a muxoxos nos grupos de WhatsApp de oficiais da Marinha, deixando a desagradável sensação de que os militares estão anestesiados por salários, privilégios e a falsa sensação de poder. Quem manda, afinal? Ora, ora, o Centrão – que, ao contrário dos militares, defende as eleições e as urnas eletrônicas. Tá vendo? Para tudo há um consolo.

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Novo ministro imita Bolsonaro e estreia com factoide sobre Petrobras

Por Bernardo Mello Franco, O Globo, 13/5/2022

O novo ministro de Minas e Energia pode não entender de combustíveis, mas domina a arte de produzir factoides. No primeiro dia no cargo, Adolfo Sachsida ignorou o debate sobre a alta da gasolina. Preferiu distrair a plateia com a promessa de vender a Petrobras.

Em pronunciamento para a TV, Sachsida anunciou que solicitará o “início dos estudos tendentes às alterações legislativas necessárias à desestatização da Petrobras”. Em seguida, informou que pedirá a “inclusão da PPSA no PND”. No dialeto da burocracia, isso significa que ele também gostaria de privatizar a estatal que cuida do pré-sal.

As duas propostas são puro teatro. Faltam menos de cinco meses para o primeiro turno das eleições. O governo não tem tempo nem condições políticas para vender a maior empresa brasileira, responsável por 4% do Produto Interno Bruto.

Privatizar a Petrobras é um velho fetiche dos fundamentalistas de mercado, mas nem eles parecem ter acreditado na bravata de Sachsida. Ainda assim, o economista alcançou seu objetivo. Fabricou uma polêmica tola e se esquivou de apresentar um plano para conter a disparada dos combustíveis. O problema derrubou seu antecessor e ameaça a reeleição de Jair Bolsonaro.

O novo ministro comprou as ações do capitão na baixa. Começou a cortejá-lo em 2017, quando Paulo Guedes ainda oferecia seus serviços a outros presidenciáveis. Até a semana passada, batia ponto no segundo escalão do Ministério da Economia. Agora é premiado com a promoção no fim do governo.

Sachsida se diz liberal, mas milita ao lado de extremistas. No último 7 de Setembro, participou de manifestação a favor de Bolsonaro e contra o Supremo Tribunal Federal. Na primeira fala no novo cargo, ele imitou o chefe ao apelar para o discurso religioso. Citou o nome de Deus e se exibiu com uma imagem de Nossa Senhora na lapela.

Vídeos que circularam ontem ajudam a entender a cabeça do ministro. Numa fala discriminatória, ele defendeu os empresários que pagam salários menores às mulheres. Alegou que os homens vão menos ao médico e não engravidam. “Pode me chamar de machista à vontade”, provocou.

Em outra gravação, Sachsida disse que os ditadores Adolf Hitler e Augusto Pinochet eram esquerdistas. Se ele transportar seus conhecimentos de História para a economia, ainda sentiremos saudade da gasolina a R$ 8.

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Novo ministro criticou licença maternidade de 6 meses e disse que mulheres faltam mais ao trabalho

Por Gabriel Shinohara, O Globo, 13/5/2022

Em uma série de vídeos que circulam nas redes sociais, o novo ministro de Minas e Energia, Adolfo Sachsida, aparece criticando a licença maternidade de 6 meses, que seria algo “criminoso” contra a mulher e afirmando que mulheres faltam mais ao trabalho para ir ao médico.

Em um dos vídeos, Sachsida diz que a legislação que garante a licença maternidade “diz” ao empresário para não promover mulheres no ambiente de trabalho.

— Eu, por exemplo, sou contra a licença maternidade de seis meses, isso pra mim é criminoso contra a mulher. Você dar uma licença maternidade de 6 meses para mulher é mais ou menos como você chegar para um empresário e falar: não promova uma mulher. Isso porque se ela engravidar, vai ficar 6 meses fora da empresa.

E continuou:

— Você consegue imaginar uma empresa ficar 6 meses sem seu gerente? Não tem jeito. Quando fui contra essa lei, da licença maternidade de seis meses, pessoal me xinga. Não é nada disso, é que eu me preocupo com as mulheres — afirmou.

O novo ministro, que costumava postar aulas de economia em seu canal do YouTube antes de entrar no governo, ainda disse que o empresário tem um comportamento “racional” porque o custo de oportunidade da mulher é mais alto do que o do homem.

— O custo de oportunidade da mulher é mais alto porque ela é mais eficiente fora do trabalho. Se o casal tiver um filho, provavelmente é a mulher que está cuidando do filho. Aí vira, “Adolfo, mas o homem fica bêbado mais que a mulher”, fica, então menos pro homem nesse ponto. Mas também quem vai mais ao médico é a mulher, então vai faltar mais para ir ao médico. O empresário está fazendo essas contas — disse.

Sachsida ainda disse que é “difícil” argumentar que haja uma dívida histórica com a população negra no Brasil 200 anos após a abolição.

— Eu entendo falar que queria falar, ‘temos que fazer uma reparação histórica, porque negros foram escravizados no Brasil, então temos que ter essa reparação’. Bom, olha só, o último grupo que foi extremamente maltratado no brasil não foi negro, o ultimo grupo que levou pancada para caramba no brasil foram alemães, italianos e japoneses. É difícil você argumentar que 200 anos depois do final da escravidao exista uma divida histórica — disse.

Ecoando uma discussão recorrente entre os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, Sachsida defendeu que Adolf Hitler, ditador alemão nos anos 30 e 40 e líder do partido Nazista, seria de esquerda, assim como Augusto Pinochet, ditador chileno que chegou a ser preso acusado de genocídio e terrorismo.

Segundo historiadores, essa “polêmica” não existe e até a embaixada da Alemanha chegou a dizer que afirmar que o nazismo foi um movimento de esquerda é “besteira completa”.

Nos vídeos que circulam na internet, o novo ministro argumenta que por supostamente dar mais valor ao estado do que ao indivíduo, Hitler seria de esquerda.

— Será que Hitler dava mais valor ao estado ou indivíduo, será que Hitler dava mais valor à função social da propriedade ou função privada? Será que Hitler gostava mais de planejamento central, um estado grande ou do mercado com estado pequeno? Antes de responder, vou dar uma dica, o que é PT? É a sigla do partido dos trabalhadores, da mesma maneira que o PT é partido dos trabalhadores, o partido nazista era uma sigla, você sabe qual era sigla? Partido Nazista significa Partido Nacional Social dos Trabalhadores Alemães.

E perguntou em seguida:

— O partido nazista do qual Hitler fazia parte e era o grande líder, era o Partido Nacional Social dos Trabalhadores Alemães você realmente acredita que o Partido Nacional Social dos Trabalhadores é um partido de direita? — questionou

Para Sachsida, Pinochet era “esquerdista” por colocar o estado acima do indivíduo ao “exterminar” várias pessoas, mas de direita por conta de sua política econômica.

— Ele colocava o estado acima do indivíduo, desse jeito é um esquerdista, colocava o estado acima do indivíduo, da liberdade individual, mas por outro lado, Pinochet queria um sistema de preços via mercado, propriedade privada, então na parte econômica, Pinochet era de direita — afirmou.

13/5/2022

Este post pertence à série de textos e compilações “Livrar o Brasil de Bolsonaro”.

A série não tem periodicidade fixa.

Em apenas dois dias, várias notícias terríveis na economia, na área ambiental, na destruição do Estado republicano. (10)

Para reagir aos crimes de Bolsonaro, o Senado poderia derrubar o lambedor-geral das bonitnas do capitão. (9)

Um comentário para “Livrar o Brasil de Bolsonaro (11)”

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