Dona Diva

Não foi difícil achar uma boa foto da Dona Diva com as duas filhas, Suely e Sandra. Na pasta Família Rossanez, tinha uma, as três em escadinha, bonitas, simpáticas, sorridentes – uma foto que fiz no aniversário de 14 anos da neta mais velha dela, em julho de 1989.

O texto também saiu fácil, rápido:

Dona Diva foi se encontrar com as meninas dela.

Coração descomunal, coragem imensa sempre, a vida inteira. Uma brava guerreira, uma pessoa admirável.

Não aguentou mais de saudade. Aproveitou que era aniversário da mais velha e foi.

Sim: 25 de janeiro é o dia de aniversário de Suely. Nasceu em 25 de janeiro de 1953, um ano antes de a cidade em que nasceu comemorar seu quarto centenário.

Cheguei a botar a foto e os três parágrafos no Facebook – mas o post não ficou mais de um minuto no ar. Me lembrei do que o Carlos tinha avisado: “A Marina ainda não sabe, tá? A Fê quer contar pra ela pessoalmente”. Marina, a bisneta primogênita da Dona Diva, ainda não frequenta o Facebook, mas já passeia por tudo quanto é lugar da internet. Por excesso de zelo, escondi o post, deixei-o no modo “Somente eu”.

Como Fernanda está tomando neste momento as providências sobre funerária, ainda não me solicitou para nada, e estou à espera de alguma notícia dela, e também como segundo disse muitos anos atrás a própria Fernanda, tudo na minha vida vira texto, fiquei pensando em um texto sobre a minha sogra, a avó queridíssima da minha filha, a Bisa da minha neta.

Qual seria o melhor lead sobre Diva Martins Rossanez – além de já falar logo de cara do coração imenso, da coragem imensa sempre, a vida inteira?

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Se eu tivesse a verve do meu amigo Valdir Sanches, eterno repórter mas cada vez mais chegado a um conto, uma novela, faria um trecho de folhetim sobre a jovem operária de tecelagem da região da José Paulino de beleza fenomenal que arrebatou o coração do filho de imigrantes italianos que mostrava talento para lidar com as máquinas da pequena indústria têxtil, inclusive para cuidar da manutenção e do conserto delas.

Um romance de operários, descendentes de imigrantes (o pai dela, o senhor Antônio Martins, era português), no Bom Retiro da Paulicéia Desvairada do início dos anos 1950! Uau! Uma mistura assim de Antônio de Alcântara Machado com Mario Monicelli…

Devia ser mesmo danada, mas danada de bonita a jovem Diva aprendiz de tecelã – era uma mulher de beleza incrível quando eu a conheci, uns 20 anos depois, encantado com a beleza acachapante da primeira das duas filhas com que ela presenteou Antenor Rossanez e o mundo.

Ele, por sua vez, era feio como a fome. Magrinho, quase esquelético – um sósia, piorado, de outro filho de imigrantes italianos, Adoniran Barbosa. Mas tinha conquistado o coração da moça, uai! Foi o único amor da vida dela.

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É, Valdir Sanches faria um delicioso conto sobre aquele jovem casal do início dos anos 50, a industrialização chegando à Paulicéia…

Mas eu não tenho qualquer dom para a ficção – nem mesmo para dar um toquezinho mais belo à descrição de fatos reais.

E então o meu lead sobre Dona Diva seria algo assim:

Como não admirar uma mulher que perde para o câncer as duas filhas, jovens, belas, cheias de energia, em um intervalo de poucas semanas, e consegue resistir, e tem forças para se manter de pé, ir em frente, tocar a vida?

Como não babar de admiração diante de uma pessoa assim, meu Deus do céu e também da Terra?

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Dona Diva e eu sempre nos demos bem. Nossos santos se gostaram de cara, desde a primeira vez em que Suely me levou para conhecer os pais, ali por 1971, ou 1972, numa casinha muito pequena na Rua Santa Eudóxia, na Casa Verde – ou seria mais Parque Peruche aquele trecho específico ali?

O mesmo não poderia ser dito, de forma alguma, em relação ao Seu Antenor. Ele e eu sempre nos estranhamos um pouco, sempre mantivemos um certo distanciamento – embora tivéssemos em comum, além do amor por Suely, o gosto pela cachaça, e muitas vezes ouvíssemos samba juntos, Adoniran e Paulo Vanzolini, em especial, que eu botava no meu som quando eles vinham visitar o casal já casado.

Mas era uma coisa cuidadosa, medida. Com Dona Diva, não – era afeto mesmo, de cara, desde sempre. Me recebia na casa dela sempre com o sorriso suave, plácido, de quem tem coração grande e bom e caráter idem.

Haviam se mudado para uma casa maior, bem simples, coisa de working class, mas boa, sólida, digna – e deles! – um pouco mais adiante, na Rua Antônio Cavazan. A casa da Santa Eudóxia, acho que só visitei uma vez. A da Antônio Cavazan frequentei porrilhões de vezes como namorado e depois como marido da Suely. E Fernanda frequentou também porrilhões de vezes, desde bem pequenininha: entregávamos a pequena aos avós nos fins de semana com a mais absoluta tranquilidade.

Pois bem – quando Fernanda estava com apenas um ano e pouquinhos meses, fiz uma malinha e saí de casa, apaixonado por outra mulher.

Durante dois anos depois da separação Suely e eu enfrentamos um inferno de discussões intermináveis que não levavam a lugar nenhum – embora tenhamos conseguido deixar a filha fora da brigalhada, eu tendo a liberdade de vê-la sempre e indo vê-la várias vezes por semana, direto e reto, formando uma rotina.

E aí de novo vem uma pergunta:

Como não admirar uma mulher que enfrenta o genro traidor, o genro que abandonou sem piedade a mulher, sem, uma única vez sequer, condená-lo?

Dona Diva jamais me condenou, me cobrou, me pôs na parede, me criticou, ao longo dos dois anos em que a filha dela e eu comíamos o pão que o diabo amassou durante o processo de aceitação da separação.

Não fez um único gesto contra mim.

Por uma dessas coincidências irônicas de que é feita a vida, ela e a Sandra viriam a morar no mesmo predinho de três andares da Cristiano Viana em que Regina e Inês moraram uns tempos, depois que nós nos separamos. Sempre tratou Regina com educação, elegância – e, mais que isso, com simpatia, de coração aberto.

Quando Mary surgiu na minha vida, muita água já tinha passado embaixo da ponte, Suely já havia dado a ela mais dois netos, Gabriel e Lucas – e o que aconteceu foi que as duas, Dona Diva e minha terceira mulher, tiveram imensa simpatia uma pela outra. Ficaram amigas. Nos encontramos trocentas vezes, todo mundo junto, Suely e o então marido, Sandra e o então marido, as crianças, Fernanda, Gabriel, Lucas e o André da Sandra, todo mundo junto e misturado, como deve ser, e Dona Diva sempre alegre, vendo a meninada e meninadinha com aquela alegria, aquela coisa positiva que era a marca registrada dela.

***

Tenho uma recordação especialmente agradável de Dona Diva, de um momento que não foi nada agradável para ela.

Foi em 1974, um ano antes de Fernanda nascer. Suely e eu tínhamos nos casado em dezembro de 1973. Morávamos num pequeno mas aconchegante apartamento na Bela Cintra com Costam que havíamos meio herdado de Marisa e Humberto Werneck, na mudança deles para Paris. Num momento lá, Dona Diva se encheu do marido, ou, mais exatamente, do mandonismo, do machismo do marido, que, por exemplo, a proibia de fumar. Suely percebeu que a paciência da mãe tinha se esgotado e, por mais que tivesse uma tendência a pacificar os conflitos, e não a estimulá-los, me consultou, com muito jeito, sobre o que deveríamos fazer.

Dei a maior força para que nós a recebêssemos. Seu Antenor que se danasse. A gente a receberia, a acolheria – e depois veríamos o que fazer.

No fim de semana em que a acolhemos, fomos ao cinema – é desses detalhes que não fogem da memória, coisa esquisita. Vimos O Ocaso de uma Estrela/Lady Sings the Blues, uma cinebiografia de Billie Holliday em que ela era interpretada por Diana Ross. Fomos jantar no Bixiga. Dona Diva ficou absolutamente encantada com a forma com que a recebemos. Eu me senti quase um herói.

Daí a pouquinho ela e Seu Antenor se entenderam, que em briga de marido e mulher não se deve meter a colher, e tudo continuou como se aquela fuga de poucos dias não tivesse acontecido.

***

Dona Diva estava com 75 anos quando, em 2010, com umas poucas semanas de diferença, perdeu a Suely e a Sandra.

Seria absolutamente normal se tivesse entrado em parafuso, caído em depressão profunda.

Não entrou em parafuso, não caiu em depressão profunda.

Exatamente como a neta mais velha, voltou a ter alegria quando, em 2013, surgiu Marina em nossas vidas.

Ao longo destes anos recentes, a partir da chegada da Marina, Dona Diva, Mary e eu nos tornamos assim companheiros, semelhantes, co-participantes da mesma arquibancada – além de torcedores do Corinthians, os três (ela bem mais roxa do que Mary e eu), torcedores roxos por Fêzinha e Marina.

É interessante como o passar dos anos diminui a distância entre as pessoas.

Nos tempos da Santa Eudóxia e da Antonio Cavazan, eu era um garotinho que namorava a filha de Dona Diva. Nos últimos dez anos, fomos companheiros – frères, camarades, complices, como dizia o Moustaki – no amor à Fê e à Marina.

Que belo ser humano é a avó da minha filha, a Bisa da minha neta, meu Deus do céu e também da Terra!

Não é preciso dizer, eu sei, mas digo mesmo assim: Dona Diva, dê beijos nelas por mim. Na Suely, na Sandra, na Regina.

25/1/2022

5 Comentários para “Dona Diva”

  1. Belíssima homenagem à Dona Diva, Sergio. As imagens vão se passando como num belo, mas algumas vezes, triste filme. Tenho algo comum com você. Tive um divórcio litigioso com meu primeiro marido, mas a mãe dele, dona Ely, é até hoje, uma amiga querida, com 93 anos hoje, é um espelho, no qual procuro me mirar, para seguir os caminhos da vida.
    Dei o nome dela, à minha filha caçula, quando já previa que meu casamento não iria vingar por muito tempo.
    Voltando à dona Diva, você é um privilegiado, por ter convivido com um ser humano como ela. Uma mulher que entendia as mutações dos seres humanos com quem convivia, que sabia separar a passionalidade do momento real da vida.
    Ela tinha amor pela vida e soube viver com as alegrias e com as dores que a vida nos traz. Beba um gole por mim, em celebração à vida de Dona Diva.
    Em pensamento, diga à ela, que ela conquistou uma admiradora, mesmo depois da passagem para um outro universo. Sou fã dela, palmas para Dona Diva!
    Meu abraço para você, para a Mary, para a Fê, para a Marina , e para todos os familiares que nesse momento, sofrem com a partida da Matriarca da família e da amiga querida, que parte deixando para trás, muitas saudades.
    Força, querido Sergio!
    Que seu

  2. Beleza de texto, Sérgio! Se eu não a tivesse conhecido, ficaria conhecendo depois de ler teu lindo escrito. Beijo

  3. Gosto muito de ler você, Sérgio mesmo sendo um tema tão triste de certa forma, mas ficou leve porque Dona Diva era assim não é?
    Deixou um belo exemplo de humanidade acima de tudo.
    Como diz você, foi encontrar com amadas meninas, certamente o céu está em festa!!
    Que Deus a receba.
    Um forte abraço e beijos na neta e bisneta

  4. Belíssimo, Sérgio. Que privilégio tivemos de ter Dona Diva por perto! Ela estará sempre com a gente.
    Abração!

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