O Filhote – Capítulos XXV a XXVII

CAPÍTULO XXV – A SIMPATIA DE “NHÁ FLORINDA”

No dia seguinte a olaria amanheceu parada, ninguém teve ânimo para ir trabalhar. As famílias choravam a perda da menina-moça que cativava a todos pela sua graça, meiguice e simplicidade. Quem mais sofria eram as colegas, também oleiras como ela, e amigas inseparáveis. Amparada pelo filho, a mãe já não tinha mais lágrimas para derramar. Apenas contemplava com um fio de esperança o trabalho dos mergulhadores. Na velha ponte de ferro as pessoas se aglomeravam, esperando por notícias. E assim foi o tempo todo, céu fechado, a garoa mais parecendo um pranto com o qual a natureza ajudava a tornar ainda mais triste a cinzenta manhã daquela gente.

Quando os mergulhadores desistiram da procura alguém chegou com a benzedeira da vila. Rosto amarfanhado, faces que lembravam a casca de um maracujá já passado do ponto, boca sem dentes da qual pendia um cachimbo de barro no qual ela entrouxava fumo de corda picado, “Nhá Florinda” pôs-se de cócoras na beirinha d’água. Benzeu-se, destrambelhou a cabeleira esbranquiçada sobre os olhos, disparou umas rezas onomatopeicas e em seguida apanhou um prato de ágate, acendeu uma vela e aproveitou o resto do fósforo para reacender o tabaco do pito. Com uma das mãos em forma de concha protegeu o lume da ação do vento e da garoa, fez cair alguns pingos de vela derretida e fixou-a sobre a vasilha.

Essa era uma simpatia antiga, usada para localizar os afogados. A crença passada de geração em geração, era, naquela hora, a derradeira tentativa de saber onde estava o corpo. Onde o prato com a vela parasse, era lá que ele estaria. Não falhava, diziam os crédulos.

A velha rezadeira depositou o prato, a chama da vela bruxuleou por alguns segundos, a natureza pareceu colaborar e lá se foi ele ao sabor da correnteza. Os canoeiros, entre eles Marcílio, foram seguindo-o até a vela se apagar. Desta vez, concordaram, a simpatia não vingou e então desistiram da empreitada. Voltaram, explicaram o acontecido e aos poucos todos foram indo embora. O jeito era esperar que alguém desse notícia…

Por mais três dias a olaria manteve-se em silêncio. O patrão, que tinha um grande apreço pela família enlutada, decidiu que a morte da menina merecia um tempo maior de luto. Mesmo porque, ponderou, o rapaz só poderia voltar ao trabalho na companhia da mãe, única parceira que lhe restara, e a dor era ainda muito forte.

 

CAPÍTULO XXVI – A VINGANÇA

Na segunda-feira, quando a vida parecia ir retomando a normalidade, mesmo cercada de tristeza, veio a notícia que todos esperavam: um pescador encontrara o corpo preso nos garranchos de uma galhada seca, alguns quilômetros rio abaixo. O mais impressionante: lá estava ao seu lado, como predizia a simpatia, o prato de ágate. Sobre ele, ainda em pé, a vela apagada.

Na tarde daquele dia, ainda com o coração agastado, Marcílio poupou a mãe de mais essa tristeza e foi cuidar das tarefas que, quando em vida, eram da irmã. Juntou a areia vermelha, usada para forrar a forma e permitir que o tijolo dela se desprendesse, guardou as ferramentas no mesmo forno, palco da tragédia, e já oculto pela escuridão da noite começou a preparar a sua vingança.

Foi até à ponta de uma gambeta, nome que os italianos deram ao rancho comprido, coberto de sapé, usado para secar as pilhas de tijolos crus. Guardou entre as ripas o embornal de pelotas de argila, já secas, munição perfeita para o que pretendia, e junto dele o bodoque de gupuruvu. Era obra sua e dotado de uma funda presa por dois cordames transformava-se numa poderosa arma, capaz de produzir arremesso tão potente quanto o disparo de arma de fogo.

Feito isso foi caminhando pela trilha na direção de casa, onde a mãe o esperava com o jantar. O que antes era um momento de união da família agora se resumia ao silêncio que fazia aumentar a tristeza marcada pela cadeira vazia na sala da morada simples. Mas era preciso seguir em frente, argumentou, e assim também a mãe foi superando a dor da perda, amparando-se no filho para aplacar o seu sofrimento.

Não muito depois Marcílio se recolheu e tentou dormir. Os pensamentos não deixaram e assim foi até que ouviu o primeiro cantar do galo. Levantou-se, deixou a mãe dormir mais um pouco, lavou o rosto na água fria da madrugada, acendeu o fogo, coou o café, bebeu alguns goles e só depois foi chamá-la. Pediu-lhe que não se apressasse. Iria até à olaria acudir com os preparativos e assim que terminasse viria chamá-la.

De semblante abrutalhado, pessoa tosca, mal-encarada, o amassador chegara mais cedo e se preparava para o trabalho. Nome caipira que o imigrante italiano dera à maromba rústica das olarias, equipamento usado na produção cerâmica, a pipa era uma grande caixa de madeira dentro da qual se assentava um cano de ferro ao qual se prendiam várias facas afiadas feitas com lâminas das molas de caminhão.

O pipeiro era novo naquela lida. Viera da Santa Olímpia, uma das fazendas da região, onde passara a vida colhendo café. Até resolveu ir embora de lá e procurou serviço perto da vila. Na falta de gente, “Xirota”, o patrão, dono das olarias, entendeu de ensinar-lhe o básico e pô-lo para trabalhar. Era um fardo pesado. Tinha que misturar duas e até três variedades de argilas dependendo do tipo de tijolo a ser feito, molhar na quantidade certa e depois, com uma pá, alimentar a pipa.

Feito isso, bastava tocar a parelha atrelada ao balancim e faze-la puxar o travessão que, por sua vez, girava o eixo com as facas acopladas de forma transversal. Assim, ao mesmo tempo em que cortavam a argila elas também tinham a função de amassá-la e empurrá-la pela boca por onde saia o barro pronto para se transformar em tijolos. Com uma carriola de madeira o amassador levava o material até às bancas nas quais os oleiros davam forma ao produto final.

A inexperiência, entretanto, o levou a cometer um erro fatal. Uma das regras básicas nessa profissão era não atrelar os animais antes de proceder à limpeza das facas. Para isso era preciso subir até ao travessão e de lá descer por dentro da caixa para retirar as ramas e raízes que sobravam do dia anterior. Como fizera desde o primeiro dia, sem que ninguém o alertasse, repetiu o mesmo procedimento. Escalou a parede de madeira, enfiou-se caixa adentro e estava de tal forma entretido com a tarefa que não percebeu o vulto que se esgueirou por trás da gambeta.

O rapaz chegou de mansinho, apanhou o embornal, escolheu uma das bolotas, enfiou-a na funda, retesou o arco, fez mira e disparou. O arremesso certeiro bateu como uma bala no lombo de uma das parelhas e os animais dispararam. O que se ouviu não foi um grito, mas um urro lancinante, horrorizado, que varou a madrugada.  Da boca da pipa foram saindo pedaços do corpo misturados ao sangue e ao entulho.

O rapaz guardou o bodoque e o embornal no mesmo lugar e, sem pressa, pegou a trilha a caminho de casa. Sua vingança estava consumada e não seria naquela manhã que ele e a mãe voltariam ao terreiro da olaria de tão triste recordação…

 

CAPÍTULO XXVII – “NHÔ BÁ” E “DITO NUNES”

Despertado das tristes recordações de seu drama pessoal, quando deu a última colherada e levou à boca a comida que já esfriara, “Mestre Cilão” ouviu os chamados lá dos lados da estrada. Era “Mão-de-gancho” cobrando sua companhia e pedindo-lhe que levasse a espingarda deixada pendurada no cabide da cozinha do rancho. Lavou a louça, guardou-a, pegou sua cartucheira 28 cano duplo e a 24 cano simples do amigo, guardou a munição e o farolete no bolso do paletó surrado de linho amarfanhado e foi juntar-se ao grupo.

Armas nos ombros, canos apontando para o céu, o sexteto atravessou a ponte de ferro e ganhou o leito da estrada de terra que, bem mais à frente, juntava-se aos trilhos da ferrovia no vértice de um triangulo que tinha o rio como a base. Seus integrantes pareciam formar uma patrulha em tempo de guerra. Na verdade, eram isso mesmo.

Na vila, a expectativa fazia da espera uma incontida ansiedade. Àquela altura, “Dinho” já nem prestava mais atenção às perguntas da garotada curiosa, querendo saber sobre o couro do filhote que “Mão” esticara na parede do paiol. Mantinha os ouvidos bem abertos, aguardando atentamente o barulho do primeiro estampido. Na sua cabecinha desfilavam cenas de aventura e parecia ver, como num caleidoscópio, as imagens das pintadas agonizando, como faziam as vacas que o açougueiro Júlio Bontempo abatia nas manhãs de sábado.

O caminhar de doze pés, feito com cuidado para não alarmar as feras, produzia um som quase imperceptível, encoberto pelos múltiplos outros que vinham da várzea ao lado. Sapos coaxavam na tentativa de atrair as fêmeas e pássaros notívagos, que há pouco haviam deixado seus refúgios, marcavam presença em revoadas na noite que mal começara. Grilos e pirilampos mesclavam a melodia do grizar de asas com as emissões fosforescentes, adotando, cada um a seu modo, estrepitosas ou silenciosas formas de conquista.

À frente do grupo ia João Duarte, “Nhô Bá”, que na sabedoria dos seus 60 e tantos anos pouco falava, muito observava e pouco escutava, pois uma gripe forte, que o pegou lá pelos 50, deixou como sequela uma acentuada perda de audição. Mesmo precisando da ajuda dos filhos, que ouviam por ele e com ele se comunicavam por sinais convencionados, não havia quem lhe negasse o reconhecimento de que era o melhor de todos. Testemunhas oculares confirmavam: ele piava uma capivara com tal magistralidade que a trazia, de onde viesse a ouvi-lo, para morrer aos pés do jirau. Sua versatilidade era tamanha que fazia, com perfeição, os pios de macho, fêmea ou filhote.

Além da precisão dos pios, “Nhô Bá” também era conhecido por sua valentia. Contavam os mais antigos que certa vez, cercado por casal de onças pintadas e com a espingarda longe do alcance, deixada inadvertidamente na canoa enquanto ia ao mato fazer suas necessidades, matou uma a facadas e fez a outra fugir deixando uma trilha de sangue mato adentro. Mas as bichas deixaram estragos. Os braços e o rosto guardavam nas cicatrizes as marcas daquela batalha.

Ao lado de “Nhô Bá” caminhava Benedito Ferreira Nunes, o “Dito Nunes”. Tinha o rosto deformado pelo coice de um cavalo xucro que teimara em amansar na juventude. O olho esquerdo não era lá essas coisas, herança da patada equina que levara. Mas com o direito era capaz de acertar uma bala numa formiga a dez braças de distância, diziam testemunhas que afiançavam sua precisão de atirador.

Vivia sozinho e nunca se soube de uma mulher em sua vida. Mantinha uma existência quase monástica. Dormia ao pôr do sol e acordava quando ele ainda sequer dava sinais de surgir no horizonte. Ninguém entrava em sua casa, nem mesmo os amigos mais chegados, e corria em segredo que ele tinha parte com o diabo, tamanha e tão precisa era sua pontaria.

Certa vez um viajante chegou perguntando por um homem com o rosto marcado. Descobriu-se depois que era um agente da Captura, nome que se dava à Polícia Judiciária. Ele estava atrás de um sujeito acusado de matar a mulher num acesso de ciúmes. Ficou por ali uns dias, passou algumas vezes em frente ao rancho, mas jamais teve a coragem de entrar. E foi-se embora sem mais nem menos, assustado com as histórias que o povo contava, relatando as crueldades praticadas pelo procurado, que sempre escapava protegido pelo demo.

Na verdade, tudo não passava de fantasia, pois “Dito Nunes” jamais fizera mal a alguém como testemunhavam os que com ele conviviam desde os tempos em que passou a morar por ali, coisa de 15 anos ou mais. Todos respeitavam seu silêncio e o admiravam pela disposição com que ajudava as pessoas nas tarefas mais difíceis sem exigir pagamento ou sequer um agradecimento.

“O Filhote”, romance de Plínio Vicente da Silva, está sendo publicado em capitulos.  

Para ler os três capítulos anteriores. 

Para ler a partir do primeiro capítulo. 

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