O Filhote – Capítulos XXII a XXIV

CAPÍTULO XXII – TRAGÉDIA CAIPIRA

Embornal pendurado em um dos ombros, machado atravessado no outro, a gastura teimando em tomar conta do seu estômago, antes de entrar em casa ouviu a voz de sua mulher:

— Foge, “Jerê”, foge!!! É o “Jura”!!!

De relance viu algo atrás do pomar, uma figura em movimento e imaginou que era alguém atravessando a cerca do quintal. Quando abriu a porta, seus olhos bateram no violão de seu companheiro de cantoria. Foi então que a loucura tomou conta de seu cérebro e a razão desapareceu, dando lugar ao ódio. Largou o embornal na mesa da cozinha, foi para o quintal e encontrou “Dorvinha” pendurando roupas no varal, cantarolando, como que a demonstrar muita felicidade. Ela abriu um sorriso, correu para abraçar o marido e então deu-se a desgraça: ele separou sua cabeça do pescoço com uma machadada. Cabeça de um lado, sorriso teimoso nos lábios carnudos, e corpo esguichando sangue, “Dorvinha” caiu morta. “Jura”, completamente enlouquecido, roupa ensanguentada, marchou na direção da vila.

A locomotiva do “bagajão”, trem misto de passageiros e cargas, que vinha de Bebedouro e ia até Araraquara, acabara de apitar na saída da estação. Sua parada não durara mais que 15 minutos, tempo suficiente para desembarque e embarque de bagagens. Foi naquele exato momento que “Jura” entrou na “Boca da Onça”, viu “Jerê” numa das mesas e o matou do mesmo jeito, com uma só machadada, decepando sua cabeça. Aterrorizados, os homens que bebiam no boteco reagiram segundos depois da tragédia consumada e o seguraram, tomando-lhe a arma assassina.

Seu Venâncio, o dono, quis saber:

— O que aconteceu para você fazer uma coisa dessas? Ficou louco.

— Eu descobri que quando cheguei em casa ele fugiu. Estava dormindo com minha mulher. Eu ouvi quando ela disse “foge, ‘Jerê’, foge”…

“Mão-de-gancho”, que depois de deixar suas coisas em casa resolvera passar pelo bar para “biritar” com os amigos, juntou “Jura” pela gola e revelou, explodindo de raiva:

— Dormindo com “Dorvinha”? Agora de tarde? Você ficou mesmo louco. Ele acabou de chegar de Barrinha, desceu agora pouco do “bagajão”… Tinha ido a Ribeirão para acertar a apresentação de vocês na PRA-7!!!!

Os homens amarraram “Jura” numa cadeira e uma nova tragédia se deu em seguida: “Chico Bispo” entrou no boteco e quis saber por que ele matara sua filha justamente na tarde em que ia lhe contar que finalmente estava grávida?

­— Eu e Dorvalina fomos até lá para e encontramos sobre a cama a boneca que ela ganhou ainda menina e ao lado havia um cartão todo desenhado dizendo “Meu amor, você vai ser papai”. Quando a procuramos no quintal encontramos ela morta, com a cabeça decepada e caída sobre uma poça de sangue.

Em seguida, sem que ninguém pudesse impedi-lo, o sogro sacou de um punhal que trazia na cintura e atravessou o coração do genro. Estava completa a tragédia que acabou com quatro vidas. Justamente na semana em que Gavino Virdes iria a Guatapará com um diretor da PRA-7 para contratar a dupla de violeiros “Jura” e “Jerê”.

Alguém ligou para delegacia de polícia em Ribeirão Preto e menos de uma hora depois uma viatura da Força Pública chegou à “Boca da Onça”, onde o corpo estava sentado, amarrado numa cadeira e ensopado de sangue. Na casinha branca, com seu jardim bem cuidado, depois que as notícias voaram, pessoas se aglomeravam em volta de “Dorvinha”, cabeça separada do corpinho delgado por uma machadada. Na sala, empertigado em seu poleiro, perninha presa pela anilha de metal, o papagaio repetia de vez em quando imitando a voz de “Dorvinha”:

— Foge, “Jerê”, foge!!!. É o “Jura”!!!

Depois, sem que ninguém ouvisse, e antes de calar-se de vez para nunca mais falar, disse claramente:

— Vingança…

 

CAPÍTULO XXIII – UM GEMIDO NO VENTRE DA NOITE

Um pernilongo picou o rosto “Mestre Cilão”, ele o esmagou com um tapa, descobriu que o tempo passara e que dali a pouco “Mão-de-gancho” estaria de volta para pegar a espingarda. Então, tratou de fazer o prato, partiu em dois um limão vinagre de vez, entre verde e maduro, que não almoçava nem jantava sem ele. Espremeu um pouco na cachaça, engoliu o ultimo trago e saiu ao largo para aproveitar a fresca da boca da noite. Sentou-se no toco que restava do tronco de uma mangueira que fora derrubada para dar lugar à varanda, assentou o prato no colo e começou a comer.

Enquanto levada as colheradas à boca, viu um martim-pescador mergulhar no poção do rio bem em frente ao seu rancho e a indolência que tomou conta do ambiente o fez viajar nas suas lembranças. Num lugar qualquer da várzea um curiango deu seu primeiro gemido no ventre da noite. Aquele piado triste, como se fosse um grito de morte, tomou seu coração num aperto provocado pelo drama que ainda lhe doía profundamente na alma e ele não conseguiu fugir de outras lembranças, que lhe traziam à memória sua própria tragédia pessoal. Afundo os pensamentos numa viagem ao passado e chegou até sua juventude…

Era rotina diária nos fins de tarde. Naquela sexta-feira, enquanto o sol ia se entregando aos braços do horizonte, derramando seus últimos raios já esmaecidos sobre as águas plácidas do Moji-Guaçu, Idalina, menina quase mulher, cuidava da sua última tarefa: juntava a areia vermelha num monte perfeito, quase uma escultura. Tamanho zelo era o espelho do capricho que devotava a tudo o que fazia.

Vestido simples de algodãozinho moldando um corpo já sinalizando com suas formas a idade das transformações, lenço na cabeça, distraía-se com prazer naquela tarefa. A tal ponto de não perceber o vulto esgueirando-se na sua direção. Juntou rodo e pá e foi guardá-los num dos fornos de queima nos fundos da olaria.

Entrou, ajeitou as ferramentas e terminou os preparativos para mais uma jornada de trabalho. Ela e Marcílio, o irmão, ambos adotivos, mas embora já sem o pai, João, que morrera, ainda formavam com a mãe, Emília, uma família feliz. Os dois eram responsáveis por uma das bancas e das mãos de ambos saiam cerca de 2.500 tijolos todos os dias, de segunda a sexta-feira, como eram as tarefas comuns dos oleiros. Trabalho duro, que rendia pouco, mas o suficiente para sustentar com dignidade a vida humilde que levavam, ainda que repleta de sacrifícios.

A noite já tomava conta de quase tudo, mas não a ponto de esconder o rosto da figura sinistra que parou na porta da construção. Tentou correr, mas foi contida e no vazio daquela solidão, sem ter a quem pedir socorro, sequer esboçou uma reação, temendo pela vida. Só depois, ato consumado, é que fez soar um grito de dor e revolta e deixou escapar um longo gemido que invadiu o ventre da noite…

 

CAPÍTULO XXIV – UM CORPO NAS ÁGUAS DO MOGI GUAÇU

Exímio caçador, dono de uma invejável habilidade com o bodoque, habilidade que levou depois, já mais velho, para a espingarda calibre 28, cartucheira que herdara do pai, o rapaz era conhecido pela eficiência com que abatia as presas em pleno voo. Quando voltou da caçada, meio que usava para garantir a ração de proteína animal para a mãe e a irmã, Marcílio destramelou a porta da cozinha, depositou a marrequinha sobre a mesa e preparou-se para depená-la. Destrinchada e temperada, seria a mistura do almoço no dia seguinte.

Esperava encontrar água fervendo, como pedira à mãe antes de sair, mas a chaleira não estava na trempe e o fogão sequer tinha cinzas ainda quentes. Chamou–a e não teve resposta. Pouco depois ela apareceu na porta, perguntando aflita pela filha que ainda não viera da olaria. Não costumava entreter-se com outra coisa àquela hora, pois sabia que algumas tarefas, agora as domésticas, a aguardavam em casa.

O filho procurou tranquilizá-la:

— Vai ver está com as colegas lá na colônia. Elas certamente estariam combinando ir à missa como fazem todo domingo cedo – acrescentou.

— Estou vindo de lá e ninguém a viu – retrucou dona Emília, ainda mais nervosa.

O rapaz terminou o serviço, entregou a ave à mãe pedindo-lhe que a temperasse, apanhou a lanterna, chamou “Baby”, sua cadelinha fox paulistinha, companheira de todas as horas, e saíram no rumo da olaria, duzentos metros mais adiante. Ao chegar constatou que ela estivera ali. O monte de areia bem moldado era prova disso. Foi até o forno, iluminou seu interior e encontrou as ferramentas guardadas com o mesmo capricho de sempre. Então, aonde fora a irmã?

Talvez tivesse ido à casa do feitor, pensou. Talvez. Com “Baby” nos calcanhares, atravessou o terreno e pouco mais de um minuto depois batia palmas na porta da frente da casa. A janela da sala se abriu, a mulher pôs o rosto ao alcance da luz da lanterna e lhe perguntou a razão da visita.

— A senhora viu se minha irmã veio até aqui?

— Não vi, não. Mas vou perguntar ao meu marido. Ele estava no quintal rachando lenha e pode dizer se viu.

Entrou casa adentro e em seguida voltou com o feitor já sabendo do assunto:

— A menina passou por aqui na boca da noite e seguiu estrada abaixo em direção ao rio. Parecia apressada e nervosa. Posso ajudar?

— Não há precisão. Vou até lá procurá-la.

Deixou o terreiro da morada do feitor, retomou a estrada e seguiu até às margens onde o Mogi-Guaçu formava uma pequena praia de areia branca. Enquanto iluminava o local à procura de alguma pista, a cadelinha latiu mais adiante. Foi até lá e viu caído o lenço que a irmã sempre usava na cabeça. Abaixou para apanhá-lo e a luz da lanterna pregou-lhe nos olhos a triste realidade: na areia, aplainada com o mesmo capricho, ela escrevera uma mensagem explicando a razão do seu gesto, motivado pela vergonha da desonra e revelando quem fora o autor de tamanha violência a ponto de levá-la a atirar-se nas águas e pôr fim à vida.

O rapaz foi levando o foco de luz pela areia, seguindo as linhas, e, ao final, prostrou-se de joelhos. Deixou sair da garganta um grito de desespero e dor que retumbou pelos grotões e foi ecoando rio acima e rio abaixo.

“O Filhote”, romance de Plínio Vicente da Silva, está sendo publicado em capitulos.  

Para ler os três capítulos anteriores. 

Para ler a partir do primeiro capítulo. 

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