O Filhote – Capítulos XXVIII até XXXI. Fim

CAPÍTULO XXVIII – “MESTRE CILÃO”, “PEDRO SOBRINHO” E “MÃO-DE-GANCHO”

Atrás de “Nhô Bá” e “Dito Nunes”, no meio de um trio seguia Marcílio dos Anjos, o “Mestre Cilão”. À sua direita, bem mais velho que ele, Pedro José de Oliveira, o lendário pescador e caçador “Pedro Sobrinho” e à sua esquerda José de Arimateia, o “Mão-de-Gancho”, conhecido por sua bondade com as crianças e famoso pelas pipas que construía para elas embora em uma das mãos, a direita, só lhe restassem o polegar e o mindinho.

De uns tempos para cá também “Mestre Cilão” também se revelara um habilidoso e caprichoso marceneiro e algumas das embarcações que os pescadores usavam era de sua lavra, montadas na oficina de Benedito Ferreira da Silva, o “Dito Caboclo”, construtor dos batelões usados pela empresa do Xirota na extração de areia que ele vendia para as construtoras de várias cidades da região entre Ribeirão Preto e Araraquara.

“Caboclo” teve que largar essa empreitada por conta de um derrame que o deixara inválido. Sem poder trabalhar, nem mesmo para exercer sua outra profissão, a de barbeiro, entregara o ofício ao compadre, a quem chamava de mestre dada a competência com que manejava serrote, enxó, plaina e formão. Outra habilidade que “Mestre” demonstrava, essa vindo de tempos mais antigo, era o manejo de agulha de taquara e fios de codornê com os quais trançava redes de malhas e tamanhos variados.

Não eram ocupações que lhe dessem sustento. Muitas vezes ”Mestre Cilão” sequer cobrava pela mão de obra. Exigia apenas o fornecimento do material e se contentava apenas com umas garrafas de cachaça ou um mimo qualquer que viessem deixar em sua modesta morada. Quanto às redes, teciam-nas com presteza tamanha que não levava mais que três dias para concluir uma peça de cinco metros por dois, normalmente malha cinco, que entregava já equipada com chumbadas e as boias de cortiça fornecidas com a encomenda.

Marcílio dos Anjos aparecera na vila há mais de meio século, trazido por pescadores que o criaram como tal. Aprendeu a manejar armas ainda moleque, pelas mãos “Pedro Sobrinho”, que, contavam, era o maior atirador de todos. Segundo Benedito Vicente da Silva, o “Dito Sobrinho”, seu primo, certa vez ele fez uma aposta com um fiscal da Piscicultura de nome Niferino, que vinha toda semana de Araraquara para “caçar” redes, covos e espinheis nas barrancas do Mogi Guaçu: se fizesse com sua garrucha espanhola uma bala entrar pelo gargalho de uma garrafa de pinga, quebrando apenas o fundo, ele deixaria suas armadilhas em paz. Aposta feita, bala na agulha e um tiro perfeito a dez passos de distância. Gargalho intacto e só o fundo despedaçado, durante um ano Niferino não recolheu nenhuma das armadilhas do velho pescador…

Aluno exemplar, em época de manga madura “Mestre Cilão” costumava aceitar o desafio da molecada, derrubando as frutas pelo cabinho que as prendia aos galhos. Dificilmente errava o alvo com a carabina 22 que ganhara como herança do professor. E quando perdia um tiro, punha culpa no vento.

Seu companheiro inseparável, “Mão-de-gancho” era o mais alegre de todos e não conseguia ficar um minuto sem falar. Sua mulher, Maria Rita, a “Sinhá Ritinha”, era a parteira da vila e por isso, entre todos, arrebanhara o maior número de afilhados do povoado.

“Mão-de-Gancho” tinha uma audição de fazer inveja. Diziam alguns que ele localizava peixes pelo som que faziam com as nadadeiras, mesmo que passassem a dois metros de profundidade. Por sua energia e disposição, era quem sempre convocava o pessoal para uma empreitada como aquela. Tinha verdadeira adoração por “Mestre Cilão” e só não se tornou seu aluno porque se descuidou e deixou que um jacaré fizesse alguns dos seus dedos de refeição. Mesmo assim, usando o dedo anelar da mão direita para acionar o gatilho, atirava de forma a não deixar dúvidas quanto à sua destreza com uma espingarda.

 

 

CAPÍTULO XXIX – O MISTERIOSO ANTONIO DELFINO

Isolado do grupo, circunspecto e a uns dois metros do trio que ia à frente, cigarro de palha pendurado já sem brasa no canto da boca, Antônio Delfino segurava com firmeza a correia que suportava a arma no seu ombro direito. Era de pouco falar, mas de muito pensar. Quando não estava pescando vivia rabiscando um caderno brochura, onde, garantia, estava escrevendo a história da sua vida. Já fora um homem de posses, com comércio em Ribeirão Preto. Mulheres e baralho levaram tudo, até a família, a quem já não via há muitos anos. Um advogado que viera à vila com uns papéis para ele assinar confidenciara a Luiz Moura, o dono do cartório, que Delfino tinha um filho médico e uma filha bailarina que moravam no estrangeiro. E nada mais se soube.

Seu rancho era repleto de tarecos. Se para um leigo não tinham serventia, em suas mãos viravam ferramentas, objetos de uso doméstico e até mesmo peças decorativas. Era um artista nato, com gosto também pela Literatura. Recitava uns versos estranhos, que falavam do inferno e eram tirados de um livro grosso, escritos numa língua também estranha, que ele dizia ser italiano arcaico. Leitor assíduo dessa obra de Dante, lia também Skakespeare, no original. Romântico incorrigível, não perdera o hábito da conquista e a outra metade da sua cama, diziam, estava sempre ocupada.

Ainda assim, apesar do seu passado de homem rico, que teve posses suficientes para dar uma boa vida e uma educação universitária para os filhos, Delfino vivia com o pouco dinheiro que recebia de um deles. Levava uma vida simples, sem luxo e sem conforto e se recusara a voltar para a cidade. O que ninguém entendia era como ele conseguira ser dono de uma olaria grande e depois uma fazenda na beira do Mogi Guaçu e acabara quase na miséria. Sobre isso nem adiantava perguntar, pois era assunto que ele proibira até aos amigos mais chegados.

 

 

CAPÍTULO XXX – UM DRAMA SOB AS TRÊS PONTES

“Mão” chegou-se ao companheiro e sussurrou:

— “Mestre” acha qui tão nu triango?

—  Para outro lugar não foram. Sem uma das mãos a onça grande não está com força para subir o barranco.

De repente “Nhô Bá” parou e todos pararam também. Ele disse, quase sussurrando, em poucas palavras, como seria feita a caçada e o grupo se dividiu: “Mestre Cilão” foi encarregado de ficar no vão sob o primeiro dos três pontilhões, única saída para a fuga das onças; os demais desceriam o aterro para formar o esquadrão que marcharia na lida de tocar as feras ao encontro do companheiro.

“Mestre Cilão” apertou os passos e em questão de minutos chegou ao lugar onde ocuparia seu posto. Atravessou a cerca de três fios de arames farpados, enfiou-se debaixo da estrutura metálica e tratou de procurar a melhor posição. Sentiu-se seguro ali, se considerando protegido de qualquer ataque e tendo ampla visão do corredor por onde as feras deviam chegar.

À sua esquerda havia uma passagem de pouco mais de três metros. Considerou que seria aquele o melhor lugar para os tiros e tentou segurar a emoção. Agora era esperar as onças chegarem, isso se não ficassem pelo caminho, abatidas pelos outros cinco.

Ajeitou melhor o corpo, pois já sentia as costas arderem na parede áspera de concreto, respirou fundo e o ar quente encheu-lhe os pulmões. Brisa que era bom, nenhuma, nem para remédio. O céu, limpo de nuvens, mostrava que as chuvas ainda iriam demorar, mas sentiu-se sossegado. Gostava daquela sensação de liberdade.

A princípio pensou estar ouvindo o ronronar de um gato. Então o barulho foi aumentando de tal forma que não teve mais dúvida. Folhas de capim se roçavam num chic-chic macio. Apertou o cabo da arma com força contra o ombro e firmou os olhos no vão à espera do momento de atirar.

Acostumado com a escuridão viu a cabeçorra surgindo vagarosamente. O corpo pintado foi aparecendo mancando e “Mestre” pôde constatar que, realmente, faltava-lhe a pata direita traseira, aquela que ficara lá na ponte nova. Ao invés de continuar a onça grande deitou-se e o filhote chegou-se a ela para lhe lamber a ferida. Com o farolete acoplado à espingarda já engatilhada, “Mestre Cilão” fez pontaria esperando apenas o momento certo para acender a lanterna e fazer o disparo. Um calor imenso percorreu-lhe as faces. Algo estranho estava acontecendo. Em princípio recusou-se a crer, mas depois se convenceu de que eram vozes o que estava ouvindo.

Abraçadas numa espécie de despedida as onças davam-se adeus.

— Vá meu filho! – era a mãe quem falava – Não se preocupe comigo. Procure chegar ao lugar de que lhe falei. Lá, seu pai o estará esperando.

— Mas, como eu vou encontrá-lo, mãe?

— Suba sempre por este lado do rio. Quando encontrar um lugar onde as flores de ipê mancham de amarelo o colo da terra, será esse o seu destino.

O filhote soluçava num pranto triste.

— Não chore, filho. Quero levar comigo uma imagem feliz de você. Quando, um dia qualquer, nos reencontramos, quero reconhecê-lo como aquele gatinho lindo, de pelo macio como a folha do capim-gordura.

Por um instante os dois animais ficaram ali parados, unidos num abraço. Depois, carinhosamente, com o focinho, a mãe empurrou o filhote para longe do seu corpo. Vagarosamente ele foi desaparecendo, embrenhando-se no capão de capituva que tomava conta das margens do córrego que descia em direção ao Mogi Guaçu.

 

 

CAPÍTULO XXXI – UM ÚLTIMO DESEJO

Um barulho ensurdecedor trouxe “Mestre Cilão” de volta à realidade, a tempo de ver a onça mãe contorcendo-se no estertor da morte. Foi então que sentiu no peito uma dor profunda, a dor da saudade. Deixou que seus pés o levassem de volta à estrada, caminhando como se estivesse perdido, sem rumo.

A voz de “Mão-de-gancho” chegou aos seus ouvidos tremida e assustada:

— “Mestre”!!! Ô, “Mestre”!!!

Parou. Sentiu um cansaço dolorido por todo o corpo. A luz de uma lanterna foi-se aproximando e o amigo o alcançou:

— Puxa! Si a genti num chega a tempo, sabe lá u qui pudia acontecê. Cum-tudu-qui-é-diabo-qui-tá-nus-isquintu-dus-inferno – vociferou com eloquência, emendando as palavras -, cumu é qui essa sua arma foi faiá justo numa hora dessas, di tanta pricisão, home?

E antes que “Cilão” lhe desse qualquer justificativa, quis saber:

– I’u outro fioti?

Olhando para bem longe, percorrendo o varjão que seguia as curvas e retas do rio, “Mestre” esclareceu num tom de voz calmo e sereno:

— Não vi, não. “Dodô” enganou-se. Era só a mãe e um filhote, aquele encontrado morto lá na ponte do trem.

Plóquete-plóquete, plóquete-plóquete. Os seis caminhavam de volta levando na vara a onça sem vida. Lá em cima, entre as mangueiras, piscavam as luzes da vila. Junto à fera ia um “Mão-de-gancho” de peito estufado, o homem do tiro fatal. Teria não só uma, mas duas histórias para contar: como matou a maior onça que já se vira por aquelas bandas e como, com um só tiro, salvara a vida do seu melhor amigo e compadre. Esses feitos seriam motivo de muitas conversas em volta das fogueiras nas noites de pescaria e nos encontros de fim de tarde na “Boca da Onça”.

Bem atrás, sem pressa, sentindo crescer na alma um velho e já quase esquecido sentimento, “Mestre Cilão” rezou para que o pequeno filhote não viesse a adormecer numa praia qualquer, sob a sombra de uma figueira centenária e frondosa, às margens do Mogi Guaçu. Pediu a Deus que ele conseguisse chegar à terra onde, na primavera, o solo fica coberto por um tapete amarelo trançado com as flores que caem dos pés de ipê…

FIM

“O Filhote”, romance de Plínio Vicente da Silva, foi sendo publicado em capitulos.  

Para ler os três capítulos anteriores. 

Para ler a partir do primeiro capítulo. 

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