Marina no modo ciúme

Se Marina vier a ser na vida real como são as personagens que ela cria, em especial as que cria para ela mesma interpretar, minha neta será uma mulher ciumenta.

Faz meses que a Hermione que Marina encarna nas nossas brincadeiras – as histórias, o faz-de-conta que ela vai criando – demonstra ter muito ciúme da Lilá Brown, porque, lá atrás, na adolescência, o Rony andou arrastando as asinhas pela menina.

E é um ciúme que não passa, apesar da passagem do tempo. O tempo passa, o ciúme da criatura não passa.

***

A telenetada da segunda-feira, 27/9, a de número 388, começou um tanto travada – para logo se soltar, e ficar super gostosa. Não era necessário isso, mas foi mais uma das muitas e muitas provas de que as netadas com Marina têm sempre um gostinho de imprevisibilidade.

Ela não sabia de que brincar, e não aceitou as sugestões que fizemos. Ficou bem claro que na verdade ela queria jogar – mas jogar nas telenetadas só é permitido aos sábados ou domingos. Marina ainda argumentou que afinal de contas não tinha havido telenetada no fim de semana anterior, mas ela mesma contra-argumentou que, na brincadeira aqui em casa houve um momento de jogo. (Não sei se tem a ver com o fato de a mãe ter escolhido o Direito, mas a mocinha sabe argumentar muito bem. Argumenta – e até, como naquele momento, contra-argumenta.)

Expôs a dúvida: será que a Mamãe deixaria ela jogar com a gente? Expôs logo em seguida que achava que não. A Vovó, sensatamente, disse que só haveria um jeito de saber: perguntando à Mamãe.

Lá foi ela perguntar. E voltou com a cara tristinha: tinha dado a lógica que ela mesma havia cantado.

Há momentos em que Marina se afunda no pântano das adversidades, e há os momentos em que casca fora rapidinho. Como acontece com todas as criaturas, afinal de contas – e essa segunda-feira foi um dia em que ela resolveu não se afundar.

Logo propôs a brincadeira: nós não seríamos – diferentemente do que sempre acontece – a Gina e o Harry, e sim os filhinhos dela e do Rony.    Ela, Hermione, estava com 36 anos. Era uma projetista – como tem sido em muitas das brincadeiras nas últimas semanas, um estratagema que permite a ela, no meio do faz-de-conta conosco no iPad dela, dar uma olhadinha no iPad da mãe ou no seu próprio laptop. Assim, vai criando os projetos, parte do faz-de-conta, e ao mesmo tempo dando uma bizoiada num clipe do Now United, ou mesmo num joguinho.

Se é dentro da brincadeira, dentro da interação com a gente, fazendo o faz-de-conta com a gente, a Vovó e o Vovô deixam passar na boa essa pequena esperteza…

A Hermione de hoje tinha um escritório em casa, mas durante a tarde trabalhava na empresa dela, a empresa de projetos da qual ela era a chefe.

Esperta, safa, a Vovó se transformou na Parvati, uma Parvati que trabalhava no escritório de projetos da Hermione. E lá pelas tantas contou para a Hermione que uma velha conhecida das duas estava para começar no escritório: a Lilá.

A Lilá????

Hermione-Marina não ficou absolutamente possessa, não usou o fato de ser a chefe para proibir definitivamente a chegada da Lilá, nem o fato de ser a principal roteirista das historinhas faz-de-conta para dizer, como muitas vezes faz, “não, Vovô, isso não”. Admitiu que a Lilá fosse trabalhar lá – mas com os dois pés pra trás, e algumas pulgas atrás da orelha.

Pedi licença para interpretar a Lilá – e fiz uma Lilá de boa paz, que agradecia muito à Hermione por ela permitir sua admissão na firma. A Lilá pediu mesmo que, quando houvesse uma oportunidade, a Hermione conversasse com ela um pouco. Talvez na hora do lanche.

Na hora do lanche, Hermione deu espaço para a conversa com a Lilá. Que admitiu que no passado as duas não haviam se dado muito bem, mas disse que havia mudado muito, havia amadurecido, e gostava muito dela, Hermione, a admirava, a respeitava. Ah, sim, e que estava casada, e muito bem casada, com o Neville!

Hermione ouviu, ouviu – mas, conversando com a Parvati-Vovó, demonstrou que continuava insegura. Continuava sentindo ciúme da moça que, muitos anos atrás, tinha atraído as atenções do Rony…

Aí a Vovó, sempre esperta, sugeriu, na pessoa da Parvati, que na semana seguinte iria haver uma festa pra comemorar os cinco anos da empresa de projetos da Hermione – e à festa compareceriam todas as famílias dos funcionários.

Ou seja: haveria o encontro do Rony com a Lilá!

Hermione demonstrou imensa insegurança, imenso ciúme – e a criaturinha que interpretava o papel da protagonista das histórias que ela mesma cria, com a little help from her friends, demonstrou que estava adorando aquilo.

Cenas de ciúme são com ela mesma.

***

Distraído com outras coisas, acabei demorando mais de uma semana para postar aqui no site essa Agenda do Vô aí acima…

Nesse meio tempo, aconteceu fato importante, que tenho, obrigatoriamente, que registrar.

Rony teve alta do hospital!

(Mandou pra nós a foto, dizendo que a legenda era “Hashtag: Gordinhho”. Ela adora a palavra hashtag.)

Foi no sábado passado, 2/10, depois de 18 dias de internação. Como escrevi quando ele foi para o hospital, o Rony, bem grandalhão, gorducho,  foi, ao longo dos anos, perdendo peso, perdendo massa corporal, ficando fraquinho, molenguinha. O enchimento dele foi quebrando, virando pó, algo assim. O fato é que a família chegou à conclusão de que ele deveria se submeter a uma cirurgia de empoderamento corporal.

Marina morreu de saudades dele. Morreu de saudades – creio que foi a primeira vez na vida que ela experimentou essa tristeza.

E então, no sábado, houve o tão esperado reencontro.

Na nossa telenetada do domingo ela estava absolutamente eufórica. Não largava o Rony, mostrava o Rony pra nós, contava e mostrava que ele estava de novo gordinho, e durinho.

A criaturinha linda e fofa estava tão feliz com a volta do Rony que, mesmo sendo domingo o dia em que ela é autorizada a usar o tempo da telenetada jogar (e anda viciada com os joguinhos eletrônicos, exatamente como, creio, boa parte das crianças da sua idade), resolveu fazer as duas coisas juntas: jogar e brincar com a gente – e com o Rony, claro – de historinha, faz-de-conta.

A Vovó-Gina soprou um mote: – “Ih, a Lilá vai ficar doidinha quando vir o Rony bonitão do jeito que ele está…”

Marina-Hermione comprou a idéia de bate-pronto – e logo estava acontecendo o encontro da Lilá com o Rony recém-saído do hospital para “cirurgia de enchimento”, como a criaturinha definiu.

E a criaturinha entrou com tudo nessa história. Às vezes pedia para um de nós fazer o Rony, ou a Lilá – mas, elétrica, plugada, entusiasmada com a trama, assumiu ela mesma os diversos papéis. – “Agora eu sou o Rony”, dizia. – “Péra, gente, agora eu faço a Lilá”.

E, enquanto jogava algum jogo de Roblox numa tela, continuava no faz-de-conta com a gente na outra tela – e, para garantir que a Lilá não tivesse vez, abraçava bem apertado o Rony.

Que figurinha, meu Deus do céu e também da Terra!

27/9 e 5/10/2021

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *