Fascismo vermelho

O uso da violência como forma de dirimir divergências é um velho cacoete de parte da esquerda brasileira. No passado não muito distante, disputas sindicais terminavam em pancadaria e agressões físicas. Imaginava-se que essa prática estivesse superada, mas não é bem assim. No domingo, essa esquerda patrocinou mais um episódio lamentável, quando militantes com camisas da CUT e do PT tentaram espancar no ato da Avenida Paulista o ex-governador, ex-ministro e pré-candidato a presidente Ciro Gomes.

Pouco momentos antes o presidenciável do PDT foi vaiado pela claque do Partido da Causa Operária – PCO –, um grupelho cuja intolerância é inversamente proporcional à sua significância. Em julho, o mesmo PCO agrediu militantes do PSDB em outra manifestação no mesmo local. Reincidente, o grupúsculo continua impávido na mesa onde participam os membros da coordenação dos atos do “Fora Bolsonaro”, com direito à palavra. No domingo, seu representante no palanque da Paulista aproveitou os poucos minutos de visibilidade para xingar Ciro de “canalha”.

Não se trata de casos isolados. E nem Ciro é a única vítima da intolerância dos que se julgam guardiões da linha justa e correta.

A deputada Tabata Amaral, uma das melhores parlamentares da atual safra, tem sido alvo de uma campanha agressiva. Nas redes sociais de militantes de esquerda proliferam ameaças físicas à sua pessoa, além de xingamentos que em nada se diferenciam do vocabulário truculento e desqualificado dos bolsonaristas.

O ator, pré-candidato a deputado federal e petista de carteirinha José de Abreu divulgou um twitter com a seguinte mensagem: “Se eu encontro (Tabata) na rua, soco até ser preso”. Diante da forte reação à sua ameaça, ensaiou um pedido de desculpas à deputada em um artigo mal-ajambrado publicado pela Folha de S.Paulo. Outro petista de primeira linha, Frei Leonardo Boff, tentou justificar as agressões, ao argumentar: “Não nos esqueçamos de que Tabata estudou nos Estados Unidos, apoiada por um biliardário brasileiro”.

É a inversão de valores. Em vez de condenar os agressores, joga-se a culpa nas vítimas, por conta de suas posições políticas. O ódio a Ciro tem como base suas críticas a Lula e ao fato de não ter apoiado formalmente Fernando Haddad no segundo turno das eleições presidenciais de 2018. Por causa disso vem sendo acusado de ter se vendido à “direita neoliberal”. De direita, Ciro não tem nada. Suas alianças estão mais à esquerda do que as de Lula e seu programa econômico é mais nacional-desenvolvimentista do que o do presidenciável do PT.

Já Tabata cometeu um pecado imperdoável, segundo os cânones da esquerda: votou a favor da reforma da Previdência. Foi o bastante para ser condenada à fogueira da inquisição.

Há uma profunda incoerência entre a estreiteza de quem agride quem não reza pela sua cartilha mas os convida para manifestações de união, como pretendia ser a do último domingo. Falar de Frente Ampla e ao mesmo tempo estigmatizar parceiros é dar uma enorme contribuição para o fracasso da bandeira “Fora Bolsonaro”. O sectarismo certamente foi um dos fatores tanto para o esvaziamento da manifestação do dia 12 de setembro, convocadas pela centro-direita, quanto para a do último domingo.

Registre-se: vozes de esquerda condenaram a agressão a Ciro, entre elas Gleisi Hoffmann. Mas o PT que ela preside não assinou a nota de solidariedade ao pedetista, assinada por vários partidos. Assim como a CUT, apesar de convidada, não assinou a nota de solidariedade das centrais sindicais. Lula simplesmente se recusou a falar sobre o assunto. Como diz o provérbio popular, quem cala consente.

A intolerância, a dificuldade de conviver com a divergência e a agressão física sempre estiveram presentes na história dessa esquerda. Stálin simplesmente eliminou fisicamente quem ousou discordar dele.  Até hoje Cuba não tolera críticas ao seu regime e quem ousa discordar é chamado de “gusano” e contra-revolucionário. Na Nicarágua, Daniel Ortega prendeu seis candidatos a presidente que disputariam com ele a eleição de novembro, enquanto o chavismo implantou um regime de perseguição e de eliminação de adversários.

A rigor, a esquerda que age assim não se distingue do fascismo. A categoria mental é a mesma: a relativização dos valores e a negação da democracia como um valor universal – os fins justificam os meios e a violência é a parteira da história.

Como disse Ciro, não existe só o fascismo de verde e amarelo. Há também o fascismo de vermelho. Mais uma vez ele mostra a sua cara.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 6/10/2021.

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